João 14.23-29

Auxílio homilético

16/05/2004

Prédica: João 14.23-29
Leituras: Salmo 67 e apocalipse 21.10-14,22-23
Autor: Wilfrid Buchweitz
Data Litúrgica: 6º Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 16/5/2004
Proclamar Libertação - Volume: XXIX
Tema: Páscoa

1. O domingo

No calendário litúrgico da Igreja, o dia 16 de maio deste ano está localizado entre Páscoa e Pentecoste e é denominado de 6º Domingo da Páscoa numa nomenclatura e Rogate noutra. Quatro dias depois é Ascensão e duas semanas mais tarde é Pentecoste.

Vejo os textos, especialmente o do Evangelho de João, mas também o de Apocalipse e do Salmo, apontando para Ascensão e Pentecoste, sem, no entanto, trabalhar uma realidade importante e específica desse domingo.

Ascensão é dia da volta do Filho de Deus para junto do Pai, onde, assim confessamos no Credo Apostólico, “está sentado à direita de Deus Pai”.

O texto de Apocalipse nos pinta alguns traços desse lugar: é uma santa cidade, Jerusalém, a nova Jerusalém. Ela tem a glória de Deus. Brilha como uma pedra preciosíssima. É protegida por uma grande muralha. Mas a muralha tem doze portas, três para cada lado. Anjos estão em cada uma das portas. O santuário na praça da cidade é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso e o Cordeiro. A glória de Deus ilumina a cidade, e o Cordeiro é a sua lâmpada.

Para essa cidade gloriosa Jesus volta no dia da Ascensão.

É importante mencionar algo desse quadro e refletir sobre isso neste domingo, porque o dia da Ascensão é cada vez mais abafado em nossos dias. Anos atrás, era um dia santificado. Não se trabalhava e as comunidades cristãs se reuniam em culto. Hoje, alguns municípios instituíram um feriado, mas vários passam a comemoraçao do dia para o fim de semana, fazendo dele parte de um feriadão e esvaziando-o de seu verdadeiro sentido. Os deuses economia e lazer estão se impondo no lugar. Não sobre o Cordeiro, mas sobre nós.

O Evangelho de João diz em 14.28: “Vou (para a santa cidade, Jerusalém, para a direita do Pai) e volto para junto de vós”. Vou, Ascensão, e volto para junto de vós, Pentecoste. E sobre este “junto de vós” testemunha o Salmo 67. O Cristo, Deus, Espírito Santo, está na nova Jerusalém. Mas Ele não está só na nova Jerusalém. Ele também está na velha Jerusalém e aqui. Ele julga os povos com eqüidade e guia na terra as nações e nos abençoa. E, ao mesmo tempo em que Ele faz isso, nós pedimos isso, porque precisamos disso. Nosso mundo precisa. Nós precisamos. Então pedimos: “Seja Deus gracioso para conosco, e nos abençoe, e faça resplandecer sobre nós o seu rosto. Abençoe-nos, Deus, e todos os confins da terra o temerão”.

Está conosco o Cristo que voltou. Está conosco o Consolador que Jesus prometeu e enviou. Está conosco o Deus Pai e Criador que nos deu e mantém a vida.

É claro que o 6º Domingo da Páscoa, ou Rogate, não tem só a perspectiva de Ascensão e Pentecoste. Ele também ocupa um lugar próprio entre Páscoa e Pentecoste. A crucificação na Sexta-feira Santa ainda marca muito forte os discípulos e a comunidade de Jesus. E a Páscoa ainda não foi bem entendida e assimilada. A surpresa, a incredulidade e o medo marcam e dominam muito aqueles dias. Será que poderíamos dizer que o texto de Jo 14.23-29 vem de uma comunidade que vive o medo daqueles dias para uma comunidade que vive o medo de nossos dias?

2. Lendo João 14.23-29

A perícope está no contexto maior das palavras de despedida de Jesus. Strathmann dá o seguinte título: Palavras de despedida – Primeira parte: O consolo aos discípulos (13.31-14.31). Schlatter diz: A promessa ao partir (13.31-16.33).

Ajuda muito a gente começar a ler a perícope de 13.31 até o fim do capítulo 14. É preciso perguntar se não se deve ler o trecho todo no culto com a comunidade. É um texto longo e, provavelmente, a comunidade terá dificuldade para ouvir atentamente e guardar o conteúdo todo. Talvez uma leitura em partes ou por mais de uma pessoa ajude. Ou o pregador ou pregadora terá que explicar o contexto da perícope.

Despedida sempre é difícil onde houve um convívio marcante. Quando uma filha vai estudar ou trabalhar longe de casa, toda a família passa por um processo de separação, que, às vezes, é muito difícil. Muitas vezes, toda a família vai até a estação rodoviária. Por um lado, para dar apoio, mas, por outro, também com o sentimento de, se desse, segurar a filha. Se fosse bom e possível, a família seguraria. Quando um marido sai de casa, porque o casal não consegue mais viver em conjunto, há um doloroso processo de separação. Alguns literalmente fogem de casa porque não conseguem administrar a separação de outra forma. Quando alguém adoece gravemente, o medo da morte envolve de maneira muito forte todas as pessoas em volta.

Assim também em nosso texto. Quando em 13.33 Jesus anuncia que vai embora, Pedro quer segui-lo e diz que está disposto a dar a própria vida por Jesus (13.36-37). Tomé diz que não sabe para onde Jesus vai, apesar de isto ter sido dito antes (14.5). Na realidade, Tomé não quer saber. Filipe diz que não conhece o Pai apesar de ter estado junto com o Filho há tanto tempo (14.8). O que Filipe quer realmente é segurar o Filho. Judas, não o Iscariotes, de repente também quer mais explicações sobre manifestações de Jesus (14.22).

Depois de toda a vida intensa com Jesus que os discípulos experimentaram durante anos, é muito difícil para eles pensarem em separação. Eles não entendem a situação e por isso não querem. Ou eles não querem e por isso não entendem a situação.

Nessa situação, Jesus fala aos discípulos com muita paciência e sensibilidade poimênica.

O trecho de 14.23-29 é muito denso. Tem várias verdades concentradas, verdades importantes, em poucas palavras.

Tem a questão do amor. Em palavra e ação, Jesus passou aos discípulos o seu amor imenso e incondicional. Por tudo o que Jesus lhes deu e fez, os discípulos deveriam estar em condições de corresponder a esse amor e de viver esse amor em direção a Jesus e ao mundo. De receptores do amor de Jesus os discípulos já deveriam ter passado a praticar esse amor. E o amor do Filho é o amor do Pai. E o amor ao Filho é o amor ao Pai. E o Pai e o Filho enviarão o Consolador, o Espírito Santo. Temos aqui a Trindade, com a revelação de traços da Trindade, mas também o mistério da Trindade. O Filho voltará ao Pai e os discípulos não o verão mais, mas virá o Consoloador, o Espírito Santo. E se os discípulos entendessem isso, alegrar-se-iam com isso. Certamente ficariam tristes com a ausência física do Filho, também com o sofrimento e a morte que a saída do Filho implica. Mas, ao mesmo tempo, se alegrariam se o amassem e entendessem, porque a saída do Filho e a vinda do Consolador representam uma continuação do plano de Deus de salvação do mundo. A morte de Jesus não é a morte de Deus, e a ressurreição de Jesus inclui a continuação da presença de Deus na vida e no mundo através do Espírito Santo. Por isso a dor e a alegria vão andar juntas pelos próximos dias, semanas, meses e talvez anos.

Jesus alerta para os acontecimentos que virão. Os discípulos não vão entender as palavras agora. Mas elas vão ficar gravadas na memória e, quando as coisas novas vão começar a acontecer, eles vão se lembrar e vão começar a entender.

No mundo em que Jesus vivia, era costume as pessoas desejarem paz umas às outras em momentos de despedida. Assim também Jesus deseja paz a seus discípulos no momento em que se despede deles. Só que, na sociedade, esse costume tinha perdido muito de seu significado e conteúdo, o gesto e as palavras tinham se esvaziado. Jesus usa as mesmas palavras e certamente os mesmos gestos, mas agora cheios de verdade e significado. Jesus oferece a seus discípulos a sua paz. Ele constrói sua comunhão com eles. Ele lhes declara sua paz, mesmo que os discípulos não possam corresponder nesse momento ao gesto de Jesus. Nesse momento, eles não podem oferecer a sua paz a Jesus. Eles estão cheios de perguntas, de dúvidas e de medo. A paz que existe é a que é realidade a partir e por iniciativa de Jesus. Por isso ela é de natureza e qualidade diferentes. Por isso nessa hora difícil o coração dos discípulos não precisa se turbar e atemorizar.

3. Nosso mundo – nossa situação

Nos últimos anos, os discípulos viveram uma fase privilegiada de sua vida. Ao lado de Jesus, experimentaram a força do amor e do Reino de Deus. Não foi sempre uma experiência fácil, porque as palavras e os atos de Jesus provocaram muitas reações adversas e criaram momentos perigosos. Mas dentro disso os discípulos sempre experimentaram a vitória do amor e da vida.

Tudo isso agora parece estar em perigo. Jesus fala em ir embora. Por isso eles estão abalados. Estão muito assustados e inseguros. Como é que vai ficar o mundo deles sem a presença de Jesus?

Nosso mundo também vive assustado. Todos nós vivemos assustados. Muitas pessoas perguntam: Onde está Jesus? Onde está Deus? Acontecem tantas coisas contrárias ao amor e ao Reino de Deus, que, às vezes, parece que o anti-amor e o anti-reino parecem se sobrepor. Por que Deus não intervém? Por que Deus não evita? Algumas pessoas dizem que por isso não crêem mais em Deus. Parece que o diabo está solto. A nível local, a violência e a injustiça grassam por todos os lados. Como conseqüência disso temos fome sem fim, doença e falta de educação. A nível internacional, temos muitas guerras absurdas. Na globalização, os grandes e fortes estendem por todo o mundo os seus tentáculos e sugam as forças e os recursos, às vezes o próprio sangue dos mais fracos. Fazemos perguntas muito parecidas com as dos discípulos quando ouviram que Jesus iria se ausentar.

Como na situação dos discípulos, também em nosso mundo o texto aponta para o amor de Jesus e de Deus: olhem para o amor que vocês viram e experimentaram. Vejam esse amor. Vivam esse amor a Deus e ao próximo, e vocês vão experimentar o Reino. Abram os olhos. Quantos sinais do Reino acontecem ao redor de vocês. No amor de Deus e a Deus, no amor ao próximo e do próximo está o segredo de a Palavra ser guardada. E guardada aqui não é guardada na memória. Guardada significa aqui ser obedecida, praticada, posta em ação. Então a presença de Deus, Jesus, Espírito Santo no tempo de Jesus acontece na guarda da Palavra, na prática da Palavra. E em nosso mundo também a presença de Deus, de Jesus, do Espírito Santo acontece na guarda da Palavra, na prática da Palavra.

Se olharmos bem, veremos que em nosso mundo conturbado encontramos a prática da Palavra em muitos lugares, por parte de pessoas individuais, grupos, comunidades, igrejas. Há muito sal e fermento do Reino de Deus à nossa volta. E há fora do âmbito das igrejas muita prática de princípios e valores do Reino de Deus. Não pode o Espírito Santo estar agindo ali também? Não tem Ele liberdade de agir onde quer? Jesus Cristo é Senhor hoje também e é no mundo inteiro; o próximo dia da Ascensão vai nos dar oportunidade de refletir sobre isso. O Espírito Santo está atuando em nossos dias também, e o próximo Pentecoste vai nos dar a chance de trabalhar essa verdade de novo.

4. A prédica

O texto permite a elaboração de mais propostas de prédicas.

1– Numa paróquia onde não há culto a cada domingo em todas as comunidades, o texto pode ser o fundamento para todo o período Ascensão/Pentecoste. Ele permite, por exemplo, a colocação dos três momentos seguintes: a – a comunidade e o mundo em seus medos; b – a Ascensão de Jesus para ser o Senhor do mundo; c – a vinda do Consolador para ser o poder de Deus na comunidade e no mundo.

2 – Outro eixo poderia ser: a – em Jesus Cristo Deus nos traz seu amor; b – respondemos ao amor de Deus com nosso amor a Ele?; c – quando amamos a Deus e ao próximo, guardamos, praticamos sua Palavra.

3 – Sofremos com a aparente ausência de Deus no mundo: a – por que não damos atenção à ação de Deus em nossas vidas e no mundo?; b – vamos compartilhar os muitos sinais da presença de Deus em nossas vidas e no mundo, os milagres de Deus, onde sua Palavra é ouvida e vivida.

4 – Cada pregador ou pregadora pode ainda ver outras possibilidades ou necessidades.

5. Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados: Senhor, nós te agradecemos que a ressurreição de Jesus Cristo já aconteceu. Sabemos e experimentamos que Cristo vive. Mesmo assim vivemos assustados. Há muita realidade e poder de morte ao nosso redor. Há muitas doenças e o sistema de saúde é caro e difícil. Há muita violência que invade nossas casas, nossas ruas e estradas, nosso lazer e nosso trabalho. Diante disso ficamos acuados. A passividade nos vence. Deixamos até de contar contigo, Deus da vida. Ou pedimos que apenas tu resolvas as situações que nós seres humanos criamos. Não nos organizamos. Pouco participamos de grupos, movimentos, iniciativas dentro e fora da igreja que promovem ofensivas em favor da vida e contra a morte. Ficamos trancados. Ajuda-nos a sair dessa postura acuada e defensiva. Tem piedade de nós, Senhor.

Oração de coleta: Senhor, nosso Deus, há poucas semanas nós, esta comunidade que hoje aqui se reúne, ouvimos os relatos sobre a morte e ressurreição de teu Filho Jesus Cristo. Vemos nesses acontecimentos o teu imensurável amor por nós e pelo mundo inteiro. Queremos agradecer por isso e queremos corresponder a esse teu amor. Queremos te amar de todo o coração e as pessoas de nosso tempo também. Em nome de Jesus Cristo. Amém

Oração de intercessão (adaptada de Heim, p. 81): Nós te agradecemos, Senhor, que tu falas conosco neste culto. Mas não só neste culto, e sim em toda a parte onde experimentamos tua ajuda, tua bondade e teu perdão, e também onde experimentamos teu juízo. Agradecemos que te conhecemos e que podemos te chamar e que podemos contar com tua presença, hoje e também amanhã. E porque tu nos animaste a falar contigo sobre nossas alegrias e nossas preocupações, chegamos a ti pedindo teu auxílio e tua paz.

Comunidade: Tem piedade, Senhor (ou canta: Tem, Senhor, piedade).

Sofremos, Senhor, quando sentimos tão pouco do teu poder em nosso mundo e quando vemos tantas pessoas vivendo como se tu não existisses. Estamos tristes porque teu amor não nos deixa mais alegres, teu perdão não nos torna mais gratos e tua missão não nos torna mais livres.

Comunidade: Tem piedade, Senhor...

Pedimos por tua comunidade, aqui e no mundo inteiro, por todas as pessoas que querem te servir e que descobrem como são fracas e como é pequeno o número de pessoas cristãs. Renova-lhes o ânimo e a confiança em teu poder.

Comunidade: Tem piedade, Senhor...

Rogamos por nossas crianças e nossa juventude, por sua fé, sua educação, por oportunidades de trabalho, por sua saúde. Sabemos que em tudo isso nós temos responsabilidade, mas é tão difícil cumprir essa tarefa. Dá paciência a pais e mães e professoras e professores e muita criatividade.

Comunidade: Tem piedade, Senhor...

Pedimos por nós mesmos. Segura-nos perto de ti, também em momentos difíceis. Ajuda-nos a contar contigo também quando as coisas parecem não ter mais sentido. Dá pastoras e pastores que nos proclamam a fé em ti e o amor ao próximo.

Comunidade: Tem piedade, Senhor...

E agora, Senhor, fica conosco neste dia e nesta semana. Dá que andemos na confiança de que tu estás conosco. Faz de nós mensageiros que em sua vida testemunham que tu és nosso Senhor. Amém.

Bibliografia

BEHM, Johannes. Die Offenbarung des Johannes. Göttingen: Vandenhoeck&Ruprecht, 1949. (Das Neue Testament Deutsch, 11)
HEIM, Burkhard. Beten im Gottesdienst. Neuffen: Sonnenweg Verlag, 1973.
SCHLATTER, Adolf. Das Evangelium nach Johannes. Stuttgart: Calwer Verlag, 1947. (Schlatters Erläuterungen zum Neuen Testament, 3)
STRATHMANN, Hermann. Das Evangelium nach Johannes. 5. ed. Göttingen: Vandenhoeck&Ruprecht, 1951. (Das Neue Testament Deutsch,4)

Proclamar Libertação 29
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Wilfrid Buchweitz
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 6º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 14 / Versículo Inicial: 23 / Versículo Final: 29
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2003 / Volume: 29
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7139
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