Eclesiastes 5.18

Auxílio Homilético

01/05/1985

Série: Quer seja oportuno, quer não

Tema: O assalariado empobrece produzindo riqueza.

Explicação do tema: O assalariado não recebe um valor correspondente ao produto do seu trabalho. Recebe apenas o equivalente para continuar produzindo, sem que as suas necessidades vitais, bem como as de sua família, sejam atendidas.
Para alguns, é necessário que ganhem mais, para que auxiliem na exploração e manutenção do sistema.
Temos dificuldade em transformar a situação de real empobrecimento da ampla maioria dos trabalhadores, devido aos mecanismos de acobertamento, como os meios de comunicação, escola, Igreja, repressão policial e militar.
Uma mudança efetiva da situação acontece pela organização popular e por instrumentos de pressão como pela greve.

Texto para a prédica - Eclesiastes 5.18

Ricardo Nör


l — Encontro com a realidade

Certo inglês estava ensinando seu cavalo a não comer. Depois de um certo tempo de aprendizado, o animal estava quase aprendendo... quando morreu. Na vida real não é muito diferente. O que muda é que se procura, estrategicamente, manter a vida para que o processo de geração de riquezas continue sem interrupção. Como disse um plantador de fumo: Nos deixam com o nariz de fora para que a gente continue respirando, produzindo.

De forma progressiva, os salários estão perdendo seu poder aquisitivo: Nos últimos anos, todos nós temos recebido regularmente aumentos salariais. No entanto, notamos que podemos comprar com nosso salário cada vez menos. Estamos empobrecendo. Por quê? Os aumentos salariais não acompanham o aumento do custo de vida. Os que têm que viver de salário mínimo não mais conseguem viver dignamente. Isto é contra a própria lei do governo que determina o seguinte: Cada trabalhador deverá ganhar um salário suficiente para que possa pagar alimentação, moradia, vestuário, higiene e transporte. Conforme o Departamento Intersindical de Estatística e Estudo Social-Econômico, o salário mínimo de maio de 1983 deveria ser em torno de Cr$ 103.700,00 para garantir o sustento do trabalhador e sua família! No entanto, o salário mínimo daquele mês foi de Cr$ 34.776,00. (Redescoberta do Evangelho, p. 5)

A desvalorização crescente dos salários exige que o trabalhador encontre soluções alternativas. Algumas delas:

— O aumento das horas-extras: O último censo revela que dos quase 43,8 milhões de pessoas ocupadas na construção do Produto Interno Bruto (PIB), 12,3 milhões ou quase um terço do total, trabalham mais de 48 horas por semana. O número máximo de horas-extras permitido por lei é de 2 horas, mais 1 hora e 36 minutos para compensar os sábados. Mas, no setor calçadista, por exemplo (Vale do Rio dos Sinos, RS), é prática comum o turno de trabalho estender-se nos fins de semana por toda a noite: o operário entra na fábrica às sete horas de sexta-feira para sair no dia seguinte às oito horas da manhã.

— O aumento do número de membros ocupados por família: Pelo censo realizado em 1980 descobriu-se também que de cada dois brasileiros com mais de 10 anos de idade, um trabalha. Na década de 70 houve um salto acentuado no número de trabalhadores: de 30 milhões de pessoas para 43,8 milhões registrados pelo censo. Este salto deveu-se também ao ingresso maciço da mulher no mercado de trabalho. No Rio e em São Paulo, um terço da mão-de-obra é formado por mulheres. Em Campo Bom, RS, estima-se que 30% do contingente de trabalhadores em fábricas de calçados seja composto por jovens com 12-14 anos de idade.

Os sintomas desta realidade se fazem sentir, entre outros, na evasão de mais de 50% dos alunos na rede escolar noturna (dados de Campo Bom), e no surgimento de creches públicas e particulares, estas em condições precárias de atendimento.

Nos últimos anos também o índice de produtividade tem sido aumentado considerável mente em nosso país. E a comparação da evolução da produtividade com os salários mostra que ambos têm um movimento contrário. Tomemos, como quadro de referência, o período de 1964 a 1976:

Veja: Quadro 01 (Anexo)

Pela tabela vê-se, por um lado, que cada trabalhador produziu, em março de 76, 69% a mais do que em 64. Por outro lado, o salário mínimo efetivo reduziu-se em 59% daquele percebido há 12 anos. Operários calçadistas confirmaram que em anos passados ainda era normalmente alcançado o índice de produtividade estabelecido, o que conferia prêmios-extras. Atualmente, o patamar de produtividade exigido é tão elevado que se tornou impossível atingi-lo. O operário está sempre em débito com a produtividade estipulada.

A partir da instituição do assim chamado modelo de desenvolvimento da economia brasileira, que tem por objetivo o crescimento da indústria e de todo o produto nacional, a todo o custo, o valor dos salários foi diminuído para se alcançar, assim, altos lucros bem como também atrair capitais estrangeiros. A distribuição da renda atingiu, desta forma, as seguintes proporções:

Veja: Quadro 02 (Anexo)

O gráfico acima demonstra o seguinte:

— 5% do povo brasileiro (6 milhões) possuem 39% da renda total (banqueiros, industrialistas);

— 15% (18 milhões) possuem 28% da renda total (médicos, políticos, militares, funcionários públicos);

— 80% do povo (96 milhões) possuem apenas 33% da renda total (pequenos comerciantes, agricultores, operários). São os que re¬cebem de O a 3 salários mínimos.

Isto significa que dois terços da renda nacional (=67%) estão concentrados nas mãos de somente 20% da população (= 24 milhões), enquanto que o restante um terço da renda precisa ser repartido por 80% do povo (=milhões).

Diante deste quadro contrastante, alguém concluiu que não existe um só Brasil, mas dois. Na verdade, dois países distintos dentro de um só, ao qual deu o nome de Belíndia. País imaginário, formado pela Bélgica (representante do Primeiro Mundo), e a Índia.

A obtenção de um contingente expressivo de mão-de-obra barata deve-se também a uma acentuada desarticulação do movimento sindical. Procura-se, das mais diferentes maneiras, tirar a capacidade de organização dos trabalhadores. Desde as religiões da felicidade, que alimentam sonhos coloridos, até os baús da felicidade, que vendem a ideia individualizante de que a saída para os problemas de cada um é ser premiado em programas de TV, existe uma grande montagem para desestabilizar a união de esforços — única forma de se enfrentar as dificuldades e buscar juntos uma solução.

Nesse sentido existem diversas maneiras de pessoas se unirem e organizarem. As mais conhecidas, talvez, sejam:

— Sindicatos, onde pessoas buscam seus direitos trabalhistas e salariais (sindicatos dos agricultores, metalúrgicos, professores, da construção civil...).

— Associações de bairros e vilas, onde famílias, em conjunto, se empenham para melhorar o lugar onde moram: luz, água, esgoto, posto de saúde, escola, creche, capela, rua, ponte...

— Cooperativas, onde os associados procuram melhor orientação técnica para a produção e colocação de seus produtos.

— Partidos políticos, onde os cristãos podem participar responsavelmente e candidatar-se a cargos. Dessa maneira os cristãos influenciam nas decisões e nas leis que promovem o bem-estar de todos.

— Centro de Aconselhamento ao Pequeno Agricultor — CAPA. Através deste serviço a Igreja procura unir os pequenos agricultores. Ela quer que liguem a fé com seu trabalho e suas dificuldades. Quer levá-los a compreender a situação em que vivem, à luz do Evangelho. Oferece oportunidades de seminários, encontros e mutirões (trabalho em conjunto) para possibilitar a sobrevivência na pequena propriedade. Com isto a Igreja quer ajudar o colono a ficar na sua terra, a trabalhar nela com amor. Assim a Igreja, também através do CAPA, valoriza o pequeno.

— Também a Igreja, ou seja, a comunidade local oferece a chance de os membros se unirem e organizarem. Através dela poderão pedir às autoridades água, luz, esgoto, ônibus e outras necessidades da população. Isso é sinal claro de que fé e vida andam de mãos dadas. (Redescoberta do Evangelho, p. 7)

II — Encontro com a Palavra

O texto bíblico indicado para o auxílio homilético é Ec 5.18:

Eis o que eu vi:
boa e bela coisa é comer e beber,
e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho,
com que se afadigou debaixo do sol,
durante os poucos dias da vida que Deus lhe deu;
porque esta é a sua porção.

Esta passagem está no contexto de 5.8 a 6.12, que trata do rico e da sua riqueza: Aquele que ama o dinheiro é alguém insaciável (5.10). O acúmulo de bens não lhe dá descanso (5.12). Eclesiastes coloca tudo sob o tópico da vaidade. O tema do livro encontra-se em 1.2: Vaidade de vaidades! diz o Pregador; vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.

O sentido deste termo central pode ser definido como sopro, hálito, expressando o que é passageiro, efêmero. No idioma hebraico, vaidade tornou-se também nome próprio, Abel, sinônimo da transitoriedade do ser humano.

Eclesiastes é realista. Ele observa a vida assim como ela é: conta com o fim dos dias, a limitação humana (6.6), e afirma que aquele que multiplica riquezas é construtor de castelos no ar (5.16). Nos salmos encontramos estes mesmos pensamentos: Deus conhece a nossa estrutura, e sabe que somos pó. Quanto ao homem, os seus dias são como a relva; como a flor do campo, assim ele floresce; pois soprando nela o vento, desaparece; e não conhecerá daí em diante o seu lugar (103.14ss); com efeito, passa o homem como uma sombra; em vão se inquieta: amontoa tesouros e não sabe quem os levará (39.6).

O texto quer servir de advertência e exortação para um correto procedimento: Viver da porção recebida. Satisfazer-se com o bem do seu trabalho. Alegrar-se com aquilo que é dado gratuita-mente por Deus: O proveito da terra é para todos; até o rei se serve do campo (5.9). Isto significa deixar de alimentar a falsa confiança de poder conduzir a vida estribado em suas próprias possibilidades, posses, riquezas. Experimentar a liberdade de movimentar-se debaixo das condições que Deus coloca à disposição.

Jesus retoma esta verdade fundamental, ao afirmar: Que vantagem terá alguém se ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida? Não há nada que possa pagar para ter a sua vida de volta (Mt 16.26). A luta em ganhar o mundo, apoderando-se da porção que não lhe pertence, leva à destruição, não só individual, pessoal, mas também coletiva, social. As distorções económicas revelam a obsessão desenfreada em acumular riquezas, em eternizar-se sobre o fundamento dos bens materiais — o que precisa acontecer necessariamente às custas de outros. Ë a partir do reconhecimento e aceitação de nos¬sa realidade como criaturas de Deus, mutuamente responsáveis, que se abre espaço para comer e beber, e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho.

A existência do salário, como forma de compra de mão-de-obra, é precária, limitada, insuficiente e não considera as necessidades básicas de cada trabalhador e de sua família. O salário, como preço pago pelo esforço realizado, não corresponde à porção que cabe a cada trabalhador por direito. O assalariado trabalha, e quem aufere lucros é o empregador. Existe uma tirada irónica entre os operários que diz: Vamos trabalhar, para deixar o patrão ainda mais rico.

Uma reversão deste quadro poderá acontecer mediante a prática de pressão exercida em conjunto. A organização e mobilização, com o recurso da greve, é o meio eficiente de que dispõe o assalaria do para reivindicar um tratamento justo. A vontade de Deus é que cada um tenha o que comer e beber e goze dos frutos do seu trabalho, que cada um tenha a sua porção, o seu bem, A participação coletiva, tanto na responsabilidade de administração de uma empresa como nos lucros obtidos, estabeleceria uma relação equilibrada entre empregado e empregador.

O conflito entre capital e trabalho é inevitável, Quem detém o poder econômico está enrijecido em sua posição. No centro deste campo de tensão deve estar fincada a cruz de Cristo. Cruz que aponta para aquele que se entregou inteiramente, que doou iodas as suas porções em favor de cada um — para que todos tivessem possibilidade de vida plena em todos os sentidos!

III— Anúncio da Palavra na realidade

O texto de Ec 5.18 trata de aspectos que tocam em questões centrais relativas aos salários: o direito de cada um gozar do bem de todo o seu trabalho, o direito de cada trabalhador ter a sua porção.

Estes direitos não estão sendo cumpridos. Os dados levantados (item l) revelam esta realidade: ocorre uma defasagem cada vez maior entre o trabalho produzido e o valor real dos salários. A pregação poderá caracterizar concretamente esta situação com afirmações e experiências de pessoas locais que sofrem com a desvalorização crescente do poder aquisitivo.

Uma possível estrutura:

- Testemunho de membros da Comunidade, ou outros, em torno da questão salarial e seus reflexos diretos na vida familiar social.

- Levantamento de algumas informações relativas à realidade salarial, econômica, social, existente (item l).

- Texto de Eclesiastes 5.18, com explicações referentes à compreensão bíblica (item II).

- Confronto entre o texto da Bíblia e o texto da vida (realidade)
.
- Motivações e estímulos para uma atuação conjunta visando o surgimento de sinais concretos da vontade de Deus a partir da cruz de Cristo.

IV - Subsídios litúrgicos

1. Intróito: Nestes últimos dias vocês amontoaram riquezas, e não têm pago os salários dos homens que trabalham em seus campos. Escutem as reclamações deles! Os gritos dos que trabalham nas colheitas chegaram até os ouvidos de Deus, o Senhor Todo-poderoso. (Tg 5.3bs).

2. Confissão de pecados: Senhor Deus, esta é a nossa realidade: Muitos não podem hoje gozar os frutos de seu trabalho. Fadigam-se debaixo do sol e não recebem o resultado correspondente ao seu esforço. A porção que lhes é destinada não está de acordo com a riqueza que ajudaram a construir. Esta não é a tua vontade. Tu queres que cada um, cada família, tenha o que comer e beber, o suficiente para viver de modo digno. A nossa realidade atual tu chamas de pecado. E nós estamos envolvidos nisto. Transforma a nossa mentalidade e atitude, para que a vida para todos se manifeste também aqui. Tem piedade de nós. Senhor.

3. Absolvição: Assim diz o Senhor: Eu darei a vocês coração novo, e colocarei dentro de vocês espírito novo. Tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei coração de carne. (Ez (36.26)

4. Oração de coleta: Deus, nosso Pai. Estamos reunidos como comunidade tua para celebrarmos culto a ti. Agora, ao ouvirmos a tua Palavra seremos confrontados com a tua vontade. Abre os nossos ouvidos, lava os nossos olhos para que enxerguemos os nossos irmãos. Por Jesus Cristo. Amém.

5. Assuntos para a oração final: Interceder pelos que perderam a alegria de viver, envolvidos pela necessidade de produzir carda vez mais; pelas mães que precisam trabalhar, e deixam os filhos com estranhos; pelos jovens que só podem estudar à noite, não conseguem resistir, e desistem; por aqueles que, fascinados pelo salário mensal, começam a trabalhar desde cedo, sendo vítimas da sociedade de consumo; por aqueles que são obrigados a fazer horas-extras; pelas famílias que, por causa do trabalho excessivo, não dispõem de momentos de convivência e comunhão, tornando-se pessoas distantes numa mesma casa; pelos que tiveram que sair dos campos e agora passam o dia dentro das quatro paredes de uma fábrica, sem enxergar a luz do sol; pelos patrões, que se tornaram insensíveis às necessidades de seus empregados e os consideram apenas um número, um fator de produção. Senhor, trazemos para junto de ti o que está acontecendo ao nosso redor. As tuas criaturas estão sofrendo. A grande maioria de empobrecidos sofre privações. Muitas são as adversidades, as angústias e nós nos sentimos impotentes diante desta realidade. Nós te pedimos, vence as barreiras, as diferenças, os conflitos que nós mesmos levantamos, na indiferença, na inveja, no ódio, no desamor. Tu queres que nos aproximemos mutuamente, que nos organizemos, pois sozinhos nada somos e nada podemos. A partir da cruz de Cristo, recebemos as forças para nos unirmos como irmãos, caminhando lado a lado, amparando-nos mutuamente, seguindo juntos ao encontro do teu Reino. Amém.

V — Bibliografia

- CURSO POR CORRESPONDÊNCIA REDESCOBERTA DO EVANGELHO: O evangelho vivido em sociedade. São Leopoldo, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, s.a. Fase. 9.
- ZIMMERLI, W. Das Buch des Predigers Salmo. In: Das Alte Testament Deutsch. v. 16/2. Göttingen, 1962.

Recomendo a leitura de MEINCKE, S. Meditação sobre Trabalhador: entre a carência e o desemprego - Deuteronômio 24.14 15. In: Proclamar Libertação, v. 9. São Leopoldo, 1983.

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Autor(a): Ricardo Nör
Âmbito: IECLB
Testamento: Antigo / Livro: Eclesiastes / Capitulo: 5 / Versículo Inicial: 18
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1984 / Volume: 10
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13990
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Tu és o meu Deus, eu te louvarei. Tu és meu Deus, eu anunciarei a tua grandeza.
Salmo 118.28
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