Batismo e educação - Questionamentos e estímulos a partir da Igreja dos primeiros séculos

Artigo

08/08/2004

Comunidade cristo nasce do batismo. Pessoas pertencem a uma comunidade cristã porque foram batizadas. Não há, pois, como exagerar a importância do batismo para a comunidade cristã. No âmbito da Escola Superior de Teologia, o batismo tem sido objeto de estudo nos últimos anos em todos os níveis, desde seminários no curso de bacharelado até teses de doutorado. Dessa pesquisa emanam questionamentos e estímulos para a práxis batismal da atualidade. Na matéria a seguir não empreendemos uma abordagem completa do batismo. Compartilhamos apenas alguns de nossos achados, particularmente na perspectiva da relação entre batismo e educação. Entendemos que daqui resultam consequências das mais relevantes para o ministério educativo da Igreja.

Batismo e educação na Igreja dos primeiros séculos

Os temas do batismo segundo o Novo Testamento

De acordo com os escritos do Novo Testamento, desde o início do cristianismo o batismo era condição para alguém se tornar membro da Igreja. As diversas passagens do Novo Testamento que falam do batismo mostram que são vários os significados vinculados a ele. Destacam-se os seguintes:

a) O perdão dos pecados (At 2.38) - Atos dos Apóstolos nos conta que em Pentecostes Pedro convida ao arrependimento e ao batismo para remissão dos pecados.

b) A união com Cristo (Cl 2.12,20; Rm 6.3-5) - O batismo dá a cada pessoa batizada a participação na vida e na morte de Jesus Cristo e a possibilidade da ressurreição por meio dele (Cl 3.1). É esta união com Jesus Cristo que fundamenta o sacerdócio universal de todas as pessoas crentes.

c) A recepção do Espírito Santo (Mt 3.16; At 2.38; 19.1-7) - Para o cristianismo dos primeiros tempos, existe uma unidade entre a lavagem batismal e a doação do Espírito Santo. No entanto, a doação do Espírito não depende do batismo. Ela pode precedê-lo (At 10.44 e seguintes) ou seguir-se a ele. A recepção do Espírito pela pessoa a ser batizada significa que a salvação esperada começa a ser uma realidade presente em sua vida.

d) A incorporação à Igreja, que é o corpo de Cristo (1 Co 12.13) - O batismo une a Cristo e, como tal, leva a pessoa batizada a pertencer-lhe (1Co 3.22s). Através do batismo, cristãos e cristãs são levados e levadas à união entre si e com a Igreja de todos os tempos. Em Cristo são anuladas as diferenças entre as pessoas (Gl 3.27-29).

e) O renascimento (Tt 3.5; Jo3.5) - O batismo regenera, renova, marca o início de uma nova vida. Nessas imagens articula-se a noção de que a pessoa deixou o velho Adão para trás, tornando-se nova criatura.

Essa variedade de significados expressa que o batismo marca o início da vida cristã e que seu fundamento se encontra na ação salvadora de Deus através de Jesus Cristo. Ou seja, só o sim de Deus é que faz do batismo aquilo que ele é: a autodoa-ção do seu amor à pessoa humana. É isso que se expressa nos diversos temas vinculados a ele. Dessa maneira, o batismo afirma a cada pessoa que a redenção oferecida por Cristo também é válida para ela. Assim, o batismo tem a ver com o crescimento de toda uma vida em comunhão com Cristo e não somente com uma experiência momentânea.

Batismo e educação no Novo Testamento

Diversos textos bíblicos dão a entender que nos tempos dos apóstolos havia algum tipo de preparação para o batismo. As pessoas que desejavam ser batizadas eram chamadas ao arrependimento (At 2.38). De acordo com a tradição do Evangelho de Mateus, os discípulos são chamados pelo Ressurreto a batizar e a ensinar todas as coisas que ele lhes havia ordenado (Mt 28.18-20). Em várias oportunidades, os bati s mós são precedidos por pregações dos apóstolos (At 2.14-36; 8.12,35; 16.14-15; 18.8), nas quais exortam à fé em Jesus, o Senhor e Cristo, e ao arrependimento. Também é interessante notar que diversas passagens do Novo Testamento atestam que havía ensino e instrução após um batismo já realizado. Tais atividades buscam, então, motivar para uma nova vida e uma nova ética pessoal e comunitária. Algumas dessas passagens são: Rm 6, 1Co 1.13 e seguintes; 6.11; 12.13;Tg1.17-2;1Pe2.
Tudo indica que nos tempos neotestamentários já existia uma certa relação entre batismo e educação, tanto no processo preparatório para o batismo quanto na fase da vivência pós-batismal.

Batismo e educação na época pré-constantiniana

Esta secção baseia-se especialmente na Tradição apostólica de Hipólito de Roma (ano de 215), a qual reflete uma prática usual na comunidade cristã de Roma, a partir de fins do século 2.

Constantino foi o primeiro imperador romano que se converteu ao cristianismo. No período que precedeu esse imperador (até aproximadamente o ano de 306), pessoas e comunidades cristãs eram, de tempos em tempos, censuradas, discriminadas e até perseguidas pelo Império Romano. Ser uma pessoa cristã significava orientar-se e viver a partir de valores e de uma ética destoantes daqueles da sociedade circundante. E isso não estava isento de riscos. Preocupada com esse fato, a Igreja foi desenvolvendo um tempo de preparação para as pessoas que desejavam ser batizadas, querendo integrar-se à comunidade cristã. Na época de Justino de Roma (primeira metade do século 2), por exemplo, essa preparação consistia de uma paulatina introdução no modo de vida das cristãs e dos cristãos, instruções, jejum e orações.

Na Tradição apostólico, de Hipólito de Roma, encontramos uma descrição detalhada da preparação batismal e do batismo, como vinham sendo praticados em Roma desde o ano de 170. Essa preparação para o batismo, chamada cotecumenoto, dividia-se em duas etapas: o catecu-menato propriamente dito e aquilo que se denomina o tempo de preparação próximo. Ambas as etapas consistiam basicamente do seguinte:

Para que uma pessoa ingressasse no catecumenato, devia ser postulada e apresentada diante dos catequistas por alguém da comunidade que pudesse responder por ela, um padrinho. Em seguida, essa pessoa era submetida a uma série de perguntas e exames de consciência. Dessa maneira, o catequista procurava conhecer diferentes aspectos que tinham a ver com a vida familiar da pessoa, com a forma de ela ganhar seu sustento e com as motivações que a levavam a postular o batismo. No caso de exercer algum ofício que a envolvesse em atividades imorais, bélicas ou idolátricas, devia abandoná-lo e mudar seu estilo de vida. Ou seja, a pessoa que quisesse ser admitida na Igreja devia adotar uma forma e um estilo de vida considerados cristãos. Uma vez aprovada, essa pessoa postulante entrava no catecumenato e passava a ser uma catecúmena. Essa etapa podia ter até três anos de duração. Durante esse tempo, cada catecúmeno era acompanhado por seu padrinho e participava de diferentes atividades da comunidade. Entre elas, do cuidado de pessoas pobres e necessitadas, das celebrações regulares da comunidade (mas não da eucaristia), de reuniões de instrução, as quais se realizavam dentro de um marco litúrgico, e de orações. O conteúdo e a meta das instruções tinham a ver com a aprendizagem e a vivência da fé professada pela Igreja. Especial importância era atribuída aos conteúdos éticos.

Quando o catecúmeno considerava estar pronto para ser batizado, apresentava-se novamente, junto com seu padrinho, poucas semanas antes do batismo (este se realizava normalmente na Páscoa), diante do catequista ou do bispo. Este procurava saber se o catecúmeno havia vivido com dignidade, se havia honrado as viúvas, visitado os enfermos e praticado boas obras (Tradição apostólica, 42, p. 50). Ou seja, o que se buscava conhecer era a vida da pessoa e não tanto seus conhecimentos teóricos e doutrinais.

Em seguida, o catecúmeno entrava na etapa da preparação próxima. Durante a mesma, realizava-se um aprontamento intensivo para a celebração batismal. Este consistia de exorcismos diários, de instruções sobre o Evangelho, de imposições de mãos e de orações. Próximo ao dia do batismo, o próprio bispo realizava o exorcismo e marcava, normalmente com óleo, a fronte, os ouvidos e o nariz com o sinal da cruz. Na Sexta-Feira e no Sábado Santos, os catecúmenos jejuavam acompanhados por pessoas da comunidade. De sábado para o domingo, permaneciam em vigília, ouvindo leituras e instruções. Finalmente, com o primeiro cantar do galo, dirigiam-se ao lugar onde se localizava a piscina batismal.

A liturgia do batismo propriamente dita desenrolava-se em três etapas: a) a lavagem batismal, b) a imposição de mãos e a unção da fronte, c) a celebração da eucaristia.

A lavagem batismal era acompanhada por uma série de ações: a oração sobre a água, o desvestir-se, a renúncia, a unção com óleo, a entrada na água, a lavagem com profissão de fé, a saída da água e a unção com óleo de ação de graças. Em seguida, os batizandos se vestiam e dirigiam-se ao lugar onde se encontrava reunida a comunidade. Lá, eram recebidos pelo bispo, que lhes impunha as mãos, untava-lhes a fronte com óleo de ação de graças e lhes dava o beijo da paz. Oravam, então, com toda a comunidade reunida e partilhavam mutuamente o beijo da paz. Por fim, as pessoas recém-batizadas participavam pela primeira vez da eucaristia. Além do pão e do vinho, recebiam leite e mel.

Observa-se, pois, que durante aquela época predominava claramente a prática das virtudes cristãs, como forma de preparação para a vida cristã e como fonte de conhecimento. Não importava tanto o conhecimento abstrato e doutrinal, mas antes a vida de participação cristã na comunidade e no mundo. Como já foi mencionado, isso incluía o cuidado e a ajuda às pessoas pobres e necessitadas.

Batismo e educação na época pós-constantiniana

Para este período, baseamo-nos especialmente em Ambrósio de Milão (falecido em 397), Cirilo de Jerusalém (falecido em 386), Crisóstomo de Antíoquia (349-407) e no Itinerário do peregrinação de Egéria (fins do século 4 a inícios do século 5).

O governo do imperador Constantino estendeu-se de 306 a 337. No decorrer da chamada era constont/níono, o cristianismo passou a ser não apenas uma religião oficialmente tolerada, mas tornou-se mesmo algo como a religião da moda. Isso trouxe importantes consequências para a Igreja. Entre elas, ocorreram mudanças na práxis batismal. Essas tinham a ver com o significativo aumento do número de pessoas que desejavam tornar-se cristãs. Em muitos casos, o desejo de vir a ser cristão ou cristã devia-se mais a razões sociais (p. ex., casamento) e políticas (p. ex., cair nas graças do imperador) do que a motivos de fé.

Diante dessa situação, a Igreja acentuou as exigências para as pessoas que desejavam ser batizadas, assim como as advertências para a conversão e a penitência. Em razão disso, muitas pessoas postergavam seu batismo até seu leito de morte.

Essa situação fez com que o catecumenato deixasse de ser uma etapa de preparação como durante o período pré-constantiniano. Todo o esforço pedagógico passou a concentrar-se na etapa da preparação próxima, na celebração do batismo propriamente dita e na semana pós-pascal. O ato decisivo para a práxis batismal já não era a admissão ao catecumenato, mas o ato de alguém registrar-se para o batismo. Para tanto, a pessoa deveria apresentar-se, uns 50 dias antes da Páscoa, acompanhada de um padrinho ou de uma madrinha, diante do bispo ou do catequista. Este interrogava-a sobre os motivos que a haviam levado a solicitar o batismo e para conhecer diferentes aspectos de sua vida. Com o começo do tempo da Paixão, iniciava-se a etapa da preparação próxima. Durante a mesma, os candidatos e as candidatas participavam de uma série de exercícios (jejuns, orações, penitência) e de instruções catequéticas, e eram submetidos regularmente a exorcismos.

A celebração do batismo ocorria na noite do sábado para o domingo de Páscoa. Assim como no período anterior, ela consistia de: a) a lavagem batismal, b) a imposição de mãos e a unção da fronte, c) a celebração da eucaristia. O desenvolvimento da celebração era basicamente o mesmo como no período pré-constantiniano, podendo ocorrer alterações conforme a época e o lugar. Observa-se um desenvolvimento intenso e significativo de gestos e ritos.

Surpreende a forte ênfase colocada em determinadas ações e posturas corporais, como, por exemplo, nos exorcismos (os candidatos se ajoelhavam, todos com o mesmo tipo de veste) e na renúncia e adesão (voltando-se para o Ocidente, os candidatos renunciavam às suas velhas amarras, e, olhando para o Oriente, aderiam a Cristo).

O que chama a atenção, nesse período, é que determinadas informações relacionadas à celebração do batismo (a lavagem, a imposição de mãos, a unção pós-lavagem e a eucaristia) eram dadas apenas depois do batismo propriamente dito, durante a semana da Páscoa. A entrega dessas informações acontecia com as catequeses pós-batismais ou mistagógicas, das quais toda a comunidade participava. Através dessas catequeses, o bispo explicava o significado dos diferentes gestos, ritos e ações realizados durante a celebração batismal. As razões dessa prática eram, entre outras, pedagógicas.

Fundamentavam-se na convicção de que determinadas aprendizagens se realizam melhor através da vivência do que de explicações teóricas e doutrinais. Segundo Ambrósio de Milão, para aquelas ações em que as pessoas batizandas eram meras receptoras, ou seja, para o próprio batismo e para a eucaristia, não se recomendava uma catequese prévia, pois esta poderia até mesmo produzir uma compreensão equivocada de tais ações, caso as pessoas se julgassem conhecedoras dos sacramentos, antes de tê-los experimentado (Os sacramentos 1,1 e Os mistérios 2). Cirilo de Jerusalém, por sua vez, dirigindo-se aos recérn-batizados na segunda-feira após o batismo, afirma: Mas como sei bem que a vista é mais fiel que o ouvido, esperei a ocasião presente, para encontrar-vos, depois desta grande noite, mais preparados para compreender o que se vos fala (...). (Catequese mistagógíca 1,1).

Aspectos a serem destacados

A vida cristã, como uma vida a partir de e em resposta à atuação salvífica de Deus em Jesus Cristo, foi, desde o começo, motivo de preocupação pedagógica da Igreja. Isso, como vimos, não se referia tanto à aprendizagem de determinadas afirmações doutrinais e conceituais, mas tinha a ver, antes, com a participação nas atividades da omunidade (celebrações, o cuidado e o amparo a pessoas necessitadas), a exercícios espirituais (jejum, oração) e a uma conduta de acordo com o que se considerava ser uma vida própria de cristãos e cristãs.

É nteressante observar que os diversos temas que compõem a compreensão do batismo não permaneciam como uma realidade abstraía que precisava ser explicada em termos doutrinais. Assim, por exemplo, a inclusão no corpo de Cristo e a incorporação à vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo se expressavam através da lavagem batismal, da unção pós-lavagem, do ósculo ou abraço da paz, dado pelo bispo e pela comunidade, e da celebração da eucaristia. O perdão dos pecados e o renascimento eram manifestos pela lavagem batismal. A doação do Espírito Santo era realizada através da imposição de mãos ou da unção realizada pelo bispo depois da lavagem. Isto quer dizer: a compreensão do significado do batismo (em sentido amplo) e, com ele, da eucaristia se dava, em primeiro lugar, através da vivência e não de explicações doutrinais.

Durante todo o processo, que ia desde o desejo de ser batizado até o batismo em si, a pessoa contava com o apoio, o acompanhamento e a orientação de um padrinho ou de uma madrinha. Além disso, em diferentes ocasiões (catequeses, jejuns) a comunidade acompanhava os futuros e as futuras fiéis. Dessa maneira, a etapa da preparação próxima, a própria celebração e as catequeses pós-batismais eram ocasiões em que as pessoas batizadas continuavam a aprimorar sua formação cristã e rememoravam seu próprio batismo.

Questionamentos e estímulos para a práxis batismal da atualidade

Vida cristã comunitária a partir do batismo

O batismo não é uma experiência ou um ato momentâneo. Ele se estende e tem consequências para a vida toda. A apropriação do significado do batismo ato gratuito de Deus - se dá na vivência diária, mediante a fé. Assim se expressa
Lutero: vida cristã outra coisa não é que diário batismo começado uma vez e sempre continuado (Catecismo Maior, IV, 65). Dia após dia fazemos a experiência do que significa tornar-se filho e filha de Deus e pertencer ao corpo de Cristo. É a partir da vivência diária que se dá o crescimento na fé, exercitado na comunhão em Cristo e na relação comunitária.

A necessidade de uma educação cristã que vise a vivência diária do batismo, ao longo de toda a vida, exige, da comunidade cristã, ações e medidas que possibilitem o desenvolvimento do processo de vivência batismal. Nessas ações e medidas destacam-se duas dimensões fundamentais: a pedagógica e a litúrgica.

No campo pedagógico, a Igreja dos primeiros séculos organizou o catecumenato, através do qual desenvolveu um processo de educação que preparava para a vida cristã, tendo em vista a vivência do batismo.

Da mesma forma, no campo litúrgico, essa Igreja se preocupou em criar um rito que expressasse o significado total do batismo. Como vimos, o rito batismal, com suas três etapas, era muito impactante e rico em ações que valorizavam a experiência realizada: a) o banho batismal - para a participação na vida, morte e ressurreição de Jesus; b) a imposição de mãos e unção com óleo (selo)-para a recepção do Espírito Santo; c) a participação na mesa da eucaristia para a recepção e i ncorporação plena no corpo de Cristo.

Conforme o evangelista Mateus, a comunidade cristã recebeu a incumbência de batizar e ensinar. Portanto, essa comunidade é responsável pela administração do sacramento do batismo bem como pelo processo que conduz a formação das pessoas batizadas.

Cabe-nos, então, perguntar:

* No campo pedagógico, como são planejadas as atividades educacionais de nossas igrejas e comunidades? Qual é o fundamento dessas ações educacionais? Existe uma perspectiva batismal no planejamento educacional de nossas igrejas e comunidades?

* No campo litúrgico, que importância damos aos ritos batismais? Em que medida os ritos praticados expressam a variedade de significados e a profundidade vivencial do batismo?

A comunidade cristã, como aquela que vive a partir do batismo e tem o batismo como sinal concreto do ato salvífico de Deus, é chamada a reorientar o trabalho comunitário, colocando o batismo no centro de suas atividades, considerando-o a perspectiva, o ponto de partida de tudo o mais.

A reorientação do trabalho comunitário a partir do batismo certamente leva a uma revisão das atuais práticas litúrgica e pedagógica.

Recuperação da expressão litúrgica e da unidade do rito batismal

Examinando o rito batismal praticado hoje, percebe-se uma redução nas ações simbólicas, o que, por sua vez, implica um esvaziamento do significado e do valor do batismo para a vida cristã. Essa redução talvez seja resultado do pouco significado e valor atribuídos ao batismo, na atualidade. Se o batismo é um ato fundamental para a vida, isso precisa ser expresso liturgicamente.

Ao analisar os ritos batis-maís atuais, Eugene Brand diz: Na medida em que ele não mais expressa a passagem de fora da comunhão para dentro dela como sendo um passo de tremenda importância; na medida em que não fornece um evento-base a partir do qual pode ser derivado todo o complexo de conceitos batismais; e na medida em que não é obviamente uma ação da Igreja toda, o rito trai aqueles que são batizados. (Brand, 49).
O que chama a atenção no rito atual do batismo é o desmembramento daquilo que originalmente formava uma unidade: a lavagem batismal (batismo), a imposição de mãos e a unção, e a eucaristia.

James White critica a quebra de unidade que se verifica quando a participação na Ceia é condicionada à obtenção de êxito num curso preparatório, como é o caso da confirmação realizada na adolescência: Qualquer coisa que implique a condição de membro parcial ou membro em preparação é uma contradição em si. Quando Deus age, não é nada parcial ou preparatório. (White, 174).

Educação cristã a partir do batismo

Entendemos educação cristã como o processo educativo que envolve toda a pessoa em suas dimensões cognitivas, afetivas e éticas (intelectual, emocional, espiritual e comportamental). Ela seria reduzida se fosse entendida apenas como uma instrução racional de conceitos doutrinais e abstratos. Educação cristã se refere à preocupação pedagógica da Igreja, no sentido de que cada pessoa viva sua vida cristã como uma vida a partir de e em resposta à atuação de Deus em Jesus Cristo. Na Igreja Antiga, essa educação acontecia através da participação nas atividades da comunidade (proteção e amparo de pessoas necessitadas) e de uma vida conforme com os ensinamentos recebidos (formação ética, moral e diaconal). Isso ocorria antes, durante e depois do batismo, ficando, assim, marcada a estreita relação entre ensino e prática cotidiana da comunidade.

A necessidade de uma educação cristã em perspectiva batismal se dá a partir da própria compreensão (e do alcance) da práxis batismal e da pedagogia implícita nela. O processo de aprendizagem relativo ao próprio batismo - a aprendizagem do ser cristão - tem a ver com a vivência diária de cada um dos significados do batismo desenvolvidos no início desta matéria. Ao assumir a tarefa de batizar - e num contexto em que a maioria dos batismos são de bebés - a comunidade assume a responsabilidade por uma educação cristã que possibilite a todas as pessoas viver a partir de e em função de seu batismo. Isso significa que a comunidade cristã precisa desenvolver uma práxis pedagógica que possibilite uma contínua apropriação do significado do batismo.

Essa educação não se limita a uma certa idade ou a um grupo determinado. Não é um ato pontual, que pode dar-se por concluído em algum momento da vida. Ela é permanente e acompanha as pessoas, ajudando-as a reconhecer e a assumir a abrangência do batismo e a viver seu dia-a-dia de acordo com ele. Ou seja, não se trata apenas de preparar a candidata ou o candidato, ou, no caso de bebés, pais, mães, padrinhos e madrinhas. Trata-se, também, de acompanhar essas pessoas posteriormente. Trata-se, sobretudo, porém, de enfocar todo o trabalho pastoral e educativo para toda a comunidade a partir e em função do batismo. Dessa maneira se lograria ressignificar a importância do batismo para nós, hoje.

Nota:

1 - Pedro Kalmbach redigiu a primeira parte desta matéria, sobre Batismo e educação na Igreja dos primeiros séculos, assim como as janelas com explicações sobre diversos elementos litúrgicos do rito batismal. Carla Ostrowski e Erli Mansk são responsáveis pela segunda parte, com os questionamentos e estímulos para a praxrs batismal da atualidade.

Bibliografia citada:

- Ambrósio. Os sacramentos e os mistérios. In: ARNS, Paulo Evaristo. Os sacramentos e os mistérios : Santo Ambrósio. Petrópolis: Vozes, 1972. (Fontes de Catequese, 5).
- BRAND, Eugene L. Batismo: uma perspectiva pastoral. São Leopoldo: Sinodal, 1982.
- Cirílo de Jerusalém. Catequeses mistagógicas. In: VIER, Frederico. Catequeses mistagógicas: São Cirilo de Jerusalém. Petrópolis: Vozes, 1977. (Fontes de Catequese, 12).
- Hipólito. Tradição Apostólica. In: NOVAK, Maria da Glória (trad.); GIBIN, Maucyr (intr.). Tradição Apostólica de Hipólito de Roma: liturgia e catequese em Roma no século III. Petrópolis: Vozes, 1971. (Fontes de Catequese, 4).
- WHITE, James F. Introdução ao culto cristão. São Leopoldo: Sinodal, 1997.

Fontes de fotos e ilustrações desta matéria:

Capa: Zeitschrift für Gottesdienst und Predigt, Gütersloh, Ano 19, n. 2, p. 12, 2001. - 1. Ibid., p. 15. - 2. Casiano FLORISTÁN, Catecumenoto: história e pastoral da iniciação, Petrópolis: Vozes, 1995, p. 63. - 3. Adalbert-G HAMMAN, Os podres da igreja, 3 ed, Soo Paulo: Paulinas, 1980, p. 191. - 4. Andrea DUÉ, Atlas histórico dei cristianismo, Madrid: San Pablo, 1998, p. 28. - 5. Adalbert-G HAMMAN, Os padres da igreja, 3 ed., São Paulo: Paulinas, 1980, p. 201. 6. Id., ibid., p. 171. - 7. Zeitschrift für Gottesdienst und Predigt, Gütersloh, Ano 19, n. 2, p. 14, 2001. - 8. Arquivo da Casa Matriz de Diaconisas.

Autores:

Carla Ostrowski, da Iglesia Evangélica Del Rio de Ia Plata, é musicista e mestra em Teologia pela EST;

Erli Mansk, catequista da IECLB, é mestra em Teologia pela EST;

Pedro Kalmbach, é pastor da Iglesia Evangélica Del Rio de Ia Plata e doutorando no Instituto Ecumênico de Pós-Graduação da EST.


Uma Igreja que nasce do batismo precisa empenhar-se por recuperar a expressão litúrgica e a unidade do rito batismal.

Uma Igreja que nasce do batismo precisa empenhar-se por recuperar a expressão litúrgica e a unidade do rito batismal.

A vida cristã a partir do batismo tem a ver com o cuidado e o amparo a pessoas necessitadas.

É a partir da vivência diária que se dá o crescimento na fé, exercitado na comunhão em Cristo e na relação comunitária.

Pia batismal do século VI, concebida como uma pequena piscina, com escadas que descem até a água.

O batismo regenera, renova, marca o início de uma nova vida.

ENTENDEMOS EDUCAÇÃO CRISTÃ COMO O PROCESSO EDUCATIVO QUE ENVOLVE TODA A PESSOA EM SUAS DIMENSÕES COGNITIVAS, AFETIVAS E ÉTICAS. ELA SERIA REDUZIDA SE FOSSE ENTENDIDA APENAS COMO UMA INSTRUÇÃO RACIONAL DE CONCEITOS DOUTRINAIS
E ABSTRATOS. O BATISMO E COMO O NASCIMENTO NATURAL: E BÁSICO PARA TUDO.
(Eugene Brand)

A COMUNIDADE CRISTÃ PRECISA DESENVOLVER UMA PRÁXIS PEDAGÓGICA QUE POSSIBILITE UMA CONTÍNUA APROPRIAÇÃO DO
SIGNIFICADO DO BATISMO.

O BATISMO SÓ PODE MUDAR NA MEDIDA EM QUE A IGREJA TAMBÉM MUDAR. A REFORMA DO BATISMO É A REFORMA DA IGREJA.
(Robert Leuenberger)

NINGUÉM NASCE CRISTÃO OU CRISTÃ, MAS TORNA-SE CRISTÃO OU CRISTÃ.
(Tertuliano)

A COMPREENSÃO DO SIGNIFICADO DO BATISMO E, COM ELE, DA EUCARISTIA SE DAVA, EM PRIMEIRO LUGAR, ATRAVÉS DA VIVÊNCIA E NÃO
DE EXPLICAÇÕES DOUTRINAIS.

Cirilo de Jerusalém, dirigindo-se às pessoas que se preparavam para o batismo: A CATEQUESE É COMO UM EDIFÍCIO: SE NÃO APROFUNDAMOS E
COLOCAMOS O FUNDAMENTO, SE NÃO PROCEDEMOS ORDENADAMENTE À CONSTRUÇÃO DA CASA PARA QUE NÃO HAJA GRETA E A CONSTRUÇÃO NÃO MOSTRE FENDAS, A OBRA SE TORNA RUINOSA E SE PERDE DE TODO O TRABALHO ANTERIOR. É PRECISO PÔR PEDRA SOBRE PEDRA, FIADA SOBRE FIADA.TIRANDO O SUPÉRFLUO:ASSIM SE LEVANTARÁ UM EDIFÍCIO HARMONIOSO. DO MESMO MODO TRAZEMOS-TE AS PEDRAS DO CONHECIMENTO. É PRECISO ESCUTARTUDO O QUE SE REFERE AO DEUS VIVO; É PRECISO OUVIR O QUE CONCERNE AO JUÍZO; É PRECISO OUVIR O QUE SE RELACIONA COM CRISTO; É PRECISO ESCUTARAS COISAS REFERENTES À RESSURREIÇÃO.

CADA CATECÚMENO ERA ACOMPANHADO POR SEU PADRINHO E PARTICIPAVA DE DIFERENTES ATIVIDADES DA COMUNIDADE. ENTRE
ELAS, DO CUIDADO DE PESSOAS POBRES E NECESSITADAS, DAS CELEBRAÇÕES REGULARES DA COMUNIDADE (MAS NÃO DA EUCARISTIA),
DE REUNIÕES DE INSTRUÇÃO, AS QUAIS SE REALIZAVAM DENTRO DE UM MARCO LITÚRGICO, E DE ORAÇÕES.

TUDO INDICA QUE NOS TEMPOS NEOTESTAMENTÁRIOS JÁ EXISTIA UMA CERTA RELAÇÃO ENTRE BATISMO Ê EDUCAÇÃO, TANTO NO PROCESSO PREPARATÓRIO PARA O BATISMO QUANTO NA FASE DA VIVÊNCIA BATISMAL


Unções

A lista que segue dá uma ideia da variedade de unções vinculadas ao batismo e de suas compreensões, na Igreja dos primeiros séculos:

Unção de todo o corpo, antes da lavagem batismal: é uma unção de exorcismo, cuja função é proteger contra o mal. (Tradição apostólica, Crisóstomo de Antioquia, Cirilo de Jerusalém, Ambrósio de Milão).

• Unção de todo o corpo, após a lavagem batismal: é uma unção para o sacerdócio, equivalente à unção de pessoas especiais, como reis e sacerdotes. Esta unção ressalta a pertença a Cristo. (Tertuliano, Tradição apostólica).
Unção da fronte, após a lavagem batismal: é uma unção relacionada ao dom do Espírito Santo. (Tradição apostólica).
Unção da fronte com mirra, após a lavagem batismaf: mirra é uma mistura de óleo de oliva com diferentes substâncias aromáticas. É entendida como unção que simboliza a doação da graça necessária para entender os segredos de Deus e como unção real e sacerdotal. (Ambrósio de Milão).
Unção com mirra, após a lavagem batismal: entendida como união com Cristo e doação do Espírito Santo. (Cirilo dejerusalém).

Renúncia e adesão

Antes da lavagem batismal, as pessoas a serem batizadas renunciavam a suas crenças religiosas anteriores (a Satanás e seus servidores), a costumes e práticas que eram considerados indignos. Imediatamente após a renúncia, manifestavam sua adesão a Cristo.


Exorcismos batismais

A prática dos exorcismos batismais na Igreja Antiga deve ser interpretada a partir da cosmovisão dualista da época. De acordo com ela, existe, no cosmos, a luta constante entre o anjo da obscuridade (Satanás e seus demónios) e o príncipe da luz (Deus e seus mensageiros), e essa luta se reflete no coração das pessoas. Para serem batizadas, as pessoas precisavam libertar-se do poder do anjo da obscuridade, o que só se conseguia de maneira plena através de exorcismos.

Imposição de mãos e unção do fronte

A Tradição apostólica descreve o seguinte: depois da lavagem batismal, as pessoas batizadas se uniam à comunidade, onde eram recebidas pelo bispo. Este lhes impunha, então, as mãos, pedindo a Deus que derramasse seu Espírito sobre elas. Em seguida, traçava o sinal da cruz, com óleo, sobre a fronte de cada pessoa batizada. Através dessa unção era acentuada a relação dessa pessoa com o Espírito Santo.

Lavagem batismal

Segundo a Tradição apostólica, o batismo começava com a oração sobre a água. Em seguida, as pessoas que seriam batizadas se despiam e realizavam a renúncia. Catequistas, diáconos ou diáconas untavam-nas, então, com óleo de exorcismo. Em continuidade, entravam na água, acompanhadas de um diácono ou de uma diácona e eram batizadas. Para tanto, quem presidia o batismo lhes impunha as mãos e dirigia-lhes uma pergunta tríplice (Tu crês em Deus Pai .... em Jesus Cristo .... No Espírito Santo ... ?). A cada pergunta, as pessoas respondiam creio e eram batizadas por imersão. Logo saíam da água, eram untadas com óleo de ação de graças, vestiam-se e entravam na igreja para juntar-se à comunidade. A lavagem batismal era realizada separadamente para mulheres e homens.


 

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Autor(a): Carla Irina Ostrowski, Erli Mansk e Pedro Kalmbach
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Crianças na Ceia do Senhor / Ano: 2008
Natureza do Texto: Artigo
ID: 14009
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Deus nos conhece completamente.
2Coríntios 5.11
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