João 10.1-10

Auxílio Homilético

13/04/2008

Prédica: João 10.1-10
Leituras: Atos 2.42-47; 1 Pedro 2.19-25
Autor: Uwe Wegner
Data Litúrgica: 4º Domingo de Páscoa
Data da Pregação: 13/04/2008
Proclamar Libertação - Volume: XXXII

1 Introdução
O texto de João 10.1s. trabalha em sua parte figurativa (v. 1-6) com um imaginário pastoril de campo e lavoura. Há um “aprisco” (curral, redil), cuidado por um “porteiro” (v. 3) e destinado ao abrigo (noturno) de (várias) ovelhas, ao qual se tem acesso normal por uma “porta” (portão), ou acesso ilegal “por outras partes”. Quem entra pelo acesso normal, pela porta, é o “verdadeiro” pastor de ovelhas, a quem elas seguem e conhecem. Os que “sobem” (v. 1) por outros lugares para entrar no redil são considerados ladrões e salteadores (v. 1, 8) ou “estranhos” (v. 5). Essa “história” é considerada paroimia, que no grego pode adquirir significados como “parábola”, “provérbio”, “dito ou conto enigmático”, “figura de linguagem” etc. Em nosso texto, ela é considerada um “conto enigmático”, pois os fariseus (cf. v. 6 com 9.40s.) não “compreen¬diam o seu sentido”.
Nos v. 7-10, temos uma “aplicação” desse conto enigmático. Nessa parte, Jesus identifica-se com a porta que dá acesso para fora, a pastagens, alimento e vida, mas também para dentro, garantindo vida e segurança no interior do curral (“entrará e sairá e achará pastagem”: v. 9). Na verdade, Jesus como “porta” não representa nem mais nem menos do que o próprio acesso à salvação (v. 9: “Se alguém entrar por mim será salvo”). O papel dos “ladrões, estranhos e assaltantes” – os que vieram antes dele – foi exatamente o contrário, a saber, de destruição e morte (v. 10).
O texto de Atos 2.42-47 mostra-se como exemplo de uma comunidade que vive da vida em abundância que Jesus oferece: há comunhão material e espiritual, as necessidades das pessoas são supridas pela comunidade.
O texto de 1 Pedro 2.19-25 mostra uma faceta do discipulado dos cris¬tãos: para ser discípulo de Cristo, é preciso renegar a violência e a vingança; é preciso negar-se a si mesmo e tomar a própria cruz – o pastor conduz as ovelhas pelos caminhos que ele mesmo percorreu.

2 Exegese
A figura que Jesus usa para caracterizar seu ministério – as ovelhas no curral e seu seguimento ao pastor conhecido – destaca dois aspectos. O primeiro é de antagonismo. No curral, onde se encontram entre diferentes ovelhas aquelas pertencentes ao verdadeiro “pastor”, há também guias pastores inautênticos, cuja intenção é levar as ovelhas à ruína, à morte. O “curral”, portanto, não é um espaço neutro. As ovelhas são aliciadas também por gente que lhes causa prejuízo e sofrimento. É preciso, pois, conhecer as diferentes “vozes” e não seguir pastores cuja voz soe estranha.
O segundo momento ressalta a união entre o pastor e as ovelhas. O pastor conhece-as nominalmente e as guia para fora. Elas, por sua vez, iden¬tificam sua voz e seguem-no confiantes.
Essa figura está permeada pelo imaginário amplamente explorado no Antigo Testamento. Os dois textos mais evocados na exegese são o Salmo 23 e Ezequiel 34. Em Ezequiel 34.3s., a palavra de Deus mostra-nos como se comportam “ladrões e salteadores”: apascentam a si mesmos, mas não as ovelhas. Não fortalecem a fraca, não curam as doentes, não ligam para as quebradas, não procuram as desgarradas e não buscam as perdidas. Além disso, dominam sobre elas com rigor e dureza (v. 3-4).
Na aplicação da figura para a realidade (v. 7-10), a exegese tem encon¬trado algumas dificuldades:
1 – A primeira delas: a quem Jesus poderia estar se referindo com as palavras “ladrões e assaltantes”. A todos os que vieram antes de mim e a cujo chamado as ovelhas não deram ouvidos (v. 8, 10)? Como desde o Antigo Testamento a figura do “pastor” é metáfora para os governantes político-religiosos de Israel (Ez 34.2-5, 23s.), geralmente se afirma que “ladrões e assaltantes” poderiam ser todos os líderes que, antes de Jesus, governaram mais para si do que propriamente para o atendimento dos interesses e neces¬sidades do povo da aliança, incluídos aí os diversos pretendentes messiânicos e libertários, que, antes da atuação pública de Jesus, notabilizaram-se como protagonistas de seguidas revoltas contra herodianos e romanos. Contudo, não é preciso pensar unicamente em lideranças “nacionais”. Ora, também “escribas e fariseus” eram considerados “mestres e guias” em Israel, pelo que Jesus lhes dirige severas críticas, como em Mateus 23.4 ou 23.24. Jesus também poderia estar se referindo a tais “menores” pastores, tanto que no capítulo 9 é justamente contra eles a polêmica (cf. também 9.40s. com 10.6).
2 – A segunda dificuldade refere-se à identificação de Jesus com a “por¬ta” (v. 7 e 9), quando em verdade 10.1-5 sugeriria antes uma identificação direta com o verdadeiro “pastor”. Os v. 7-10 também não contrapõem a porta que representa Jesus a uma outra porta que representaria os ladrões e salteadores. Parece quase que em Jesus as imagens do bom pastor se alternam e fundem com a da porta exclusiva. No texto, elas são praticamente intercambiáveis. Pois, como “a porta” Jesus não deixa de ser o verdadeiro pastor, exatamente como tal representa o verdadeiro acesso à vida e à salvação.
Jesus pode ter extraído também a metáfora da porta de antecedentes no Antigo Testamento. A pesquisa costuma apontar para o v. 20 do Salmo 118 (117): “Esta é a porta para o Senhor [...] Somente os justos podem entrar por ela [...]” e para outros textos gnósticos, como por exemplo: “Nada encontrei fechado para mim,/ Pois tornei-me a porta para tudo” ou “Tira-nos das garras das trevas,/Abre-nos a porta/ Para chegarmos a Ti”.
Importante é perceber que, comparando-se com “a porta” que leva para a salvação, Jesus atribui a si competências de representar um canal privilegiado de acesso tanto entre as pessoas e Deus como entre as ovelhas e suas pastagens (v. 9), ou seja, entre os fiéis e o que lhes convém para uma vida abundante.

3 Meditação
O que o conto de Jesus acentua em relação a sua pessoa é que
a – Ele é aquele que – ao contrário de “ladrões e assaltantes” – conduz as ovelhas para onde há alimento e, portanto, promove a vida. Outros pasto¬res “apascentam a si próprios”. Eles arrebatam ovelhas da maneira que lhes favoreça e lhes proporcione abundância. Como eles procuram sempre mais servir-se do que servir, seu pastoreio é avesso às dificuldades e cruzes. E tem uma marca inconfundível: nunca é totalmente transparente. Quem não pode entrar pelas portas dos currais é porque necessita esconder propósitos, camuflar intenções.
b – Nessa qualidade de dar acesso e passagem para o sustento e a vida abundantes (v. 10), Jesus é de importância singular e inigualável (não há ou¬tras “portas” mencionadas no conto). Jesus entende-se como a porta! Há, é claro, outros acessos e outras “portas” possíveis, por cujos umbrais passam as pessoas no intuito de encontrar sustento e vida em abundância – dezenas ou centenas de receituários de felicidade são oferecidos diariamente pelos meios de comunicação e pelas mais diferentes igrejas –, mas elas não têm a mesma solidez e durabilidade, ou quando têm durabilidade, não vêm acompanhadas dos mesmos valores da retidão, solidariedade e justiça. Em outras palavras: a passagem, o acesso que Jesus representa para a felicidade é uma porta “estreita” (Mt 7.13/Lc 13.24), é caminho nem sempre fácil e rápido. Aos que se encontravam ansiosos pelo que haveriam de vestir, beber ou comer Jesus assegura a fartura, mas com a condição de “buscar em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça” (Mt 6.25-34); e as multidões famintas, “que eram como ovelhas que não têm pastor”, ele saciou abundantemente, mas ensinando-lhes a partir e repartir primeiramente o pão que haviam recebido (Mc 6.30-44).
c – Quando Jesus se transforma em pastor ou porta de acesso à salvação na vida de alguém, ele o faz de forma pessoal e íntima: ele conhece os que o seguem pelo nome; os que o seguem e conhecem pela voz. Outros pastores também arrebanham ovelhas e seguidores. Mas a relação nesses casos é mais anônima e massificada, e as vozes de tais pastores soam diferentes demais para poder ser o eco da voz inconfundível de um e mesmo Senhor.

4 Imagens para a prédica
As imagens mais marcantes sobre Deus como o “bom pastor” encon¬tram-se no Antigo Testamento, mormente nos textos de Isaías 40.10s., Eze¬quiel 34 e Salmo 23.1-3. No Novo Testamento temos, além do texto de João 10.1s., ainda a parábola da ovelha perdida, em Lucas 15.3-7, como expressão para a figura do bom pastor.
Na prédica, se quisermos explorar esse imaginário, é preciso lembrar que não podemos mais pressupor que currais, cercados e a figura de pastores cuidadores de ovelhas sejam conhecidos por todos – a maioria das pessoas hoje não está mais familiarizada com a vida do campo e dos currais. Por isso as figuras do pastor e das ovelhas podem necessitar de breves esclarecimentos.
Um outro imaginário que pode ser explorado é a figura da “porta”. Jesus como a “porta” que nos dá acesso à vida e à salvação pode ser assimilado pelo emprego de expressões semelhantes. Também em nossa vida comum existem pessoas com funções de porta: elas nos “abrem” oportunidades, nos “conduzem” a pessoas-chave que nos podem ajudar, intermedeiam em¬pregos ou entrevistas com pessoas decisivas para conseguirmos colocação profissional etc.
“Ladrões e salteadores”, para camuflar suas más intenções, costuma¬vam entrar sorrateiramente nos currais – pulavam em partes que não podiam ser visualizadas a partir da porta de entrada. Esse imaginário pode encontrar fácil eco atualmente, pois também ladrões e assaltantes de hoje procuram sempre se esconder ou assumir ares de pessoas normais para que a entrada nos imóveis e nas casas não seja percebida e comunicada à polícia. Os mo¬dernos “ladrões e assaltantes” aparecem não raro vestidos de policiais ou de roupa bem arrumada. Essa é a maneira moderna de entrar pelos lados ou de pular os muros para não ser percebido na porta de entrada.

5 Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados:
Amado Deus. Confessamos-te hoje que damos pouco ouvido à tua voz de pastor, que procura conduzir-nos por bons caminhos. Preferimos caminhos fáceis, largos, sem dificuldades e sacrifícios, e imaginamos encontrar neles a nossa felicidade. Muitas vezes, são eles que nos levam à desgraça, à de¬sunião, aos vícios e à perdição. Perdoa-nos. Não nos abandones quando nos afastamos da verdade, nem nos desprezes quando praticamos a injustiça. Mas nos busca e nos converte.

Palavras de absolvição:
Jesus diz: Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a vida pelas ovelhas.

Oração de coleta:
Bondoso Deus. Orienta-nos com tua Palavra e Espírito neste dia. Assim como um pastor conhece suas ovelhas e as chama pelo nome, lembra-te tam¬bém sempre do nome de cada um e cada uma de nós, para que nos possamos sentir amparados e protegidos por tua mão.

Oração final:
(Além das costumeiras intercessões)
Senhor, há muitas vozes que nos chamam e buscam cativar-nos com receitas de felicidade. Dá-nos sabedoria para identificar a tua voz, o teu cha¬mado e as tuas propostas para o mundo de hoje.
Há também falsos messias e pastores que sabem iludir, enganar e explo¬rar as pessoas com promessas vãs, que não são cumpridas. Dá-nos sabedoria para identificar quem quer o nosso bem e quem só quer o seu próprio bem; quem quer ser pastor que cuida de nós e quem quer ser “ladrão e assaltante”, que nos abandona quando já conseguiu tirar vantagem de nós.

Bibliografia
KONINGS, J. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. Petrópolis: Vozes, 2001.
BLANK, J. O evangelho segundo João. 1ª Parte B. Petrópolis: Vozes, 1991.
 


Autor(a): Uwe Wegner
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 4º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 10 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 10
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2007 / Volume: 32
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 24213
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