João 20.11-18

Auxílio Homilético

03/04/1983

Prédica: João 20.11-18
Autor: Edson Streck
Data Litúrgica: Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 03/04/1983
Proclamar Libertação - Volume: VIII


I — A Páscoa, segundo João

Cada um dos quatro evangelhos transmite, com palavras próprias, a mensagem da Páscoa. Ao compararmos estes relatos notamos algumas diferenças. Uma diferença há em relação às mulheres que vão ao túmulo (Mateus: Maria Madalena e outra Maria; Marcos: Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e Salomé; Lucas: várias mulheres que vinham acompanhando Jesus desde a Galiléia) — João fala ape¬nas de Maria Madalena! Outra diferença há em relação aos anjos que estão no túmulo (Mateus: um anjo; Marcos: um jovem; Lucas: dois homens) — João fala de dois anjos! Há, inclusive, uma diferença quanto ao motivo que leva a(s) mulher(es) ao túmulo (Marcos e Lucas: elas levam aromas para embalsamar Jesus) — João relata que o corpo de Jesus já havia sido embalsamado (19.39s).

Vemos também algumas semelhanças entre os relatos dos evangelistas: para todos eles o relato é fundamental (poderia ser diferente?); todos falam do encontro da(s) mulher(es) com anjo(s); Maria Madalena recebe um destaque bem especial, principalmente no relato leito por João. Para todos eles é vital que a grande e revolucionária notícia Cristo vive! seja levada adiante.

Comparando diferenças e semelhanças nos relatos que os evangelistas apresentam sobre a Páscoa, reconhecemos que as diferenças não são fundamentais. Vale, apenas, destacar a intenção de João, ao colocar Maria Madalena — sozinha — em contato direto com Jesus: trata-se de um encontro bem pessoal, muito especial.

Este contato tão pessoal faz com que o relato da Páscoa, segundo João, se torne um acontecimento extremamente delicado. Gerhard von Rad, em uma prédica em língua espanhola, o diz assim: ... estas líneas encierran Io más delicado, puro y misterioso que el Nuevo Testamento pueda expressar sobre el encuentro de Cristo con un ser humano (p.23)

A seguir, quero convidá-lo a nos aproximarmos da mensagem que João transmite, como se estivéssemos olhando, analisando, procurando entender quadros. Pois João desenha quadros que devem ser vistos isoladamente, para que possamos captar melhor alguns de seus detalhes. Mas estes quadros devem permanecer ligados, já que eles se completam, se aperfeiçoam, num crescendo.

São ao todo quatro quadros. Não se constituem de paisagens mortas e inertes, mas são quadros vivos. Neles, o mais importante são as palavras. O diálogo que neles se trava constitui-se o centro de nossas atenções e de nossa meditação.

II — Primeiro quadro: Maria chora (vv. 11-13)

Não há motivo, ou desculpa, para Maria ter ido ao túmulo de Jesus: o corpo dele já estava embalsamado. Nada mais havia a fazer. Mas Maria permanece junto à entrada do túmulo. E chora.

Todos os relatos da Páscoa iniciam da mesma forma: com lágrimas que traduzem a dor e o luto pela morte de Jesus de Nazaré. Vê-se, nos primeiros versículos, a imagem do túmulo. E o túmulo (também o de Jesus!) fala aos que o acompanharam e sepultaram: tudo acabou! A morte acabou vencendo! Que fazer, a não ser chorar?

Mulher, por que choras? O diálogo tem inicio neste primeiro quadro. Dois anjos perguntam a Maria Madalena pela razão de suas lágrimas. Maria chora. Suas lágrimas mostram o quanto ela dependia de Jesus. A vida tornou-se, para Maria, com a morte dele, uma vida sem graça, sem sentido. O mundo tornou-se inseguro. Estar sem Jesus lhe provoca um enorme vazio. Ela perdeu o seu Deus, perdeu a sua fé. Maria não sabe o que fazer com a Páscoa.

Há outro motivo para o seu choro. O maior pesar não está na morte de Jesus, mas no fato de o seu corpo, agora, não estar mais no túmulo.

Porque levaram o meu senhor, e não sei onde o puseram , responde ela.

À sua frente está o túmulo — vazio! Ela olha para o túmulo como se olhasse para um espelho: o túmulo está vazio, o mesmo vazio ela carrega dentro de si.

As reações em relação ao túmulo vazio são diversas. Pedro apenas tomou conhecimento da ausência do corpo (vv.5-7), o outro discípulo, que acompanhava Pedro, viu e creu (v.9) na ressurreição de Jesus. Mas Maria não se conforma: o túmulo vazio aumenta o seu de¬sespero. Ela precisa, ao menos, do corpo de Jesus. O túmulo vazio, para ela, ainda não é prova nem testemunho de que Jesus ressuscitou. Agora ela se sente totalmente perdida: não pode nem mesmo prestar homenagens ao morto; a última lembrança será sempre a de um túmulo profanado, de um cadáver raptado. Viver com esta lembrança torna-se uma aflição.

Horst Nitschke, ao pregar sobre este texto, consegue traduzir multo bem o que Maria sente (será o mesmo que nós sentimos quando vamos ao cemitério?) Aí está uma pessoa na frente de um buraco e pergunta: 'Onde está o meu Deus?' E do túmulo vazio retorna um eco, irônico: 'Onde está o teu Deus?' Maria é a pessoa que faz essa pergunta e recebe esta resposta, que não é resposta. Aquele que era o Deus dela — está morto. E ali, onde este Deus morto foi colocado — não há mais nada! (p. 119) Ela se sente totalmente abandonada pelo seu Deus.

Mas logo o quadro se altera.

III — Segundo quadro: Onde está Jesus? (vv. 14-15)

Parece, neste segundo quadro, tratar-se da repetição do mesmo diálogo visto no primeiro. Mas não é o mesmo diálogo.

Mulher, porque chora»? A quem procuras? A pergunta, agora, é feita por Jesus. No lugar dos anjos, Jesus mesmo fala com Maria. Para João, o ponto alto da Páscoa está nas palavras que ambos trocam. E aqui, este diálogo tem o seu inicio.

Como sempre o fizera em vida, Jesus procura o desconsolado, o que se sente perdido, o que chora. Ele não quer apenas saber o motivo da tristeza, mas procura dar orientação ao desorientado: A quem procuras?

Atrás de Maria está o seu Deus — e ela não o reconhece. Continua chorando. Vê nele um estranho, um jardineiro... Quem sabe, pensa ela, esse homem tem conhecimento de onde está o corpo de Jesus? Será que não foi ele mesmo quem tirou o corpo de Jesus do túmulo?! É a primeira ideia que lhe vem à mente, ao ver alguém às suas costas.

Sua pergunta não recebe resposta. E Maria volta a olhar para o túmulo vazio. Jesus não é reconhecido. O Cristo ressurreto é, à primeira vista, imperceptível aos nossos sentidos, inalcançável através de nossa razão, não se enquadra em nossos conceitos, mesmo assim — ele está aí, às costas de Maria. Permite que ela chore a sua dor, que ela sinta o vazio total por não poder reter nas mãos, nem na lembrança, o seu Deus.

Aquele que não se sente atingido pessoalmente pela palavra de Jesus não o reconhece, apesar de sua proximidade. Maria não o percebe. E nós — conseguimos percebê-lo? Ou também o acusamos de nos ter tirado o nosso Deus?

Mas logo o quadro se altera para Maria.

IV — Terceiro quadro: Re-conhecimento (v. 16)

Decididamente: Maria não havia reconhecido Jesus. Nem pela voz, pelas vestes, pela estatura, pela fisionomia... Reconhece-o somente no momento em que ele a chama pelo nome.

Maria!

Jesus diz apenas uma palavra. Maria responde, dizendo tão somente uma palavra. E trava-se, sem dúvida, nestas duas palavras, o diálogo mais significativo e profundo na vida de Maria. Jesus a chama pelo nome. Ele não lhe diz fulana, coisa, moça, psiu. Ele diz simplesmente Maria. Jesus a tira do anonimato. Para ele, Maria é um ser único, inconfundível, insubstituível, uma pessoa que ele ama. Maria o percebe: neste momento Ela. (e ninguém mais) está no centro das atenções de Jesus. Sua vida está em jogo. Jesus chama. Agora ela sabe que se trata de Jesus! Então eia se volta. Ela se converte. Torna-se Páscoa para Maria!

Antes de vermos mais de perto, neste quadro, a resposta de Maria, vaie a pena abrir um parêntese para pensar nos tantos e quantos hoje nos chamam. Frederico!, tu ai!, Chica!. Tantas vozes nos chamam, porque querem a nossa ajuda, o nosso voto, o nosso dinheiro, o nosso tempo... A voz de Cristo é diferente: ele não quer nos usar, nos explorar e nos esvaziar. Ele nos chama pelo nome, porque quer dar uma reviravolta na confusão que é nossa vida, porque quer preencher o vazio que sentimos. Ele quer o que ninguém procura em nós: nossa tristeza, nossa lágrima, nossos erros. Para nos colocar a caminho. Quem ouve a voz de Jesus passa a entender e a viver a Páscoa.

Maria ouve esta voz. Reconhece-a. E responde, na língua hebraica: Rabôni. Voltando-se para Jesus, ela confessa: Mestre! Assim ela sempre havia chamado Jesus. Assim costumava-se chamar Deus.

Maria diz apenas uma palavra, que se torna intraduzível por tudo o que esta palavra representa em sua vida:

Rabôni!

Ela volta do mundo irreal da morte, em direção a Jesus. Jesus é vida! Se ela não havia reconhecido Jesus — Jesus a reconhece. Se ela não havia encontrado o seu Deus — Deus a encontra. Ela tinha tenta¬do, em vão, procurar Deus no passado, no túmulo, nas suas lembran¬ças. E — incrível! — ele está aí, à sua frente! Deus está presente, abrindo-lhe os olhos para um mundo novo, dando-lhe uma nova vida.

Ela vive a Páscoa. Jesus fala tu para ela. Ela o re-conhece. Agora, sim, é Páscoa! Ela volta a viver com Jesus, mas de um modo to¬talmente diferente.

Também este quadro, tão perto da perfeição, se altera.

V — Quarto quadro: Vai e fala! (vv. 17-18)

Maria não consegue compreender a nova realidade em sua vi¬da, em toda a sua amplitude. Pensa, por um instante, que tudo voltará a ser como antes. Por isso Jesus chama a sua atenção de uma forma que talvez nos pareça brutal:

Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai...

Jesus não proíbe todo e qualquer toque a seu corpo, pois convida, mais tarde, Tomé a fazê-lo. Qual poderia, então, ser a intenção de Jesus ao proibi-lo a Maria?

Jesus quer deixar bem claro que ele não retorna simplesmente à velha vida, como Lázaro retornou ao ser ressuscitado. A ressurreição de Jesus é algo totalmente novo. Trata-se de uma nova criação. Não é apenas o retornar de um mortal ao mundo dos mortais. A ordem dada a Maria chega a nós: Não me tentes segurar! Não me procures prender! Jesus, ao dizê-lo, nos impede de transformá-lo em um objeto nas nossas mãos. Para nós, a ressurreição de Jesus e a certeza de vida além da morte seriam certezas absolutas, se pudéssemos fotografá-lo, gravar a sua voz (e apresentá-lo no Fantástico!). Jesus não o permite, porque ele não quer ser um objeto à disposição de nossos anseios, mas quer ser o criador e articulador de nossa fé.
O diálogo entre Jesus e Maria prossegue, neste quadro, que se amplia:

... mas vai ter com os meus irmãos, e dize-lhes: subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus .

A ressurreição de Jesus não está completa sem a sua ascensão, que, por sua vez, não está completa sem Pentecostes. Por isso, ao subir ao Pai, Jesus não se afasta, mas abre o caminho para um novo relacionamento: meu e vosso Pai, meu e vosso Deus. A nova criação engloba a todos: seu Pai torna-se o Pai dos seus, que passam a ser totalmente seus irmãos. Cria-se uma nova comunhão, uma nova comunidade.

Maria faz parte desta nova comunidade. Ela recebe a ordem que se destina a todos os irmãos de Jesus: ela deve viver a Páscoa! Viver a Páscoa: não significa permanecer contemplativo à frente de Jesus, não significa organizar romarias ao túmulo vazio, não significa transformá-la numa experiência que seja apenas bem pessoal e particular.

Vi o Senhor!

Assim Maria vive a Páscoa. Ela reparte com todos a noticia do Cristo presente. Ao ser repartida, esta mensagem se multiplica. Sua Páscoa torna-se Páscoa para outros: um grito de alegria aos entristecidos, a certeza de vitória aos derrotados, a esperança presente na vida dos desesperados, a luz que possibilita a visão para os cegos. A Páscoa coloca Maria a caminho, convida-a a agir. Páscoa não pode permanecer um acontecimento único e passado, mas é o renovado encontro com o Cristo vivo e presente. É deixar-se guiar pelo Cristo que chama as pessoas pelo seu nome, enviando-as, então, como seus irmãos, na direção dos outros irmãos.

VI — Alguns aspectos relacionados à prédica

É possível construir a prédica, seguindo a apresentação feita até aqui: olhar e meditar com a comunidade na direção destes quatro quadros desenhados por João neste texto. Certamente não será possível analisar todos os detalhes destes quadros, mas é importante notar que eles se completam, se fundem, estando intimamente ligados entre si.

Ao longo da descrição e interpretação dos quadros, há momentos em que possíveis atualizações e perguntas feitas por nós vêm à tona. João diz o que é Páscoa para Maria. Temos que descobrir o que é Páscoa para nós e para nossos irmãos, com a ajuda de João. Lembro três pontos que, a meu ver, não podem faltar numa prédica baseada neste texto:

— A Páscoa, em nossa vida, não pode ter por base as fases da lua e permanecer apenas uma data no calendário, mas é marcada pelo contato pessoal e comunitário com o Cristo vivo e seus irmãos.

— Aqueles que precisam de Deus, e aqueles que dele não precisam, devem saber que Deus está atrás deles, os conhece pelo seu nome e precisa deles, chamando-os, quando e onde eles nem imaginam. (Nitschke, p. 122)

— Para vivermos a Páscoa, é necessário o encontro pessoal com o Cristo ressurreto: ele nos chama pelo nosso nome. Este contato pessoal — conversão — não tem nenhum sentido, se for interiorizado e particularizado. A Páscoa nos converte para uma tarefa, tendo sempre a dimensão do vai ter com os meus irmãos....

VII — Subsídios litúrgicos

1. Intróito: ... nosso Salvador Cristo Jesus... não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, (2 Tm 1.10)

2. Confissão de pecados: Senhor, nosso Deus: espalhados pelo mundo inteiro, os cristãos tornam a ouvir hoje a maior noticia de todos os tempos — Cristo ressuscitou! Cristo está vivo! A certeza de que a morte foi vencida através da sua ressurreição deveria tornar a nossa vida mais alegre. A certeza de que Cristo está vivo, e em nosso meio, deveria tornar a nossa vida cheia de esperança. Entretanto, não conseguimos viver a Páscoa em toda a sua intensidade nosso agir é marcado pelo egoísmo e determinado pelo medo; nossa fé é (raça e Insegura; nossa esperança è falha. Senhor, ajuda-nos! Que a mensagem da ressurreição de Cristo nos alcance e nos transformei Certos de que tu queres chegar a nós com tua graça e com teu perdão, nós pedimos: Tem piedade de nós, Senhor!

3. Assim diz o Senhor que te criou... e quer te formou...: Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu. (Is 43.1)

4. Oração de coleta: Senhor, liberta-nos do poder que a morte exerce em nossa vida! Dá-nos a alegria que a ressurreição de teu Filho provoca em todos os que nela creem. Fortalece-nos pelo teu Espírito Santo, para que, ao ouvirmos a tua Palavra, possamos ser pessoas que a transformam em uma reali-dade de paz, justiça e fraternidade. Amém.

5. Leitura bíblica: At 10.34a,36-43.

6. Apontamentos para oração final: agradecimento por sermos chamados para a nova realidade da Páscoa; pedido para que a Igreja seja testemunha da mensagem do Cristo vivo; que todo o povo (um por um, e como um todo) possa sentir a voz de Cristo, que chama, conforta, convida e coloca a caminho; que a Páscoa se torne urna realidade em nossa vida, determinante e fundamental, para que possamos ir ao encontro de todos os nossos irmãos que choram, que oprimem e são oprimidos, que vivem só por viver...

VIII — Bibliografia

- FÜRST, W. Meditação sobre João 20.(1-10)11-18. In: Hören und fragen. vol. 5. Neukirchen-Vlyyn, 1967.
- NITSCHKE, H. Prédica sobre João 20.11-18. In: Auferstehung heute gesagt. Gütersloh, 1970.
- PFIZENMAIER, M. Meditação sobre João 20.(1-10)11-18. Für Arbeit und Besinnung, Stuttgart, 25(6): 126-132, 1971.
- RAD, G. von. Prédica sobre João 20.11-18. In: Sermones. Salamanca, 1975.
- STRATH-MANN, H. Das Evangelium nach Johannes. In: Das Neue Testament Deutsch. vol. 4.11. ed. Göttingen, 1968.
- VOIGT, G. Meditação sobre João 20.(1-10)11-18. In: Die grosse Ernte. 2. ed. Göttingen, 1976.


Autor(a): Edson Streck
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa

Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 20 / Versículo Inicial: 11 / Versículo Final: 18
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1982 / Volume: 8
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13326
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