Estudo 12 - A Santa Ceia: Comunhão com o Senhor e com os seres humanos ( CA X, XXII e XXIV )

Estudos da Confissão de Augsburgo

17/01/1980

ESTUDO 12
A SANTA CEIA: COMUNHÃO COM O SENHOR E COM OS SERES HUMANOS
(CA X, XXII e XXIV)

Bertholdo Weber

1. A situação nas comunidades:

No culto o pastor anuncia que será celebrada a Santa Ceia e que todos estão cordialmente convidados a participar. Mas nem todos atendem a esse convite. Muitos chegam a voltar logo para casa. Por quê? Há membros que costumam tomar a Santa Ceia só uma ou duas vezes por ano, por exemplo, na Confirmação e na Semana da Paixão; outros vão raras vezes ou oportunamente, quando se sentem dispostos, ou então só a pedem quando estão gravemente doentes. Para uns a Santa Ceia administrada ao enfermo é sinal de que ele vai morrer em breve, para outros é um remédio para restabelecer-lhe a saúde. Comente em grupo essas atitudes e verifique como é a prática na sua comunidade. 

Existem, nas comunidades, ao lado de uma singela piedade eucarística, muitos mal-entendidos a respeito da Ceia do Senhor. A principal confissão de fé da nossa Igreja, a Confissão de Augsburgo (CA), bem como os Catecismos de Lutero podem ajudar-nos para uma melhor compreensão e uma participação mais frequente e mais alegre da Santa Casa. 

2. O Senhor nos convida 

Um convite para uma festa (casamento, banquete, etc.) geralmente nos causa alegria e satisfação. A nossa participação, porém, depende da importância que atribuímos ao convite especialmente a quem nos convida e para que nos convida (ver Mt 22-1-14). 

Na Santa Ceia, quem nos convida à sua mesa é o próprio Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador. Já durante a sua vida nesta terra sentou-se à mesa com pecadores e publicanos, e comeu com eles. Nessa comunhão de mesa Jesus concede a graça de Deus aos perdidos, perdão e vida nova aos pecadores, antecipando desta maneira a grande Ceia da alegria (festa de bodas) no reino de Deus para o qual veio convidar a todos (Ap. 19.6-9; procure outros exemplos do Novo Testamento). 

3. A instituição da Santa Ceia 

Quando em Jerusalém se costumava comemorar nas famílias o Pascha, a festa em memória da libertação do cativeiro egípcio e da aliança de Deus com o seu povo, Jesus também reuniu seus discípulos e instituiu a Santa Ceia da nova aliança, selada por sua Paixão e morte em favor de todos. 

Estando para ser entregue (na noite em que foi traído), e abraçando livremente a Paixão, Jesus distribuiu aos discípulos o pão, dizendo: Tomai e comei, isto é o meu corpo que é dado por vós. Depois deu-lhes o cálice de vinho dizendo Tomai e bebei todos, este cálice é a nova aliança no meu sangue que é derramado em favor de vós para a remissão dos pecados. Fazei isto á minha memória. (Cf. Mt 26.26-29; Mc 14.22-25; Lc 22.16-20; I Co 11.23-26. Uma tarefa interessante, embora um pouco demorada, é colocar esses textos em colunas, lado a lado, para então comentar diferenças e descobrir a mensagem própria de cada apóstolo.

Nessa nova Ceia pascal o Senhor dá-se a si mesmo, seu corpo e sangue sob o pão e o vinho, aos seus e os faz participar do fruto de sua obra salvífica, de sua Paixão e Vida, na expectativa de sua glória vindoura. 

4. Presença real 

Quando pessoas se reúnem para celebrar juntos a Santa Ceia, conforme foi instituído por Cristo, em qualquer lugar, Ele mesmo está presente nesse ato sacramental de comer e beber, oferecendo-lhes remissão dos pecados, vida e salvação (Catecismo de Lutero). A Confissão de Augsburgo no seu artigo X, complementando pelos artigos XXII e XXIV, diz a este respeito: 

Da Ceia do Senhor ensinamos que o verdadeiro cor-po e o verdadeiro sangue de Cristo estão presentes sob a forma do pão e do vinho e são distribuídos e recebidos na Santa Ceia (CA X). 

Esta presença real de Cristo na Santa Ceia é um mistério incompreensível à razão humana; e ela se realiza pelo poder do Espírito Santo através da Palavra, não pela fé da comunidade ou do membro individual. Mas o dom da Ceia do Senhor é recebido para a salvação somente pela fé. Isto quer dizer que só os que se arrependem de sua culpa de pecados e crêem nas palavras e promessas de Cristo (dado em favor de vós) recebem a remissão de seus pecados e são libertados da servidão para uma vida nova em comunhão com Deus e para o serviço aos seres humanos. 

Quanto à prática, a CA ainda observa: 

Damos aos fiéis ambas as espécies do sacramento (pão e vinho), porque é ordem clara e mandamento de Cristo em Mateus 26.27: Bebei dele todos (CA XXIV). 

Comente em grupo essas afirmações da Confissão de Augsburgo. 

5. A Santa Ceia cria comunhão 

A comunhão da Santa Ceia é com o Senhor presente e entre os comungantes. O Senhor dando-se a si mesmo, reúne e une a todos que participam do mesmo pão em um só corpo (I Co 10.17), sua igreja. Por sua presença nos deixa experimentar que somos todos irmãos, membros de seu corpo, enviados e fortalecidos por seu Espírito para a missão e o serviço no mundo. A comunhão que Cristo cria, a Ceia para a qual ele nos convida, está aberta e não admite restrições de posição social de classe ou de raça. Todos, sem reservas, são convidados e na fé integrados nesta comunhão fraterna de mútuo auxilio e aceitação. 

A Santa Ceia, fonte e ponto culminante de toda vida da comunidade, é o sacramento da unidade. Quem está incluído' nessa comunhão com o Senhor e aceito no amor de Deus, não pode, ao mesmo tempo, desprezar, odiar e oprimir o seu próximo. Não podemos desejar sinceramente que Deus nos perdoe a nossa culpa e, ao mesmo tempo, negar-nos a perdoar as dívidas e ofensas do nosso próximo. Impenitência obstinada e falta de disposição a perdoar barram o caminho ao altar do Senhor (Mt 5.23s; 6.15). Pecamos também contra a comunhão que Cristo cria e dá, se partilhamos juntos o mesmo pão eucarístico, mas deixamos de partilhar com o outro o pão e os bens desta terra. O Senhor presente na Santa Ceia nos espera nos seus irmãos necessitados com os quais se solidariza e identifica (Mt 25.31-46). Compreendemos agora o desafio radical à comunidade e a todos os cristãos: a participação da Ceia fraternal, na qual Cristo nos reconcilia com Deus e com os outros, tem sérias consequências concretas para a convivência com os outros na vida comunitária, familiar e social. Perguntemo-nos se a Santa Ceia já mudou uma vez a nossa vida e o que deveria mudar em nosso meio para que a celebração da Ceia não passe de uma farsa ou costume vazio de sentido. (Debata essa questão em grupo). O Senhor presente quer nos integrar no poder renovador do seu amor, na dinâmica de sua Vida de ressurreição. Na Santa Ceia somos envolvidos no seu sacrifício único e irrepetível, para que nos ofereçamos a nós mesmos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (Rm 12.1) na vivência diária, na oração e na ação, anunciando a morte do Senhor, até que ele venha (I Co 11.26). Anunciar a morte do Senhor encerra em si a Cruz, a solidariedade no sofrimento e na esperança com, todos os homens, para tornar visível o amor de Cristo no serviço e na luta. O partir do pão indispensável para a vida, estimula-nos a não concordar com as condições de vida das pessoas privadas do pão, da justiça e da paz (A Ceia do Senhor, pg. 20). Debata: Como pode essa realidade se tornar visível em nossa comunidade?

6. A celebração antecipada da nossa redenção final 

A celebração da Santa Ceia não é somente um relembrar do passado, mas a proclamação eficaz dos atos poderosos de Deus no presente e o antegozo do reino de Deus vindouro. Diferente da maneira como se costuma celebrar a Santa Ceia em muitas comunidades que lembra, pela atmosfera triste, um ato fúnebre, para as primeiras comunidades cristãs a Ceia do Senhor representava uma alegre antecipação da ceia festiva no seu Reino, quando a redenção estará perfeitamente consumada e a criação libertada de toda a servidão (Rm 8). Em sua peregrinação pela história o povo de Deus é alimentado pelo pão vivo que veio do céu e já agora participa da vida renovada e plena, na expectativa do eterno reino vindouro, da liberdade e da justiça. Nessa alegria e expectativa ardente a primeira comunidade cristã celebrava a Ceia do Senhor em todos os cultos. Se compreendemos que a Ceia do Senhor é o coração e a fonte da nossa fé e vida de cristãos, o culto dominical com a celebração do Sacramento do altar deveria ser o objetivo a ser aspirado na edificação de uma comunidade cristã viva e atuante. Para isto deve também contribuir a liturgia eucarística relacionada o mais possível com a situação concreta e seus problemas humanos. 

Debata em grupo: Como podemos melhorar a prática da Santa Ceia em nossa comunidade? 

7. A esperança pela intercomunhão 

A Santa Ceia, o sacramento da unidade, lamentavelmente tornou-se, por longos séculos, objeto de disputas doutrinárias irreconciliáveis. A mesa do Senhor, símbolo da comunhão do seu corpo, dividiu os cristãos. Quem não sofre com esta separação e quem não anela por uma intercomunhão na Santa Ceia, entre os cristãos de diversas confissões num futuro próximo! Com gratidão reconhecemos nos resultados de um diálogo sério entre as igrejas sinais promissores e passos no caminho a uma comunhão também no Sacramento da Santa Ceia, assim como já existe no reconhecimento do Batismo. Esse anelo de unidade, cujo signo e fonte é a celebração da Santa Ceia, se converterá em critério de credibilidade e instrumento de evangelização até que chegue o momento, mediante a ação do Espírito e o autêntico trabalho ecumênico, da plenitude de todos os crentes em Cristo.
Debata: Como você veria a possibilidade de católicos e evangélicos de confissão luterana celebrarem juntos a Santa Ceia? 

8. Hinos sugeridos 

Nr. 141a: Em noite tenebrosa.
Nr. 247: Tu queres ver unido Teu povo a Ti, Senhor.

Veja:

Confessando Nossa Fé – Estudos da Confissão de Augsburgo

A Confissão de Augsburgo (sem notas e comentários)
 


 


Autor(a): Bertholdo Weber
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Confessando Nossa Fé - Estudos da Confissão de Augsburgo / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1980
Natureza do Texto: Educação
ID: 19793
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