Hebreus 4.14-16; 5.7-9

Auxílio Homilético

02/04/1999

Prédica: Hebreus 4.14-16; 5.7-9
Leituras: Salmo 22.1-11, 16-19 e Mateus 27.33-54
Autor: Silvia Beatrice Genz
Data Litúrgica: Sexta-feira da Paixão
Data da Pregação: 02/04/1999
Proclamar Libertação - Volume: XXIV
 

1. O livro

A Carta aos Hebreus, assim chamada, tem mais um estilo de tratado. Ao se lê-la percebe-se que estamos frente a um tratado teológico. Somente no final do livro há aspectos que demonstram tratar-se de uma carta (13). O autor denomina Hebreus como palavra de exortação. Parece que em alguns momentos estamos frente a um discurso ou aula (8.1). A linguagem indica que o autor é alguém com muito conhecimento. Não podemos afirmar quem é, mas provavelmente trata-se de um judeu cristão com formação helenística. Ele fala com autonomia sobre a tradição cristã. Conhece muito bem a língua e a cultura gregas. Cita muito o AT.

Fica difícil definir claramente a quem é destinada a carta ou o tratado. Alguns sustentam que é a cristãos judaicos e helenísticos. Também não nos é possível aqui discutir quem é o autor. Em todo caso o autor se dirige a pessoas cristãs, a uma comunidade que se sentia ameaçada, em perseguição e com fraqueza de fé. Também não é possível definir com exatidão a data do escrito, mas situa-se no período de 80 a 96, durante a perseguição de Domiciano.

O conteúdo serve para animar a comunidade na fé. Relembrar temas relevantes e afirmar que Jesus Cristo, Filho de Deus, encarnado, humilhado, morto, promovido a único sacerdote, sumo sacerdote, é o Senhor, o único Senhor, que não há outro. O autor alimenta a comunidade e convoca seus integrantes para ficarem firmes na fé em Jesus Cristo. Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre (13.8).

2. A estrutura de Hebreus

I. Preparação do tema central: teses fundamentais: 1.1-6.20

1. O Cristo preexistente e encarnado é promovido a Filho de Deus: 1.1-14
2. Exortação a escutar a palavra: 2. l -4
3. O Cristo humilhado e morto é promovido a sacerdote celestial: 2.5-18
4. Exortação à fidelidade: 3.1-6
5. Midraxe sobre o Sl 95: o povo peregrino e a promessa do descanso: 3.7-4.13
6. Exortação à confissão de culpa: 4.14-16
7. O Filho de Deus como Sumo Sacerdote: 5.1-10
8. Ponte para a parte principal: exortação aos ouvintes e as características da palavra a ser proferida: 5.11-6.20

II. O tema principal: o sacerdócio do Filho: 7.1-10.18

1. A dignidade do sacerdócio de Cristo: 7.1-28
2. O ministério do sacerdote: 8.1-10.18
- Explicação breve: 8.1-13
- Explicação mais longa: 9.1-10.18
- O sacerdócio antigo é prefiguração do novo: 9.1-10
- O sacrifício sacerdotal de Cristo: 9.11-15
- A necessidade do sacrifício de Cristo: 9.16-28
- A validade eterna do sacrifício de Cristo: 9.16-28

III. Consequências para a fé: 10.19-13.17

1. Exortação a guardar firme a confissão de fé: 10.19-39
2. As características da fé: 11.1-39
3. A luta da fé em meio à provação: 12.1-29
4. Parênese: 13. 18-25

IV. Recomendações finais: 13.18-25. (Roteiro para a leitura da Bíblia, p. 92-3.)

3. O texto

4.14: Jesus, o Filho de Deus, é nosso sumo sacerdote, a quem podemos recorrer, não com nossas fracas forças, mas com forças que vêm de Deus. Ele penetrou (rasgou, atravessou) os céus para se ligar a quem lhe obedece, para quem quer seguir a sua obediência, o princípio da salvação eterna. Não está aí por acaso, é Filho de Deus. Ele atravessou todas as divisas, as impossíveis, e abriu o caminho, uniu Deus ao ser humano. Nós não precisamos mais fazer nada; se queremos, somos convidados a crer, a perseverar firmes na fé.

Jesus Cristo é o sumo sacerdote verdadeiro. Em Hb 9.1-10 temos a descrição do santuário — altar — liturgia para o perdão dos pecados — que reflete a realidade da época. Descrição de ritos, ofertas e sacrifícios que não passavam de ordenanças da carne, completamente ineficazes, imperfeitos. O lugar do sumo sacerdote é de exclusividade para realizar os serviços sagrados, escondido, onde é proibido achegar-se. Com Deus não é assim.

4.15: O sumo sacerdote, Jesus, não é alguém sobrenatural que não sabe o que é sofrer. Ele não ficou numa santa mordomia, não se aproveitou do ser divino. Viveu a alegria, a tristeza, o sofrimento, a tentação, a provação, a morte e seus medos e vacilações. Mas sem pecado. Foi tentado à semelhança humana. Por isso podemos entender que Jesus nos diz: Eu sei o que tu estás passando, Eu entendo o teu sofrimento.

4.16: O convite é achegar-se confiadamente ao trono da graça. Numa época em que no trono estava quem matava cristãos (imperador), há um convite para achegar-se ao trono da graça para receber misericórdia, socorro. A palavra trono é usada para designar o lugar onde está quem penetrou os céus, se aproximou, se fez igual, foi até o fundo do poço, sofreu, morreu morte de cruz, ressuscitou, fez aliança definitiva. Trono indica o lugar onde fica quem tem poder; Jesus Cristo, o Filho de Deus, tem o poder da salvação eterna para todos os que lhe obedecem (5.9). Deus está perto, podemos nos achegar ao seu trono, pedir e esperar socorro para o pior momento, no momento mais sofrido. Junto a esse trono podemo-nos achegar confiadamente; isso não é permitido só a alguns, mas para quem quiser crer e obedecer ao sumo sacerdote, Cristo. A paixão de Cristo não se deu no mundo das ideias, mas na prática. Ele é o verdadeiro sumo sacerdote.

5.7: Jesus nos dias de sua vida na terra, nos dias de sua carne, Jesus como ser humano se dirigiu a Deus com forte clamor, lágrimas, orações e súplicas. Dirigiu-se a quem o podia livrar dessa situação. Muitos autores dizem que aqui o texto se refere diretamente ao episódio do Getsêmani, episódio conhecido da comunidade. Jesus sofreu isso com piedade, com fé. Ele era o sacrifício. A leitura do Evangelho prevista para hoje narra a crucificação, o pedido, o clamor, a morte. Jesus se dirigiu a Deus, o único que o podia livrar da morte. Ele sentiu o abandono: Deus meu, Deus meu por que me desamparaste? (Mt 27.46.)

5.8: Mesmo sendo Filho, aprendeu a obediência, pelo que sofreu. A oração de Cristo em agonia era inspirada pela total obediência à vontade do Pai. Segundo o Evangelho (Mt 27.54), após tudo o que fizeram, viram e ouviram, aqueles que ali estavam ficaram possuídos de grande temor e disseram: Verdadeiramente este era Filho de Deus.

O Cristo humano é o Filho de Deus, que pede por salvação e torna-se o Autor da salvação eterna, este que se deixa bater, gozar, crucificar, se entrega e confia completamente em Deus que o pode salvar da morte; e mais, proclama a proximidade de Deus para com as pessoas, oferece a elas a possibilidade de se achegarem a Deus, tão próximo que podem chamá-lo de Pai.

5.9: Levado à perfeição, tornou-se o Autor, a fonte da salvação eterna para Iodos os que lhe obedecem. Nesta frase todos os que lhe obedecem podemos perceber o compromisso da parte de quem deseja participar dessa oferta. Nessa obediência é preciso conhecer a caminhada de Jesus, e mais, segui-la.

4. Ideias para a reflexão sobre o texto de Hebreus

O autor de Hebreus afirma que:

* Jesus é o verdadeiro sumo sacerdote. O sumo sacerdote Jesus leva a mensagem de Deus ao povo (Deus de Israel — Deus da libertação; o livro estabelece ligações com textos do AT).

* Jesus anuncia a proximidade de Deus às pessoas excluídas, distantes da vida cultual de Jerusalém ou das sinagogas. Essas pessoas, conforme relatam os evangelhos, são: leprosos, cegos, prostitutas, pobres, doentes, viúvas, endemoninhados, cobradores de impostos, mulheres como a samaritana, pagãos... Renatus Porath afirma:

A partir daí, sua atuação pública vinha acompanhada de sofrimento e perseguição. Era sofrimento por causa de sua fidelidade aos desclassificados; era perseguição por causa da solidariedade àqueles a quem proclamou a proximidade de Deus. Ao mesmo tempo é paixão por causa do Deus tão próximo, a ponto de autorizar seus seguidores a chamá-lo de pai (abba), conforme Mc 14.36; Mt 6.9.

* Deus se mete na história, pois Jesus, Filho de Deus, se apaixona por esse povo e sofre todas as consequências por submissão ao Pai, sofre, clama e pede, pois sabe onde está a verdadeira fonte de salvação.

* Deus em Jesus estava presente em carne e osso, era da mesma carne como as pessoas nos dias de sua carne (5.7); nasceu na humilhação, pobre, numa estrebaria, foi trabalhador com seu pai José na Galiléia e como Filho de Deus sofreu perseguição porque anunciou o Deus próximo.

A encarnação de Jesus é compaixão para com irmãos e irmãs, é o fundamento de sua obra redentora. Por meio de sua morte Ele desencadeou um processo em favor da vida daqueles que viveram na escravidão, perto da morte, oferecendo perdão dos pecados, oferecendo seu corpo, seu sangue como oferta de Deus.

* Jesus é solidário: Hb 4.15 diz: Não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas... Jesus não é alguém que não sabe o que é sofrer. Não ficou na santa mordomia. Viveu a alegria, a tristeza, o sofrimento, a tentação, a provação, a morte, seus medos e vacilações. Jesus sofreu no próprio corpo o sofrimento, a dor. Ofereceu com forte clamor e lágrimas orações e súplicas a Deus.

* Jesus atravessou todas as divisas, abriu caminho, tornou-se o Autor da salvação eterna para aqueles que lhe querem obedecer, que querem segui-lo. Nós não precisamos fazer nada. Se queremos, somos convidados a crer e achegar-nos confiadamente ao trono da graça. Mas Ele espera de nós obediência e seguimento à sua proposta.

5. Sugestões

Após a leitura do Evangelho ficar um tempo em silêncio.

Ênfase nas orações.

Leitura de salmos: 27.5; 31.20; 50.7; 63.7ss. Adaptação do Salmo 3:

Nada te turbe (Salmo 3)

Senhor,
são cada vez mais numerosos os meus adversários,
muita gente se levanta contra mim.
Minha situação leva-os a dizer:
Não, para ele não há mais salvação junto a Deus.
Mas tu, Senhor,
és o escudo que me defende,
és a garantia da minha honra,
me fazes andar de cabeça erguida,
quando te invoco sempre me ouves.
Por isso, tranquilamente me deito e durmo,
acordo sem sobressalto,
porque o Senhor me protege.
Não tenho medo nenhum desta gente,
que de todos os lados avançam contra mim.
Levanta-te, Senhor, e salva-me!
Desmoraliza por completo os que me odeiam,
e derrota os pecadores, meu Deus.
Deus Salvador, abençoa o teu povo.
(Salmos latino-americanos : a oração dos pobres, São Paulo : Paulinas, 1987, p. 31.)

Bibliografia

ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA/DEPARTAMENTO BÍBLICO. Roteiro para a leitura da Bíblia. São Leopoldo : Sinodal, 1995. p. 92-93.
GAEDE, Valdemar. Auxílio homilético sobre Hebreus 5.7-9. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo : Sinodal, 1990. v. XVI, p. 125-128.
HUNZICKER, Atílio Juan. Auxílio homilético sobre Hebreus 5.7-9. In: Proclamar Líbertação. São Leopoldo : Sinodal, 1985. v. XI, p. 211-215.
KUNERT, Augusto E. Auxílio homilético sobre Hebreus 4.14-16. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo : Sinodal, 1985. v. XI, p. 192-204.
MICHEL, O. DerBrief na die Hebräer : Luthers Hebräerbriefvorlesung von 1517/18. Berlin-Leipzig, 1930.
VV. AA. Hebreus : guardar a esperança até o fim. Estudos Bíblicos, São Leopoldo : Sinodal: Petrópolis : Vozes, v. 34, 1992.

Sugestão de programa para a Semana da Páscoa

No 2° Curso para Multiplicadoras e Multiplicadores de Liturgia (2a etapa), nos ocupamos com o tema Tempo litúrgico. A partir da leitura do capítulo A linguagem do tempo, do livro Introdução ao culto cristão, de James F. White, vimos que o tempo litúrgico tem um grande valor na formação da fé do povo. Discutimos e elaboramos alguns programas, um dos quais descrevo a seguir.

O programa consiste em se reunir a cada dia da Semana da Páscoa, iniciando no Domingo de Ramos com culto da comunidade. De segunda a quarta c no sábado seriam feitas celebrações vespertinas de 20 minutos de duração (cuidai' do tempo programado). Na quinta-feira haveria culto eucarístico. Na sexta, culto de penitencia e no Domingo da Páscoa um culto eucarístico (Festa da Vida).

É bom pensar sobre o melhor horário para essas celebrações. Talvez numa cidade fosse o da saída do trabalho (18 ou 18:30 h). Devem-se convidar as pessoas com antecedência, bem como envolver para cada dia um grupo de trabalho da comunidade. As celebrações vespertinas contidas em Celebrações do povo de Deus podem servir de auxílio.

Programação:

Domingo de Ramos: Culto. Tema: a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Usar
o símbolo de ramos. Texto: Lc 19.28-40, ou o texto para o domingo previsto no Lecionário.

Segunda-feira: Celebração. Duração: 20 min. Tema: Jesus no templo. Texto: Lc 19.45-48.

Terça-feira: Celebração. Duração: 20 min. Tema: perguntas sobre a ressurreição. Texto: Lc 20.27-40.

Quarta-feira: Celebração. Duração: 20 min. Tema: o pacto da traição. Texto: Lc 22.3-6.

Quinta-feira: Culto eucarístico. Duração: l h. Tema: lava-pés. Texto: Jo 13.1-20 (ou texto indicado no Lecionário).

Sexta-feira: Culto de penitência. Horário: 15 h. Duração: l h. Tema: Jesus e o Senhor, o sumo sacerdote; com cie está a salvação eterna.

Sábado: Celebração. Duração: 20 min. Tema: mãos amarradas. Texto: Lc 23.50-56.

Domingo: Culto eucarístico. Tema: festa da vida. Texto: Lc 24.1-12 (ou texto indicado no Lecionário).

Proclamar Libertação 24
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Silvia Beatrice Genz
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Sexta da Paixão
Perfil do Domingo: Sexta-feira Santa
Testamento: Novo / Livro: Hebreus / Capitulo: 4 / Versículo Inicial: 14 / Versículo Final: 16
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1998 / Volume: 24
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7253
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