Deuteronômio 26.3-11

Auxílio Homilético

04/03/2001

Prédica: Deuteronômio 26.3-11
Leituras: Romanos 108b-13 e Lucas 4.1-13
Autor: Silfredo Bernardo Dalferth
Data Litúrgica: 1º. Domingo da Quaresma
Data da Pregação: 04/03/2001
Proclamar Libertação - Volume: XXVI


1. Preliminares

A constatação da existência de diferentes fontes na composição do Primeiro Testamento suscitou a pergunta pela diversidade contextual e histórica que está por trás dos textos bíblicos. Como as tradições mais antigas da textura bíblica foram retrabalhadas para novas situações históricas, a pergunta pela localização social do texto se tornou fundamental para a interpretação teológica.

O método da distinção de fontes revelou que não existiu em Israel uma história linear. Ao contrário, ficou demonstrado que a proto-história constitutiva para o surgimento de Israel é muito complexa. Diferentes grupos, entre eles tribos e classes sociais, foram articulando as suas distintas experiências históricas para uma história comum a todos. Isto também verificamos na perícope de Dt 26.3-11.

2. Estudo do texto bíblico

Quanto à forma, percebe-se no texto que a fala do ofertante é introduzida duas vezes, no v. 3 e no v. 5. Conforme o ATD, o texto é provavelmente uma combinação de diferentes tradições: os vv. 3 e 4; os vv. 6 a 9; os vv. 5, 10 e 11. Note-se bem que não se trata de acréscimos posteriores, mas combinação de diferentes tradições (ATD, vol. 8 - Deuteronomium, p. 113s). Fundamental é a constatação da tensão na forma do texto. Enquanto que os vv. 5, 10-11 estão formulados na segunda pessoa do singular, introduzidas liturgicamente, os vv. 6 a 9 têm uma fala indireta na primeira pessoa do plural. A partir da forma e a partir do conteúdo pode ser constatada a combinação de tradições que remontam ao nomadismo e ao êxodo.

Os exegetas concordam que a expressão urami obed abi (arameu errante - perdido - foi meu pai) é uma expressão muito antiga. O verbo abad tem seu Sitz im Leben no nomadismo. Era usado quando um animal do rebanho se perdia. O termo abad também caracterizou o andar de Sara e Abraão, conforme Gn 20.13. O que fala a favor da ligação com Sara e Abraão é o fato de que eles imigraram para a região de Aram-Naaraim e Padam-Aram. Aram significa entre os rios (conf. Gottwald, Introdução..., p. 167).

O êxodo da escravidão do Egito é a experiência histórica marcante do chamado grupo de Moisés. Há praticamente um consenso entre os pesquisadores do Primeiro Testamento e dos historiadores de que não se tratava de um povo ou mesmo clã, mas de uma classe social, os habiru (conf. Alt, Terra Prometida, p. 105ss).

Conforme as hipóteses levantadas na pesquisa, este grupo de Moisés teria se juntado a outros grupos, entre eles nómades. A pesquisa histórica e arqueológica mostra que o processo de sedentarização de grupos nômades é muito mais complexo do que até há pouco tempo se acreditava. A sedentarização, segundo estas pesquisas arqueológicas, não foi necessariamente sempre uma conquista violenta da terra cultivada nas proximidades das cidades-estados cananéias. Segundo os estudos de Finkelstein, havia uma interdependência entre a economia sedentária e nômade, existindo uma região de intersecção entre as duas. Finkelstein defende a tese de uma espécie de continuidade entre as economias da população sedentária, ligadas mais à cidade-estado, e a população nómade. Com base na similaridade na arquelogia, Finkelstein acredita que houve também o movimento populacional para a renomadização como consequência da fraca organização e infra-estrutura das cidades e posterior ressedentarização (conf. Friedrich E. Dobberahn e Armin A. Hollas, Revolta ou Ressedentarização?).

Gottwald defende a tese de que, mesmo que os clãs nómades pastoreavam rebanhos de ovelhas, cabras e eventualmente camelos, sobre regiões de semideserto, estepe e montanhas não cultivadas normalmente, mantinham contato regular íntimo e recíproco com a população sedentária (conf. Gottwald, Introdução..., p. 49).

Podemos imaginar, porém, que esta relação íntima e recíproca tenha funcionado sem problemas na época em que a economia nômade supria as necessidades básicas dos clãs ou tribos. Podemos afirmar que a expressão arami obed abi (arameu errante perdido foi meu pai) aponta para uma crise do nomadismo! Nesta situação, o olhar se volta obviamente para novos espaços, onde as necessidades poderão ser supridas.

Há consenso entre os exegetas de que o texto, mesmo coloca do como futuro, fala, na verdade, como memória. Podemos notar, porem, que a memória não é colocada simplesmente como bruta facta do passado, mas como uma esperança do passado. Em outras palavras, a memória é transcrita e celebrada como um sonho, uma espera. Neste texto, memória e sonho se confundem! O presente é visto como realização do sonho!

Conforme o texto, o sonho da terra e a realização do sonho contrasta com o nomadismo em crise. O molde teológico do texto contrasta a realização do sonho da terra e de seus frutos com a experiência de sofrimento da crise no nomadismo e do êxodo. A tese de que as tradições concernentes aos patriarcas foram associadas com a tradição de Moisés se reflete no texto (conf. Fohrer, História da Religião de Israel, p. 140.). Da mesma forma, reflete-se também neste texto a tese verificável em todo o Primeiro Testamento: A trajetória do povo, por um lado, está dirigida ao Egito e à opressão e, por outro lado, deriva do evento libertador ocorrido através da saída (conf. Schwantes, Caminhos da Teologia Bíblica,p. 17).

Mesmo que não se possa delinear os fatos históricos com precisão, pode-se constatar nas próprias perícopes que o molde teológico bíblico já fez a sua leitura da história. Neste ponto, Gottwald tem razão quando diz que os acontecimentos da história por si só como relato de fatos seriam meros arremedos históricos (Norman K. Gottwald, As Tribos de Iahweh, p. 107). A história, segundo Gottwald, é contada dentro do molde teológico (Gottwald, As Tribos..., p. 106). Isto significa que a fuga da escravidão do Egito e a sedentarização por si só não têm sentido se nestes fatos não teria sido vista a ação de Deus em sua continuidade do passado para o presente e do presente como ação a ser continuada no futuro. A partir dessas informações podemos constatar que, na verdade, a memória se torna o conteúdo da utopia! A história se transforma em crítica do presente e projeção para o futuro!

Nos vv. 3, 4 e 11 constata-se a intermediação de um sacerdote levita. Enquanto que nos vv. 5 e 10 do texto em análise a atuação de um sacerdote não é nominada. Há indícios fortes de que a liturgia da oferta das primícias da terra já tenham origem na família. Porém, a presença do sacerdote nesta situação histórica não induz a pensar em uma espécie de casta sacerdotal. O levita é colocado ao lado do estrangeiro (v. 11). Ambos não possuem terra (Otto, Theologische Ethik des Alten Testaments, p. 182s). Braulik defende a inclusão de Dt 26.1-2, porque vê uma complementação entre os vv. 2 e 10 para a localização da liturgia em um lugar cúltico já centralizado em Jerusalém, no lugar que o Senhor, teu Deus, escolher para ali fazer habitar o seu nome (Georg Braulik, Deuterononium II, p. 195).

3. Perspectivas para a prédica

Para a prédica é importante que Deus age através da história. Olhar para trás e ver a ação de Deus no sofrimento nos tira da posição de meros espectadores do passado, mas nos encoraja a olhar para o futuro em esperança e certeza de que Deus age e agirá novamente para tirar pessoas do sofrimento.

A comunidade cristã também age dentro da ação de Deus. Se Deus libertou o povo da opressão e da pobreza, espera dali em diante que sejamos também pessoas que atuam para a liberdade. A memória do sofrimento nos compromete com o sonho de um mundo onde a dignidade humana seja a base de relacionamento.

Na época da Quaresma, a comunidade cristã se lembra da paixão e morte de Cristo. Não se trata de enaltecer o sofrimento, mas a partir de sua memória buscar entender o sentido que Deus dá para a sua ação. Como na perícope analisada se fala da memória de sofrimento por causa da realização do sonho e do comprometimento ético, na Quaresma lembramos do sofrimento de Cristo por causa do sonho do Reino de Deus. Para o pregador é importante constatar o paradoxo da Palavra de Deus: fala-se do sofrimento porque Deus quer a sua superação.

4. Subsídios litúrgicos

Intróito - A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei (Rm 13.8).

Confissão de pecados - Deus, tu nos deste a consciência para distinguirmos entre o certo e o errado. Deste os mandamentos e nos ensinaste a lei do amor ao nosso próximo. Mas, mesmo assim, no dia-a-dia das nossas vidas corremos atrás de nossas próprias preocupações, nos desviamos de ti para construir a nossa própria segurança, mesmo que para isso tenhamos que passar por cima de outras pessoas. Disto nos envergonhamos. Esquecemos tão logo a tua Palavra. Esquecemos tão rapidamente o teu sofrimento para que nós tenhamos vida. Esquecemos tão rapidamente a tua misericórdia. Perdoa-nos. Dá-nos uma nova chance, um novo começo. Tem, Senhor, piedade.

Oração de oferta - Ó Deus, que és para nós mãe e pai, que em Cristo nos tornaste todas e todos irmãs e irmãos, vem com o teu Santo Espírito nos congregar de forma comprometida. Ajuda-nos a olhar para a história do teu povo na esperança de um futuro mais feliz para todas as pessoas. Ó Deus, ajuda-nos a desistir da ilusão de uma felicidade individualista. Faze-nos compreender que a verdadeira felicidade somente pode acontecer como comunidade, quando cada um como membro de teu corpo olhar com os teus olhos de amor para aquelas pessoas que ainda não têm o presente, e cuja única força e consolo é confiar em Ti para socorrê-los. Em nome de Cristo Te pedimos: ajuda-nos a ser solidários. Amém.

Bibliografia

ALT, Albrecht. Terra Prometida : Ensaios sobre a História do Povo de Israel. São Leopoldo : Sinodal, 1987.
BRAULIK, Georg. Deuterononium II. Würzburg: Echter, 1992. (Neue Echter Bibel).
DOBBERAHN, Friedrich E., HOLLAS, Armin A. Revolta ou ressedentarização? : reflexões arqueológicas sobre a história do Israel pré-estatal. Estudos Teológicos, n°. 3, 1991.
FOHRER, Georg. História da Religião de Israel. São Paulo: Paulinas, l983.
GOTTWALD, Norman K. As Tribos de Iahweh: uma Sociologia da Religião de Israel liberto 1250-1050 a.C. São Paulo : Paulinas, 1986.
________Introdução socioliterária à Bíblia Hebraica. São Paulo : Paulinas, 1988.
OTTO, Eckard. Theologische Ethik des Alten Testaments. Stuttgart Kohlhammer, 1994. (Theologische Wissenschaft, 3,2).
SCHWANTES, Milton. Caminhos da Teologia Bíblica. Estudos Bíblicos, São Leopoldo : Sinodal, n. 24, p. 9-19, 1989.


Autor(a): Silfredo Bernardo Dalferth
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Quaresma
Perfil do Domingo: 1º Domingo na Quaresma
Testamento: Antigo / Livro: Deuteronômio / Capitulo: 26 / Versículo Inicial: 3 / Versículo Final: 11
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2000 / Volume: 26
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17617
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