Efésios 3.1-12

Auxílio Homilético

06/01/2011

Prédica: Efésios 3.1-12
Leituras: Isaías 60.1-6 e Mateus 2.1-12
Autor: Humberto Maiztegui Gonçalves
Data Litúrgica: Epifania de Nosso Senhor
Data da Pregação: 06/01/2011
Proclamar Libertação - Volume: XXXV


1. Introdução

Estamos na Epifania (do grego epi [sobre, em cima de] e fanós [lanterna, luz]), tempo em que a igreja cristã, desde os primeiros séculos, lembra dessa tradição da comunidade de Mateus (2.1-12), segundo a qual o nascimento de Jesus teria sido acompanhado da aparição de um “astro” ou uma “estrela” (astéra). No entanto, a raiz que dá nome à “epifania” não aparece nesse texto. O termo em si pode ser anterior mesmo aos evangelhos, trazido pelo apóstolo Paulo na 2ª Carta aos Tessalonicenses, quando fala, paradoxalmente, da manifestação do “inimigo” de Cristo. Somente em textos “deuteropaulinos” é que encontramos esse termo ligado à revelação de Cristo, como em 1 Timóteo 6.14, referindo-se à “manifestação gloriosa” de Jesus em sua segunda vinda ou parusia. Sendo a comunidade de Mateus, composta por um número significativo de pessoas cristãs vindas do judaísmo, não é de surpreender que vinculassem a vinda de Jesus a um evento cósmico. Sabemos que o mero nascimento de Cristo de uma mulher (mesmo que virgem) não era suficiente para o imaginário judaico em relação à vinda do Messias. Os judeus esperavam, como diz o próprio Evangelho segundo Mateus, que o Messias viesse “na glória de seu Pai, rodeado de seus anjos” (16.27b). De certa forma, o texto de Trito-Isaías (56-66), indicado para este domingo, fala-nos de uma “epifania” de Jerusalém. O sentido da epifania é atrair todas as nações e pessoas para esta cidade que será, ao mesmo tempo, centro concentrador e difusor da vontade de Deus.

2. Exegese

Alguns estudiosos da literatura neotestamentária manifestam dúvidas sobre a autoria autenticamente paulina dessa carta, listando, entre outras questões, a ausência de detalhes concretos, salvo uma menção à prisão do apóstolo (como acontece em 3.1). O apóstolo não parece ter tido nenhum contanto direto com os destinatários e qualifica-os de “gentios”, isto é, “não-judeus” (também em 3.1). Outros falam da possibilidade de ser essa uma “carta circular”, que posterior- mente teria sido identificada como sendo dirigida aos Efésios (já que essa atribuição não aparece em diversos manuscritos) ou que ainda fosse dirigida a todas as igrejas da Ásia. Paulo é apresentado como um missionário mandado por Deus aos gentios (3.2ss). Outra possibilidade, indicada desde os primeiros tempos do estudo dessa carta, é que tivesse sido originalmente dirigida ao Laodicenses (cf. Cl 4.16). Enfim, a hipótese de uma carta circular geral, que pode ter sido escrita totalmente, ou em parte, pelo apóstolo Paulo, parece ser a opção autoral mais recomendada. Se for assim, devemos buscar em seu texto uma referência geral à visão eclesiológica do apóstolo no que se refere à inclusão das pessoas que se converteram ao cristianismo a partir das religiões greco-romanas. Por mencionar a prisão de Paulo, também devemos considerar o contexto da perseguição do Império Romano contra as comunidades cristãs como pano de fundo.

Há também um forte paralelismo entre a carta deuteropaulina aos Colossenses e a Carta aos Efésios. O texto indicado para esse domingo é apontado em paralelo com Colossenses 1.14-19, por exemplo. Segundo Maurice Carrez, isso pode indicar que a Carta aos Efésios seria uma versão ampliada da Carta aos Colossenses. Portanto também consideraremos isso em nossa análise.

O texto de Efésios 3.1-12 encontra-se, dentro da estrutura geral da carta, no final da primeira parte (1.3-3.21), onde o assunto é o ministério da inclusão dos gentios no plano de salvação de Deus. A parte central (2.11-22) mostra justamente essa ênfase ao afirmar que, em Cristo, judeus e gentios estão reunidos no surgi- mento do “novo ser humano” (2.15). A perícope em questão pode ser dividida em duas partes: 3.1-7 (falando do ministério inclusivo de Paulo como apóstolo entre os gentios) e 3.8-13 (onde é feito o anúncio do mistério de Cristo Ressuscitado aos gentios). Podem notar aqui um problema de delimitação, já que o texto litúrgico vai até o versículo 12. Certamente a delimitação litúrgica não considerou a versão grega do texto. O versículo 13 está diretamente ligado ao assunto anterior, iniciando com o termo dió, que pode ser traduzido como “pelo que”, indicando uma consequência argumentativa do assunto anterior. Portanto, mesmo fora do texto indicado, devemos também considerar exegeticamente esse versículo. Por outro lado, nesse versículo, fala novamente das tribulações do cárcere, fechando o círculo argumentativo iniciado no versículo 1, quando indica ser “prisioneiro”. Seguindo essa mesma linha de raciocínio, podemos vislumbrar uma construção textual concêntrica com um eixo que liga as duas partes que indicamos anterior- mente. Vejamos:

A – 3.1-2 (Três elementos da realidade vivida pelo apóstolo: prisão, graça, revelação).
B – 3.3-6 (O mistério da inclusão dos gentios na “mesma herança”).
C – 3.7-9 (O ministério de Paulo como sinal de sua própria inclusão).
B’ – 3.10-11 (A igreja como instrumento de inclusão no projeto de Jesus Cristo).
A’ – 3.12-13 (A nova realidade que une Paulo aos gentios: liberdade em Cristo, fé, glória).

A inclusão é o assunto que perpassa toda a perícope. A prisão tem sentido porque acontece dentro do projeto inclusivo de Jesus (v.1-13). A revelação é justamente que gentios e judeus participam da mesma herança (v. 6), mesmo que o apóstolo não use a palavra “israelitas” ou “hebreus” como em 2 Coríntios
11.22. Na primeira parte do texto, ele fala dos gentios (tá étne) em terceira pessoa, afirmando que são “co-herdeiros” (v. 6.). A inclusão fica fortemente delineada no texto grego através do prefixo sun, isto é, “com”, como em “co-herdeiros” (sugkleronóma) e depois sússoma (co-corpóreos) e finalmente summétoxa (co- participantes). No centro, o ministério do apóstolo é descrito como um processo de inclusão pela graça (v. 7). Ao se apresentar como “último-dos-últimos” (elaxistotéro), o apóstolo identifica-se com os gentios, que eram os últimos a participar da herança de Deus, agora inclusiva em Cristo. Enfim, ele afirma “em Cristo, portanto, nós temos, pela fé nele, a liberdade de nos aproximar com toda a confiança” (v.12; TEB). Chegando a essa nova realidade, onde não mais “eu e eles”, “últimos e primeiros”, mas “nós”.

3. Meditação

Evidentemente, a ligação encontrada pelas pessoas que originalmente pro- puseram o lecionário entre a Epifania e Efésios 3.1-12(13) foram as palavras presentes em 3.3: egnoríste (“manifestado” ou “dado a conhecer”), unida à palavra apokálupsin (revelação). De fato, Paulo mostra que a inclusão dos gentios é uma verdadeira revelação, que não somente iguala toda a humanidade por filiação e por herança, mas que a une em um destino comum de libertação e vida. Olhando a Epifania por esse prisma e lembrando que esses magoi do Oriente são apresentados como “gentios”, revela-se perante nossos olhos a vontade inclusiva da divindade criadora, que, através de um sinal cósmico e universal, une todos em Cristo. Sendo assim, o sentido cósmico de Cristo é, como disse o próprio apóstolo Paulo, que “Deus seja tudo em todos” (1Co 15.28b). A estrela brilhou acima de todos, e a notícia foi trazida de fora, pelos distantes, pelos últimos dos quais se esperaria tal feito.

A pergunta que nos traz esse tempo é: O que vemos quando olhamos para as estrelas do céu? O que teriam visto esses astrólogos/astrônomos do povo? Eles viram uma revelação sem exclusão! A mesma revelação que Paulo viu pelas es- tradas, nas cidades, nos rostos, nas vidas, nas histórias das pessoas que esperavam a boa-nova (o evangelho) de que seriam tão herdeiras do legado de Deus quanto qualquer outra; que, mesmo carregando a culpa do pecado, seu pecado não era maior do que qualquer outro e que a graça derramada por Deus estava próxima e acessível a todos. Paulo viu essa revelação em sua própria vida! Agora a estrela que o inclui era mostrada para todos os povos. Possivelmente foi o sentimento daqueles magoi quando sentiram a enorme alegria, o fantástico entusiasmo de ver que, finalmente, chegara a salvação para todas as pessoas sem restrição, sem exclusão.

Temos aqui caminhos que se encontram em Cristo. O caminho da estrela, que ilumina desde a imensidão do universo uma pequena cidade da periferia, o caminho de um “herdeiro” que se descobre último-entre-os-últimos e ao mesmo tempo irmão de todos e co-herdeiro com todos. Epifania quer nos apontar para o encontro, para o “com”, para o “nós”, para o “juntos”.

4. Imagens para prédica

A Epifania convida-nos a olhar para o céu em uma noite estrelada. Ficar em quietude olhando para as estrelas como quem espera que elas nos deixem alguma mensagem. Uma estrela mais forte, uma estrela cadente (um desejo), mergulhar em uma imensidão sem fim, sem poder perguntar por fronteiras. Podemos colocar estrelas na igreja, podemos desligar as luzes e podemos, se a celebração for à noite e a noite o permitir, convidar todas as pessoas para sair e ficar alguns minutos olhando para as estrelas. Esse céu está acima de todas as pessoas, sem distinção, nos iguala e nos fala de eternidade!

Com a imagem do céu em nossas mentes e corações, podemos olhar para multidões de pessoas, para seis bilhões de seres humanos e tentar ver o mesmo que vimos no céu. Assim foi que Jesus Cristo se revelou ao apóstolo Paulo, mostrando que todas as pessoas são igualmente dignas, igualmente herdeiras. Aceitamos as estrelas do céu? Aceitamos a nossa igualdade diante de Deus? Então vimos a estrela da Epifania brilhar e apontar para Cristo em nossa comunidade.

Olhar para o que se apresenta diferente e ver como a diferença nos en- riquece e nos orienta é outra maneira de distinguir a mensagem que cada estrela tem para nós. Podemos colocar os nomes de todos os povos da terra em estrelas. No Brasil, quantos povos há? Só de indígenas mais de 170 povos! E no mundo? O que nos diz isso sobre inclusão e co-herança, co-corporalidade e coparticipação?

5. Subsídios litúrgicos

Procissão de entrada:

Pode ser levada uma estrela maior com a palavra INCLUSÃO ou JUNTOS/AS ou PARA TODOS E TODAS. Enquanto se canta algum canto que fale
de inclusão. Cada pessoa da comunidade pode receber também uma estrela de cartolina, em que escreverá seu nome e que será levada para o altar na hora do ofertório ou comunhão.

Acolhida:

As pessoas que animam a celebração podem dizer a frase do evangelho:
“Vimos sua estrela no Oriente e viemos prestar-lhe homenagem”. Todos podem responder, dizendo ou cantando: “Louvemos ao Senhor!”.

1. Se for à noite ou em um lugar que possa ser escurecido, podemos durante o srmão ou orações projetar luzes (como estrelas), o que pode ser facilmente conseguido com uma bolinha de espelhos e uma lâmpada ou lanterna.

2. Depois de cada oração podemos responder juntos/as: “Graças a Deus, que nos uniu em um mesmo corpo, nos fez participar de uma mesma herança e
nos redime com a sua graça” (ou algo nesse mesmo teor, que indique a inclusão em Cristo, podendo ser usado o refrão de algum canto que fale de unidade).

Bibliografia

CARREZ, Maurice. As cartas aos Colossenses e aos Efésios, o bilhete a Filemom. In: As Cartas de Paulo, Tiago, Pedro e Judas. São Paulo: Paulinas, 1987. p. 225-230.


Autor(a): Humberto Maiztegui Gonçalves
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania

Testamento: Novo / Livro: Efésios / Capitulo: 3 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 12
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2010 / Volume: 35
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18612
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Cantarei de alegria quando tocar hinos a ti, cantarei com todas as minhas forças porque tu me salvaste.
Salmo 71.23
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