João 6.1-15

Auxílio Homilético

21/07/1985

Prédica: João 6.1-15
Autor: Friedrich Genthner
Data Litúrgica: 7º Domingo após Trindade
Data da Pregação: 21/07/1985
Proclamar Libertação - Volume: X

 

I — Introdução

Ao nos defrontarmos com Jo 6.1-15, pensamos, antes de mais nada, na crise, no desemprego, na economia desonesta e injusta, na subnutrição e nas muitas e muitas crianças que desistem de ir à escola por terem que trabalhar com seus pais. Sentimos que a Igreja cristã deveria importar-se muito mais pelo pão de cada dia. Nosso trecho bíblico, Jo 6.1-15, pode ajudar-nos em nossa vida pessoal e na comunidade onde exercemos a fé em todas as suas dimensões: consoIando no luto, confortando na doença, demonstrando solidariedade na pobreza ou sofrendo na nossa fraqueza.

II — O texto no seu contexto

Jo 6.1-15 é a introdução a um discurso de Jesus sobre o pão da vida. A reflexão é muito profunda. Pensa-se inevitavelmente na eucaristia. O evangelista tem a clara intenção de conduzir o leitor de Jo 6.1-15 à eucaristia, a dádiva que Deus reparte conosco. A cristandade tem compreendido esta passagem no sentido de Mt 6.33: Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Justamente esta visão é um obstáculo para o povo (Jo 6.14 e 15), para os que se reúnem na festa em Jerusalém (Jo 5) e para os discípulos (Jo 6.66-69). A intenção de Jesus era dizer eu sou (Jo 6.35). Com isso, Jesus esclarecia sua missão (Jo 6. 48-51; 8.12; 9.5; 10.11-14; 10.7-9; 11.25; 14.6; 15.1-5). Neste sentido, interessam-nos aqueles versículos que são da mão do evangelista, em nossa perícope: os vv. 4, 6, 14 e 15. Ele coloca um acento importante: o milagre da multiplicação dos pães, em si, não é tão importante quanto o confronto com o mal-entendido deste milagre (vv. 14 o 15).

Voigt aponta para três aspectos que deveriam ser refletidos:

a) O que há de próprio neste milagre? — aspecto cristológico.
b) O que Jesus fez para uma vida melhor? —aspecto soteriológico.
c) Em que sentido o milagre é um sinal? — aspecto escatológico.

A perícope tem a seguinte estrutura:

Introdução:

v. 1 - o mar da Galiléia e de Tiberíades,
v. 2 — a multidão que segue Jesus,
v. 3 — o monte do silêncio, da oração e da revelação,
v. 4 — a época da Páscoa.

I — Vv. 5-7 — Jesus pergunta a Felipe: onde compraremos pão?

II — Vv. 8-10 — André traz um rapaz com cinco pães e dois peixinhos.

Ill — Vv. 11-12— Jesus é hospedeiro.

Final:
v. 13 — a sobra de doze cestos cheios de pão
v. 14 — o povo reconhece em Jesus um profeta,
v. 14 — o povo quer um libertador do jugo romano,
v. 15 — Jesus não despede o povo, mas retira-se para o monte.


lII – Palavra

V. 14: Por que Jesus foge? Na passagem paralela de Mc 6.30-32 Jesus permite aos discípulos que descansem, pois acabavam de voltar de sua missão. Na outra, de Mt 14.13, Jesus foge com os discípulos, diante da ameaça do Rei Herodes Antipas. João, porém, não menciona qualquer motivo para a fuga de Jesus. A distância entre os lados leste e oeste do mar podia ser coberta numa cansativa caminhada de sete horas. João menciona dois nomes simultaneamente: o mar da Galiléia, que é o de Tiberíades. A cidade de Tiberíades foi construída pelo Rei Herodes Antipas em homenagem ao Imperador Tibério (14 a 37 d. C.). Foi para perto dela que Jesus se dirigiu com seus discípulos.

Conta João que Jesus subiu a um monte (Mc 3.13; Mt 5.2; 14.23, 15, 29). Não, para ensinar os doentes, como em Mt 5.1; Mc 6.34; Lc 9.11, ou para curar os doentes, como em Mt 14.14; Lc 9.11. Jesus esperava pelo povo. O monte é o lugar de revelação de Deus. Voigt pergunta se não seria intenção do evangelista apontar já no v. 3 para Moisés, como acontece nos vv. 14 e 32. Interessante é observar que, segundo os vv. 3 e 15, Jesus se retira para o monte; e aí se articula uma reflexão teológica do evangelista.

O povo, OCHLOS, é o povo simples do interior, com pouca formação e pouca chance de competir com o povo da cidade de Jerusalém. Era gente que vivia na miséria, mergulhada em conflitos e sofrimentos. Este povo aceitava tudo que prometia mudanças, futuro e sobrevivência. Marcos e Mateus dizem, nas passagens paralelas, que o povo tinha estado com Jesus por três dias, sem pensar em alimentação. Segundo um exegeta, o milagre não pretende ser a solução para uma vida de aflição, mas uma demonstração da presença e do poder de Deus. O v. 2 dá a entender que milagres acontecem seguidamente.

Vv. 5-7: Nas versões de Marcos e Mateus a situação do povo é diferente. Lá o povo está com Jesus, sem preocupar-se com o amanhã. Quem levanta a pergunta pela comida são os discípulos. Os vv. 6-7 de nossa passagem destacam que Jesus vê o povo chegando. O texto certamente pensa num olhar de compaixão, como o que se expressa em Mc 8.2 e Mt 9.36. Naquela situação ninguém podia ajudar, a não ser o próprio Jesus. Por isso, Jesus toma a iniciativa e pergunta a Felipe: Onde compraremos...? Alguém tem uma solução para o povo? Tanto Felipe quanto os outros e nós só podemos responder: só temos umas coisinhas, pãezinhos e peixinhos, mas o que é isso para tanta gente?

Vv. 8-10: Jesus não dispensa Felipe, André,  o rapaz e a disponibilidade humana. (João demonstra interesse por André, cf. 1.40-42 e 12.21-23). Assim como os judeus oravam antes da refeição (v. 11), também os cristãos o faziam (At 27.35), dando graças a Deus pela comida. Em algumas casas isso acontece ainda hoje. O verbo ANAKEIMEIN, no v. 10, significa sentar-se à mesa do banquete. O povo assentou-se no gramado, no chão.

Vv. 11-12: O verbo EUCHARISTEIN, no v. 11, é mais forte do que EULOGEIN, em Mc 6.41. Jesus convida à sua mesa e dá participação. Ele toma as dádivas em suas mãos, ora por elas e reparte-as entre o povo. Pão de cevada era pão inferior, pão de pobre. Gente rica comia outro pão. Jesus abençoa este pão simples. Em nossa história Jesus é hospedeiro; ele distribui pessoalmente a comida e todos recebem. Mateus e Marcos deixaram esse serviço com os discípulos. Para surpresa nossa, restam doze cestos cheios de pães. Tão rica foi a bênção de Deus. Importante é a justificativa de Jesus: recolhei para que nada se perca (INA ME Tl APOLÉTAI). Os doze cestos e os doze discípulos lembram-nos que a bênção de Deus é universal. As dádivas de Deus não devem ser gastas à-toa. A pergunta que se coloca não é: como pode ter acontecido o milagre? (este é apenas mencionado e nunca explicado); a pergunta é: como devemos administrar as dádivas de Deus?

Vv. 13-15: A preocupação do evangelista é impressionante. Ele fala do milagre e do mal-entendido a respeito deste. Conforme a compreensão do povo, Jesus é um profeta. Sua capacidade e seu poder fundamentam, no povo, o anseio de querer ser libertado do jugo romano e dos problemas sociais. João reflete teologicamente o que Mt 4 diz sobre a tentação de Jesus. Lá, o diabo queria que Jesus transformasse pedras em pão. Aqui, o tentador quer levantar um Rei do Pão. Jesus despede os discípulos, pois este confronto é assunto seu. Jesus não despede o povo, mas retira-se dele e de suas exigências, pois não queriam o pão da vida, mas apenas o pão. João vê refletida aqui a acusação que levou Jesus à cruz. Toda a preocupação teológica, todo empenho missionário e diaconal de João, estão reunidos na palavra do v. 14: sinal, verdadeiramente, este, o profeta, que devia vir ao mundo.

IV — Em direção à prédica

Na história da multiplicação dos pães o evangelista fala de uma decepção: Jesus queria dar sinais que indicassem a proximidade do Reino de Deus e apontassem para uma esperança nova e singular. O povo e seus líderes, porém, queriam fazer desses sinais novas realidades. Jesus queria colocar esses sinais dentro da situação de calamidade social e espiritual em que o povo vivia. Mas o povo e seus líderes queriam usufruir deles, independentemente do seu doador, Jesus. Segundo a convicção do evangelista e o consenso do Novo Testamento (Mt 4.4), a salvação não vem do pão, mas daquele que cria o pão. Esse milagre não pode ser imitado por nós. Ficamos dependentes da obra criadora de Deus. É compreensível que o homem prefira e tente livrar-se também de dependências políticas, sociais, econômicas e religiosas. No entanto, devemos perguntar-nos se a nossa ação sócio-política na Igreja visa: a) unir-nos para que também nós tenhamos uma palavra a dizer; b) contribuir para a mudanças sociais e políticas porque é o que está na moda; ou c) colocar sinais com sinceridade.

O movimento das religiões e igrejas cristãs em nossos dias é preocupante: parece que o pão, isto é, a dádiva, está em nossas mãos e que Deus é dispensável. Nós organizamos eficientemente curas, reformas e novas situações; fabricamos novas estruturas que acabam escravizando, seja pelo legalismo seja pelo engajamento sócio-político. Quando lamentamos tanto pela ineficiência constatada na IECLB, não estaríamos, de fato, querendo fazer tudo (observe-se a literatura que oferece métodos para orar com sucesso, evangelizar, conseguir boas coletas etc.) enquanto Jesus nos escapa? No original grego lemos ANECHÕRÉSEN, que é um presente histórico: retira-se. Também hoje ele pode retirar-se.

Devemos levar a sério as perguntas e dúvidas que são levantadas em relação ao comportamento da Igreja. Muitos exigem que esta lhos dê pleno atendimento, quando internados no hospital. Mas, depois de curados, voltam para agradecer a Deus na igreja? A nossa cruz ó que o novo céu e a nova terra ainda estão por vir; e virão, não por nós, mas pelo poder de Deus. O que João entendia por sinal Lutero o expressou da seguinte maneira: supre-me abundante e diariamente de todo necessário para o corpo e a vida. Essa experiência não é feita por todos, mas só por aqueles que ousam confiar na Palavra de Cristo.

Theodor Schober, importante coordenador da obra diacônica na Igreja Evangélica da Alemanha, escreveu a seus colaboradores, no Advento de 1977: Nós não temos tempo, pensavam os discípulos, e o pouco tempo que temos — como servirá para atender tanta gente? Mas entre eles havia uma pessoa que tinha tempo para assumir cinco compromissos. Sorrindo, Jesus aceitou esse precioso tempo, olhou para o céu, deu graças a Deus e pediu que os discípulos o distribuíssem. E eis que esse pouco tempo serviu para muita gente. Doze cestos sobraram dos pães abençoados. Quantas dádivas Deus nos confiou! Há espaço físico na Comunidade: o templo, o salão, salas, duzentas ou mais casas de família.

Há recursos de tempo na Comunidade, pela colaboração de voluntários em visitas, mutirões, colaborações diversas; recursos que podem articular-se através de contatos, conhecimento, amizades. No âmbito paroquial ninguém precisaria sair vazio. Onde Cristo não está no centro, a Comunidade se limita a fazer melhoramentos para ser bem atendida, para o seu bem-estar e para aparecer. Tal atividade não dá incomodação nem crescimento. Onde Jesus está no centro, há colaboração, casas abertas para reuniões, recursos, crescimento espiritual, compartilhar de dádivas, preocupação, conflitos, muita oração e comunhão.

Gerhard Henning propõe três assuntos para a prédica:

a) Jesus vê a mim e a minha fome. Em Gn 1 Deus viu tudo o que tinha feito e eis que era muito bom. Ele vê a minha vida que eu, Ai vezes, não quero aceitar. Deus está voltado para mim. Isso me alegra e me transforma.

b) Jesus sacia-nos maravilhosamente pelo pão de cada dia. Os cinco pães são as oportunidades e possibilidades que nós temos de compartilhar com os outros. Um exemplo: Uma família estava à mesa puni almoçar. Agradecia a Deus pelos alimentos e comia. De repente a mãe se levantou, tirou um pouco de comida de cada uma das travessas sobre a mesa, colocou tudo numa cesta, disse já volto, e saiu.

Dali a pouco voltou com a cesta vazia. Onde é que você foi?, perguntaram os filhos. Me lembrei da vizinha, disse a mãe. Senti que ela talvez estivesse sem comida. E, de fato, faz alguns dias que não come nada e não está passando bem.

c) Jesus cuida de mim. Jesus aumenta em nós o anseio pela vida eterna. A existência de fome, sofrimento, miséria e insegurança lembram-nos de como Lutero interpreta a prece o pão nosso de cada dia dá-nos hoje. Como Deus cuida de nós!

Acompanha-nos na alegria e na dor e ainda oferece-nos o seu convite para o banquete. Essa dimensão escatológica não pode ser ignorada. Toda ajuda vive desta dimensão de eternidade. Sem ela, prendemos as pessoas a esta vida.

V — Subsídios litúrgicos

1. Intróito: SI 47.

2. Confissão de pecados: (Mais uma semana findou. Faz bem termos uma pausa para podermos respirar fundo e intensificar a comunhão com a família e com Deus. Aconteceu muita coisa que nos isola de Deus e do próximo. Neste culto Deus quer servir-nos e retirar os muros que nos impedem, dando-nos assim o prazer da comunhão. Essa experiência é saudável e dá alegria a nós e a toda família de Deus. Por isso, oremos:) Senhor, nosso Deus, obrigado porque estás conosco e sabes de tudo. Tu nos conheces assim como somos: nervosos, irritados, cansados de tanto correr e trabalhar. Dizemos que não há tempo, que orar não se enquadra na nossa agenda. Os compromissos nos matam. Ninguém pode chegar perto de nós. Perdoa-nos, Senhor, porque não aceitamos nada de graça. Perdoa-nos porque o mundo moderno não te permite intervir, e tu sabes como sofremos com isso. Perdoa a nossa cegueira e salva-nos. Ajuda-nos a termos tempo para te ouvir. Tem piedade de nós. Senhor.

3. Anúncio da graça: Em nome de Jesus Cristo anuncio-vos um novo começo, pois o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido. Quem aceitar isto está em comunhão com Deus. Por isso cantemos: Glória a Deus...

4. Oração de coleta: Nós te agradecemos. Pai Celeste, por este milagre que vivemos aqui, agora: tu o aceitas no seio da tua família pessoas caídas e as honras com teu amor. Nós te pertencemos com nosso corpo e alma. Faze com que a tua graça cresça em nós, a fim de que a tua santa vontade nos oriente e guie. Por Jesus Cristo, nosso Salvador, amém.

5. Leitura bíblica: Rm 6.19-23

6. Assuntos para a oração final: primeiramente transmitiras comunicações que revelam a ação da Comunidade, seu sofrimento e sua alegria, desafios novos ou oportunidades deixadas de lado, depois convidar a comunidade a participar da oração da seguinte maneira: o pastor começa com a introdução, em seguida pessoas presentes oram em voz alta, agradecendo por uma bênção recebida, pedindo por um doente ou necessitado e pela missão da Igreja; quando ninguém se manifestar, encerra-se com o Pai Nosso e a Bênção; essa forma permite à
Comunidade sentir e experimentar o que é participar na missão de Cristo.


Autor(a): Friedrich Genthner
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 8º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 15
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1984 / Volume: 10
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14647
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