João 1.1-6,19-28

Auxilio Homilético

12/12/1993

Prédica: João 1.1-6,19-28
Leituras: Isaías 61.1-3,10-11 e 1 Tessalonicenses 5.16-24
Autor: Christoph Schneider-Harpprecht
Data Litúrgica: 3º. Domingo de Advento
Data da Pregação: 12/12/1993
Proclamar Libertação - Volume: XIX


1. Introdução

(Obs.: A Série Ecumênica propõe delimitar o texto do Evangelho em João 1.6-8, 19-28, já que os versos 1-5 serão contemplados no Dia de Natal. O autor optou pela delimitação indicada no cabeçalho.)

Imaginem um líder político renunciar e desistir voluntariamente do seu poder, reconhecendo que um outro, com mais habilidade, está chegando. João Batista, assim como o Evangelho de João o descreve, é um líder religioso que desiste dos seus títulos e das suas pretensões. Escrevo esta meditação na véspera do processo contra o presidente afastado do Brasil. Um líder que desiste do poder para o bem do povo — um sonho? Isso quase não existe. Podemos perceber sinais no Novo Testamento de que, na época, as coisas também não eram tão fáceis. Havia uma luta entre os adeptos de João Batista e as comunidades cristas sobre a relevância espiritual de João Batista e Jesus. Esse é o tema do nosso texto. Mas, no final, a questão volta a nós mesmos: Quem de nós renunciaria cm lavor de uma pessoa mais forte e mais hábil? Nas comunidades existem muitas pequenas brigas entre membros, líderes, pastores e pastoras sobre a questão do poder e da autoestima. A origem do problema é um profundo desejo humano que, às vezes, não conseguimos controlar: é normal querer destacar-se dos outros, ser uma pessoa estimada, talvez até admirada. É bom e necessário assumir tarefas e lideranças, movimentar algo na vida, mudar as coisas, realizar-se e desenvolver os próprios dons. Infelizmente, esquecemos logo os limites da nossa capacidade e do nosso podei. Assim surgem conflitos tanto na família quanto na profissão e na comunidade. Aceitar os próprios limites, deixar o Cristo dominar, achar o sentido da vida como testemunho dele — isso parece ser a mensagem do texto. Ela corresponde bem à época de Advento, em que o povo de Deus se lembra da sua esperança e de novo define a sua relação com o Filho de Deus, que veio salvá-lo. Mas olhemos um pouco para os resultados da exegese, a fim de aprofundar e ampliar a nossa reflexão.

2. Aspectos exegéticos

Jo 1.1 6 e 1.19-28

O título dos dois trechos seria: João Batista, sua missão, sua relevância, seu testemunho. Trata-se, nos vv. 6-8, do prólogo do Evangelho de João, de uma interpolação do evangelista num hino mais antigo sobre o logos (R. Schnackenburg, Das Johannesevangelium, Parle l, 1965, 226). A prosa interrompe a poesia do hino e apresenta a nova temática da relação de João Batista com a luz do logos encarnado. Cinco aspectos me parecem sei importantes:

2.1. João Batista marca, no evangelho, o início da história do Cristo. A especulação sobre a divindade do logos, sobre sua presença contínua na criação como luz da vida, já está a caminho da história. Falando sobre a luz que brilhou nas trevas, o evangelista começa a falar da vida de Cristo, pois a metáfora da luz em João caracteriza sempre a vida de Cristo. Mas Cristo é ainda desconhecido. A sua história começa realmente quando alguém outro o reconhece e entra em relação consciente com ele. O Deus encarnado, mesmo sendo preexistente e superior, precisa do reconhecimento por parte de suas criaturas, da relação mútua com elas. O testemunho e a fé delas são importantes para Deus.

2.2. Testemunhar é a missão divina de João Batista. O texto destaca que ele fora enviado por Deus. Essa missão define o papel histórico de João Batista e define a sua identidade humana. O evangelista o caracteriza como o primeiro dos crentes. O seu testemunho serve como base da fé de todos os crentes. Mesmo não sendo a única testemunha de Cristo no evangelho (cf. Jo 5.31ss.), podemos dizer que João Batista é o primeiro representante da Igreja e da humanidade na história de Cristo. Ele é pessoa exemplar, em que os leitores do evangelho podem reconhecer algo de sua própria pessoa e do seu destino.

2.3 Para a teologia do Evangelho de João, o tema do testemunho de Cristo é muito importante (cf. Jo 5.31ss.; 8.14). A lei de Dt 19.15 funciona para o evangelista como regra geral para a revelação de Cristo. A verdade da encarnação de que Jesus é Filho de Deus precisa ser testemunhada por outros. O testemunho tem a função de uma prova da verdade. João quer um fundamento para a fé que possibilite às pessoas aceitarem a mensagem de Cristo numa maneira que está de acordo com a criação; mas não se trata de um fundamento puramente racional, mas sim de um fundamento adequado à revelação neotestamentária. Essa oferece suficiente luz para a razão, mas não dispensa a própria decisão da pessoa... (R. Schnackenburg, ibid., 512). João Batista entende por revelação divina o sinal para identificar o Cristo (1.32-34). Ele viu o Espírito Santo descer do céu como uma pomba e pousar sobre Jesus. Assim ele reconhece a relação entre Jesus c o seu Pai divino. Isso autoriza e qualifica o seu testemunho.

2.4 O objetivo do seu testemunho é a te. Ouvindo o que João diz, os outros podem aceitar Jesus como enviado de Deus c como Filho de Deus. O conteúdo da fé é, para o Evangelho de João, a missão de Jesus como logos encarnado e mediador da salvação. Ter fé significa: aceitar isso racional e inteiramente, desenvolvendo uma relação pessoal com o Cristo e dar testemunho dele.

2.5 O conflito entre os discípulos de João Batista e a Igreja sobre a messianidade não está totalmente ausente em nossos textos. Aparentemente existiam grupos que identificavam João Batista, após a sua morte, com figuras da tradição messiânica dos judeus (cf. Lc 3.15; Jo 1.21,25; 3.22ss.; Mc 6.14-16). O evangelista pretende resolver esta questão, tirando todos os títulos messiânicos de João Batista. No v. 6, afasta João Batista de Jesus, dizendo expressamente que ele não era a luz, e restringe o seu papel à função de testemunhar e servir ao filho de Deus.

Os vv. 19-28, que são somente a primeira parte de uma unidade sobre o testemunho de João (19-34(51)), desdobram essa tese, descrevendo como João Batista nega, frente às autoridades dos judeus, ser o Salvador, dá o seu testemunho e fornece a Jesus os primeiros discípulos.

O contexto social da cena é uma investigação religiosa do movimento religioso de João Batista por representantes das autoridades judias. Eles querem informar-se especialmente sobre a sua atitude messiânica. Na época, era muito comum identificar líderes religiosos como messias. Não encontramos no texto nenhuma tendência antijudaica como em outras partes do evangelho. Os líderes que recolhem informações representam a opinião dos poderosos, que, desde o início, tinham conhecido o testemunho sobre Cristo.

A identidade de João Batista define-se primeiramente de maneira negativa e mesmo diferente da sua imagem nos evangelhos sinóticos, que o comparam ao profeta Elias (Mc 9.13; Mt 11.14). Elias voltaria para anunciar o juízo final e a vinda do Messias. O título de profeta lembra a expectativa judaica de que um profeta como Moisés chegaria no final dos tempos. Trata-se de uma figura escatológica, que não podemos identificar mais exatamente.

A identidade positiva de João Batista consta, na sua identificação, com a aquela voz gritando no deserto: Aplainem o caminho do Senhor. João é, como Dêutero-Isaías e Moisés, um dos líderes religiosos que abrem espaço para a futura salvação. A sua voz no deserto, o seu grito anuncia o novo êxodo do povo de Deus, a nova vida no país prometido, o reino de Deus. O grito da voz no deserto é radical, o grito por justiça social e pessoal, arrependimento, uma prática renovada, como a tradição sinótica mostra mais do que o Evangelho de João. Nessa João Batista aplaina o caminho do Senhor pela própria obediência à lei do Senhor, por sua paixão por uma vida justa. Mas o lugar dessas vozes proféticas é no limite para o futuro, na transição do velho para o novo, na qual elas ainda não conseguem participar plenamente. Moisés morre no deserto; João, na prisão. Ele representa um ser cujo destino é passar e indicar um novo ser superior, a encarnação da vida em Cristo. Por isso João Batista batiza somente com água, como sinal de que é Cristo em quem o Espírito Santo de Deus faz o seu trabalho. É preciso que ele cresça e eu diminua (Jo 3.30). Ao aceitar ser menor e ter que diminuir, João Batista torna-se a testemunha exemplar da luz divina, a fim de que todos acreditassem por meio dele.

3. Meditação

3.1. Quem é você? Uma pergunta que surge, mais ou menos expressamente, em quase cada encontro de pessoas que ainda não se conhecem. Queremos identificar um ao outro. Dizemos o nome, a profissão, o estado civil, a idade, a confissão. Somos Fritz, Beta ou Valdecir, pessoas com uma certa idade, mulheres, homens, pobres, ricos, empregados, desempregados, colonos, trabalhadoras, donas de casa, solteiros ou casados, luteranos, católicos ou de uma outra Igreja. Isso já é muito. Ser mulher, solteira e desempregada é outra coisa do que ser homem, com família, dinheiro, emprego, casa. Somos o nosso corpo, o sexo, os papéis sociais e o status econômico que assumimos na vida. Mas sou realmente só isso? Quem sou eu? Quem é você? Para os outros são suficientes essas informações: a polícia e a receita federal podem registrar-me. Outros podem pensar em lazer negócios comigo ou convidar-me para a sua Igreja. Eles podem questionar a minha fé e confessionalidade. Na Igreja, isso acontece muitas vezes. As pessoas querem saber se alguém pertence à família, ao grupo com determinado interesse teológico e uma linguagem familiar. Identificar a pessoa tira o medo frente ao estranho, e cada um é um estrangeiro para a maioria das outras pessoas. Mas facilmente o identificar o outro pode tornar-se um engavetar, com aplicação de um carimbo: Ele é conservador ou esquerdista — pronto!. As consequências de uma reação desse tipo podem ser duras: A filha jovem engravida. Que vergonha! Para o pai e a mãe quebra tudo: O que vão pensar os vizinhos? Não podemos ficar com uma filha assim em casa. E daí? A nossa Igreja tem uma casa que abriga essas mulheres abandonadas pelas famílias. Uma moral do amor nas famílias, que não segue preconceitos, poderia resolver a maioria dos casos. Que triste! Podemos ser escravos da imagem que temos de nós mesmos e aterrorizar e torturar os outros que precisam de amor.

Quem é o outro? Quem sou eu? Os psicólogos desenvolveram ótimas teorias sobre o desenvolvimento da identidade humana. Mas, no decorrer dos anos, comecei a suspeitar se tudo isso não era um pouco superficial e esquemático. Com certeza tem, às vezes, sua utilidade dizer: Ele está na crise dos quarenta. Eles estão na primeira fase do casamento — a época da lua-de-mel com os seus problemas. Eu acho que pessoas são mais do que isso! É surpreendente que João Batista defina-se primeiramente de forma negativa: Não sou... não sou... não sou. Não sou o que todos vocês acham de mim. Provavelmente não sou o que penso de mim mesmo. Sou diferente, alguém outro, ainda desconhecido. João Batista lembra um pouco um jovem que, sobrecarregado com a tarefa de assumir a responsabilidade do adulto, nega tudo: Não sou... Não quero... Mas, realmente, João Batista lembra-nos que não é bom engavetar ou amarrar a si mesmo e os outros a definições estritas. A palavra não sou garante para nós a liberdade e o futuro. O que somos, a nossa identidade define-se finalmente não em nossa relação com os outros e com as ideias que eles têm de nós, mas se define em nossa relação com Deus. Dietrich Bonhoeffer, teólogo, assassinado por causa de seu testemunho e de sua resistência contra Hitler, descreve isso num poema escrito na prisão. Ele pergunta: Sou aquela pessoa calma, com a aparência de um vencedor, que se apresenta cada dia aos guardas, ou sou aquele fraco, inquieto, doente, que está cansado e disposto a despedir-se de tudo? Ele diz: Quem sempre for, tu me conheces, Deus, pertenço a ti (D. Bonhoeffer, Widerstand und Ergebung, Gütersloh, 1980, 179).

3.2. A relação com Deus, que é o centro da nossa vida, tem um conteúdo e um objetivo: testemunhar Cristo. O que significa? Logo pensamos em confessar a nossa fé, participar ativamente da cultura e da vida da comunidade, cooperar na luta política, identificar-nos com os marginalizados. Muitas vezes, podem-se ouvir quei¬xas nas comunidades: O trabalho é feito sempre pelos mesmos! E nas famílias não é diferente. Normalmente, a mãe ou uma filha assume as tarefas, esforça-se muito para resolver os problemas: alcoolismo, falta de dinheiro, dificuldades na escola. Para todos, mas especialmente para essas pessoas, pode ser muito importante ouvir a confissão negativa de João Batista: Eu não sou o Messias. Quer dizer: Sou um ser humano. Sou limitado. Não posso e não preciso resolver tudo. O Messias é um outro, e ele está presente. Ele trabalha. Não preciso fazer o seu trabalho, mas posso testemunhar, descobrir e mostrar onde ele faz a sua obra. Posso participar dessa obra. Quem reconhece o Cristo como seu Salvador, aceita o lato de ele ser diferente da gente, os próprios limites, e o fato de que não se pode resolver tudo e não se precisa assumir a culpa por tudo. Para nós cristãos, como para a maioria da nossa sociedade, é duro aprender isto, pois inconscientemente temos dificuldades em abandonar as ideias de grandiosidade.

3.3. A ideia popular, divulgada por muitos livros, de auxílio para a vida é que, como pessoas e como sociedade, podemos crescer até chegar a um estado de integralidade. Ocultamos o fato de que a vida de cada um continua sendo um fragmento, de que vivemos sobre as ruínas dos sonhos e planos quebrados, de que esperamos sempre um futuro melhor. Com saudades experimentamos a falta da vida plena, da integralidade. A vida, a nossa identidade permanece sendo um fragmento. A integralidade é um segredo que não conseguimos descobrir plenamente. Quem aceitar isso — seguindo o exemplo de São João — vai sentir dor e tristeza por causa da fragmentariedade do seu passado, mas continuará com esperança por algo que ainda não aconteceu. Assim ele vai sentir o quanto precisa da solidariedade das outras pessoas. Ninguém se contenta consigo mesmo. O caráter fragmentário da vida valoriza especialmente os pobres. Sendo quebrados, fracos, doentes, desabrigados, em luta contra o desespero, dão o testemunho de um Deus que escolheu os fracos e solidarizou-se com eles, terminando a sua vida como fragmento na cruz.

3.4. Uma voz gritando no deserto. Vivemos na época de Advento, uma época que simboliza a transição do antigo para o novo, do antigo ano para o novo ano, da antiga era para uma nova era, das trevas para a luz. A nova era é Cristo, a luz, a vida em plenitude. Isto documenta-se também liturgicamente no Ano da Igreja. Sempre falamos na Igreja de João Batista nos momentos de transição do ano, nos solstícios de inverno e de verão, na festa de São João. Como São João, vivemos no deserto, nas trevas esperando a luz. Experimentamos o sofrimento de uma sociedade que está marginalizando a maioria do povo e excluindo-a dos bens da terra e da economia. Não pode emudecer o grilo do povo de Deus por justiça e pelo direito de viver. Mas, olhando para o Cristo, o grito torna se testemunho: a luz de Deus brilha e transforma as trevas. A nova era, o novo ser chegou e transforma o velho ser. Podemos descobrir sinais de transformação na família, na Igreja, em sua missão e diaconia, nos movimentos do povo e, antes de mais nada, em nós mesmos. Vivendo conscientemente a época cie Advento, temos a chance de transformar-nos, deixando atrás as coisas que perturbam e impedem a vida e aceitando que o fragmento da minha vida, eu como pessoa limitada e fraca, tenha valor e consiga testemunhar e colocar sinais da vida plena, que é o Cristo.

4. Bibliografia

SCHNACKENBURG, R. Das Johannesevangelium, Parte I, in: Herders Theologischer Kommentar zum Neuen Testament, vol. IV, l. Parte I, Freiburg, Basel, Wien, 1965.
BLANK, J. O Evangelho segundo João. la Parte A, Petrópolis (Vozes), 1990.


Autor(a): Christoph Schneider-Harpprecht
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Advento
Perfil do Domingo: 3º Domingo de Advento
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 6
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1993 / Volume: 19
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 16164
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