Isaías 65.17-25

Auxílio Homilético

02/11/1983

Série: Quer seja oportuno, quer não

Novembro

Tema: Entre morte e eternidade, morrendo um pouco a cada dia

Explicação do tema: Entre morte e eternidade a pregação deve enfocar antes a perspectiva de resistência à morte, não tanto o consolo aos enlutados.

A morte tem muitas faces. Bem poucos são os que chegam a descansar junto aos pais em ditosa velhice ou que acidentalmente perdem a vida. Muito mais frequentes são os casos em que a morte vai sorrateiramente minando a vida.

As causas da morte estão presentes na estrutura necrófila que a sociedade assume, ao negar ao ser humano as condições elementares para uma vida abundante. É diante desta morte onipotente que o conceito de eternidade confere ao ser humano a esperança de superá-la, resistindo a ela na luta organizada.

Texto para a prédica - Isaias 65.17-25

Autor: Dorival Ristoff

Isaias 65.17-25:


Nossa saudade
Nosso sonho
Nossa esperança
Quando se sonha, sozinho
é apenas sonho...
Quando sonhamos juntos
é o começo da realidade.
(D. Quixote de Ia Mancha)

I — Texto

V.17: Sim, vou criar novo céu e nova terra: Já não haverá lembrança do que passou, nisto já não se pensará.
V.18: Antes exultai e alegrai-vos sem fim por aquilo que eu crio. Pois faço de Jerusalém uma cidade de júbilo e de seus habitantes um povo alegre.
V.19. Vou rejubilar-me por Jerusalém e alegrar-me por meu povo; nela já não se ouvirão choros nem gritos de dor:
V.20: não haverá crianças que vivam apenas alguns dias, pessoas idosas que não levem a pleno termo os seus dias. Pois será jovem quem morrer aos cem anos, e quem não alcançar os cem anos passará por maldito.
V.21: Construirão casas, para nelas morar, plantarão vinhas, para comer seus frutos.
V.22: Não acontecerá que um construa e outro more, tampouco um plantará e outro comerá; pois meu povo alcançará a idade das árvores: e meus eleitos consumirão o produto do seu trabalho.
V.23: Não se fatigarão inutilmente nem terão filhos que morram subitamente, pois eles serão geração abençoada pelo Senhor, e seus filhos o serão igualmente.
V.24: Antes que tenham invocado eu já os atenderei, ainda estarão falando e eu já os estarei escutando.
V.25:0 lobo e o cordeiro pastarão juntos e o leão comerá palha como o boi, a comida da serpente será o pó; não farão mal nem causarão estrago em todo o meu monte santo, diz o Senhor.

II — Introdução

Com descrições das mais belas, com imagens das mais lindas, o profeta Isaías nos faz antever o que acontecerá no futuro. Isaías não assegura um sonho ou um desejo pessoal, nem está proclamando uma alegre e inverossímil promessa. Pelo contrário, numa certeza, transmite-nos a promessa de Deus.

Tomada Jerusalém e grande parte de seu povo deportado para a Babilônia, em consequência da investida dos neo-babilônios contra o Reino de Judá em 587 a.C., o profeta é mandado por Deus para manter em seu povo o futuro aberto, levá-lo a olhar além do cativeiro onde as dúvidas imperam. O povo morre de saudades da Pátria e a vontade de voltar á sua terra o transtorna.

Deus é grande e, com a mesma grandeza com que tirou o povo do Egito, transporta-lo-á através dos 1.500 km. de deserto de volta a Judá.

O futuro aqui descrito não se esgota na libertação de Israel. Vislumbramos na promessa de Deus expressa pelo profeta um futuro em que o Deus vivo e fiel (Sl 146) reinará supremo sobre toda a terra. (Cf. a canção Por isso é que eu canto, em: Proclamar Libertação. Vol. 8., p. 193s.)

III — Considerações sobre o texto

1. Tudo novo

V.17: Um novo céu...

A que tipo de céu o profeta está-se referindo? Ao céu que comumente denominamos e diariamente observamos? Vamos deixar um pouco de lado este céu e, como num pensamento mágico, nos transpor para o mesmo lugar, mas sem céu. Nesse caso, como nos imaginaríamos o novo céu? Ora, cada um apresentando o seu pensamento, isto é, criando o seu céu. Resultaria, por certo, em lindos coloridos, por um lado, e, por outro, em céus escuros, incolores e vazios, sem estrelas à noite e o sol com seu calor a nos faltar no dia. Mas estaria o profeta a se referir a este tipo de céu?

Uma nova terra...

Somos tão apegados às nossas raízes! Muito nos significa nosso chão, onde moramos e vivemos. Afirmamos sempre com certo orgulho: sou filho de tal cidade! Mas, à semelhança do céu, encheríamos um bocado de páginas com a possibilidade de imaginarmos nova terra. E, então, cada um de acordo com a sua grandeza e limitação, demarcaria uma nova terra sem poluição, sem guerra, sem, sem... com muitos, muitos rios, florestas, muitos, muitos... Estaria o profeta a se referir a este tipo de terra?

O novo céu e a nova terra são, na verdade, um mundo novo, uma nova humanidade. Tudo é novo. Seria da forma como a canção Imagine de John Lenon apresenta?

2. Imagine

Imagine que não existe céu,
Será fácil se você tentar.
Imagine que não exista inferno debaixo de nós
E que sobre nós haja apenas o espaço vazio.
Imagine todo o mundo vivendo aqui e agora.

Imagine que não existam paises-
Isso não é difícil de imaginar.
Imagine que não exista razão para matar ou para morrer,
E imagine que não exista nem sequer religião,
Imagine todo o mundo vivendo em paz.
Podes dizer que estou sonhando.
Mas, não sou o único sonhador.
Espero que algum dia você também sonhe
E que o mundo seja apenas um.

Imagine a ausência de posses.
Duvido que o consiga.
Imagine que não haja lugar para a avareza
nem para a fome -
Imagine que os homens sejam irmãos.
Imagine todo o mundo fazendo parte do mundo.

Poderá dizer, que estou sonhando.
Mas, certamente, não sou o único sonhador.
Espero que algum dia você também sonhe
E que o mundo seja apenas um.

Na verdade, ao contrário desta canção, Deus é quem cria este novo céu, esta nova terra. Sem ele no espaço e sem a adoração a ele jamais tudo será novo. E Deus não somente muda o mundo dos homens, sua organização e o seu governo. O novo mundo de Deus, a que se refere o profeta, não é apenas uma reforma ou reformulação do mundo atual, mas uma criação nova de Deus, sem a colaboração do homem. O que o Senhor cria é, sem termos de comparação, mais do que a terra dos homens sem a pirâmide (que) pode organizar-se em fraternidade (e) ninguém é esmagado na nova cidade, (onde) todos dão as mãos em viva unidade (canção Pirâmide).

O Novo Testamento amplia ainda mais esta esperança do profeta: o céu e a terra passarão (cf. Ap 21.1ss), como todas as demais coisas (cf. 2Co 5.17), dando lugar a um novo céu e a uma nova terra (cf 1 Co 2.9).

O novo céu e a nova terra ainda são remotos. Muito pouco, quase nada e percebe dessa realidade, mas já estão ai. Alguns sinais já existem como a criança crescendo no seio da mãe. (Mesters; cf. Gl 4.19) Com Jesus, o Ressurreto, iniciou o novo mundo povoado de irmãos. Jesus é a prova de que o mundo que esperamos é possível e que tem chance de sobreviver já agora através da nossa vida que vivemos desta esperança. É preciso apostar neste novo mundo, apostar nele a própria existência. Apostar na nova humanidade é unir a esperança à vida. Ilustro: Se eu coloco água e açúcar dentro de um copo e espremo um limão nele, e o bebo, o que eu bebi? - Limonada! - Não! Água amarga é o que eu bebi. Por quê? - Faltou mexer o açúcar. - Exatamente! Pois a nova humanidade não passará de um desejo devoto e sem nenhuma chance de sobreviver na atual realidade de injustiça gritante (cf. 2Pe 3.13) se a esperança não for misturada com a nossa vida.

3. Alegria

Vv.18-19: A grande característica da igreja primitiva era, em toda e qualquer circunstância, a exultação e alegria sem fim. E nem poderia suceder de outra forma como bem mostra este dizer: Santo triste? Triste santo! Que tipo de alegria era a alegria dos primeiros cristãos? Em que se assemelha à do nosso texto? É a alegria que o próprio Senhor cria. Vem dele, o fruto do Espirito Santo é:... alegria (Gl 5.22), e não das coisas perecíveis: Tuas santas cidades tornaram-se deserto, Sião se tornou um deserto, Jerusalém um abandono. Nosso templo santo e glorioso, onde nossos país cantavam louvores, tornou-se presa das chamas, e o nosso tesouro mais precioso se converteu em escombros. (Is 64.9-11)

Alegria e esperança andam juntas: regozijai-vos na esperança (Rm 12.12). Minha alegria é saber que um dia todo este povo se libertará. Pois Jesus Cristo é o Senhor do mundo. Nossa esperança realizará. (canção Libertação)

4. Vida

V.20: Não haverá crianças que vivam apenas alguns dias... é a primeira promessa milagrosa de Deus. Milagre, porque a felicidade será completa. Poder ver na face de cada menino a vida continuada sem o tropeço imediato... que benção! Não existir menino morto-vivo, pior que morto, suplicando nossa ajuda sem nos sensibilizarmos, não existir menino pedinte sem receber, ou recebendo por se vender... que maravilha! Poder descortinar este mundo de meninos renascidos para viverem até a sua velhice é um milagre dos tantos milagres que nos assegura o Senhor nestas suas promessas de felicidade completa.

Quem não lembra seu pai, sua mãe, seu irmão ou irmã, em tão tenra idade chamado para o céu? E quantas vezes nos perscrutamos (se tal fosse possível) tentando imaginar o tempo que nos sobra? Como se não tivéssemos que, muito antes de tal indagação, termos vividos de til forma que restasse a nossos descendentes a satisfação de terem sido por nós gerados.

Mas o profeta nos afirma que nenhum velho morrerá sem completar seus dias. Para nos apercebermos das centenas de maravilhas de tal afirmação, uma só divagação: todos os netos conheceriam todos os seus avós. E como sabemos do amor duplicado daqueles por estes... um mundo novo dentro deste mundo se descortinaria.

5. Realização pessoal (justiça social)

Vv. 21-23: O Senhor permitiu aos homens construírem máquinas e cérebros eletrônicos capazes de verdadeiras maravilhas, mas que não edificam casas. Muito pelo contrário: ajudam a controlar os sem-casas e os controlam rigidamente por sistemas múltiplos. O gritante é que os que constroem casa não têm onde morar... Não falando em sistemas e órgãos criados para servirem o homem, mas que desvirtuando suas finalidades nos engoliram!

... plantarão vinhas para comer os seus frutos...

É realmente o paraíso do colono, dessa gente de andanças sofridas; por não terem onde morar, plantando não comem dos seus fru¬tos. Mas o Senhor afirmou que plantarão vinhas e comerão dos seus frutos, (cf. Is 62.8,9)

... pois meu povo alcançará a idade das árvores...

Reafirmando em outras palavras a vida dos meninos e a velhice a ser atingida, os filhos do meu povo durarão tanto quanto as árvores. Um flash sucinto desta colocação: Temos anualmente um Prêmio Nobel na ciência dos homens. O máximo até agora que a ciência conseguiu foi sanar doenças, criar instrumentos e manuseios. Não conseguiu (ainda que já tenha conseguido ir à Lua) acrescentar vida ao homem. A propósito, o homem não é e não será capaz de dar vida a uma folha caída do impulso do vento...

... os meus eleitos consumirão o produto do seu trabalho...

O Senhor afirma que seus eleitos não trabalharão em vão.
Não bastaria um só destes versículos como testemunho de que são, no mínimo, privilegiados os que gozam dessas bênçãos?

Onde em toda a terra existe um cantinho, um país, uma raça, uma pátria, um grupo ou sociedade - ah, sim!, uma religião - onde podemos constatar tal realidade? Onde em pleno séc. XX pelo menos alguns, fugindo à regra, convivem e vivem o mundo das promessas?

6. Comunhão

V.24: E a promessa se completa. Estaremos ainda falando, e já estaremos atendidos. Ah, se os homens, fazendo melhor uso do seu ra¬ciocínio, penetrassem a fundo essa maravilhosa realidade divina, quan¬to aproveitariam! Mas não refletem, não meditam; vivem superficial¬mente, sem despertarem para a realidade de que nele existimos, nele vivemos e nele nos movemos (At 17.28). E não somente nele existi¬mos, nele vivemos e nele nos movemos, mas tudo dele recebemos, até mesmo enquanto estivermos ainda falando...

7. Segurança

V.25: O inusitado: o lobo e o cordeiro pastarão juntos.

O rico e o pobre comerão unidos (haverá ricos como os de hoje?, e pobres como os de ontem?), assim como o lobo e o cordeiro.

O leão, como um boi, se alimentará da palha.

O governante, como um cidadão qualquer, comerá feijão com arroz e

... nenhum mal...

Tudo será bem. Eis o projeto de Deus. Eis as palavras do profe¬ta para reacender a chama de nossa fé e confiança em Deus. E ele creu com toda sua família. (Jo 4.43-54) É a grande conclusão de todos os tempos. Crer e levar conosco todos aqueles que amamos a terem mais fé e mais confiança em Deus e na vida vivida da esperança na nova humanidade.

Alegria, vida, realização pessoal (justiça social), Comunhão, segurança — eis aí os componentes da era gloriosa (Tudo novo) aguardada pelo profeta. Eis aí as bênçãos desta nova era, que já são nossas em Cristo Jesus. Este é o fato novo. E sem perdê-lo de vista, devemos cantar com o maior ardor que pudermos:

Amadurece a cada instante uma esperança
de um mundo novo povoado de irmãos.
Se você pode acreditar comece agora,
e: não tenha medo de ser livre até o fim:

Lobo e cordeiro pastarão da mesma relva,
e em vez de armas nucleares infernais
construiremos casas, ruas e escolas,
caminhos novos pra igualdade universal.

Não haverá mais compradores de justiça.
E a liberdade não será mais ilusão.
Só a verdade será fonte de notícias
e poderemos crer no homem outra vez.

Não temeremos o futuro das crianças
e a juventude terá novos ideais.
E quem achar que tudo isso é utopia,
pague aluguel do seu nome de cristão.

IV — Indicações para a prédica

1. Realizar um trabalho prévio em grupo, por exemplo, com os jovens da JE:

a) pedir que apresentem, após debate em pequenos grupos, nossa saudade, nosso sonho, nossa esperança;

b) confrontar as respostas com a saudade, o sonho e a esperança do profeta;

c) pedir que apresentem características que qualifiquem o jovem como uma força transformadora do mundo atual;

d) pedir que apresentem dificuldades que estão impedindo a realização de seus sonhos, se suas esperanças, da vida plena (Eu sou vida que quer viver entre vida que quer viver., A. Schweitzer);

e) pedir que apresentem saídas bem concretas para as dificuldades que apresentaram (encenações, cartazes, etc.)

2. Iniciar a prédica, apresentando o trabalho feito com os jovens, especialmente as saídas que eles propõem. Estas, eles mesmos poderiam apresentar com cartazes e encenações, por exemplo.

3. Com base neste trabalho prévio não é mais difícil introduzir o texto da prédica e pregar sobre ele. O Impressionante é a atualidade do profeta: ele está mesmo presente em 1984 com vivência e sabedoria dos problemas atuais.

V — Subsídios litúrgicos

1. Intróito: 2 Co 5.1

2. Confissão de pecados: Buscar subsídios acima em IV/1/d.

3. Anúncio da graça: Is 65.24.

4. Oração de coleta: Ó Deus que pela ressurreição de teu Filho nos comunicaste nova vida, reacende em nós a chama da fé e realiza as maravilhas que prometeste aos teus filhos. Concede-nos o dom do teu Espirito para que tua Palavra opere em nós e por nós. Amém.

5. Leitura Bíblica: Ap 21.1-8, e/ou 2 Pe 3.8-13, e/ou Mt 24.32-44; após a leitura, Mt 24.35 ou Is 51.6.

6. Oração Final: Buscar subsídios acima em IV /1/a-c,e.

VI — Bibliografia

- MESTERS, C. Um novo céu e uma nova terra. In: Círculos Bíblicos. Vol. 33-40. Petrópolis, 1973.
— VOIGT, G. Meditação sobre Isaías 65.17-25. In: -. Die himmlische Berufung. Göttingen, 1981.


 


Autor(a): Dorival Ristoff
Âmbito: IECLB
Testamento: Antigo / Livro: Isaías / Capitulo: 65 / Versículo Inicial: 17 / Versículo Final: 25
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1983 / Volume: 9
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 20562
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