Cantares 2.2-3;4.9-11;4.12-15;8.6-7

Alocução para Bênção Matrimonial

01/11/1993

1. Algumas considerações teológicas

(...) em nenhuma parte se lê que aquele que toma esposa recebe algo de graça divina. Pois também não existe sinal devidamente instituído no Matrimônio. Em nenhuma parte se lê que tenha sido instituído por Deus para significar algo. (...) Além disso, como o Matrimônio existiu desde o princípio do mundo e permanece entre os infiéis até hoje, não há razões para denominá-lo de sacramento da nova lei e exclusivo da Igreja. Os matrimônios dos pais não eram menos santos que os nossos, os dos infiéis são tão verdadeiros como os dos fiéis. Mesmo assim, eles não o consideram sacramento.1

As considerações a respeito do matrimônio, que podemos ler nesse escrito de Lutero, se mostram bastante humanas. No contexto da discussão dos sacramentos, Lutero combate uma série de princípios que limitavam a liberdade cristã, também no que diz respeito ao relacionamento conjugal. Algumas de suas ideias ali expostas escandalizariam com certeza moralistas até hoje. O luteranismo desenvolveu essas considerações de forma que nós hoje consideramos, na IECLB por exemplo, que o que fazemos na Igreja não é casamento, mas sim bênção matrimonial. Estamos, na verdade, atentos para o que isso significa?

Gostaria de fazer duas observações a esse respeito. A primeira quer ressaltar o aspecto positivo dessa formulação. Já a partir das considerações do próprio reformador, fica claro que não é a Igreja que casa. O que também confere com o caráter histórico da instituição do casamento. O fato de o matrimônio não ser considerado sacramento possibilita o reconhecimento de que ele não está atrelado à instituição eclesiástica. O que me parece muito bom.

Minha segunda observação é, na verdade, um questionamento que o meu contexto paroquial me faz a todo instante e que uma pessoa já me fez explicitamente. Há aqui grande quantidade de casais em regime de concubinato. Não sei se isso é uma crítica eficiente das mazelas do matrimônio, mas, sem dúvida, adquire um pouco a conotação de protesto. A pergunta é se a ligação que acaba tradicionalmente acontecendo entre o casamento civil e a bênção matrimonial não representa uma submissão indevida da Igreja ao poder do Estado.2 Para que a interpretação correta desse princípio luterano não venha a contradizer a liberdade cristã — com certeza um princípio ainda mais fundamental da fé evangélica —, é necessário que a reflexão se faça presente em cada passo da atividade pastoral.

2. Algumas considerações pastorais

Nunca gostei muito de realizar cerimónias de bênção matrimonial. Em grande parte devido a uma seriedade duvidosa com que a Igreja é procurada nessas ocasiões. Eu me perguntava se não havia um espaço demasiado para o fator estético em detrimento de um compromisso real das pessoas entre si e com Deus. Coisa de teólogo...

A pergunta era importante, no entanto. Em especial, pessoas de situação econômica mais elevada (embora não só essas!) mostram grande interesse em coisas que, a partir da compreensão bíblica, não passam de rudimentos do mundo. Penso em fotografias, filmagens, enfeites. A gente como pastor(a) não acaba sendo só um enfeite a mais? Essa era a preocupação.

Essa pergunta faz parte da prática que nos obriga a refletir. Comecei a encarar seriamente esse fator estético. E a considerar a chance que ele oferecia. Será que Deus não pode usar o belo para se revelar? Claro que não é só nem principalmente no belo que acontece a Sua revelação. Mas, talvez vez por outra, também seja. Nesse caso, também a cerimónia da bênção e as palavras da alocução deveriam se utilizar do elemento estético. Não que o objetivo seja o belo em si. Pelo contrário, trata-se de tentar transformar o belo em algo significativo. Nessa direção é que também apresento as considerações que seguem.

3. Algumas considerações sobre o texto bíblico

O que a mim particularmente sempre deixa pouco à vontade em relação a alocuções de bênção matrimonial é que a maioria dos textos tradicionalmente utilizados para essas ocasiões não trata do amor conjugal, l Co 13, Cl 3 ou l Jo 4, só para citar alguns exemplos, tratam do amor comunitário. Sempre fico com a desconfiança de que a utilização desses textos não faz jus nem ao que eles querem transmitir tampouco ao princípio luterano da distinção entre o casamento e a bênção. Parece que sempre se tenta achar no fim uma fundamentação bíblica para o matrimônio, que Lutero já denunciava como a tentação de sacramentalizar costumes humanos. Com isso não quero dizer que considero impossível a utilização desses textos, mas quero chamar a atenção para o seu uso cuidadoso e para o fato de que não temos, afinal, orientações na Bíblia para tudo o que pastoralmente nos é exigido.

Nesse sentido, considero fundamental o resgate do Cântico dos Cânticos. Não que ali se trate só de pessoas casadas ou noivas. Os textos não explicitam isso tão bem. Mas esse livro — aliás, também escandaloso para os moralistas, porque é baseado na realidade, assim como as considerações pastorais de Lutero — pelo menos trata do amor erótico entre pessoas. Não reprime o que, afinal de contas, é tão importante na vida humana. Só a canonização desse livro já deveria nos levar a profundas considerações teológicas a respeito da ética, da compreensão do matrimônio, da nossa atuação pastoral. Afinal de contas, além de tudo, ele nem fala de Deus! Pelo menos não daquela forma que separa o divino do profano. O amor de Deus se revela justamente no amor humano. Cantares fala de Deus à medida que fala de pessoas humanas. E, nesse sentido, o livro nos ajuda na compreensão correta daque¬la distinção que o luteranismo faz entre a bênção e o matrimônio.

Na verdade, só pode ser devido à graça de Deus e à inspiração do Santo Espírito que ele foi incluído entre os livros canónicos das religiões bíblicas. Porque os intérpretes humanos tantas vezes quiseram mudar o sentido das suas afirmações tão transparentes! Outro fator que deve ser levado em consideração é que ele retrata cerimônias nupciais e também foi usado na antiguidade em tais celebrações.3 O quanto existe de desprezo pela verdade apresentada nesse escrito — que a partir de seu título deve ser considerado o mais belo dos cânticos — pode ser medido pelos índices de textos estudados no Proclamar Libertação, por exemplo: Nenhum estudo sobre esse livro, até o vol. XVIII!

Ainda a título de observação. O convite que me foi dirigido também não foi para apresentar um estudo do Cântico dos Cânticos. Foi para colaborar com alocuções prontas que eu tinha para a bênção matrimonial. Assim, não apresento aqui um detalhado estudo exegético. Com certeza, as próprias traduções não devem ser o que existe de mais fiel à língua hebraica. Simplesmente estou enviando tudo como foi proferido, sem cuidadosas revisões.

4. Exemplos de alocuções

4.1. Cantares 2.2-3

Como o lírio no meio dos espinheiros, assim é a minha amada entre as mulheres. Como a macieira no meio das árvores do jardim, assim é o meu querido entre os homens; eu desejo a sua sombra e vou descansar embaixo dela; a sua fruta é doce no céu da minha boca.

Também a nossa Bíblia tem poesias. Tem muitas poesias. Poesias que falam só de Deus? Não. Poesias que falam também do que é criação de Deus. Também poesias de amor. Poesias que mostram o amor como criação de Deus. Mas não só isso. Poesias que falam só do amor. Do amor como coisa boa, do amor como desejo, do amor como um desejo bom. Os versículos que escolhi para vocês fazem parte de uma poesia dessas.

Sempre é chato a gente explicar poesias. Quando se fala sobre uma, a gente estraga um pouco a beleza dela. Poesias são para a gente sonhar, não para explicar. Vejam vocês essa palavras aqui: Como o lírio no meio dos espinheiros, assim é a minha amada no meio das mulheres. Ouvimos e vamos sonhar. Imaginar o Claudir dizendo para a Iliane: Tu és para mim como o lírio no meio dos espinheiros. Só quem ama pode dizer isso. E só pode dizer para aquela que é seu amor. Porque isso é uma ofensa para todas as outras mulheres. É loucura! Ele nunca vai ser bobo de dizer para uma outra com quem esteja conversando: Tu para mim és como um pé de espinhos. Não. Essa comparação ele faz só para aquela que ele ama. Daí não é loucura. É verdade. Ou não é assim que ele, na verdade, considera todas as outras pés de espinhos, comparadas a Iliane? Vamos sonhar de novo: o Claudir andando no meio de um monte de espinheiros só para achar aquela flor que ele procura. Aquela flor perfumada, bonita, que ele acha no meio daqueles espinhos que picam, que são tão sem graça, feios, duros, secos.

Vamos sonhar também com as palavras da Iliane: Como a macieira no meio das árvores do jardim, assim é o meu marido no meio dos homens. Aqui a ofensa contra os outros homens já não é tão grande. Mas existe esse desejo dela de procurar a macieira. Não quer pés de pêssego, de figo, de laranja. Ela procura a macieira. E para quê? Eu desejo a sua sombra e vou descansar debaixo dela; a sua fruta é doce no céu da minha boca. O desejo não é por qualquer árvore. O desejo não é por qualquer fruta. É desejo por essa uma sombra e essa uma fruta. E, vejam vocês, aqui o texto bíblico é bem claro: o desejo faz parte do amor. O desejo por essa doçura no céu da boca faz a Iliane escolher essa uma fruta, essa uma sombra, essa uma árvore.

Na vida real, tudo não é bem assim como no sonho, como na poesia. Porque também pés de espinhos dão flores bonitas. Também laranjeiras, pessegueiros e pés de figo dão frutas doces. Na verdade, tudo não é assim como no sonho, porque lírios ficam velhos, murcham e caem; macieiras perdem folhas, ficam secas, as maçãs caem e apodrecem. A doçura acaba. O que fazer então? Deixar de sonhar? Esquecer a poesia? Não pessoal, bem pelo contrário. Justamente quando vierem horas difíceis, então é tempo de lembrar do sonho. É tempo de imaginar, de pensar na poesia, de amar, de fortalecer o desejo. Aí é que Deus quer ajudar vocês: a lembrar sempre do sonho, a lembrar sempre do desejo, da doçura, do perfume da flor, a lembrar do amor. Para que tu, Claudir, possas dizer para a Iliane: Como o lírio no meio dos espinheiros, assim é a minha amada entre as mulheres; e para que tu, Iliane, possas repetir para o Claudir: Como a macieira no meio das árvores do jardim, assim é o meu querido entre os homens; eu desejo a sua sombra e vou descansar embaixo dela; a sua fruta é doce no céu da minha boca. São palavras com mais de dois mil anos, que ainda não ficaram velhas. Tomara que também não fiquem velhas para vocês, para que o sonho, a poesia, o desejo e o amor também continuem sempre novos nas suas vidas.

4.2. Cantares 4.9-11

Roubaste-me o coração, minha amada querida, roubaste-me o coração com os teus olhares, com uma corrente das tuas gargantilhas. Como são belos os teus amores, minha amada querida, como teus amores são melhores do que o vinho e o odor dos teus perfumes melhor do que todas as fragrâncias. Mel escorre dos teus lábios, querida, mel e leite estão embaixo da tua língua e o perfume dos teus mantos é como o perfume do Líbano.

Como é bonita a criação de Deus! Como ela é boa para nós! Isso nós vemos aqui nessa poesia do livro do Cântico dos Cânticos: Roubaste-me o coração, minha amada querida, roubaste-me o coração com os teus olhares.

Duas coisas a respeito da criação de Deus vêem-se aqui. A primeira é o olho da pessoa. Eu sempre acho o olho uma coisa maravilhosa. Pelo olho entra a luz que a gente pode ver. O olho capta a visão de todas as coisas; ele é um milagre constante de que nós nem sempre nos damos conta. Só isso já é maravilhoso. Mas acontece que isso não é a maravilha maior. O olho não toma só a luz para dentro de si. Ele faz mais. O olho sai da gente. Ele coloca para fora o que a gente tem dentro de si. Ele sai para roubar corações. Ou não é verdade? Quem pode duvidar dessa segunda função mágica do olho? Quem pode duvidar de que os olhos não têm alguma coisa a ver com o caso do Claudir e da Iliane? Tudo isso é maravilha da criação!

Outra coisa impressionante é o coração. É outra maravilha de Deus. É uma bomba dentro do corpo da gente. Movimenta o nosso sangue e funciona sem energia elétrica. É um outro milagre que está acontecendo o tempo todo em nossa vida, e nós não nos damos conta. Mas também aqui existe ainda outra coisa: o coração serve também para ser roubado pelos olhos de outra pessoa. O coração, coisa sem a qual nós não nos mantemos vivos, é roubado pelos olhos de outra pessoa. Mais do que isso: ele quer ser roubado. Ele não quer ficar no seu lugar. Ele quer sair de si. Aqui a gente vê que o amor faz a gente não viver só para si. O amor faz aquilo que move a nossa vida a procurar uma outra vida com quem andar junto. O amor faz a gente querer mover juntos as nossas vidas.

Mais adiante, essa poesia continua falando da criação de Deus: Mel escorre dos teus lábios, querida, mel e leite estão embaixo da tua língua. Essa parte da criação já é naturalmente admirável. Língua e lábios servem para duas coisas: receber o alimento e falar. A língua, além disso, serve ainda para sentir o gosto e para ajudar a engolir. Bom, talvez alguém duvide do autor do nosso texto bíblico: Essa parte aí está certa, mas lábios e língua não são doces coisa nenhuma. Lábio e língua não podem ser como o mel e leite, eles não têm gosto. É claro, essa pessoa tem razão. Assim como tem quem duvida de que corações possam ser roubados. Acontece que o autor do texto bíblico não fala do gosto dos próprios lábios ou da própria língua. Fala do sabor doce, fala da gostosura que são os lábios da pessoa amada. E quem tem coragem para duvidar disso? Quem pode duvidar de que realmente os lábios amados não deixam gotejar um mel como nenhum outro?

Eu desejo a vocês, Claudir e Iliane, que também vocês sintam isso que sente esse poeta do texto bíblico. Que os olhos de vocês continuem cada dia roubando o coração um do outro. E que cada dia vocês sintam mais a doçura do mel que está embaixo da língua e que goteja dos lábios. Eu desejo também que, quando a criação de Deus envelhecer, quando os olhos já não puderem mais enxergar, que eles ainda possam roubar o coração um do outro; que, quando o coração já quase não conseguir mais bater, ele ainda tenha forças para sair do seu lugar e ficar junto da pessoa amada; que, quando a boca de vocês precisar só de mingau e de sopa, ela ainda tenha dentro de si a doçura para oferecer. Assim, a criação de Deus vai continuar viva e útil para vocês.

4.3. Cantares 4.12-15 (Texto usado: Bíblia na Linguagem de Hoje)

Estou quase sempre usando textos do livro de Cantares para as reflexões por ocasião de bênçãos matrimoniais. Esse é um livro muito interessante da nossa Bíblia. Ele contém só poesias de amor. Poesias de amor entre pessoas apaixonadas mesmo.

Durante toda a história da Igreja, muitas pessoas acharam estranho existir um livro assim na Bíblia: que falava de uma coisa tão humana, como é o amor entre apaixonados. Pois eu acho fundamental que nossa Bíblia tenha um livro assim. Ele mostra que amor, prazer e carícias não são nada que contraria a vontade de Deus. Pelo contrário: são manifestações bem concretas, entre as pessoas, daquela força de amor que o nosso Deus dá a todos nós.

Também assim é com os versículos 12 a 15 do nosso texto de hoje. Esses versículos são parte de uma fala em forma de poesia. No caso, esses versículos que escolhi são parte da fala de um homem (todo livro tem partes que são fala do homem e outras que são fala da mulher). Ele compara a sua amada a um jardim. Eu acredito que a moça poderia dizer a mesma coisa ao rapaz. Assim, eu vou interpretar esse texto para nossa reflexão como dirigido a vocês dois, de um para o outro.

Compara-se aqui o amor com um jardim. Trata-se de uma comparação muito bonita. E muito apropriada também. Porque jardins são uma coisa bonita. Assim como o amor. Um jardim bem cuidado produz muitos tipos de flores e folhagens que o enfeitam. O próprio texto fala de várias plantas desse jardim de amor. O amor entre as pessoas também é assim: bem cuidado, ele é lindo e se embeleza sempre mais com o carinho que é dedicado a ele.

Assim como um jardim, o amor que não é cuidado produz inço. Fica feio. Perde a graça, some o perfume. O amor precisa de capricho. Precisa de um pouco de sorte, claro. Se o tempo não ajuda, jardim nenhum cresce. Mas, mais do que sorte, o jardim do amor só fica bom com a nossa dedicação: às vezes, a gente precisa regar um pouquinho aqui, outras vezes adubar um pouco ali. Com isso os resultados aparecem. Com capricho, qualquer jardim atravessa invernos ruins e alcança uma primavera florida.

Mas jardins têm uma coisa um pouco chata. Também isso está escrito nessa poesia. Jardins são apenas uma partezinha de terreno. Nem todo o mundo é de flores. A poesia diz: Tu és como um jardim cercado. Jardins têm cerca. Não é chato isso? Será que vale a pena ter um jardim, então? Se tem cerca em seu redor?

Pois é, acho que é uma questão de escolha. Talvez até uma questão de sabedoria. Quem planta flores totalmente separadas uma das outras, ao invés de juntá-las todas num só lugar, onde seria melhor tratar delas? Uma flor aqui, outra lá longe, outra a alguns quilómetros... Cuidar disso tudo seria impossível. O inço tomaria conta das flores com mais facilidade. O jardineiro ou a jardineira não conseguiria cuidar disso desse jeito.

Por isso acredito que a cerca do jardim tem alguma coisa de sabedoria. Fora do jardim, a gente planta outras coisas. As flores a gente ajunta todas ao redor da casa, dentro do cercado — onde se pode melhor cuidar delas.

Pois é, assim eu falo de flores, jardins e amores. Alguns talvez vão perguntar: Mas e Deus, onde é que está? Esse pastor aí não vai falar de Deus? Pois, cara comunidade, Deus está aí mesmo. Ele é quem faz crescer esse jardim do amor, ele é quem faz esse amor ter um perfume delicioso, e ele é quem dá esse jardim para nós pessoas cuidarmos dele. No caso, hoje ele o dá ao Claudir e à Iliane para cuidarem. Cuidem bem desse amor de vocês. Deus quer dar a esse amor de vocês a sua força, que faz todo amor crescer sempre mais. Mas a tarefa de cuidar do jardim é toda de vocês. Amém.

4.4. Cantares 8.6-7

Grava-me como um selo sobre o teu coração. Como um selo sobre o teu braço, porque o amor é poderoso como a morte, a paixão é forte como o fim da vida: as suas labaredas são como labaredas de fogo, as suas chamas são como chamas de Deus. Grandes águas não podem acabar com o amor; rios não o afogam. Se alguém der todos os bens da sua casa em troca do amor, com certeza todos vão desprezá-lo.

Esse texto bíblico é tirado de um livro da Bíblia que só tem canções de amor, onde um homem e uma mulher cantam um para o outro como é grande a sua paixão. É um livro muito bonito. Ele descreve em forma de poesia a relação amorosa entre duas pessoas.

Esse pequeno trecho que escolhi para a meditação nos diz como é forte o amor sincero entre duas pessoas. Para isso ele usa duas comparações. A primeira é que o amor é forte e poderoso como a morte. Vejam vocês que nós todos, por mais força que fazemos, não podemos fugir da morte. Esse texto diz que com o amor também é assim. O amor verdadeiro nós podemos tentar driblar o quanto nós queremos, mas não conseguimos escapar dele. Quantas vezes é assim que duas pessoas gostam tanto uma da outra, que mesmo toda a força que outras pessoas fazem para acabar com aquele relacionamento não dá resultado. É porque o amor de verdade é forte, é poderoso. Não existe como querer escapar. É como a morte — só que o amor é justamente a força da vida. O amor junta aquilo que a morte separa. Mas nós, vivendo no meio dessas duas forças, não escapamos de nenhuma. E temos a esperança de que o amor é ainda mais forte — porque a morte é o fim de si mesma, enquanto o amor deixa os seus sinais ainda depois da própria morte.

A segunda comparação que se faz é a semelhança que existe entre o amor e o logo. Isso até é bem conhecido por todos nós. Em muitos lugares se diz que o amor é como fogo. Ele esquenta por dentro. Ele faz alguma coisa ferver dentro da gente. E não só dentro da gente que ele esquenta. É a própria Bíblia que nos lembra (Eclesiastes 4.11): Também se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só, como se aquentará? Quer dizer, desde aqueles tempos antigos em que a Bíblia foi escrita já se falava como são parecidos o amor e o fogo, a paixão e o calor.

Mas existe mais uma coisa que faz o amor ser parecido com o fogo. Como é que a gente faz um fogo durar bastante tempo? Se a gente deixar o fogo parado, não mexer nele, será que ele aumenta com o tempo? Será que pelo menos fica do mesmo tamanho? Se a gente não colocar mais nada no fogo, ele continua por um tempo, mas depois começa a enfraquecer cada vez mais. Até que, no fim, só vão sobrar umas brasinhas vermelhas. Depois, só vai haver cinzas. Não é assim que se pode fazer um casamento feliz. No começo, a gente tem que fazer um incêndio, usar o que queima ligeiro: álcool, papel, gravetos. Para o namoro isso talvez chegue. Mas ninguém faz um fogo só com álcool e papel. A gente tem que continuar depois e colocar lenha. No casamento, a gente tem que continuar alimentando esse fogo, e sempre com lenha mais grossa, para ficar um fogo firme. E a gente tem que escolher uma lenha boa e seca, não colocar qualquer coisa no fogo. Às vezes, o fogo vai ficar mais fraco, alguém vai esquecer de colocar alguma coisa nele. Mas, enquanto ainda tiver uma brasinha, é tempo de dar algumas assopradas, colocar mais um pouco de papel e recomeçar o velho fogo.

Agora, existe uma diferença entre o fogo e o amor. O fogo pode ser apagado com água. O amor não. Se ele for bem cuidado, as outras pessoas podem falar mal, podem tentar qualquer coisa. Se ele for bem cuidado! E para ser bem cuidado, é preciso serviço das duas partes. O fogo do amor não dá certo se apenas um coloca lenha.

Se vocês fizerem isso e, ainda mais, se pedirem a ajuda de Deus, podem vir rios de água que o fogo do amor não vai acabar. Pelo contrário, se vocês se esforçarem, esse amor vai continuar crescendo sempre mais. Esse amor vai então ficar tão forte, que só a morte, que é tão forte quanto ele, vai poder competir com ele. Ninguém mais — e, ainda assim, não vai poder derrotá-lo por completo.

Por isso, agora começa o serviço de vocês — serviço dado por Deus mesmo. Vão para a casa e juntem a lenha para fazer uma fogueira bonita e quentinha.

5. Notas bibliográficas

1. LUTERO, Martim. Do Cativeiro Babilônico da Igreja. São Leopoldo, Sinodal, 1982, p. 102.
2. Cf. o guia Nossa Fé — Nossa Vida, que à pergunta Quando pode ser negada a Bênção Matrimonial? responde, entre outras considerações: (...) quando os nubentes não estiverem habilitados para o casamento pela lei civil (...).
3. SELLIN-FOHRER. Introdução ao Antigo Testamento, vol. 2. São Paulo, Paulinas, 1977, pp. 440-6.


Autor(a): Eduardo Gross
Âmbito: IECLB
Testamento: Antigo / Livro: Cantares
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1993 / Volume: 19
Natureza do Texto: Liturgia
Perfil do Texto: Alocução
ID: 15392
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