Deuteronômio 30.15-20

Auxílio Homilético

05/09/2010

Prédica: Deuteronômio 30.15-20
Leituras: Lucas 14.25-33 e Filemon 1-21
Autora: Claudete Beise Ulrich
Data Litúrgica: 15º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 05/09/2010
Proclamar Libertação - Volume: XXXIV

1. Introdução

O texto de Deuteronômio 30.15-20, previsto para a pregação, ainda não foi trabalhado no Proclamar Libertação. Ulrico Meyer refletiu sobre Deuteronômio
30.11-20 no Proclamar Libertação VIII, tendo como pano de fundo o Culto de Confirmação. A presente contribuição é para o 15º Domingo após Pentecostes. Vivemos sob a graça da presença do Espírito Santo.

O texto do Evangelho de Lucas 14.25-33, previsto para a leitura, aponta para as consequências que resultam do seguimento a Jesus. O discipulado implica renúncia aos valores do mundo e compromisso com o reino de Deus. Já a Epístola de Filemon mostra que o seguimento leva ao acolhimento e à aceitação total do outro. Ao pedir por Onésimo, Paulo está rompendo com a lei, com a estrutura romana da escravidão. O poder do amor, de aceitar o outro/o escravo como irmão (v. 16), rompe com velhas estruturas e constrói uma nova ordem social (15-17).

Portanto os três textos indicados para leitura e pregação mostram que o cumprimento da lei acontece, concretamente, na vivência do amor, levando para uma transformação em todas as dimensões da vida. É necessário encontrar um equilíbrio entre lei e evangelho. A graça de Deus não é barata, exige escolhas, compromisso e transform(ação) em nossos cotidianos.

2. Exegese

O texto previsto para a pregação de Deuteronômio 30.15-20 deve ser visto a partir do núcleo do livro de Deuteronômio, o qual se encontra em 6.4-6: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te”. O amor a Deus precisa perpassar toda a vida do povo israelita, bem como faz parte do processo de ensino-aprendizagem das novas gerações.

Provavelmente, Deuteronômio tinha a intenção de orientar a caminhada do povo escolhido com Deus, preservando a pureza e a fidelidade. Por isso o Deuteronômio se designa a si mesmo: “esta torá”. De acordo com VON RAD (1973, p. 224): “O conceito deuteronomista da Torá compreende o conjunto das disposições benéficas de Javé em favor de Israel. Numa perífrase, é ‘a revelação da vontade de Javé’”. É isso que lemos em Deuteronômio 4.2, 12.32:

“Nada acrescentarei à palavra que vos mando, nem nada diminuireis dela”.
Para o mesmo autor (1973, p. 223), esse livro “é um artístico mosaico de pregações múltiplas sobre os mais variados assuntos, a síntese de uma vastíssima atividade de pregação”. No centro de Deuteronômio está a doutrina, isto é, o esforço para que Israel ouça a revelação da vontade de Javé sob todos os seus aspectos. A obediência reclamada, porém, não é de modo algum condição de eleição. É impossível, pois, considerar os mandamentos do Deuteronômio como uma “lei” no sentido teológico, que leve Israel a merecer a salvação pela observação global das existências divinas. Os mandamentos de Deuteronômio são antes uma grande explicação do mandamento do amor por Javé e do apego exclusivo a ele (Dt 6.4ss).

VON RAD (1973, p. 225) chama a atenção que as pregações do Deuteronômio fundamentam a ideia de que céus e terra pertencem inteiramente a Javé. Ele também tomou para si, de modo mais particular, os pais de Israel, amou-os e, mediante juramento, prometeu-lhes e a seus descendentes a posse da terra de Canaã (Dt 6.10, 7.8; 10.14s).

O reconhecimento da atuação de Deus e seu amor, insistimos, são os motivos da observância dos mandamentos, de acordo com o autor citado VON RAD (1973, p. 227). De geração em geração, era necessário tornar compreensível a vontade de Javé. VON RAD (1973, p. 222) também defende a tese de que “o quadro geral dessa grande obra da literatura teológica de Israel é o mesmo do desenrolar de um ato de culto. Os assuntos sempre se inspiravam num acontecimento concreto, que, em Deuteronômio, é o ritual de um ato litúrgico”. Portanto a vida e o culto não estavam desvinculados da caminhada do povo de Israel.

Deuteronômio deixa bem claro às novas gerações por que Israel foi escolhido como povo eleito. Deus “não vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o Senhor vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o Senhor vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder do Faraó, rei do Egito” (Dt 7.7-8); nem o fez “por causa da tua justiça, nem pela retitude do teu coração” (Dt 9.5), mas porque ele ama a Israel, ama seus pais e guardará a sua palavra em favor deles e punirá os cananeus. Ele é teu Deus (Dt 10.12ss).

A partir das lembranças do agir e do amor de Deus, o povo de Israel tem a liberdade de escolher. Deus nada impõe, mas dá a liberdade de escolha, deixando claro que a escolha também implica responsabilidade e compromisso. “Vê que te proponho, hoje, a vida e o bem, a morte e o mal.” O termo “hoje”, repetido muitas vezes ao longo de todo o livro, implica decisão/escolha contínua e cotidiana.

O texto para a pregação faz parte do final do livro de Deuteronômio 30.15-20. Encontra-se aqui resumido o conteúdo desse livro. Deus conclama Israel para decidir-se pela “vida e o bem, a morte e o mal, a bênção ou a maldição”. A escolha da vida e do bem está ligada ao cumprimento dos mandamentos: amar a Deus, andar em seus caminhos e guardar os seus mandamentos, mostrando-se na atitude e ação de Deus que “faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes. Amai, pois, o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito” (Dt 10.17-19).

Amar a Deus, guardar os mandamentos e os estatutos terá como consequência a vida e a multiplicação do povo, bem como a bênção na terra, dada ao povo de Israel (Dt 30.16). Javé/Deus exige exclusividade, pois se o coração do povo se deixar seduzir e desviar, adorando outros deuses, irão perecer, assim como não permanecerão longo tempo na terra dada por herança, passando o Jordão (Dt 30.18).

Novamente, Deuteronômio se reporta a toda a criação (céus e terra) como testemunhas pela decisão na escolha do povo de Israel. “Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunha contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição” (Dt 30.19a). Encontramos nesse versículo e no seguinte (Dt 30.19b-30.20) novamente a ênfase no pedido de Deus para que o povo escolha a vida: “Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência, amando o Senhor, teu Deus, dando ouvidos à tua voz e apegando-te a ele; pois disso dependem a tua vida e a tua longevidade; para que habites na terra que o Senhor, sob juramento, prometeu dar a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó”.

É interessante que o texto de Deuteronômio, indicado para a pregação, coloca situações de escolha para o povo, deixando claro as consequências de uma ou outra escolha. No entanto, o texto termina com o verbo no indicativo: “Escolhe, pois, a vida...”. O desejo de Deus, expresso pelo Deuteronômio, é que Israel escolha a vida, o bem e a bênção. Sendo assim, será abençoado com longevidade, descendência (viverás e te multiplicarás – Dt 30.15) e com a bênção da terra. Assim com o texto inicia, também termina, dando ênfase à escolha da vida. A escolha da vida, do bem e da bênção está intimamente ligada à prática do mandamento do amor a Deus.

3. Meditação

Deus coloca duas opções: escolher o caminho da vida, do bem e da bênção ou escolher o caminho da morte, do mal e da maldição. Há liberdade de escolha. No entanto, cada escolha tem a sua consequência. A escolha da vida está ligada ao grande mandamento do amor a Deus (Dt 30.16), ampliado por Jesus em Mateus 22.34-40. O seguimento a Jesus (Lc 14.25–33) implica renúncia a tudo aquilo que não promove o amor. O cumprimento do mandamento do amor com todas as suas implicações encontramos no texto de Filemom.

O cumprimento do amor, que se mostra também no culto a Deus, resulta em bênção na terra recebida como herança, longevidade de vida e multiplicação da descendência. Se o coração, no entanto, se desviar do caminho da prática do amor, bem como do culto a Deus, então o resultado será uma vida curta na terra indicada como herança.

O texto encerra com a insistência do autor para que os ouvintes, isto é, o povo de Israel, escolha a vida: amando o Senhor, dando ouvidos à sua voz e apegando-se a seus mandamentos. Dessa escolha dependem a vida, a multiplicação do povo e a longevidade na terra, que foi prometida aos pais Abraão, Isaque e Jacó.

Nós também somos confrontados diariamente com escolhas. Em todas as situações da vida, sempre temos duas ou mais possibilidades para escolher. Sempre temos que optar entre uma ou outra atitude. Somos livres para escolher. Lutero assinala no Tratado da Liberdade Cristã que “toda a Escritura de Deus está dividida em duas partes: preceitos e promessas”. Ele também afirma “que a pessoa cristã não vive em si mesma, mas em Cristo e em seu próximo, ou então não é cristã. Vive em Cristo pela fé, no próximo pelo amor” (LUTERO: 1983, p. 42-43). Temos liberdade para escolher. Portanto a escolha de uma pessoa cristã está sempre afirmada no duplo mandamento do amor (amor a Deus e ao próximo). A fé vem pelo ouvir a pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo (Rm 10.17). A consequência do ouvir a palavra de Cristo é a prática do amor. O culto cristão está ligado a uma vida guiada por atitudes éticas, amorosas, transformadoras.

Escolha hoje a vida, o bem e a bênção: essa é a ênfase do texto da pregação. Essa escolha, no entanto, não é somente uma atitude pessoal e individualista. A escolha pela vida implica a promoção da vida! Implica seguimento, discipulado, voltando-se em amor ao próximo, buscando transformações nas estruturas e nas relações pessoais, sociais, familiares do nosso mundo. Este é o desejo de Deus: vida para todas as pessoas. Não esqueçamos: Nós somos livres e responsáveis por nossas escolhas.

4. Imagem para a prédica

Numa pequena cidade da Grécia, vivia um sábio famoso que conhecia as respostas a todas as perguntas que lhe eram feitas. Um dia, um jovem estudante, conversando com seus amigos, disse que pretendia desafiar o sábio e iria enganá- lo. Disse que faria o seguinte: “Apanharei um passarinho e o levarei escondido em minha mão até o sábio. Então vou perguntar a ele se o passarinho está vivo ou morto. Se ele disser que está vivo, esmago o passarinho e o mato, deixando-o cair no chão. Se ele disser que está morto, abro a mão e o deixarei voar na frente de todas as pessoas”.

E assim fez. O jovem aproximou-se do sábio com o passarinho na sua mão e perguntou: “Sábio, o passarinho em minha mão está vivo ou morto?” O sábio olhou para o rapaz e disse: “Meu jovem, a resposta está em suas mãos. Você me perguntou se o passarinho está vivo ou morto, mas isso é algo que depende unicamente de você”. (Fonte: 100 estórias de vida e sabedoria, de Osvino Toillier).

Logo após a pregação

Bênção das mãos:
Olhemos nossas mãos. Descubramos suas marcas, seu poder, sua ternura, instrumento para fazer o bem na escolha pela vida.

Bendigamos nossas mãos:

Benditos sejam os trabalhos de nossas mãos.

Benditas sejam estas mãos que tocaram a vida.

Benditas sejam estas mãos que criaram coisas belas.

Benditas sejam estas mãos que contiveram a dor.

Benditas sejam estas mãos que abraçaram com paixão.

Benditas sejam estas mãos que plantaram novas sementes.

Benditas sejam estas mãos que cerraram seus punhos com indignação.

Benditas sejam estas mãos que levantaram colheitas.

Benditas sejam estas mãos que se endureceram com o tempo.

Benditas sejam estas mãos que se enrugaram e se feriram trabalhando pela justiça.

Benditas sejam estas mãos que se deram e foram recebidas.

Benditas sejam estas mãos que sustêm as promessas do futuro.

Benditas sejam os trabalhos de nossas mãos. 

Que nossas mãos escolham sempre fazer o bem, buscando a vida em plenitude.

(Autora: Diann Neue)

5. Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados:

Hinos do Povo de Deus – vol. 1 – n° 150 – (pode ser lido ou cantado)

Se sofrimento te causei, Senhor,
Se a meu exemplo o fraco tropeçou,
Se em teus caminhos eu não quis andar: Perdão, Senhor!

Se vão e fútil foi o meu falar,
Se a meu irmão não demonstrei amor, Se ao sofredor não estendi a mão: Perdão, Senhor!

Se indiferente foi o meu viver, Tranquilo e calmo, sem lutar por ti, Devendo estar bem firme no labor: Perdão, Senhor!

Escuta, ó Deus, a minha oração
E vem livrar-me de incertezas mil; Transforma a minha vida, entregue a ti. Amém, Senhor!

Anúncio do perdão:

“Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido, por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar.” (1 Pe 5.10)

Oração de intercessão:

Deixar espaço para as pessoas expressarem situações de boas e más escolhas na família, na comunidade, no contexto de seu município, de nosso país e também em nosso mundo.

Bênção:

Que o fogo do Deus da Vida te ilumine e aqueça
O coração, como fez com o povo na caminhada do deserto até Canaã. Que o fogo de Jesus Cristo, o Filho de Deus, te envolva
Com abraços e laços de amor para uma vida de serviço. Que o fogo do Espírito Santo caia sobre ti
Para que possas escolher a vida, o bem e a bênção
Na edificação da vida em sua plenitude.
Assim te abençoe o Deus da Vida, do Amor Jesus Cristo e do Sopro da Vida em abundância, Espírito Santo. Amém.

Bibliografia


LUTERO, Martim. Da liberdade Cristã. 4. ed. São Leopoldo: Sinodal, 1983.

RAD, Gerhard von. Teologia do Antigo Testamento: teologia das tradições históricas de Israel. São Paulo: ASTE, 1973.


 



 


Autor(a): Claudete Beise Ulrich
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 15º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Deuteronômio / Capitulo: 30 / Versículo Inicial: 15 / Versículo Final: 20
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2009 / Volume: 34
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 25084
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Nenhum pecado merece maior castigo do que o que cometemos contra as crianças, quando não as educamos.
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