Gênesis 12.1-4a

Auxílio Homilético

16/03/2014

Prédica: Gênesis 12.1-4a
Leituras: João 3.1-7 e Romanos 4.1-5,13-17
Autor: Pedro Kalmbach
Data Litúrgica: 2º. Domingo na Quaresma
Data da Pregação: 16/03/2014
Proclamar Libertação - Volume: XXXVIII

1. Introdução

No capítulo 4 da Carta aos Romanos, o apóstolo Paulo apresenta Abraão como exemplo e pai da fé dos cristãos, ou seja, como um modelo de fé. Já em oão 3.1-7, encontramos a história de Jesus e Nicodemos, na qual Jesus explica a Nicodemos a necessidade de nascer de novo. Com Gênesis 12.1-4a, o chamado de Abrão, inicia o relato acerca dos patriarcas e por meio de sua resposta estabelece-se a aliança ou o pacto de Deus com a humanidade.

Novo nascimento (no sentido de deixar para trás o velho para abrir-se ao novo), chamado e resposta ao chamado e pacto de Deus com a humanidade são temas que levam a refletir sobre a bênção, a fé, o porquê e o para quê da vida.

2. Sobre Gênesis 12.1-4a

Essa passagem faz a transição entre a história primitiva (Gn 2-11) e a história acerca dos patriarcas de Israel. A etapa primitiva é considerada a época em que o ser humano estava sob o poder do mal. Afastando-se de Deus, o ser humano implantou no mundo o medo e o terror (Gn 4 – primeiro fratricídio; Gn 11 – torre de Babel). Com o capítulo 12, que parece ter seu fundamento histórico no movimento de tribos seminômades a partir da Mesopotâmia até o Egito, passando por Canaã, tem início uma nova etapa na história da salvação: a etapa dos patriarcas. Deus havia castigado a maldade da humanidade: a expulsão de Adão e Eva (Gn 3), o desterro de Caim (Gn 4), o dilúvio (Gn 6-7), a dispersão da humanidade (Gn 11). Entretanto, a última palavra divina nunca é o castigo, mas sim o perdão e a misericórdia. À etapa do castigo sucede a da bênção (cinco vezes aparece a palavra bênção nos versículos 2 e 3 de Gn 12).

Deus ordena – chama e promete. Através de Abraão, Deus aponta para o todo da terra. Sua bênção quer abranger a terra toda. Em primeiro lugar, a promessa dirige-se a Abraão (v. 2), a seguir àquelas pessoas que entram em contato com Abraão e, por fi m, estende-se a todas as famílias da terra (v. 3). Em meio à vida seminômade de Abraão e de seu clã, Deus chama e dá ao “caminhar” de Abraão orientação, sentido e uma meta. Deus procura e tira Abraão de sua vida nômade, de sua terra, de sua pátria e da casa de seu pai (v. 1). Ele o conduz para onde ele quer. Nesse sentido, o relato javista (J) vê retrospectivamente como a história do povo de Israel começou com una espécie de êxodo, ordenado por Deus: a partida em direção a uma terra distante e não conhecida. O começo dessa história desenvolve-se através da história dos patriarcas, e seu impulso está dado pela promessa de bênção proferida por Deus, uma promessa que se vai cumprindo e que se estende ao longo da história do povo de Israel.

Sinteticamente, o relato compõe-se de um mandato divino, “sai” (v. 1), que vai unido a uma promessa de bênção (v. 2 e 3) e da resposta: “partiu” (v. 4). Abraão opta por sair e com isso precisa romper importantes laços: a casa paterna, a terra. Decide por fazê-lo movido pela confiança na promessa de bênção que engloba todas as aspirações humanas daquela época: descendência numerosa, um grande nome, “a terra que te mostrarei” – uma promessa de cumprimento incerto – há de se cumprir. Trata-se de uma caminhada em direção ao desconhecido e incerto, tendo que romper com o conhecido e seguro.

A bênção, nomeada tantas vezes nesse curto trecho, tem a ver com vida, com paz, com justiça, com descendência, com o oposto de maldição e de castigo, com tudo quanto desperta agradecimento a Deus.

3. Meditação

A vida cristã e, em geral, a história do cristianismo têm a ver com a bênção, pois ela – a vida cristã – é resposta à atuação de Deus, ao pacto que Deus fez com seu povo, que foi sendo renovado ao longo da história e que ele estabeleceu definitivamente com sua vinda através de seu Filho. Poder-se-ia dizer que sem bênção não haveria uma história do cristianismo. Nesse sentido, a bênção está intimamente ligada à fé.

Abraão precisa sair de sua terra e da casa de seu pai para converter-se no pai de uma grande nação. A visão de uma nova nação pode tornar-se realidade somente se Abraão deixar para trás sua ascendência e seus pertences, dois elementos constitutivos para a identidade do ser humano. Abraão, obediente a Deus, assume o risco. Sua nova identidade ele vai construindo a partir de sua pergunta pelo futuro, pelo “para onde”. Que quer Deus que eu faça? Com isso Abraão se arrisca a perder sua antiga identidade e a perder aquilo que se entende ser um direito adquirido: a herança, os bens, as tradições, as seguranças. Abraão despede-se do ontem. Deixa para trás aqueles direitos que hoje em dia costumam causar tantos problemas entre irmãos e familiares. Abraão legitima seu atuar sem recorrer nem reclamar nada do passado. De forma otimista e com fé, ele obedece ao mandato de Deus e crê em sua promessa, em sua bênção: “Vai para a terra que te mostrarei”. Abraão não conhece o destino. Esse se refere a uma terra desconhecida. “De ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome.” Trata-se de uma tarefa para o futuro, que leva ao incerto e que não pode ser levada a cabo com recursos de ontem. Aquilo que possuímos e que queremos seguir possuindo pode bloquear-nos o caminho ao futuro. Contudo ninguém já tem o futuro em suas mãos.

A partir do chamado que Deus faz a Abraão, chamado que significa encontro e que oferece bênção, desperta em Abraão a fé, uma fé que o leva a confiar e a romper com o passado. A fé é despertada e motivada a partir do chamado de Deus, um chamado que o move para abrir-se a uma nova situação. Essa fé implica “pôr-se a caminho”, implica aventura, abertura para o novo, aprendizagem, um novo horizonte, um futuro aberto. A fé tem a ver com mudança, com aprendizagem.

4. Imagens para a prédica

A pergunta sobre o sentido, o porquê e o para quê da vida é uma pergunta que sempre de novo está presente. Podemos reprimir essa pergunta em nosso dia a dia, podemos fazer como se vivêssemos da esperança de que se cumpram aqueles objetivos e aquelas metas a que nos propusemos nesta vida. No entanto, cedo ou tarde, surge sempre de novo a pergunta sobre o sentido da vida. No mundo nos são oferecidas muitas respostas, algumas muito tentadoras, mas todas elas têm a particularidade de ser passageiras, ou seja, de perder a profundidade e o sentido. Ademais, muitas promessas requerem, para seu cumprimento, sacrifícios e condições difíceis de ser cumpridas. E isso leva muitas vezes a mais resignação. Contudo, nossa vida é sustentada pela esperança quando olhamos para o futuro, um futuro no qual projetamos nossas metas. Quanto mais refletimos sobre nós mesmos, tanto mais se faz presente a pergunta sobre o sentido, sobre o porquê e o para quê de nossa vida.

Sugiro que, para introduzir a prédica com uma reflexão nessa direção, se empreguem frases, imagens, exemplos de matérias publicitárias, que de forma direta ou indireta oferecem respostas à pergunta e à procura pelo sentido da vida ou à procura pela felicidade e por vida plena, mas cujo custo implica importantes sacrifícios (em dinheiro, em tempo, em solidariedade, em honestidade etc.).

O texto bíblico não coloca essa pergunta de forma direta, a pergunta sobre o sentido da vida, e tampouco traz uma resposta para a mesma. No entanto, o texto auxilia-nos a aprofundá-la. Abraão escuta Deus. Deixa tudo para trás, e sua vida toma um rumo diferente daquele que tivera até então. Abraão entende o chamado de Deus como um mandato que ele deve ouvir e cumprir, mas um mandato que vinha unido a uma bênção. No cumprimento do mandato recebido, a bênção prometida vai se tornando realidade. E é precisamente o conteúdo dessa bênção que dá sentido à vida de Abraão e de sua mulher Sara. No cumprimento dessa bênção – um cumprimento que se vai dando de forma gradual –, Abraão vai encontrando a resposta ao porquê e ao para quê de sua vida e vai afiançando sua fé.

Nesse sentido, pode-se assinalar que a resposta ao sentido da vida não é algo que podemos fabricar nós mesmos, mas sim que ela nos vem dada a partir de fora. Mas a que se refere a bênção? Bênção ocorre quando temos motivos para estar agradecidos, quando sabemos que estamos resguardados nas mãos de Deus, quando encontramos a plenitude no amor de Deus e vemo-nos compelidos a compartilhar esse amor. Muitas são as vivências e as coisas que nos podem fazer sentir o contrário. Também Abraão teve situações e momentos escuros. Em todo caso, a bênção é um presente de Deus e, como tal, é algo que não podemos possuir nem segurar em nossas mãos. A bênção não se deixa manipular. Ela é um poder que dá sentido a nossas vidas, que provoca e alimenta a fé, pelo qual podemos tão somente estar agradecidos.

5. Subsídios litúrgicos

Oração de intercessão:

Deus Pai, tu nos chamas e nos convidas a deixar as ataduras que nos paralisam e nos atam. Tu nos chamas e nos convidas a amar-te acima de todas as coisas e a confiar plenamente em ti. Tu sabes muito bem quantas vezes nos deixamos tentar e cegar pelas promessas que nos são feitas neste mundo.
Deus Pai, pedimos-te que nos ajudes a deixar para trás as coisas velhas, como fez Abraão. E que possamos, com confiança, animar-nos a encetar novos passos.
Guia-nos àqueles lugares nos quais queres que estejamos. Impele-nos a compartilhar teu amor e tua bênção.
Deus Pai, pedimos-te por aquelas pessoas que se sentem cansadas, desanimadas ou que já resignaram. Que possam sentir a presença de teu Espírito, que anima, que impele e que dá coragem para deixar para trás aquilo que nos afasta de ti.
Pedimos-te por aquelas pessoas que estão passando por momentos difíceis.
[Momento de silêncio – pode-se convidar quem queira pronunciar o nome de pessoas] Bom Deus, estende tuas mãos sobre elas, concedendo-lhes tua paz, tua presença. O amor e a bênção que tu nos ofereces é mais forte do que nossas dores, nossos medos, mais forte até do que a própria morte. Por isso levamos a ti nosso pedido, nossa intercessão e o fazemos humildemente em nome de teu Filho, nosso Senhor, Jesus Cristo. Amém.


Voltar para índice do Proclamar Libertação 38
 


Autor(a): Pedro Kalmbach
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Quaresma
Perfil do Domingo: 2º Domingo na Quaresma
Testamento: Antigo / Livro: Gênesis / Capitulo: 12 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 4
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2013 / Volume: 38
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 29833
REDE DE RECURSOS
+
A intenção real de Deus é, portanto, que não permitamos venha qualquer pessoa sofrer dano e que, ao contrário, demonstremos todo o bem e o amor.
Martim Lutero
© Copyright 2019 - Todos os Direitos Reservados - IECLB - Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - Portal Luteranos - www.luteranos.com.br