Atos 7.55-60

Auxílio Homilético

18/05/2014

Prédica: Atos 7.55-60
Leituras: Salmo 31.1-5,15-16 e João 14.1-14
Autor: Antonio Carlos Ribeiro
Data Litúrgica: 5º Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 18/05/2014
Proclamar Libertação - Volume: XXXVIII

1. Introdução

O conflito entre “conservadores” e “liberais” é uma disputa básica da existência humana e uma marca agudizada em nosso tempo. Em linhas gerais, o conflito acontece por causa das divergências entre as pessoas e de sua compreensão da realidade, com as mudanças que esse processo provoca. Diante de um impasse de natureza conceitual, que exige muita reflexão e análise para que as decisões não sejam açodadas, é possível perceber quem, diante do novo, prefere agarrar--se ao que está dado e os que ousam avançar na clareza de que o que está aí não satisfaz, mesmo sem ter claros os caminhos à frente.

O Salmo 31 mostra os riscos que vivemos nas relações pessoais, seja no encontro com pessoas que nos trazem grande contribuição espiritual, afetiva e profissional ou com as demais. Aqui o salmista pede que Deus o ajude a manter constante comunhão com Ele, a discernir para confiar e a ser sensível para amar. João 14 ensina-nos a buscar comunhão, redescobrir a amizade e a confiança após os grandes choques e sob o efeito das grandes perdas. Mais do que isso, a recuperar todo o sentido da comunhão a partir do amor, que identificamos com o próprio Deus. E se a formulação “Deus é amor” nos parecer impessoal, ousemos usá-la na forma verbal: Deus é amar.

Esse é um tempo de confrontos e resistências, de estudos, de debates e, invariavelmente, de sofrimentos. Nesse processo, o tempo costuma ser inimigo de quem se agarra ao passado, ancora as dores atuais nas antigas e sofre com as velhas mágoas e aquelas que surgem para reforçá-las. E tende a ser aliado de quem se arrisca em direção ao futuro, vale-se do passado para travar diálogos frutíferos com o presente, isola as mágoas – sem precisar visitá-las e nem desejar sua visita –, mantendo a dor em seu invólucro diário, como ensinou Jesus de Nazaré.

2. Exegese

Nos anos 80 de nossa era, quando Lucas escreve o Evangelho e os Atos dos Apóstolos, era muito forte a disputa entre judeus e judeu-cristãos e, nesse grupo, entre os judeus ligados à tradição de Jerusalém (hebreus) e os judeus gregos (helenistas). Esses eram cristãos de língua e cultura gregas, residentes em Jerusalém, mesmo sendo originários da diáspora. A disputa desses grupos acontecia em torno da herança das promessas do Antigo Testamento e da observância da Lei – entre a teologia e a piedade – para conseguir estabelecer o grupo que era realmente fiel e que era o herdeiro das tradições.

O grupo dos judeus helenistas tinha uma atuação profética, um discurso crítico em relação à Lei e ao Templo, usado como acusação contra Estevão e seu discurso diante do sinédrio. E mesmo com esses traços Lucas apresenta Estevão como cheio do Espírito, discípulo fiel a Jesus e que morre do mesmo modo como seu mestre. São dispersos na grande perseguição contra a igreja de Jerusalém e os que anunciam a salvação em todas as partes, como Filipe aos samaritanos e ao eunuco etíope (8.5-40) e até aos gregos (11.19-21), dando nova expressão ao movimento de Jesus, como dirigido pelo Espírito e com ação missionária.

É desse mesmo grupo que surge a reclamação de que suas viúvas eram deixadas de lado no atendimento diário, diferente das viúvas dos hebreus. O texto inclui o sentido de que o crescimento do número de discípulos não dá condições aos apóstolos de atender a todos, levando-os a descuidar da palavra de Deus. Nesse contexto, Pedro propõe à assembleia que sejam escolhidos sete homens para servir às mesas, para que os discípulos se dediquem totalmente à palavra de Deus.

No entanto, esse relato não convence, pois não se trata de um problema que envolve todas as viúvas, mas apenas as dos helenistas. Mais do que isso, os escolhidos são homens de boa fama, cheios do Espírito e de sabedoria. Eles integrarão a dinâmica do terceiro elemento a entrar no processo para alterar o ciclo do testemunho da fé, já no primeiro século, e que darão aos helenistas uma organização de grupo, que possibilitará sua afirmação diante dos conservadores.

Os apóstolos impõem as mãos sobre os novos dirigentes, simbolizando a entrega do Espírito, para que eles compartilhem a missão de conduzir a igreja. Assim, ficam os doze em Jerusalém e os sete atuando com os pobres na diaconia diária, que se estende para o atendimento profético e missionário fora de Jerusalém.

O problema não eram as mesas, mas a discriminação contra os pobres – vistos como pecadores, sem pureza étnica ou que perderam terras com uma colheita arrasada – pelos conservadores. Nem a falsa polaridade entre a diaconia e a pregação da Palavra. Até porque a diaconia foi, a um só tempo, a atividade que incluiu os helenistas e a que menos esses se dedicaram, aproveitando a “inserção” do serviço às mesas.

No serviço diacônico das mesas, os helenistas projetaram-se para além dessa tarefa, chegando ao testemunho profético da Palavra. Esse fato deve ter ocorrido de forma progressiva, mas logo se tornou conhecido. A teologia que parte de um teologúmeno consistente é bem informada e aproveita oportunidades, sacode até estruturas religiosas aparentemente inamovíveis.

O problema de fundo da discriminação dos helenistas, que Lucas tenta minimizar com o atendimento negado às viúvas, tem um traço em comum: a presença dos que são mantidos pobres num determinado contexto – como o cruel e desumano bloqueio econômico a Cuba –, sua capacidade de articulação e a qualidade do saber teológico promovido em seu interior. O contraponto a esse fato expressivo é a defesa dos apóstolos, reforçando o caráter étnico, político e religioso, feita por Gamaliel, que por causa do reconhecimento de que gozava no sinédrio acabou por reforçar o grupo dos hebreus em Jerusalém.

Esse fato provocou o crescimento do número dos discípulos e a conversão de grande número de sacerdotes, criando certa marginalização dos helenistas, sem arredar uma palha em relação aos pobres. No ambiente conservador, em que se agarra firmemente a uma frase de efeito até que ela se torne realidade, reforça-se o aumento dos discípulos em Jerusalém e a conversão dos sacerdotes para assegurar a continuidade de Israel e a identidade dos hebreus. Já no mundo
helenista, o parâmetro que permitiu o crescimento da palavra de Deus tem relação com a identidade do grupo dos helenistas. Foi a sua atuação que tornou possível a universalidade da missão, alcançando os samaritanos e os gentios.

3. Meditação: Onde estão os jovens, os intelectuais, os negros luteranos?

Os primeiros diáconos são todos judeus helenistas. Essa constatação, além de impactante, mostra o processo de alternância e os conflitos por ele gerados no cristianismo primitivo desde os primórdios. Sua diversidade é a grande marca. E os que sofreram rejeição por causa da etnia, cultura e origem geográfica acabaram sendo os que mais profundas marcas deixaram. De Estêvão a Agostinho de Hipona, de Paulo a Lutero, do discípulo amado das comunidades joaninas da diáspora ao amor preferencial pelos pobres da teologia latino-americana, há uma linha tênue que liga os que sofreram grandes discriminações e por isso deram estupendas contribuições à universalização da fé cristã.

Por causa da longa convivência com os pagãos nas grandes cidades do império, por morar fora da Palestina, por ter aprendido a fazer liturgia (celebração da Palavra) sem os sacrifícios do Templo e nas sinagogas da diáspora, ressignificando o culto do Templo para a observância da Lei, os judeus helenistas que se tornaram cristãos embasaram seu testemunho na caminhada com os pobres e não apenas ao registro histórico da etnia, dos pergaminhos, do culto, da arquitetura, da cultura e do cumprimento da Lei, mas atenderam os mais simples. Eles leram a Escritura para seu tempo, dialogaram com os diferentes, fortaleceram seu testemunho e inculturaram a fé em outros povos e culturas, numa palavra: entenderam o sentido de sua universalidade.

Quando os centros de poder político e teológico, especialmente os amalgamados no trinômio religião-nação-cultura, afastaram os judeus helenistas da responsabilidade do testemunho “oficial”, sem o perceber, empurraram-nos ao serviço aos pobres, à missão aos que viviam nos pagus distantes – por isso chamados pagãos – e ao anúncio da fé desvinculada do império, que chega aos humanos sem as “cicatrizes” dos centros de poder. Isso firmou e projetou seu protagonismo histórico.

O problema da discriminação dos helenistas não tem nada a ver com os servidores das mesas, mas com a capacidade desse grupo de se organizar e alcançar legitimidade. Por isso a proposta feita por Pedro de servir as mesas para liberar os apóstolos não dá conta da situação, é uma solução aparente. A causa profunda, negada permanentemente pelos que preservam a tradição e sofrem ao vê-la morrer – mesmo quando apenas se renovam –, é a discriminação dos judeus helenistas e a contínua negação a seu esforço de superação da situação.

O discurso de Estêvão analisa o conjunto da situação, lembrando os 40 anos no deserto, a Tenda do Testemunho dos Nossos Pais e a Arca da Aliança no deserto, que era o símbolo da presença libertadora de Javé no meio do povo. Em torno dela surgiu o novo culto a Deus, diferente do culto dos ídolos nos templos do Egito. Essa arca foi levada para a Terra Prometida por Josué e assim foi conservada até os dias de Davi.

O bem-elaborado discurso de Estêvão oferece argumentos para os cristãos distinguirem o essencial do circunstancial e orientarem-se no debate. Mas sua capacidade interpretativa gera um confronto com os hebreus. Se Salomão acabou com a tenda e fez um grandioso templo, isso é contraposto à frase de Isaías para condenar essa iniciativa de Salomão: O céu é o meu trono e a terra, o estrado dos meus pés! Que casa vocês vão poder construir para mim? Em outras palavras, a presença do Templo não é nenhuma garantia de que Deus, ele mesmo, esteja presente no meio do povo. Numa palavra, diante do novo paradigma, Estêvão desconstrói o anterior. Deve ter desagradado profundamente os seus ouvintes. E por isso seu fim se tornou iminente.

Essa compreensão teológica, quando aplicada aos setores das igrejas mais identificados com o modelo europeu dos centros de poder teológico-pastoral, provoca a discussão nas hostes da falsa síntese: matriz biológica-etnia-cultura, especialmente quando misturada à religião e afirmada como a melhor. O antídoto da própria casa surge da teologia de Brakemeier, pastor presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, “escaldado” no aprendizado de presidente da Federação Luterana Mundial.

Ao refletir sobre a profunda experiência pastoral de pontífice (construtor de pontes), haurida na difícil tarefa de contemplar e costurar as diversas pontas da ampla rede de tradições luteranas espalhadas pelo mundo, Brakemeier bradou a urgência de “romper as cercas que a comunidade evangélica ergueu em torno de si. Se é verdade que a graça de Deus fundamenta a comunidade, por que há tantos entraves para a filiação de gente que não comunga a mesma origem étnica, a mesma classe social, o mesmo nível cultural? A padronização do ‘estilo de vida’ de uma comunidade redunda em exclusão das pessoas que nela não se sentem em casa nem encontram espaço. Onde estão, por exemplo, os jovens, os intelectuais, os negros luteranos? A comunidade evangélica precisa arriscar variedade, abrir suas portas e convidar à participação. Caso contrário, seus templos acabarão vazios, e o pequeno grupo que sobrar estará ameaçado de submergir em absoluta inexpressividade” (BRAKEMEIER, G. Um novo modo de ser IECLB? Estudos Teológicos, 1994/34 [3], p. 58).

Apesar dos esforços, ousou dar esse passo e estabeleceu um marco de sua passagem pela presidência da igreja luterana brasileira e da comunhão luterana mundial. Não ter dado ouvidos sufi cientemente a esse clamor tem custado à IECLB um alto preço.

4. Imagens para a prédica

Uma experiência da atividade jornalística que provocou profundo impacto em minha confessionalidade luterana – por não ter nascido numa família luterana nem ser de ascendência alemã e ter formação teológica eclética (batista, luterana e católica) e ter insistido em amar a igreja que escolhi, até quando discordava – teve lugar numa reunião do Conselho da Federação Luterana Mundial na cidade de Wittenberg em 2002.

Numa recepção na Alt Rathaus (Prefeitura Antiga) no dia 10 de setembro, fiquei impressionado com a alocução do prefeito Eckhard Naumann, falando em nome da cidade onde Lutero fixou suas 95 teses na porta da Schlosskirche (Igreja do Palácio) e onde estão enterrados seus restos mortais.

Ele disse que a presença luterana ali era “como voltar para casa”, observando que aquela era a primeira reunião da Federação Luterana Mundial (FLM) realizada em Wittenberg, sem esquecer que essa estava no lado oriental da Alemanha quando a FLM foi fundada em 1947.

Observou ainda que muitos dos sítios históricos e monumentos da Reforma e do próprio Lutero estão nessa cidade, muito mais acessíveis ao mundo a partir da queda do muro de Berlim. E enfatizou: “Wittenberg tem tido um trabalho duro para manter o patrimônio memorial herdado de Lutero, mas a verdadeira herança de Lutero é seu espírito. E vocês têm mantido isso”, disse aos luteranos representantes das igrejas-membro da FLM.

Ao ouvir isso, perguntei-me: Temos nós mantido o espírito do Reformador como herança?

5. Subsídios litúrgicos

Saudação:

Amada comunidade! Neste tempo comum, confiados na força do Espírito que gera a igreja – como confessamos no terceiro artigo do Credo Apostólico –, perguntamo-nos: como corresponder (cor + res + pondere = colocar coisas no coração) ao Deus que nos confiou esse mandato? Como ler o conjunto da realidade à nossa volta e entender os sinais dos tempos? Como ser comunidade que ausculta seu tempo para anunciar a salvação?

E o texto da pregação de hoje desperta nossa atenção para a periferia da fé. Dos diferentes que se agregam à caminhada e desejam ser iguais em valor. Dos que propõem novidades e alternativas ao trabalho em andamento. Dos que trazem novas “leituras” do evangelho e de diálogo com o mundo.

Ao saber que não temos tudo, perdemos o medo de que algo seja tirado de nós. Ao saber que os que se aproximam sempre trazem algo, dispomo-nos a ver, entender e comungar novos prazeres e intenções. Sem perder de vista o Cristo que é nosso centro, cujo amor se torna o critério último de nossas decisões.

Confissão e lamento pelos pecados:

Ajuda-nos, Deus, a viver como jovens enamorados que se cansaram de reparar apenas na própria beleza.

Ajuda-nos a estabelecer contato com pessoas a quem desejamos amar e não esperar ser chamados por ter o que julgamos ser único e exclusivo.

Anima-nos a viver a comunidade de fé com uma rara oportunidade de amar.

E enquanto ainda tivermos dificuldades para viver desse modo, pedimos--te: Tem piedade de nós, Senhor!

Oração do dia:

Chegamos à tua presença como seres que se descobrem espiritualmente interdependentes. Ajuda-nos a buscar a comunhão com os demais, assim como buscamos a comunhão contigo. Aproxima-nos para que sejamos como uma rede, que só se mantém por causa das interligações, com um equilíbrio que nos exige cuidados, conosco e com todas as teias da rede. E ajuda-nos a viver e testemunhar nesse novo espaço de contiguidades.
Na tua esperança, pedimos. Amém!

Bibliografia

MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. Atos dos Apóstolos; círculos bíblicos. São Paulo: CEBI, Paulus, 2002.
RICHARD, Pablo. O movimento de Jesus depois da ressurreição: uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1999.


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Autor(a): Antonio Carlos Ribeiro
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 5º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: Atos / Capitulo: 7 / Versículo Inicial: 55 / Versículo Final: 60
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2013 / Volume: 38
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 27976
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Martim Lutero
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