Efésios 1.3-6,15-18

Auxílio homilético

03/01/1993

Prédica: Efésios 1.3-6,15-18
Leituras:Isaías 61.10-62.3 e João 1.1-8
Autor: Martin Volkmann
Data Litúrgica: 2º Domingo após Natal
Data da Pregação: 03/01/1993
Proclamar Libertação - Volume: XVIII
 

1. O texto

Antes de mais nada, devemos estar conscientes de que o conjunto proposto como texto de pregação não é um texto corrido. Os primeiros versículos fazem parte de um conjunto maior, de caráter poético, que vai até o v. 14. No v. 15 inicia algo novo. Nas séries antigas (veja PL, vol. III), Ef 1.3-14 era o texto previsto para o Domingo da Trindade. Nesta sua conjugação atual, ele não estava previsto em nenhuma série. Por que esta conjugação das partes? Por que esta interrupção? Haverá alguma relação entre as duas partes, agora propostas como texto de pregação?

Toda linguagem da primeira parte é poética: a expressão bendito logo no início; a definição solene de Deus; o emprego, em sequência, de vários termos da mesma raiz (bendito — abençoar — bênção; em amor — no Amado; graça — agraciar); a enumeração detalhada da ação salvífica de Deus já muito antes do próprio Jesus vir a este mundo. Esta parcela do poema é formada de três partes: a primeira contém a declaração fundamental; as duas últimas, a justificativa para tal afirmação, retomando a explicação para a bendição na primeira parte:

1. Afirmação fundamental — 1a parte

Bendição: Deus e Jesus Cristo. Explicação: Bênção celestial.

2. Justificativa — 2a e 3a partes

a) Afirmação: escolha. Finalidade: santos e irrepreensíveis.
b) Afirmação: predestinação. Finalidade: louvor e glória.

As tentativas de estruturação do conjunto 1.3-14 são diversas. Há, inclusive, posições que defendem a impossibilidade de qualquer divisão em estrofes, considerando a forma totalmente solta de se agruparem as orações.

A segunda parte do texto não é em estilo poético. A linguagem, no entanto, é carregada, com vários genitivos se sucedendo (espírito de sabedoria e de revelação; riqueza da glória da herança). Além disso, há uma série de termos de profundo conteúdo teológico lado a lado.

À semelhança da primeira, também esta segunda parte é composta de três elementos:

1. Afirmação principal: a lembrança dos crentes nas orações do apóstolo.
2. Finalidade:
a) para receberem o espírito que possibilita o conhecimento de Deus;
b) para verem a esperança contida no chamado e a riqueza da glória que os espera.

Qual a relação entre estas duas partes?

A primeira parte destaca a situação em que se encontram os crentes: abençoados com toda sorte de bênçãos espirituais nas regiões celestiais. O hino nos leva a fixarmos os olhos numa realidade que está dada: os crentes participam da bênção de Deus. Três aspectos destacam isso: todos os verbos nas três partes que trazem uma afirmação estão no passado, ou seja, descrevem algo que já aconteceu e que continua valendo: — nos abençoou (...), nos escolheu (...), nos predestinou. Os outros dois aspectos se referem à justificativa da afirmação principal (segunda e terceira partes). Esta situação de graça aos olhos de Deus está dada antes da fundação do mundo. Não é algo dos últimos dias; é algo que está nos propósitos de Deus antes mesmo da nossa existência (v. 4). Paralelo a isso, a outra afirmação: Nós fomos escolhidos, já antes de nascer, para ser seus filhos (v. 5).

Mas, mesmo que se destaque aí a determinação deste ser agraciado muito antes da encarnação de Jesus, esta bênção está intimamente vinculada com Jesus, o Cristo. Em todas as estrofes, em cada qual em dois momentos, é feita menção expressa a Jesus Cristo. Neste aspecto, a relação com o evangelho do dia — Jo 1.1-18 — fica bem evidente.

Este estar sob a soberania de Deus como seus filhos tem consequências em nossa vida: ser santos e irrepreensíveis (v. 4) e servir para louvor e glória de sua graça (v. 6). Acima, na caracterização do texto como poesia, falávamos de finalidade. Do ponto de vista gramatical, de fato é uma finalidade. Mas, a partir do conteúdo, é melhor falarmos em consequência. O viver em santidade e de forma irrepreensível (cf. Cl 1 .22) para o louvor de sua graça não é um imperativo, algo a ser acrescentado. Pelo contrário, é a marca registrada daqueles que foram predestinados para serem propriedade exclusiva de Deus. Este viver é a nossa resposta ao que nos foi dado. O viver em santidade é expressão de que o que somos nós não o somos por nós mesmos, mas como fruto de sua graça, com a qual Ele nos agraciou. Por isso é simultaneamente expressão de louvor e glória d'Este que nos abençoou, escolheu e predestinou em Cristo, o Amado.

A primeira parte do texto destaca o que é realidade, aquilo que vale graças à ação do próprio Deus. A segunda parte retoma este assunto num primeiro momento: Tendo ouvido acerca da vossa fé no Senhor Jesus e do amor para com todos os santos. Por isso o apóstolo agradece (cf. Rm 1.9s.; l Co 1.4; Fp 1.4; Cl 1.3; l Ts 1.2; 2 Ts 1.3). E desta forma se destaca a relação para com a parte anterior. Ao agradecer pela fé e pelo amor da comunidade, o apóstolo reconhece Deus como a fonte última desta fé e deste amor. Apesar de não aparecer expressamente na primeira parte, a fé é a aceitação desta realidade dada por Deus, em Jesus Cristo. Assim se justifica tomar este conjunto como unidade de pregação, apesar da interrupção na sequência do texto.

Num segundo momento, o texto aponta para a vivência desta realidade hoje. Como o apóstolo ora para que os leitores sejam dotados de sabedoria e revelação para perceber onde Deus está, como Ele age e para onde nos conduz. Uma vez que a nossa pertença a Deus é tão certa desde a fundação do mundo, justamente o viver neste mundo nos ameaça de ofuscar a percepção para distinguir esta verdade. É interessante observar que o autor, por diversas vezes (1.21; 2.2; 3.10; 6.12), se refere aos poderes que outrora determinavam os leitores e agora ainda ameaçam desestabilizá-los em sua nova certeza.

Por outro lado, o apóstolo ora para que os olhos dos crentes se voltem para o que o espera. Quanto a isso, o autor aponta para duas coisas: o que nos espera já está incluído no próprio chamado (aqui há uma nova ponte para a primeira parte do conjunto). Não é algo à parte, um acréscimo; faz parte do que já está estabelecido e é realidade nos céus (v. 3). O segundo aspecto reforça isso: a riqueza da glória reservada para os santos. O autor busca um superlativo para tentar caracterizar como será o que já está contido no próprio chamado. Este último aspecto, juntamente com a ação de graças no início da segunda parte, se relaciona com o texto do AT (Is 61.10-62.3) em que o autor dá graças pela salvação realizada por Deus e não deixa de exaltar a glória da Jerusalém liberta.

2. O texto e a nossa situação

Comecei a análise, destacando o caráter poético da primeira parte do texto. Esta análise puxou as reflexões posteriores, porque a perícope sugerida não se restringe àqueles versículos iniciais. Assim, a partir da reflexão puramente formal, fui anã usando o texto também em seu conteúdo.

Se agora procuro ver o texto em relação a nosso contexto, não o faço independente daquela reflexão inicial, mas como continuação da mesma. Continuo tentando compreender a mensagem do texto, enfocando alguns tópicos em especial e teu do mais presente o contexto em que vivemos hoje.

2.1. Bendito seja Deus — v. 3

Bendizer a Deus é tradição muito antiga do povo de Deus, conforme nos testemunham o AT (Gn 9.26; 14.9s.; 24.31; Sl 18.46; 31.21; 72.18) e muitos outros textos que não constam na Bíblia, principalmente os Documentos de Qumran (1QS 11.15; 1QM 13.2; 14.4). No NT, temos igualmente tal bendição em diversas passagens (Lc 1.68ss.; Rm 1.25; 9.5; 2 Co 1.3ss.; l Pe 1.3ss.). Bendizer a Deus é relembrar, contar, em forma de louvor e adoração, quem é Deus e o que Ele fez. Quem bendiz a Deus quer exaltar a glória de Deus (v. 6), quer tornar conhecido o nome de Deus.

O lugar clássico de tal bendição é o culto, como nos atestam os Salmos. É o momento especial em que o povo de Deus celebra o seu Deus. Além disso, bendizei a Deus pode ser também a maneira individual, no dia-a-dia, de o crente respondei ao que experimentou com o seu Deus.

Na própria bendição está expresso o motivo da mesma. Bendiz-se a Deus contando como Ele é, o que Ele fez: que nos abençoou com toda a sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais, em Cristo. Abençoar/bênção é a forma como é descrita a presença de Deus na vida das pessoas (cf. Gn 12.1-4; Dt 11.26ss.; Mt 25.34; Lc 24.50; At 3.26; Gl 3.9,14). Nós recebemos tal bênção no batismo. O texto fala que ela é espiritual, ou seja, esta bênção nos concede o Espírito Santo. Bênção e Espírito Santo são duas expressões que caracterizam o próprio Deus. Sendo abençoados com tal bênção, nós somos colocados na esfera da soberania de Deus. Isso também é reforçado pela expressão nas esferas celestiais, ou seja, lá onde Deus é Senhor soberano.

Em nossa situação atual, essas duas coisas estão cada vez mais difíceis. Fica difícil ver como e onde Deus nos abençoa e, conseqüentemente, diminui a nossa bendição. Por isso a oração do apóstolo — que deve ser também a nossa — de que recebamos um espírito de sabedoria e de revelação para o conhecimento d'Ele (v. 17). Antes de aprofundarmos este aspecto, vejamos inicialmente o que já está colocado anteriormente e, para que possamos percebê-lo, precisamos do espírito de sabedoria e revelação.

2.2. Escolha e predestinação — vv. 4-6

Em nossa reflexão inicial, destacamos o fato consumado presente nestas afirmações. Os verbos no passado, antes da fundação do mundo, predestinação para a filiação — tudo isso aponta para o que já está estabelecido. Isto é verdade, isto permanece, isto cada ano eclesiástico destaca de novo. É o que nos relembrou novamente o Natal. Não custa recordar que a primeira parte do texto acentua, diversas vezes, a posição central de Jesus Cristo neste fato consumado em nosso favor. E o Natal nos relembrou isso: Deus se tornou nosso igual para nos revelar o que já vale para Ele há muito tempo: nós somos seus filhos.

Uma dificuldade em torno dessa verdade é a questão daqueles que não são escolhidos ou predestinados. Pois, onde há escolha, há sobra; onde há predestinação, também há condenação. Essa questão se apresenta para nós sob dois enfoques: De um lado, há aqueles que destacam a exclusividade da salvação em seu grupo, em sua confissão. Nós somos os salvos, os escolhidos. Quem não é como nós não tem parte na salvação. Os movimentos pentecostais radicais e outros grupos sectários enfatizam muito isso.

Do outro lado, há aqueles que, por motivos diversos, se sentem entre os predestinados para a condenação. Pobre nasceu para sofrer; eu não consigo acreditar; eu sou muito ruim para merecer outra coisa — são expressões muito comuns.

Mesmo que a reflexão posterior em torno da predestinação tenha incluído este lado (a condenação), ela não está presente no texto. E também não deveria merecer muito destaque em nossa pregação. Pois onde se acentua o que Deus fez, aí importa apenas aceitá-lo. Importa escutar a mensagem dita para cada um: Deus te escolheu antes da fundação do mundo. Ele te predestinou para ser seu filho. Onde se escuta isso, esta mensagem vale para mim. E é isso que o Natal relembrou novamente.

2.3. Vivência da salvação

Sobre este aspecto — já o vimos acima — se fala nas duas partes do conjunto: ser santos e irrepreensíveis (v. 4) — para louvor e glória de sua graça (v. 6); espírito de sabedoria e de revelação para o conhecimento d'Ele (v. 17); conhecer a esperança e a riqueza da glória contidas na sua herança (v. 18).

2.3.1. Santidade é a característica de Deus. Ser santo é, pois, o que caracteriza também aquele que pertence a Deus. Da mesma forma, o termo irrepreensível, que tem sua origem na linguagem cúltica. O animal a ser oferecido em sacrifício deve ser irrepreensível, sem mácula. Sendo achado assim, ele está apto para o sacrifício e passa a ser de Deus. Quem foi abençoado, escolhido e predestinado foi confiscado por Deus; vive sempre na presença dele e passa a ser um testemunho para o louvor e a glória da graça pela qual foi confiscado.

Em nossos dias, santo e irreprensível ganharam caráter puramente moralista, a ponto de quase serem palavras de deboche. Se conseguirmos transmitir esta mensagem, de que o ser santo e irrepreensível é o viver sob o senhorio de Deus, determinado pela orientação de Deus, poderemos tirar este caráter meramente moralista e devolver a marca da liberdade dos filhos de Deus.

2.3.2. Acima já apontamos para a dificuldade de vermos onde e como Deus age, uma vez que ainda estamos expostos aos poderes deste mundo (cf. 1.21; 2.2; 3.10; 6.12). O apóstolo fala, na carta, a partir de uma determinada cosmovisão, que não é mais a nossa. Mas, independente disso, a verdade expressa ali continua valeu do hoje: há poderes, há forças que dominam as relações humanas, a conjuntura nacional e internacional, a economia, a política. E há muitas pessoas que se sentem ameaçadas por forças espirituais, de maneira que não conseguem ver o agir de Deus nem aceitar-se como seus filhos amados.

Neste sentido, necessitamos de seu Espírito para que nos dê sabedoria, perecepção (= revelação), para reconhecermos onde e como Deus se manifesta em meio a todas as adversidades.

2.3.3. Esta percepção será muito mais fácil se estivermos conscientes daquilo que aguarda os filhos: a riqueza da glória, contida na sua herança. Sem dúvida, também hoje a glória daqueles que não fazem questão de ser ou viver como filhos de Deus parece ser maior do que a dos filhos. Basta lembrarmos todo o alarde em torno de corrupção, propina e, por outro lado, as grandes dificuldades pelas quais passa o povo em geral. Mas é fundamental colocarmos para a comunidade que o Reino é a nossa esperança, que o povo de Deus — os agraciados e predestinados de Deus — participarão da herança que anula todas as adversidades do presente.

Sem dúvida, aqui está um grande perigo: o de fomentar alienações, fugas para o além, conformismos e fatalismos. É difícil fugirmos de ser mal-entendidos nesse sentido. Mas, talvez a colocação de que a recompensa, a herança, já está presente agora no saber-se amparado por Deus em meio às dificuldades e dores e que essa convicção não se anula, mas perdura para além da morte e preenche de sentido toda a vida, agora e para além da morte — talvez essa colocação ajude a evitar o mal-entendido. Ao passo que a glória daqueles que agora estão por cima se desvanece, porque não pode dar sentido e valor para além da sepultura. Riquezas, honrarias e bens não ultrapassam o limiar do túmulo.

3. Encaminhando a pregação

Não podemos deixar de considerar a época em que nos encontramos: ainda estamos em pleno período natalino. É bem verdade que as festas de fim de ano terminaram. Aos poucos, as pessoas voltam ao trabalho, caso não estejam usufruindo das merecidas férias.
Talvez, nessa ressaca de festejos de final de ano, valha a pena recordar o evento fundante que deu ensejo aos festejos natalinos.

Pois em meio às demais festanças corremos o risco de esquecer aquele elemento básico de todo o nosso festejar: o Deus conosco. Por isso, o culto todo poderia estar centrado na bendição de Deus por aquilo que Ele fez. As orações, os hinos, o salmo, ao lado das leituras propostas para este dia, poderiam refletir este aspecto: Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.

Assim, a pregação poderia resumir-se em destacar este enfoque do texto: a bendição de Deus por aquilo que Ele fez — o agradecimento do apóstolo pela fé da comunidade nisso.

Mas também haveria a possibilidade de ampliar o enfoque com o terceiro aspecto de nossa reflexão: a vivência da salvação.

Outra modalidade seria concentrar a bendição na liturgia inicial e apontar pá rã tal novamente no início da pregação, passando a dar ênfase especial a este terceiro aspecto.

4. Subsídios litúrgicos

1. Hinos: HPD 263, 253.

2. Salmo: Lc 1.68-79; Sl 34; Sl 72.18-19.

3. Saudação: Ef 1.3.

4. Orações: As orações de confissão de pecados e de intercessão são, a meu ver, muito condicionadas pela situação histórica da comunidade. Por isso é difícil formulá-las à distância.
Elementos possíveis para a confissão: pouca disposição para a bendição de Deus; dificuldades em perceber a presença de Deus e, por isso, falta de confiança nele; vida descompromissada em relação às necessidades do próximo. Para a intercessão poderão ser coletados elementos junto à própria comunidade.

5. Bibliografia

FOULKES, F. Efésios. Introdução e Comentário. Vida Nova/Mundo Cristão, 1963.
GNILKA, J. Der Epheserbrief. In: Herders Theologischer Kommentar zum Neuen Testament. Freiburg/Basel/Wien, Herder, 1971.
SCHLIER, H. Der Brief an die Epheser. Düsseldorf, Patmos, 1957.
WEBER, B. Meditação sobre Ef 1.3-14. In: Proclamar Libertação. Vol. 3, São Leopoldo, Editora Sinodal, 1978.

Proclamar Libertação 18
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Martin Volkmann
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Natal
Perfil do Domingo: 2º Domingo após Natal
Testamento: Novo / Livro: Efésios / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 3 / Versículo Final: 6
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1992 / Volume: 18
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7222
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Não há pecado maior do que não crermos no perdão dos pecados. Este é o pecado contra o Espírito Santo.
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