Estudo 5 - Para que serve a pregação? (CA V)

Estudos da Confissão de Augsburgo

24/01/1980

ESTUDO 5
PARA QUE SERVE A PREGAÇÃO? (CA V)

Harald Malschitzky

1. Muitas vezes, quando uma pessoa que nunca vai à igreja, é perguntada pelas razões de agir assim, ela responde: De todo jeito é sempre a mesma coisa. Eu já sei o que o pastor vai dizer. Eu acredito em Deus e não faço mal a ninguém, isto é suficiente. 

Antes de mais nada cabe aqui uma pequena observação: uma afirmação assim deveria tirar o sono de pastores, pregadores e todos aqueles que, de qualquer forma, procuram ensinar no âmbito da igreja. Temos que nos perguntar se nos preparamos o suficiente e se fazemos uso de nossa imaginação e de nossas capacidades em favor da pregação do evangelho. 

Por outro lado, a desculpa acima para não participar das atividades comunitárias não pode ser aceita assim simplesmente. 

Ocorre que a maioria dos seres humanos acredita em um ou mais seres superiores. Parece que isso é uma experiência muito humana e natural que se acredite em um Deus. Basta olhar a história da humanidade para constatá-lo claramente. O homem moderno é mais sofisticado, mas no fundo ele acredita em algo superior, ainda que seja uma idéia, um ideal a ser alcançado ou o que o valha. Tiago, em sua carta (2.19), insinua que até os demônios crêem. 

Talvez por esta mesma razão, nós atualmente caímos facilmente em outra cilada, qual seja, a de igualar tudo quando se trata de fé: Fé cristã, espiritismo, seicho-no-iê, benzimentos, com a justificação simplória de que, afinal de contas, todos falam de Deus e que, portanto, só pode ser uma coisa boa. Ao contrário disso, Lutero procurou deixar claro e ensistia no seguinte ponto: A fé vem pela pregação do EVANGELHO e o Espírito Santo se vale da pregação da palavra bíblica para atuar em nós, para gerar a fé nos corações humanos, pois o Deus testemunhado na Bíblia não pode ser confundido com eventuais outros deuses. 

2. Leiamos agora o que nos diz a Confissão de Augsburgo, em seu artigo V

Para alcançarmos a fé (que justifica, segundo o artigo IV), Deus instituiu o ministério da pregação e deu-nos o Evangelho e os Sacramentos. Estes são os meios pelos quais ele nos dá o Espírito Santo. Este seu Espírito Santo gera a fé naqueles que ouvem o Evangelho e isso acontece onde e quando for da vontade de Deus. O Evangelho ensina que, crendo isso, temos um Deus gracioso, não por nossos próprios méritos, mas, sim, pelos méritos de Cristo. 

Aqui será bom refletirmos sobre o que diz esse artigo da Confissão de Augsburgo. Se estamos reunidos em grupo, podemos compartilhar e debater nossas descobertas. 

3. Dissemos que o Espírito Santo gera a fé e que para tanto ele se vale da pregação da palavra bíblica. Vemos, assim, que a Bíblia é sumamente importante. Todavia, a Bíblia não é nem um livro de receitas, nem uma coletânea de leis de conduta. Ela é um testemunho escrito — só assim ele pode chegar até nós! — da história de Deus com os homens e dos homens com Deus. Isso desde a criação. 

Conta-se que uma pessoa piedosa costumava usar a Bíblia como livro de receitas. Todas as manhãs lia duas passagens que eram escolhidas assim: Ela enfiava uma faca por entre as páginas da Bíblia fechada e lia a frase mais próxima da ponta da faca. Certo dia, ela abriu e leu: Então Judas, atirando para o santuário as moedas de prata, retirou-se e foi enforcar-se (Mt 27.5). Quase que mecanicamente ela enfiou a faça em outro lugar e leu: Vai e procede tu de igual modo (Lc 10.37). 

O uso da Bíblia como um livro de leis é muito difundido: A mulher não deve cortar o cabelo nem deve falar na igreja (comunidade); a proibição de certos tipos de comida, etc. 

Usando a Bíblia dessa maneira, esquecemos que ela foi escrita por pessoas de uma determinada época, ou melhor, até de épocas diferentes. Aquelas pessoas, usando a sua linguagem e refletindo os seus costumes e a sua cultura, procuraram testemunhar os feitos de Deus. A própria Bíblia como livro que é, por assim dizer, não passa de um invólucro; é o veículo da palavra de Deus. Por isso mesmo nós precisamos estudar e procurar entendê-la na sua própria época e situação para podermos atualizá-la para os nossos dias. A isso é que se chama pregação em sentido amplo.

Neste processo de aprendizagem, também o pregador (vide lição seguinte) é apenas um instrumento para ajudar no caminho de uma compreensão melhor da mensagem bíblica e não — como tantas vezes se pensa — o dono da verdade. É necessário estabelecer um diálogo com o texto bíblico e neste diálogo tanto as nossas perguntas têm valor, como têm valor as perguntas e críticas que os diversos textos nos fazem hoje. Aqui é importante lembrar que pregação não é apenas a prédica que acontece no culto tradicional. Há diversas maneiras de nós nos defrontarmos com a Bíblia. Por exemplo: O estudo em grupo a partir de uma passagem bíblica; o estudo de um tema para o qual se procuram por passagens bíblicas; a prédica que conhecemos; o estudo pessoal da bíblia, ainda que seja apenas a sua leitura atenciosa; a leitura de explicações e meditações. O que não se pode aceitar é a afirmação de que alguém já sabe tudo o que está escrito! Muitas vezes nós nos queixamos da pequenez de nossa fé. Achamos que somos fracos, que a nossa fé é inoperante, que em nossa igreja a fé é fria, temos um monte de dúvidas e perguntas. Um dos problemas básicos é que nós não nos expomos à palavra. Nós já temos um esquema pronto e não queremos ouvir aquilo que não cabe nesse esquema. Ficamos bloqueados às novidades das quais o testemunho bíblico está cheio. Muitas vezes somos parecidos com aquela pessoa que reclama porque não fica bronzeada, mas que sempre permanece na sombra e bem agasalhada sem jamais se expor ao sol. Nós pensamos que podemos guardar a fé como se guarda, a sete chaves, qualquer objeto. A fé, porém, é dinâmica e por isso mesmo ela precisa ser realimentada sempre de novo a partir da palavra de Deus. Me parece que nós precisamos ser muito mais curiosos em relação à mensagem bíblica e iremos descobrir que esta mensagem tem um tremendo poder para a vida, de vez que fé cristã é uma forma de vida. Esta fé só pode vir pela palavra de Deus atualizada sempre de novo.

Finalmente mais uma observação: Para sobrevivermos na fé necessitamos da comunidade, da igreja, do povo de Deus. A fé não pode ser vivida no isolamento. 

4. Perguntas para reflexão. 

a) O que poderíamos fazer em nossa comunidade para que a palavra de Deus se torne mais conhecida? 

b) Por que será que existem grupos (exemplos: OASE, JE) que se reúnem por diversos motivos, mas que têm uma certa alergia quando se trata de estudar a Bíblia? 

c) De que forma poderíamos ajudar os pregadores (pastores) de nossa comunidade a atualizar a palavra bíblica? 

5. Hinos sugeridos 

Nr. 90: Longe e perto, com rigor.
Nr. 94: Acorda, Espírito alteroso.

Veja:

Confessando Nossa Fé – Estudos da Confissão de Augsburgo

A Confissão de Augsburgo (sem notas e comentários)

 


Autor(a): Harald Malschitzky
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Confessando Nossa Fé - Estudos da Confissão de Augsburgo / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1980
Natureza do Texto: Educação
ID: 19760
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