Alocução para Sepultamento - 2 Timóteo 1.10

17/02/1988

ALOCUÇÃO PARA SEPULTAMENTO

Operário em acidente de trabalho

II Timóteo 1.10

Clemente J. Freitag

l — Informações sobre o caso

Pelo fato de ter trabalhado numa cidade, onde os habitantes, na sua grande maioria são descendentes de italianos e ele de origem alemã, o apelido é que vingou: alemão. Nascido em Caçador-SC, filho de agricultores, idade 41 anos, solteiro, residente em casa alugada, com sobrinha e irmã que é mãe solteira. Migrou para outros estados e diferentes municípios de Santa Catarina em busca de trabalho. Assinante e leitor do Jornal Evangélico, mesmo tendo apenas o curso primário. De profissão foi carpinteiro migrante, contratado temporário por empreiteira. Segundo ele: não tinha queda para agir em trabalho fixo e ganhar pouco. Fora contratado para participar na construção de um edifício de oito andares. Estava lidando com tábuas e outras madeiras na circular, onde e quando acidentou-se. Veio a falecer no dia seguinte, não resistindo à gravidade dos ferimentos causados pela tábua que atingiu seu ventre. Como constatação vale lembrar de que não possuía os equipamentos de proteção exigidos para a execução de tal trabalho. Ainda, o salário constante na carteira era inferior ao que recebia. Segundo sua irmã, durante os seus vinte anos de auxiliar e carpinteiro, nunca havia sofrido um acidente grave. Logo agora, no início desta construção deu-se esta desgraça conosco. Só já estava difícil para viver, agora, sem a participação financeira dolo não sabemos ainda como será! O enterro aconteceu no cemitério municipal, distante sete km da cidade onde residia na atualidade. Isto por ser menos oneroso do que no cemitério central.

II — Alocução proferida no cemitério

Prezada irmã! sobrinha! parentes e demais participantes destas horas!

Mais uma vida, mais uma pessoa que foi e é arrancada de uma forma tão violenta do meio dos colegas de serviço, do círculo da comunidade e em especial, de vocês duas. Somos cercados a cada dia que passa, por duas ou mais mortes em nossa cidade. Os noticiários nos trazem a presença do poder da morte nas diferentes localidades e partes do país e do mundo. Com o tempo, a nossa mente, o nosso coração, o nosso viver se acostumou ou é acostumado a não chorar, a não se emocionar e envolver com a morte alheia. Esta dureza e frieza de coração mostram a quantas anda nossa humanidade. Apenas, quando a imprensa provoca sensacionalismo é que reagimos de uma maneira mais vigorosa. O número elevado de mortes violentas nos leva à frieza em relação ao viver e morrer do próximo. Na maioria das vezes apenas o arrancar, a morte de um dos nossos é que nos leva a reconquistar e descobrir o valor da vida e a ameaça constante da morte. Devido ao poder que a sociedade confere à morte, ao fatalismo que a morte gera e uma série de outras ideias, passamos quase que à impotência completa e ficamos sem forças para agir. Neste sentido somos confortados e levados a crer em algo que não muda o ritmo do viver e morrer. Falamos e ouvimos assim: É a fatalidade da vida. Foi o destino. Todos terão que morrer. A morte é a coisa mais certa. Ao menos não sofreu muito. E não por último: Foi a vontade de Deus ou Deus quis assim. São frases que mostram o estágio e a nossa vivência em relação ao viver e morrer. Não desconfiamos que esta maneira de lidar com a morte nega e esconde a mensagem cristã. A palavra de Deus nos leva além deste consolo e destas afirmações. Nos leva igualmente a ir em busca das causas e de tudo aquilo que cerca os negócios da morte. Bem ao contrário do fatalismo acima, a Palavra de Deus nos mostra que a preocupação de Deus é em relação à vida, ao viver. Tanto assim que nem Deus quis a morte de Jesus. Nesta perspectiva em salvar a vida, Deus optou em ressuscitar a Jesus de entre os mortos. Vencendo, abrindo o caminho da vitória por sobre a morte. Neste caminho que zela pela vida, afirmo e testemunho de que esta morte do alemão, foi e é uma ofensa ao plano de Deus. Aqui, esta morte deste nosso amigo não condiz com a vontade de Deus. Deus não tem prazer na morte deste operário ou de outra pessoa. Deus quer e exige vida. Vida digna para todos e em todos os lugares. Assim, a morte do alemão nos leva a olhar pelas e nas condições de trabalho aos quais os colegas de profissão e demais trabalhadores estão submetidos. As frases e afirmações que se ouvem nos velórios ajudam a encobrir e esconder este massacre que o sistema impõe aos trabalhadores. Pior ainda, usa os próprios trabalhadores e seus familiares para semear adiante esta ideia maléfica e fatalista: Deus quis assim.

Hoje, ao relacionarmos esta morte com a palavra de Deus, somos levados a descobrir que existe mais vida em perigo. Quantos trabalhadores neste exato momento estão trabalhando sem a segurança adequada e sem a recompensa justa pelo seu trabalho? Chegamos ao extremo, ao ponto, onde o trabalho e a luta pela sobrevivência nos fazem abandonar e desconhecer as leis básicas do viver e trabalhar em e com garantias. A morte do alemão ainda nos leva a pensar sobre a vitória de Deus diante da morte ao afirmar em 2 Tm 1.10 Cristo não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o Evangelho.

Cabe a nós hoje aqui, perder a frieza em relação ao viver e morrer do próximo. Não mais aceitando ou acatando as ideias: é a vontade de Deus. Todos ao de morrer. Tais afirmativas nos afastam, nos enfraquecem na luta e na organização em busca do respeito pela vida, também nos locais de trabalho.

O texto bíblico ora falado, fala da destruição da morte; fala da luz da vida e inclusive da nossa imortalidade já aqui e agora. Por um lado a morte do alemão é uma denúncia, um alerta em relação ao espaço que o poder da morte recebe em nosso meio, na prática da transgressão da vida. Também denuncia nosso descaso para com a mensagem de Deus em favor da vida. Da mesma forma, como a palavra de Deus realiza esta denúncia do atentado à vida, mostra, com clareza, que a proposta de Deus exige e busca a destruição da morte, clareando o caminho da ida rumo à ressurreição do corpo. Nesta perspectiva anunciamos hoje que: Cristo destruiu a morte, trouxe à luz a vida e, inclusive, a imortalidade desta vida ameaçada. Além disto, esta oferta de Deus está agora ao nosso alcance para uma reação diferente em relação ao que nos cerca e ocupa nossa mente. Amém.

III — Subsídios litúrgicos

1. Leituras: Sl 10.1-18; Lc 11.37-44.

2. Oração: Senhor Deus e Pai, tu que és o doador da vida e de tudo que nos pertence e somos. A morte e a dor nos fez parar e chorar de verdade. Pranteamos e chegamos inclusive ao desespero acreditando naquilo que o mal nos ensina a respeito do morrer. Nesta hora, porém, buscamos o consolo e a orientação em tua Palavra. Este consolo e orientação nos dão firmeza para seguir e ver um mundo, um trabalho sem a presença da morte. Ajuda-nos a crer na tua vitória sobre a morte e seu poder. Louvamos e bendizemos o teu nome e a tua Palavra, por ela nos animar na luta pela vida digna também nos locais de trabalho. Ajuda em especial a irmã e a sobrinha nesta sua caminhada, para que tua Palavra as oriente em todo o seu viver e agir. Pois, o mesmo poder que matou a seu irmão e tio está a maquinar contra a sua vida. E a nós todos concede o teu Espírito Santo para que nos assista na prática do bem ao próximo e na luta contra aquilo que está a ofender a vontade de Deus, na pessoa dos demais operários e trabalhadores. Amém.

Proclamar Libertação – Suplemento 2
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Clemente João Freitag
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1988 / Volume: Suplemento 2
Natureza do Texto: Liturgia
Perfil do Texto: Alocução
ID: 7326
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