Ganhar o mundo ou a vida?

Qual a verdadeira riqueza da Igreja da Reforma?

30/09/2019

 

1 Timóteo 6.6 De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. 7 Porque nada trouxemos para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. 8 Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. 9 Mas os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos insensatos e nocivos, que levam as pessoas a se afundar na ruína e na perdição. 10 Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e atormentaram a si mesmos com muitas dores. 11 Mas você, homem de Deus, fuja de tudo isso. Siga a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança, a mansidão. 12 Combata o bom combate da fé. Tome posse da vida eterna, para a qual você também foi chamado e da qual fez a boa confissão diante de muitas testemunhas. 13 Diante de Deus, que preserva a vida de todas as coisas, e diante de Cristo Jesus, que, na presença de Pôncio Pilatos, fez a boa confissão, eu exorto você 14 a guardar este mandato imaculado, irrepreensível, até a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo, 15 a qual, no tempo certo, há de ser revelada pelo bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores, 16 o único que possui imortalidade, que habita em luz inacessível, a quem ninguém jamais viu, nem é capaz de ver. A ele honra e poder eterno. Amém!” NAA

Ganhar o mundo ou a vida?

Quando criança, brincávamos assim: “Eu vejo o que você não vê e sua cor é verde!” Era uma brincadeira de adivinhações de objetos ou percepções da natureza. Quem descobria primeiro, poderia seguir com a bincadeira de adivinhação. Era divertido.

Vamos repetir isso aqui. A pergunta será um pouco diferente: “Eu vejo o que você não vê e parece ser uma riqueza”. O que você apontaria como extremamente valioso, como sendo um tesouro?

Nossas comunidades cristãs são tão pequenas e limitadas que, às vezes, resignamos. Sonhamos com uma Igreja forte, cheia de dons e sem a insolvência financiera que estamos vivendo. Sonhamos com muita gente e com muitos dons. Gostaríamos de ter pessoas com profundo conhecimento bíblico e com enorme despreendimento financeiro para podermos tocar essa missão quase bicentennária.

Mas a realidade é outra. Rebanho pequeno, pouca força, pouca esperança e algum freio de mão puxado. Muitos dos nossos líderes ainda se pergunta pela identidade de nossa Igreja (e esse já é um mal crônico!). Por isso prestemos atenção novamente nas riquezas que temos entre nós. Os tesouros que temos entre nós não podem ser colocados de lado.

Nós temos o Senhor, que detém todo poder e autoridade nos céus e na terra. Temos Jesus que nos conhece plenamente e luta ao nosso lado em todas as nossas necessidades. Temos uma Palavra que vale mais que qualquer outro tesouro (veja a tese nº 62 de Luther) e ela contém promessas de segurança, de vitórias, de salvação e a certeza do amor sem limites de Deus. Palavra que reconhece nossos limites e fraquezas, nos incentivando a permanecer no Caminho, na Verdade para termos Vida em abundância.

E esse Timóteo?
O jovem que recebe a instrução é complicado: filho de mãe judia e pai grego. O que poderia ser um entrave no anúncio do Evangelho — por não ter ambos os pais judeus os do povo da promessa rejeitariam seu testemunho — foi resolvido com um ato não necessário para a justificação de um cristão: a circuncisão. A tolerância para com a lei permitiu que este jovem fosse aceito pelo público alvo, por assim dizer, os judeus. O cumprimento tácito da lei não diz mais respeito à doutrina do Novo Testamento, no entanto é cumprido em cada til e cada pingo sobre o i através da lei do amor.

A maturidade espiritual de Timóteo permite com que seja cortado em sua carne - circuncidado - para que o Evangelho pudesse alcançar algumas pessoas a mais. Sua vocação é mais forte que os entraves que se colocam diante do seu anúncio.

Qual o recado para Timóteo?
A carta é de autoria do apóstolo Paulo e a igreja primitiva a reconheceu como uma das cartas pastorais. Timóteo a recebeu enquanto estava em Éfeso (1Tm 1.3; 2Tm 1.15) e contém instruções e exortações dirigidas a ele e a todas pessoas que tinham alguma atividade diretiva na igreja. Outrossim, as cartas pastorais assumem a forma de parênese, ou seja, instruções gerais para todas as comunidades em todas as épocas e em todas as culturas. Desta fornma as comunidades podem viver uma vida social e espiritual saudável. E o anúncio é inequívoco: Jesus Cristo é Salvador e Senhor.

O texto que estamos tratando está inserido em várias instruções. Tomamos como exemplo, o combate às doutrinas estranhas ao Evangelho, ou a boa organização de cargos e funções dentro da comunidade, ou a disciplina comunitária das pessoas cristãs e, o maior bloco, das questões que tratam das riquezas.

O jovem discípulo de Paulo precisava compreender, através deste ensino, que a fé e a piedade não podem e não devem ser fonte de lucro (v.6). Aliás, esta é uma fala central do filme Lutero (CasaBlanca Filmes - 2003). É importante compreender que a “piedade da qual fala o texto, é diferente da “fé”, expressão típica de Paulo. A piedade está relacionada à uma resignação com a qual as pessoas ficam satisfeitas mesmo em provações e necessidades. Uma reprodução do estoicismo. A mensagem da piedade tende a fazer das pessoas persongens passivas da história. (Há muitas doutrinas que hoje tendem a fazer da pessoas agentes passivas da história, também dentro da Igreja. Aquela que defende o patriarcalismo estatal é uma delas.)

A fé, ao contrário, contém em sua mensagem a determinação, a coragem, o protagonismo em amor cristão. A fé não resigna e nem se contenta com os fatos como são, especialmente quando estes fatos caminham contra os ensinos do Evangelho de Cristo Jesus.

Faz-se necessário reconhecer que o equilíbrio deve ser perseguido na atividade cristã. A riqueza dos outros pode parecer um caminho natural da resignação e da pobreza — se tem que ser assim, que seja assim — seja feita a sua vontade na terra e no céu —, mas a riqueza, a dos outros e a minha, deveria estar estar na determinação — venha teu reino.

Não sei o que você falou quando, lá no inçio, propuz aquela brincadeira. Certamente saúde, emprego, família e conceitos semelhantes aparecerão. Há quem fale da vida como grande riqueza. Mas, perceba, tudo isso não vem ao acaso, simplesmente. Todos nós sempre teremos grande parcela de co-participação para que as coisas aconteçam. A piedade é bom caminho para alcançar o que se almeja, mas a fé é determinante. Ela é amor ativo!

Qual é a vontade de Deus? O Seu reino! Não há dúvidas de que o Reino de Deus exige nossa piedade. No entanto, não uma piedade estóica, e sim dependente da graça de Deus, diariamente. Resignação não se coaduna com o Evangelho. O Evangelho exige uma fé ativa no amor, e não a resignação!

Tu, porém
Não poucas vezes pregadores do Evangelho fazem de sua vocação uma fonte de riquezas e dinheiro relativamente fácil. No Brasil temos riquezas assim amealhadas. Não, não estou falando da Igreja Universal do Reino de Deus e do Bispo Macedo. Também não de outros ricos pregadores televisivos. Isso seria muito simplório.

Falo de pastoras e pastores da nossa denominação que, embora não tenham enriquecido financeiramente tanto quanto estes outros, exlporam a comunidade de fieis pregando aquilo em que nem eles mais acreditam. Ganham a vida negando ou relativizando o Evangelho de Jesus como o verdadeiro tesouro. Quantas vezes temos presenciado fatos e falas onde o púlpito se torna um palanque político. Com isto faço uma denúncia.

Denuncio aos que preferem a polarização política ao Evangelho, reduzindo a comunidade cristã a uma massa de manobra resignada e sem fé. Denuncio as lideranças que fraudam a fé das pessoas simples, tirando delas o direito de crer na salvação da cruz. Falo da fé em Jesus Cristo como Senhor e Salvador da vida e na história. Denuncio aos que construiram sua vida contando histórias evangélicas nas quais não acreditam. Um dos exemplos é quando se fala da hipocrisia da cruz - toda a história da cruz teria sido uma falácia, uma invenção providencial - ao invés de apontar na cruz o caminho da redenção, do perdão, da salvação.

Tu, porém… Aqui temos o anúncio: age de forma diferente. Faça a diferença. Construa pontes que unam as pessoas na mesma fé e serviço cristão no Reino de Deus. Não crie cismas.

Estamos prontos?
Precisamos estar preparados, mais que nunca, para enfrentar as questões que se passam fora dos nossos muros. Estamos prontos para sair e fazer a diferença? Ou, por quanto tempo ainda precisamos nos preocupar conosco mesmos, buscando finalmente entender qual a nossa identidade, tentando a cada dia sobreviver como Igreja histórica na metrópole?

Temos tesouros guardados. Podemos começar a colocar estes tesouros a serviço do maior tesouro: o Evangelho de Cristo. Quando lembramos da Reforma Protestante, logo somos remetidos às 95 teses afixadas na porta da Igreja do castelo de Wittenberg. “O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus” reza a tese de nº 62.

É nos tempos de crise que somos desafiados a provar nossa fé, de forma piedosa, No entanto, não para nossa riqueza pessoal, e sim a do Reino de Deus entre nós. É hora da virada. Hora de aprofundar nosso compromisso a partir do Santo Batismo: guardando seu mandato imaculado, irrepreensível, até a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo, a qual, no tempo certo, há de ser revelada pelo bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores (v. 14-15). É hora de colocar Cristo e o Evangelho no centro da nossa vida e de nossas ações.

Concluíndo
Neste mês (de setembro) fomos conduzidos pelo fio vermelho do lema que diz: “O que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, mas perder a vida verdadeira? Pois não há nada que poderá pagar para ter de volta essa vida”. (Mateus 16.26)

Que privilégio temos em saber que o tesouro está ao alcance das nossas mãos. Alegremente falemos de Cristo e tornemos nossas ações e lutas cada vez mais compatíveis com os princípios do Reino.

Queira o Senhor nos dar forças para revertermos a situação que vivemos. Nossa riqueza está no Evangelho. Portanto que os bens que nos são confiados estejam a serviço do Evangelho transformador e reconciliador, Evangelho da Cruz, Evangelho que traz esperança para esta vida e para a vida eterna.

Combata o bom combate da fé. Tome posse da vida eterna.

Amém!


Autor(a): Pr. Rolf Rieck
Âmbito: IECLB / Sinodo: Sudeste / Paróquia: Rio de Janeiro - Martin Luther (Centro-RJ)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Testamento: Novo / Livro: Timóteo I / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 6 / Versículo Final: 16
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 53540
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Essa esperança não nos deixa decepcionados, pois Deus derramou o seu amor no nosso coração, por meio do Espírito Santo, que Ele nos deu.
Romanos 5.5
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