Comunidade: espaço para sentir a graça e o amor de Deus

01/12/1997

Comunidade: espaço para sentir a graça e o amor de Deus

Anelise Lengler Abentroth

Olho para a nossa realidade e constato:

* Uma jovem mulher, com sua filha recém-nascida, escuta: — Apesar de ser uma menina.., não faz mal, ela tem saúde.

* Uma senhora, que perdeu o marido, participante da equipe de liturgia, ouviu: — Não deverias mais ler lá na frente do altar, pois podem pensar que estás procurando marido.

* No ensino confirmatório, os jovens são divididos em grupos para realizar uma atividade. A orientadora escuta: — Não queremos o Sidnei no nosso grupo. Ele é muito lento...

* Uma jovem, contente, correu ao encontro do pai para compartilhar com ele a mensagem que escreveu para homenagear as mães no culto, e escuta: — Por que você vai fazer esta mensagem? Isto é serviço do pastor.

* A esposa de um alcoolista entra na secretaria paroquial para inscrever seu filho para o batismo, e escuta: — A contribuição de vocês está atrasada cinco anos. Sem regularizar esta situação, não podemos realizar o batismo de seu filho.

Estas são algumas situações que, confrontadas com o tema — Aqui você tem lugar — levantam perguntas, como: Existe, realmente, em nossa comunidade, lugar para estas pessoas? Quantos outros exemplos de exclusão de famílias ou pessoas você pode acrescentar? Permita-me formular a pergunta desta forma: Quantos exemplos, você conhece, de famílias ou pessoas que foram acolhidas e encontraram na comunidade seu espaço de esperança, de ânimo e luz para enfrentar este sistema sócio-econômico que exclui e marginaliza? O lema bíblico de Efésios 2.19 afirma: Portanto, vocês não são mais estrangeiros nem estranhos. Agora vocês são cidadãos que pertencem ao povo de Deus e são membros da família dele. Todas as situações relatadas acima evidenciam que no Brasil há cidadãos e nem tão cidadãos. Alguns têm mais direitos, são melhores que os outros, ou são donos da situação. Quem mais sofre com isso? São as mulheres, as crianças, as pessoas portadoras de deficiência, os pobres, os negros, os índios.

O apóstolo Paulo aponta para uma outra realidade: a proposta de Deus, concretizada em Jesus Cristo. Esta proposta derruba as barreiras e muros que os sistemas humanos levantam para separar pessoas. A graça de Deus alcança a todos, sem distinção. E aí percebemos nossa incoerência: por que buscamos e nos importamos com algumas pessoas, enquanto que, com outras pessoas, nem lembramos se elas fazem parte da comunidade ou não? Com muita facilidade criamos regras e leis para excluir pessoas. Com a mesma facilidade aceitamos que famílias desempregadas, desestruturadas ou em dificuldades, se afastem de nossa convivência. A graça e o amor de Deus nos torna irmãos e irmãs, membros da mesma família. Há muita luta pelo poder em nossa família. Há irmãos que se sentam primeiro à mesa, saciam-se, consomem e deixam apenas migalhas para os irmãos que vêm depois. Ainda pensamos que os filhos-homens estão mais próximos do pai e da mãe, e portanto, são melhores, com mais condições. E assim continua restando às filhas o serviço de casa, a atitude de ouvir, porém não podem participar das decisões que realmente darão o rumo a seguir.

Abraçar este tema — Aqui você tem lugar — significa refletir profundamente sobre nossas regras, leis e sistema sócio-econômico, baseado na competição, no lucro, na indiferença, no preconceito. Este tema é por demais atual e desafiador, pois estamos afirmando que a nossa comunidade é o espaço onde as pessoas excluídas podem sentir a presença, o carinho, a graça e o amor de Deus. E podem sentir tudo isto por meio de gestos e ações concretas que lhes devolvem a cidadania e a comunhão.

A autora é pastora da IECLB e atua na Paróquia Evangélica de Ibirubá, RS

Ver ìndice do Anuário Evangélico - 1998
 


Autor(a): Anelise Lengler Abentroth
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Anuário Evangélico - 1998 / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1997
Natureza do Texto: Artigo
ID: 25840
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