Ben(mal)dito | Marcos 11.1-11

Domingo de Ramos

09/04/2022

 

Amados irmãos, amadas irmãs,

quando vocês escutam a palavra “rei”, que imagens surgem nas suas cabeça? Quem sabe, passamos a rememorar velhos contos da infância sobre reinados pomposos, luxuosos e cheios de poder, com palácios deslumbrantes, cheios de criados trabalhando incansavelmente para agradarem à sua majestade. Talvez, apareça em nossas mentes a imagem de alguém sentado em um belíssimo trono, com uma linda coroa em sua cabeça e um grande roupão vermelho. Enfim, poderíamos imaginar ainda muitas coisas sobre esse assunto. Além disso, livros, filmes, séries e novelas não esgotam o assunto ao criarem ficções memoráveis de grandes reis, rainhas e reinados.

Fato é que um reinado sempre está associado ao poder, ao luxo e ao rigor. Não é à toa que historicamente reis e rainhas vivessem em castelos que eram verdadeiras fortalezas inabaláveis e cercadas de soldados para sua defesa. Reis, rainhas, príncipes e princesas que vivessem em um castelo eram servidos com todo o luxo. Além disso, para se portarem adequadamente perante a sociedade, recebiam uma rigorosa educação para bons costumes.

De um rei, exige-se que seja sábio, forte e corajoso. Um rei não deve ter medo de defender o seu próprio povo e nem timidez em demonstrar força aos seus vizinhos. Ao mesmo tempo, um rei precisa de sabedoria para equilibrar todas as suas ações, evitando, assim, a ruína do seu reinado. Além disso, um governante sábio aprende a ler o tempo e a prever o que está por vir. Nicolau Maquiavel diz no seu livro “O Príncipe”:

Um príncipe sábio deve observar tais regras e nunca ficar ocioso nos tempos de paz, mas, sim, aumentar os seus recursos com habilidade, de tal forma que estarão à sua disposição na adversidade, a fim de que, quando a sorte mudar, ele esteja preparado para resolver seus problemas.1

Além disso, conforme Maquiavel, “a melhor fortaleza que pode existir é não ser odiado pelo povo, porque, mesmo se você tenha fortificações, elas não o salvarão se o povo o odiar, pois nunca faltarão estrangeiros para ajudar o povo que está contra você”2. Enfim, o poder é algo delicado. Os reinos humanos sempre estão intrinsecamente ligados ao poder. Isso é inevitável!

O Reino de Deus, porém, não é assim. Marcos nos traz um relato bastante “estranho” e que parece não combinar em nada com o nosso imaginário sobre reis e reinados – e não combina, de fato. Nós temos diante de nós um rei que não se encaixa em nenhuma das exigências humanas para isso. E ainda há a ousadia de dizer que sua entrada em Jerusalém foi “triunfal”: temos um

rei sobre um jumento que nem mesmo lhe pertence e que ele precisa devolver depois do uso. Um rei sem coroa, sem cetro, sem espada, sem corte. Seu caminho não está coberto de ricos tapetes, mas de panos velhos, as vestes de um povo sofrido e empobrecido. Roupas de gente peregrina, suarenta.3

É com espanto que olhamos para o Novo Testamento ao descobrirmos que o próprio Deus toma um caminho bem diferente do caminho do ser humano: enquanto os homens querem o poder, Deus assume a fraqueza; enquanto os homens querem subir, Deus desceu; enquanto os homens invadem outro território com tanques e aviões, Deus entrou em Jerusalém montado em um jumentinho. É uma imagem chocante! Este que está montado em um jumentinho não é apenas um rei, mas o próprio Deus que se faz gente. “O animal não poderia pelo menos ser um cavalo?”, poderíamos questionar. Dessa forma, foi cumprida a profecia de Zacarias 9.9: “Alegra-te muito, ó filha de Sião! Exulte, ó filha de Jerusalém! Eis que o seu rei vem até você, justo e salvador, humilde, montado em um jumento, num jumentinho, cria de jumenta”. Deus não entrou no mundo para nos esmagar com seu poder, mas para nos abraçar e levantar em seu amor. Ele se fez pobre para compreender o que é a nossa pobreza; ele se fez fraco para compreender as nossas fraquezas; Deus se fez um de nós para compreender como somos. Enquanto o ser humano briga pelo pequeno tempo de poder que pode ter nesse mundo, Deus abriu mão da sua glória para se fazer fraco, mesmo sendo o dono de toda a eternidade.

Fato é que o relato de Marcos incomoda, principalmente quem estava, está ou estará no poder, pois a fome pelo poder não combina com o Reino de Deus. O Deus que se faz fraco incomoda quem almeja o poder a todo custo. O polêmico teólogo alemão Nietzsche diz:

O Antigo Testamento – sim, este é outra coisa: todo o respeito perante o Antigo Testamento! Nele encontro grandes homens, uma paisagem heroica e algo raríssimo sobre a terra, a incomparável ingenuidade do coração forte; mais ainda, encontro um povo. No Novo, porém, nada senão pequeninas manobras de seitas, nada senão rococó da alma, nada senão volutas, tortuosidades e bizarrias, mero ar de conventículo.4

Com essas palavras, Nietzsche quer dizer que enquanto no Antigo Testamento encontramos homens fortes, no Novo Testamento encontramos apenas o Deus que se fez fraco e que acha triunfante entrar em Jerusalém montado em um jumentinho. Por isso Nietzsche despreza Jesus e o cristianismo, pois o cristianismo tomou partido pelos pobres e fracos. Nietzsche diz ainda, em claro deboche: “Se faz bem ao calçar luvas quando se lê o Novo Testamento. A proximidade de tanta imundície quase obriga a tanto”5. Nietzsche rejeita o cristianismo porque, segundo ele, essa concepção de um Deus que se faz fraco impede a humanidade de avançar rumo ao que é mais forte e belo. Para Nietzsche, os fracos da sociedade deveriam ser simplesmente deixados para morrer, como já anunciava a República de Platão antes de Cristo.

Por isso, precisamos colocar a nossa esperança no Cristo certo. Esperança errada gera uma expectativa errada que, por sua vez, leva à frustração. Os judeus aguardavam um rei nos moldes do Antigo Testamento, mais especificamente nos moldes do rei Davi: um rei que ampliaria as fronteiras, libertaria os judeus da opressão estrangeira (agora, Roma) e que traria paz ao seu povo. Enfim, o povo esperava um novo Davi. Porém, esperavam tanto por alguém como Davi que, quando o próprio Deus desceu até eles, não o reconheceram. Jesus não satisfez as suas expectativas. O nome de Jesus nunca deve ser usado para justificar o poder, seja o poder de quem for, pois o reino de Jesus não combina com o poder humano, tão manchado pelo pecado, pela idolatria e pela corrupção.

Jesus é aclamado, mas não é compreendido. Para Jesus, o povo utilizou lindas palavras de exaltação. Eles disseram “Hosana!”, “Bendito”, “chegou a hora”. Porém, lhes faltou compreender que do lado de cada uma destas palavras estava uma outra: cruz.6  E as mesmas pessoas que agora dizem “Hosana”, “Bendito” e “chegou a hora” em glorificação a Jesus, dirão logo depois: “Crucifica-o! Crucifica-o!” Por quê? Porque Jesus não correspondeu às suas expectativas humanas de poder.

Em seu imaginário, o povo imaginava Jesus assumindo o trono em Jerusalém e derrubando o trono romano. Porém, a missão de Jesus não era essa. Sua missão era assumir o trono da cruz, ter em sua cabeça uma coroa de espinhos e inaugurar um reino que não está nos moldes deste mundo, pois é o próprio Reino de Deus onde os valores são outros. Quais valores? Estes aqui:

• Humildade: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.” (Mateus 5.3);

• Sensibilidade: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” (Mateus 5.4);

• Autocontrole: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.” (Mateus 5.5);

• Justiça: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.” (Mateus 5.6);

• Misericórdia: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.” (Mateus 5.7);

• Inocência: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus”. (Mateus 5.8);

• Paz: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus”. (Mateus 5.9);

• Verdade: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus”. (Mateus 5.10).

São estes os valores que levam Jesus à cruz. Os poderosos do mundo veem Jesus como uma ameaça, mesmo que ele não tivesse ameaça alguma. Até hoje, estes valores conflitam com os valores do mundo onde só há ambição e cobiça pelo poder. Em um mundo onde as relações são marcadas somente a partir de interesses, não há espaço para os valores do Reino de Deus.

Amados irmãos, amadas irmãs,

o que aprendemos na pregação de hoje?

1) O seu rei vem até você: Jesus é Rei. Não nos nossos moldes, mas conforme o Reino de Deus. Antes mesmo de querermos ir até ele, ele mesmo já veio até nós com graça e amor. Portanto, nos prostremos diante dele e aceitemos seu exemplo de humildade e amor;

2) Justo e Salvador: Enquanto os reis do mundo pretendem manter o poder em suas mãos o máximo que puderem, Jesus veio para morrer. Esta era sua missão. Desta forma, ele matou o pecado, a morte e o inferno. Confessando a Jesus como único e suficiente Senhor e Salvador, somos justificados e salvos pela graça;

3) Humilde: O Deus rico se fez pobre para que os pobres fossem transformados em ricos. Porém, não estamos falando de dinheiro, mas da abundância da vida e da graça de Deus. Como nos era impossível subir até Deus, então Deus se fez humilde ao descer até nós;

4) Montado em um jumento, num jumentinho, cria de jumenta: a ostentação e o consumismo não fazem parte do Reino de Deus. Ao contrário, quem pertence a esse reino busca apenas aquilo que necessita, sem a intenção de causar inveja a outras pessoas. Além disso, os bens são partilhados para que todos tenham uma vida digna e abundante.

Portanto, não olhemos para os poderosos que não se cansam de nos iludir com suas falsas esperanças; olhemos para Jesus, pois nele nós podemos confiar. Ele é um rei humilde e acessível a todos nós. Vamos até ele, nosso Senhor e Salvador. Amém. 


DOMINGO DE RAMOS | VIOLETA | CICLO DA PÁSCOA | ANO C

10 de Abrl de 2022


P. William Felipe Zacarias


1 MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Hunter Books, 2011. p. 118.

2 MAQUIAVEL, 2011. p. 166.

3 BERNADINO SANTANA, Manuel. “Domingo da Paixão”. in: BATISTA DE SOUZA, Mauro (Coord.). Proclamar Libertação. v. 33. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2008. p. 163.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da Moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 124. Grifo do autor.

5 NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Anticristo – 1888. In: NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Obras escolhidas. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 412.

6 Cf. KRONBAUER, Adélcio. “Jesus: que rei é este?”. in: HOEFELMANN, Verner (Coord.). Proclamar Libertação. vol. 46. São Leopoldo: Sinodal/Faculdades EST, 2021. p. 141.


Autor(a): P. William Felipe Zacarias
Âmbito: IECLB / Sinodo: Rio dos Sinos / Paróquia: Sapiranga - Ferrabraz
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Área: Celebração / Nível: Celebração - Ano Eclesiástico / Subnível: Celebração - Ano Eclesiástico - Ciclo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: Marcos / Capitulo: 11 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 11
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 66619
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