Atos 1.3-4 (5-7) 8-11

Auxílio Homilético

08/05/1986

Prédica: Atos 1.3-4 (5-7) 8-11
Autor: Heinz Ehlert
Data Litúrgica: Ascensão
Data da Pregação: 08/05/1986
Proclamar Libertação - Volume: XI

I — O texto — considerações exegéticas

Mesmo que se trate de um trecho do primeiro capítulo do livro de Atos, não pretendo investir tempo e espaço na análise de questões introdutórias (autoria, data, etc.). Além de outros poderão ser encontrados subsídios desta natureza no Vol. X desta Série nas Observações Introdutórias ref. ao Evangelho de Lucas do Dr. Brakemeier.

Quanto à delimitação da perícope, parece-me fazer sentido considerar para a pregação o indicado (1.3-4.8-11).

Já que o trecho não é restrito ao relato da ascensão, fica destacado o assunto missão. Podemos notar a seguinte subdivisão:

1. Igreja em missão — instruções e promessa (vv.3-4.8)

2. Missão sob o exaltado (v.9)

3. Missão ao encontro do vindouro (vv.10-11).

O interlúdio (vv.5-7) explicita a atitude participativa dos discípulos. Não é imprescindível para a compreensão do trecho escolhido.

A promessa do Espírito Santo é repetida no v.8.

V.3 — O título apóstolos (v.2) ao longo dos Evangelhos já é empregado como sinónimo de discípulos. Especialmente Lucas (cap. 6.13) fala nos discípulos aos quais deu também o nome de apóstolos. Pelo nosso trecho se evidencia o conteúdo deste título, pois caracteriza (a exemplo de Mt 28.18-20) os discípulos como apóstolos, isto é enviados.

A referência ao padecimento identifica o ressurreto com o crucificado e sublinha a importância salvífica do evento da paixão. Acentuando as muitas provas incontestáveis parece já enfrentar contestações do evento da ressurreição. As aparições não foram, então, quimeras, mas o Jesus crucificado é idêntico ao ressurreto, o que fica provado também pelo fato de insistir na mensagem central de seu ministério: o Reino de Deus. A presença visível de Jesus entre os apóstolos deve ser entendida como intermitente e não permanente durante o referido período.

O número quarenta, sem dúvida, é simbólico. Quarenta foram os anos de peregrinação dos israelitas antes de chegar à terra prometida. Quarenta dias Jesus passou no deserto, jejuando e sendo tentado por Satanás (cf. Mt 4.1-2; Mc. 12-13; Lc 4.1-2). Mais importante, porém, é que o tempo que passa com eles é aproveitado para instruções. Falar do Reino de Deus é falardes planos de Deus que envolvem passado, presente e futuro e do papel do próprio Cristo nisso tudo (cf. Lc 24.25-27; 44-47). Mas não só do Cristo. Logo as instruções se tornarão mais concretas, quando o papel dos próprios apóstolos é definido.

V.4 — Será que o encontro sempre se deu por ocasião de uma refeição? Sabemos que entre os israelitas — como aliás também entre os brasileiros — a comunhão de mesa era muito importante (cf. também Jo 21.9-13). O termo original traduzido por Almeida com comendo com eles seria literalmente: comendo juntos o sal. Realmente se trata de uma refeição. Nesta oportunidade Jesus os sabe reunidos. Mas talvez numa dessas reuniões (a última?) lhes tenha determinado ficar esperando a promessa do Pai. Em que ela consiste, logo é informado.

V.8 — Poder do Espírito Santo. O próprio Espírito Santo é prometido. Vai descer sobre eles. A primeira descida já aconteceu. Foi quando o verbo se fez carne (Jo 1.11 -14; Ef 4.9-10; Fp 2.7,8). A descida do Espírito Santo deve ser diferente. Mas há de conferir poder aos que antes foram escolhidos (Jo 15.16), instruídos e preparados. Este poder não possuem por si. Nem podem conquistar por qualquer esforço, nem exercício religioso. É conferido, é presente. Escapa à manipulação humana (Jo 3.8). Este poder, porém, não será conferido apenas para que sejam mais fortes e tenham coragem de enfrentar os que porventura venham atacar ou perseguir os discípulos do crucificado. Há ainda um propósito maior: ... sereis minhas testemunhas! 13 vezes aparece o termo neste livro. É uma característica essencial dos discípulos. Precisam testemunhar, e isto significa, antes de tudo, falar das coisas que viram e ouviram (Atos 4.19), mesmo que gente com poder venha — como depois vieram — a proibir isto. E não podem ficar parados, em casa. Devem caminhar, a exemplo de Jesus. É como se um programa fosse traçado. Devem começar pela terra santa, mas não se restringir a ela. Nenhum limite é colocado, a não ser o da própria terra. Discípulos devem fazer discípulos (Mt 28.19). Igreja será discipulado em missão.

V.9 — O que já foi mencionado em seu primeiro livro (Lc 24.51), o autor aqui volta a relatar, também suscintamente. A olhos vistos é elevado às alturas até que uma nuvem o encobre. Ela não o carrega, apenas o encobre. Tudo muito concreto neste fenómeno espetacular. Sem asas, nem impulsos constatáveis Jesus é elevado. Ou é o poder do próprio ressurreto que superou a morte que o faz subir? Os discípulos continuam com os olhos fitos no céu, como se não pudessem acreditar que desapareceu.

V. 10-11 — Não se sabe quanto tempo f içariam assim e como teriam ficado depois. Mas aparecem os varões. Como por ocasião do nascimento de Jesus e sua ressurreição, estão aí os mensageiros de Deus para interpretar o acontecido. Sem isto poderia ficar a dúvida. Voltou ao Pai, assentando-se à sua direita (Rm 8.34; Fp 2.9-11).

Mas não se trata apenas de um fato espetacular e sua interpretação. A era que se inaugura, ganha logo sua perspectiva peculiar: O exaltado é o vindouro. Não se deve perder tempo com especulações sobre o que virá e para onde ele foi. O que importa: Ele voltará! Nada de datas, mais próximas ou mais distantes. O fato é que importa. Começa o ínterim. É o ínterim da Igreja. Para cumprir a sua missão inconfundível: Ser testemunha do Cristo vivo e vindouro.

II — Meditação

A Igreja existe no mundo. Ela é questionada e se auto-questiona. Ambas as coisas podem ser saudáveis para a instituição Igreja, porque haverá de estimular a reflexão, entre os seus membros, sobre o papel específico da Igreja no mundo de hoje, os seus métodos de ação ou acentos especiais de sua mensagem dentro da realidade sócio-política, do contexto atual em que vive. Não se trata, no entanto, nunca de questionar ou revisar o seu papel essencial que lhe foi conferido por seu senhor: Ser testemunha dele no mundo para que o mundo creia (Jo 17.21) que tu me enviaste. Esta é a única razão de ser da Igreja.

O questionamento externo da Igreja poderá vir do Estado, de governantes ou grupos de poder (p. ex. grupos econômicos) que desejam atribuir à Igreja um papel diferente do que aquele que recebeu de seu Senhor. Por ex. de ser uma instituição que se enquadre perfeitamente no esquema de governo, da qual se espera que pregue e ensine uma moral elevada. Que se preste a educar o povo a ser paciente e submisso à autoridade do Estado. E quando não corresponde à imagem que fizeram dela, então é questionada.

Mas o questionamento também pode acontecer porque a Igreja se desvia de sua missão de ser testemunha de Cristo, ser voz profética, Isto é, de proclamar o direito e a vontade de Deus e seu senhorio no mundo. Quando procura assumir uma postura de poder que concorre com o poder secular, fazendo o que ao Estado competeria, ou quando se coloca na posição de conselheira-mor ou tutora dos governantes.

Um outro questionamento poderá surgir de dentro da própria Igreja enquanto instituição, quando indivíduos ou grupos não concordam com uma linha de orientação teológica oficial da Igreja ou com um programa oficial de ação.

O questionamento deve ser ouvido atentamente em atitude de auto-crítica. Nunca para tornar-se subserviente, entrando no jogo dos poderes deste mundo, mas para voltar às fontes de sua vida dentro do princípio luterano e reformatório Ecclesia reformata semper reformanda.

Mas a Igreja não está aí para ficar em casa, como dentro de sua fortaleza, bem protegida, capaz de se defender contra os ataques de fora e de dentro.

A imagem que Atos 1 projeta da Igreja é bem outra: O Cristo envia a sua Igreja, os seus fiéis ao mundo. Tem que ir, expondo-se aos riscos que isto implica.

Nesta empreitada convém estudares riscos calculáveis. Deve procurar descobrir o adversário e seu poder.

Pode ser que o mundo em que se mete tem recursos e métodos com os quais é difícil concorrer. Também seria simplório e completamente inadequado apresentar-se simplesmente como concorrente. Querer, p.ex., oferecer atrativos como carreira, prestígio, promoções desportistas, show de TV, etc.

Deve lembrar-se da causa para a qual foi convocada, da missão de que foi encarregada. Não está agindo em causa própria, não está defendendo interesses próprios: está a serviço, é enviada por Cristo! Enviada com o evangelho. Deve testemunhar a Cristo o libertador que é também o reconciliador que estabelece uma nova ordem de coisas e valores. Que cria uma nova convivência que se caracteriza pela paz e pelo amor, onde não pode vigorar mais a lei do mais forte.

Deve lembrar-se do poder de que dispõe ou que sempre de novo lhe é conferido: O Espírito Santo. Cristo não enviou seus discípulos, isto é a Igreja, para que dependesse unicamente de sua própria força e capacidade. Mas lhe prometeu o Espírito Santo. Não força bruta que se impõe pela violência. Mas força, poder espiritual que conquista o coração e a mente. Ele atua especialmente pela palavra anunciada.

É verdade: A Igreja também pode dar testemunho pela sua maneira de ser. A imagem que os cristãos dão ao mundo pela vida comunitária que têm. Talvez nós temos, em nossas comunidades, muito pouco cuidado e consciência de que maneira o nosso comportamento como comunidade cria uma imagem aos de fora (sejam eles religiosos ou ateus). Será que despertaria neles a vontade de pertencer a este grupo, a esta Igreja?

O nosso testemunho certamente também poderá ser dado por nossa atuação diacônica. Esta provavelmente será bem aceita, será até solicitada, principalmente quando não contesta um status quo. Quando simplesmente ajuda, assiste sem denunciar causas de miséria. Não vamos logo dizer que tal testemunho não poderia ser eficiente. A prática da diaconia que é oriunda do amor cristão tem um efeito inclusive transformador e é, portanto, genuíno testemunho. Mas a Igreja é enviada com o Evangelho, isto significa, sobretudo, testemunho da palavra, proclamação do Evangelho, que de maneira nenhuma exclui, antes inclui o testemunho pessoal e individual, dando razão da esperança que há em nós.

Falando em esperança, estamos falando da perspectiva do testemunho da Igreja. Esta perspectiva é justamente o vindouro, o Senhor que volta. Podemos ser gratos que na oportunidade da ascensão esta perspectiva tenha sido enfatizada. O exaltado à direita do Pai é a força, o poder permanentemente presente na Igreja. Mas a perspectiva de sua volta dá o dinamismo à sua mensagem. Em nossa atuação como comunidade não podemos deixar em plano secundário esta perspectiva. A nossa preocupação com os problemas do presente às vezes ofusca a nossa vista. Encaramos até a mensagem do vindouro e a consumação do século como perigo de alienação. Mas justamente a espera pelo vindouro, a alegria pelo desfecho da história salvífica dá ânimo e orientação segura ao nosso envolvimento na propagação do Reino de Deus.

Se Jesus insistiu em que os seus discípulos deveriam ser suas testemunhas até aos confins da terra, não podemos, como Igreja hoje, ficar tranquilos diante do fato que menos de 1/3 da população deste planeta é nominalmente cristã. Celebrar ou comemorar a ascensão entre nós pode, então, nos desafiar a levar a sério o último recado do agora exaltado: ser suas testemunhas engajadas — até que ele venha.

III — Indicações para a prédica

Poderíamos começar falando de experiência de despedida, quando uma pessoa bem-amada, muito importante para nós, se au¬senta para muito tempo. Que sentimentos então nos dominam?

Os discípulos que presenciaram a ascensão de Jesus devem ter percebido que era uma despedida. Meio perdidos tinham os olhos fitos nas nuvens, sem vontade de encarar de frente a realidade e tomar decisões difíceis. Dois fatos foram importantes para eles e para todos os discípulos desde então: 1) As instruções e a promessa de Jesus; 2)A mensagem que o exaltado é o vindouro. Através disto ficou claro: A palavra de ordem para a Igreja é missão com o evangelho até que Ele venha.

Poderíamos desdobrar este tema em três partes, como sugerido pela subdivisão do trecho:

1) Igreja em missão.

Perguntar como a comunidade, seus membros explicariam a razão de ser da Igreja. Como vêem sua própria participação na vida comunitária, dando tempo e dinheiro. O que seria ser testemunha de Cristo hoje? Como poderia ser, na prática, o preparo que Jesus ofereceu aos discípulos? Falar de nossos cursos e estudos para leigos (Encontros bíblicos, Curso Redescoberta do Evangelho, Material para a Escola Dominical, etc.). Somos, sobretudo, enviados, missionários.

2) Missão sob o exaltado.

Nesta parte poderíamos falar da importância da mensagem da ascensão no todo do evangelho: O exaltado à direita do Pai é o Redentor presente no Espírito Santo. É a causa dele em que estamos. A Igreja que proclama o crucificado e ressurreto como única esperança ao mundo, tem que contar com o Espírito Santo e seu poder. É a certeza do Cristo conosco que nos dá ânimo e coragem para proclamar e testemunhar pública e pessoalmente. O culto é a celebração desta certeza. Precisamos disto para continuar.

3) Missão ao encontro do vindouro.

Que o exaltado é o vindouro dá um impulso especial a todo agir da Igreja. O tempo dela (da Igreja) não continua indefinidamente. Tem prazo. Este só Deus sabe. Este tempo deve ser aproveitado ao máximo por cada comunidade em vista do fato que também hoje a seara é grande. Estamos numa causa com futuro! Ir adiante é a palavra de ordem. Prontos a enfrentar incompreensões e obstáculos. Não olhar para as nuvens, nem deixar-se atrapalhar pêlos questionamentos ou a eficiência técnica do mundo, mas com os olhos fitos noexaltado que é o vindouro.

IV — Subsídios litúrgicos

1. Confissão de pecados: Senhor, temos o testemunho de tuas testemunhas. A Bíblia está ao nosso alcance, mas não fizemos uso apropriado dela. Ou muito pouco uso. Perdoa-nos esta negligência. Mas perdoa-nos muito mais o nosso orgulho, de nos chamarmos cristãos, sem muito empenho para demonstrar isso por palavras e ações. Tem piedade de nós, Senhor!

2. Oração de coleta: Senhor, graças te damos que tu continuas a comunicar-te conosco. Também neste culto de hoje. Ajuda-nos através da proclamação de tua palavra a compreender o significado e a força da tua ascensão. Amém.

3. Assuntos para a oração final: O trabalho de evangelização e ensino em nossa comunidade. Pelos agentes e professores nele empenhados. Pelo trabalho da IECLB nas Novas Áreas de Colonização e na Missão entre os índios, pelos obreiros atuantes neste campo. Pelo trabalho do CMI, especialmente Missão e Evangelização. Pelo empenho diacônico na comunidade e Igreja.

V — Bibliografia

- ANDERSEN, W. Meditação sobre Atos 1.1-11. In: Gepredigt den Voelkern, v. 2, Breklum, 1967.
- BECKER, R.L FUCHS, W. Meditação sobre Lc 24.50-53. In: Proclamar Libertação, v. 10, São Leopoldo, 1984.
- BEYER, H.W. Die Apostelgeschichte. In: Das Neue Testament Deutsch, v. 5,5? ed., Goettingen, 1949.
- BRAKEMEIER, G. Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Lucas. In: Proclamar Libertação, v. 10, São Leopoldo, 1984.
- STECK, K.G. Meditação sobre Atos 1.1-11. In: Herr, tue meine Lippen auf, v. 2, Wuppertal-Barmen, 1959.
- VOIGT, G. Meditação sobre Atos 1.3-4(5-7)8-11. In:___.Das heilige Volk, Goettingen, 1979.


Autor(a): Heinz Ehlert
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Ascensão

Testamento: Novo / Livro: Atos / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 3 / Versículo Final: 11
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1984 / Volume: 11
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14458
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