Isaías 35.3-7

Auxilio Homilético

11/09/1994

Prédica: Isaías 35.3-7
Leituras: Tiago 1.17-27 e Marcos 7.31-27
Autor: Valério Guilherme Schaper
Data Litúrgica: 16º. Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 11/09/1994
Proclamar Libertação - Volume: XIX


1. Comentário

1.1. Introdução

Para os que preferem uma tradução mais liberal, acompanhada de uma estru¬turação do texto, encontrarão excelente subsídio no auxílio preparado por Kirst para o PL X.

1.2. Texto

É consenso entre os autores que devemos estabelecer uma relação entre os capítulos 34 e 35. Para Wildberger (p. 1367), o capítulo 35 é uma contrapartida ao 34. O capítulo 35, sendo fruto de trabalho redacional, não estabelece uma relação originária, mas tematicamente necessária com o 34 e o resto do livro, pois o livro de Isaías não poderia encerrar com o anúncio da salvação, como libertação dos inimigos, sem se referir à restauração e renovação de Israel. Jensen (p. 260) e Croatto (p. 204) crêem tratar-se de um díptico de oposição, onde o 35 representa uma contraparte positiva num padrão de alternância castigo/salvação, recorrente em Isaías (24-27; 28-35 e passim. Cf. Croatto, pp. 13 e 204).

Apesar da contiguidade que o padrão castigo/salvação estabelece, os capítulos devem ser tomados como unidades autónomas. A exceção aqui fica por conta da interpretação sui generis de Delitzsch (pp. 68-80). É verdade que o tema da vingança de Deus, central em 34 (ver 34.8), reaparece em 35.4 (Kaiser, p. 361 contra Wildberger, p. 1355), mas o v. l inicia, sem dúvida, um assunto novo, que é encerrado no v. 10.

Ecoam pelo capítulo 35 temas do Dêutero-Isaías (40.9; 42.7; 40.3; 51.11), e mesmo do Trito-Isaías (59.17; 61.2; 63.4). O tema da água que jorra no deserto e a transformação dessa em terra fértil aparece no Dêutero-Isaías, associado ao novo êxodo (41.18-19; 43.20; 48.20-21). A água é intensamente frisada nos w. 6-7 do nosso texto. Kaiser (p. 362) chega a definir o 35 como uma imitação posterior do Dêutero-Isaías. Mas, em função do novo contexto, cremos que, por menos criatividade que atribuamos ao autor, as imagens adquiriram novas tonalidades para os ouvintes.

1.3. Forma

Kaiser (p. 261 e passim) entende o capítulo como um pequeno apocalipse. Delitzsch, por sua vez, vai mais longe e pretende ver o bloco 34-35 como os primeiros acordes de uma profunda transformação da profecia que, abandonando paulatinamente as formas tangíveis da história presente (p. 67), passa a tratar do fim de Iodas as coisas. Isaías teria sido o laboratório desse grande processo na história da revelação (pp. 68-69). A profecia alcançou, então, o ponto mais alto de seu desenvolvimento (p. 80). Outros, porém, entendem que falta a maioria dos elementos formais que caracterizam a apocalíptica (Wildberger, p. 1355; Croatto, p. 204) e, no máximo, poder-se-ia falar de um proto-apocalipse (Jensen, p. 260; Croatto, p. 167), sobretudo devido ao uso posterior desses capítulos (Croatto, p. 167; Wildberger, p. 1356) ou à utilização posterior de temas aí presentes pela apocalíptica (Croatto, p. 204; Wildberger, p. 368). A posição de Delitzsch parece um tanto isolada, pois exige a harmonização de muitos elementos para a sua comprovação.

1.4. Contexto

Embora seja possível falar de uma certa atemporalidade da temática (Wildberger, p. 1359), há relativo consenso em definir o texto como pós-exílico (Wildberger, p. 1359; Croatto, p. 204; Delitzsch, p. 68; Kaiser, p. 362; Jensen, p. 267), pois, embora escassas, as referências aos destinários (mãos frouxas, joelhos vacilantes e desalentados de coração) e o anúncio de um Caminho Santo que conduz de volta a Sião (vv. 9-10) e as referências a temas dêutero-isaianos conduzem, provavelmente, ao século V a.C. Devemos imaginar aqui o final paulatino do exílio c a formação de uma consistente diáspora oriental. O retorno do exílio não está sendo experimentado como um grande sucesso (cf. Croatto, pp. 21-22). Daí a exortação e o anúncio de maravilhosas transformações e da existência de um Caminho Santo, que conduzirá a salvo os resgatados até Sião. Devemos considerar ainda sofrimentos, miséria, doenças, inseguranças quanto ao futuro e uma disposição de espírito negativa para recomeços, que parece ter tomado conta de todos.

1.5. Escopo

O nosso texto, vv. 3-7, está emoldurado pela maravilhosa transformação da natureza, que precede o retorno (vv. 1-2) — o fim do deserto e da esterilidade da terra onde resplandecerá a glória de Deus —, e pelo anúncio da existência de um Caminho Santo, que conduzirá os resgatados a Sião. Tudo está sendo preparado, e há também um caminho assegurado. O texto visa animar os ainda exilados a permanecerem firmes e consolar os desalentados para que não se deixem abater sob o sofrimento do momento, pois Deus, e isso é o fundamental, vem e traz a salvação. Ao mesmo tempo, o capítulo com o anúncio de todas as maravilhas que se sucederão e da instalação de um caminho tão seguro que mesmo os loucos andarão por ele sem se perder funciona como uma espécie de propaganda para que os que permanecem na diáspora retornem. As referências ao Dêutero-Isaías fornecem um imaginário familiar aos destinários.

2. Atualização e mensagem

Há uma propaganda de protetor solar, cujo outdoor traz apenas a foto de um pimentão vermelho, de óculos, sobre a areia e, é claro, o nome do produto. Precisaria dizer mais? Tudo o que poderia ser dito em favor do produto já não está dito nessa única cena? Todos sabem o outro significado de pimentão. O pimentão, é claro, continua sendo um pimentão, mas também se tornou uma metáfora, i. e., fala de uma pessoa que se expôs demais ao sol. Conhecemos os dois termos da relação: a pessoa queimada e o pimentão. Pimentão comporta agora um duplo sentido.

Há uma cadeira pintada pelo pintor holandês Van Gogh. É um quadro simples. Trata-se apenas de uma velha cadeira de madeira e palha, e sobre ela encontra-se um cachimbo. Além da cadeira vê-se, no quadro, a ponta de uma caixa de madeira. Não há mais nada. Vemos a cadeira e o cachimbo sobre ela. Porém, ao ver a cadeira e o cachimbo, começamos a nos perguntar pela pessoa que estava ali sentada. Ela voltará? Vai demorar muito? Por que saiu? Onde foi? Quem era e como era? Fumava cachimbo? É provável. Mas, enquanto fumava, em que pensava? Será que lia? Será que era rica ou pobre? Era feliz? A cadeira de Van Gogh é uma cadeira humanizante, pois nos faz perguntar obstinadamente pela pessoa que estava sentada ou que irá sentar ali. Nesse caso, as coisas ocorrem de maneira distinta do que no exemplo da metáfora. A cadeira também tem um duplo sentido, é verdade, mas ela nos remete a algo desconhecido. Ela nos remete a uma ausência. Remete-nos a uma pessoa, é certo, mas da qual nada sabemos. Podemos, no entanto, conjecturar sobre essa pessoa, sua vida, seus afazeres, etc. A cadeira de Van Gogh é, na verdade, um símbolo, tal é a força com que nos conduz ao desconhecido, a uma pessoa que, para nós, é um mistério. É claro que por analogias conseguimos aproximar-nos do que é desconhecido, mas não esgotamos seu sentido.

Da mesma forma, há temas, assuntos ou mesmo frases que se tornaram símbolos, ou seja, funcionam como uma espécie de ponte entre aquilo que é conhecido e o .que é desconhecido. Penso agora em Is 35.3-7 e em desertos onde irrompem fontes caudalosas, vegetação abundante e árvores generosas. Penso ainda na restauração de todo tipo de deficiência física ou num caminho sagrado que leva todos a bom termo. São símbolos. Não são verdadeiros ou concretos? Sim, são concretos, mas, como símbolos, querem conduzir a algo mais, ao mistério, ao desconhecido.

O texto (v. 4) fala fundamentalmente da vinda de Deus como salvação. Mas como falar de salvação? Como animar, fortalecei e despertar o interesse dos exilados e dispersos com o anúncio da salvação? li possível defini-la? Não, isso é o desconhecido, o mistério. Assim, as imagens de águas brotando no deserto ou na areia escaldante, o verde poderoso das florestas espalhando-se pela terra devastada e a plena cura dos cegos, surdos, coxos são símbolos da salvação anunciada. Estas imagens são familiares para os exilados e dispersos. Esses já as conhecem do Dêutero-Isaías. Ali elas eram associadas ao novo êxodo. Este sentido de libertação política, historicamente determinada, o jugo babilônico, permanece atado a essas imagens, mas elas simbolizam agora também o início de um tempo novo, um tempo pleno de salvação. Não sem razão esses temas reaparecerão no NT (Lc 4.18-21) e, sobretudo, tornam-se uma constante no ministério de Jesus (Mc 7.31-37). As curas, os milagres são concretos, mas também são símbolos da plena salvação.

3. Considerações para a prédica

Embora seja recomendado para o 2° Domingo de Advento, há valiosíssimas contribuições homiléticas no estudo de Kirst no PL X. Gostaríamos, no entanto, de tecer quatro considerações:

1 — Podemos refletir sobre a exortação e o anúncio de esperança e salvação tio contexto do país, tomando o exemplo da cidade ou da comunidade. Sem dúvida, podemos falar de sofrimento, miséria, desorientação, desânimo. Tudo isso como pano de fundo da retórica messiânica que assaltou a campanha das formas e sistemas de governo no plebiscito de abril de 1993. Navegamos ao sabor de novas promessas e alimentamos novas esperanças reais e ilusórias. Como viver as necessárias adversidades históricas no horizonte das esperanças de Is 35.3-7?

2 — Se a decisão encaminhar-se para tratar o texto no horizonte do Ano da Igreja, 16° Domingo após Pentecostes, ressaltando a responsabilidade cristã diante dessa grandiosa esperança e promessa, o texto de Tg 1.17-27 será um excelente contraponto.

3 — Se a opção recair sobre a vinculação do texto com um dos pontos do lema da Igreja para o biênio — a esperança —, pode-se ressaltar, sobretudo, a segunda parte do v. 4: a vinda de Deus.

4 — Os próprios símbolos do texto — água, galhos verdes, areia, etc. (reais ou em fotos) — podem ser um ponto de partida para a reflexão da comunidade.

4. Bibliografia

CROATTO, J. Severino. Isaías, a palavra profética e sua releitura. VI. 1:1-39: O profeta da justiça e da fidelidade. Petrópolis/S. B. do Campo/São Leopoldo, Vozes /Imprensa Metodista/Sinodal, 1988 (Comentário Bíblico).
DELITZSCH, Franz. The Prophecies of Isaiah. VI. II. Michigan, W. B. Eerdmans Publishing Company, 1954 (Coleção Bíblical Commentary).
JENSEN, Joseph. Isaiah 1-39. Wilmington, Michael Glazier, 1984.
KAISER, Otto. Isaiah 13-39. A Commentary. Philadelphia, The Westminster Press, 1974.
WILDBERGER, Hans. Jesaja. Vol. X/3. Neukirchen-Vluyn, Neukirchener Verlag, 1982 (Biblischer Kommentar Altes Testament).


Autor(a): Valério Guilherme Schaper
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 16º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Isaías / Capitulo: 35 / Versículo Inicial: 3 / Versículo Final: 7
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1993 / Volume: 19
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 16157
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