João 6.56-59

Auxílio Homilético

26/08/2012

Prédica: João 6.56-59
Leituras: Josué 24.1-2a, 14-18 e Efésios 6.10-20
Autora: Guilherme Lieven
Data Litúrgica: 13º. Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 26/08/2012
Proclamar Libertação - Volume: XXXVI


1. Introdução

“Ao dar-nos sua vida, Deus não apenas se sacrifica por nós, se faz vulnerá¬vel à nossa sorte e à nossa história, mas antes nos dá de verdade sua vida divina” (Juan Luiz Segundo).

O texto está indicado para fundamentar a prédica no 13º Domingo após Pentecostes. Este estudo propõe o tema da confissão de fé. João apresenta Jesus, o pão que desceu do céu, o Santo de Deus, como o alimento para a vida plena. Trata-se de um tema atualíssimo. A pluralidade religiosa e a tendência de encontrar o que há de vir no presente induzem a relativização da opção e da definição histórica do sagrado. A confissão de fé permanece como um desafio. Muitos pr¬ferem a generalização e resistem ao convite para fazer a opção e declarar a sua fidelidade ao Deus que tirou o povo da escravidão e que, em Jesus, tornou-se alimento, o Filho do Homem, o Santo de Deus.

Os textos de leitura colaboram diretamente com o tema. O texto de Josué (24.1-2a,14-18) relata uma proposta de opção que também pode ser interpretada como uma confissão de fé. Josué exige uma escolha e anuncia o seu Deus e o de sua família. O povo responde com uma definição de quem é seu Deus e confessa a sua fé (“Nós também serviremos o Senhor, pois ele é o nosso Deus” – v. 18). E a perícope da Carta aos Efésios (6.10-20) aponta para a fé e a comunhão com Deus, inclui a oração, a confiança e a fidelidade do apóstolo, mesmo na prisão.

Além do estudo do texto e da meditação, no final partilhamos dicas para a pregação e subsídios litúrgicos para a celebração.

2. Exegese

O texto de João 6.56-69 compõe o bloco que relata a atuação pública de Jesus na Galileia. A partir do capítulo 5, João relata conflitos de Jesus com as lideranças do Templo devido à visível rejeição deles ao Filho de Deus. Jesus insiste em defender a unidade entre ele, o Filho, e o Pai. Alerta que a negação do Filho é a rejeição ao Deus Pai. Assim como o Pai, também o Filho é a fonte da vida. Os relatos das ações de Jesus dão testemunho de sua unidade com o Pai. No início do capítulo 6, Jesus alimenta a multidão, multiplica e distribui o pão. Essa ação maravilhosa antecede o seu discurso sobre o pão da vida, que veio do Pai. Ele se apresenta como alimento singular, comida e bebida verdadeira, que dão a vida eterna. A proposta de Jesus apresenta-se como dura, de difícil aceitação.

V. 56-57 – A comunhão plena com Jesus por intermédio de sua carne e de seu sangue apresenta-se como uma proposta nova, qual seja: em Jesus está a vida. Propõe viver por meio dele, em permanente comunhão com o mediador da vida plena. João refere-se à Ceia do Senhor. Mas essas palavras, ao mesmo tempo, estão relacionadas ao discurso sobre o pão. Referem-se ao agir salvífico de Deus em Jesus, que se torna realidade por meio do seguimento e da fé.

V. 58 – Apresenta Jesus como o pão que veio de fora, do céu, da parte do Pai, alimento que transcende os limites da vida no mundo, que sustenta a salvação para sempre.

V. 59 – João situa o discurso de Jesus, define o contexto, uma de suas características. Nesse caso, Jesus estava na sinagoga de Cafarnaum, ensinando e dialogando com os judeus.

V. 60 – O discurso de Jesus é estranho, difícil de aceitar. O público rejeita a revelação de Deus na pessoa de Jesus. Aqui pressupomos que a proposta da centralidade da salvação em Jesus conflita com os conteúdos e rituais até então fundamentados somente nos testemunhos sobre as obras salvíficas do Deus Pai por intermédio de Moisés, dos pais da fé e dos profetas. É dura a opção por Jesus como a revelação plena do Deus Pai. Como crer que Jesus veio do Pai e depois retornou a ele?

V. 61 – Para João, Jesus tem consciência da rejeição. Há uma crise, e transparecem dúvidas sobre a sua natureza divina. O discurso de Jesus é proclamado num ambiente em que não há consenso sobre a ação salvadora de Deus, encarnada por meio de Jesus. Para muitos, a proposta é escandalosa.

V. 62 – O diálogo é tenso. Jesus acirra a crise ao mencionar: Se é difícil aceitar a minha procedência da parte do Pai, pior será testemunhar a volta do Filho do Homem para onde veio. Está exposta a dúvida sobre a comunhão do Filho, Jesus, com o Pai. Se os seguidores não reconhecem a presença salvadora de Deus em Jesus, está interrompida a comunhão com Deus e a participação na nova aliança.

V. 63 – Onde está a verdade? As afirmações de Jesus tem sentido? “As palavras que tenho dito são espírito e vida.”

V. 64-65 – Mesmo com a referência ao Espírito da verdade, a incredulidade permanece. Jesus demonstra conhecer a situação e quem pode traí-lo. Observo que a incredulidade na dimensão divina de Jesus como mediador proporcionou consequências graves e violentas na dimensão histórica e real. A negação ou a opção com a confissão implicam consequências.

V. 66 – O resultado é o rompimento. A mensagem de Jesus é rejeitada. Muitos voltam as costas para ele.

V. 67 – Aos que permaneceram a seu lado, Jesus lança um desafio, que desperta clareza e exige opção, certamente uma confissão de fé: Vocês também querem partir?

V. 68 – Pedro responde em nome do grupo de seguidores que optaram por continuar no seguimento a Jesus: Não temos outra opção; a quem vamos seguir? Para os discípulos, a questão era de vida ou morte. Os fiéis seguidores optaram pela mensagem de Jesus. Eles aceitaram Jesus, o Filho do Homem que veio da parte do Pai, como alimento que dá a vida eterna.

V. 69 – Finalmente, a confissão de fé: Tu és o Santo de Deus. Os discípulos aceitam e compreendem a dimensão divina, salvadora e sacerdotal de Jesus. Fica claro o paralelo com a confissão de Pedro, conforme Mateus 16.16, onde encontramos a definição de Jesus como o Cristo de Deus. O título “Santo de Deus” é mencionado por Marcos em 1.24 e por Lucas em 1.35.

O Evangelho de João anuncia Jesus como Filho enviado ao mundo pelo Pai, a presença perfeita de Deus no mundo. Nele estão a salvação, a fonte e o alimento da vida, dádiva da vida eterna, pão do céu.

João escreveu para que todos creiam que Jesus é o Santo, o Filho de Deus, a fonte da vida plena (20.31). Apresenta a comunhão plena com Deus, a salvação, que passa pela opção e confissão de que Jesus é o Filho do Pai presente no mundo, o alimento e a vida eterna.

Nosso texto, João 6.56-69, integra a mensagem central de João. Além de dizer onde está a salvação, não omite o conflito, a dificuldade, a dureza da proposta. Cria um diálogo em que o seguimento a Jesus desafia e exige clareza, coragem e a confissão de fé.

3. Meditação

Vivemos num tempo em que as pessoas têm acesso a várias propostas de salvação. Geralmente, a escolha de uma delas se restringe a uma tentativa, ao provisório. Perdeu-se o controle social, moral, que fomenta opção por uma identidade permanente. Dissolveu-se a necessidade de clareza religiosa. No âmbito cristão, esvaziam-se as comunidades com heranças carregadas de história, ritos e símbolos, que pressupõem identidade e definição da salvação e do Deus salvador. A procura dessas comunidades por uma maior mobilidade abre espaço para a relativização, acompanhada por murmúrios e conflitos. A pluralidade religiosa gera dúvidas, descarta a confissão de fé.

É comum as pessoas escolherem valores e objetos para dar sentido às suas vidas e criarem experiências de salvação. A atual mobilidade social, econômica e religiosa oferece ilimitados bens materiais e símbolos para suprir todas as necessidades humanas – um messianismo ilimitado. Esse fenômeno instala o provisório, a negação do passado e do futuro, o endeusamento do presente. Não há mais nada a esperar do céu. As esperanças estão contextualizadas e são oferecidas na realidade humana, onde o sagrado recebe a dimensão material e natural. O anúncio de que o verdadeiro alimento procede de fora, da parte do Pai, é duro e conflituoso. Esse é o berço de uma intensa pluralidade religiosa que interage, sem prejuízo, com a messiânica mobilidade social, cultural e econômica.

A mensagem de João 6.56-69 não nos permite fugir do desafio de anunciar o Santo de Deus nesse contexto. A proposta de Jesus é dura e de difícil aceitação. O seguimento a Jesus, em comunhão plena com Deus, conflita com a tentação de moldar-se a propostas em que a salvação se restringe aos limites da realidade humana e o sagrado se confunde com objetos materiais e símbolos de consumo.

A opção pelo seguimento a Jesus e pela confissão de fé permanece como desafio e contrasta com a situação descrita, que aponta para um diagnóstico em que a preferência é o provisório, ou seja, não fechar as portas e janelas para as diferentes possibilidades de salvação. E essa se restringe a um limitado sentido para a vida e atendimento a necessidades pessoais e a sedutoras fantasias para garantir um nível de felicidade.

A mensagem de João foi conflituosa em seu tempo e contexto e permanece polêmica em nossos dias. O texto indicado para o 13º Domingo após Pentecostes atinge o miolo da busca humana por salvação, ou seja, por liberdade, esperança viva, sustentabilidade à dignidade, participação na missão de Deus em doar a vida ao mundo.

O seguimento a Jesus e a confissão de que ele é o Santo de Deus exigem uma opção, o envolvimento numa proposta contextualizada, comunitária de vida e de fé que garante duas imprescindíveis dimensões. Primeiramente, a participação na construção e vivência da comunhão uns com os outros e com Deus, deixando-se apaixonar pela vocação de proclamar o evangelho – a mensagem do amor incondicional de Deus de servir com alegria e gratidão. Essa dimensão denuncia a indiferença, a relativização dos princípios e valores do evangelho, o foco das pessoas em interesses egoístas e excludentes. A segunda dimensão está firmada na confissão de fé que legitima as promessas do Deus que veio ao mundo para doar a verdadeira vida divina. A fé no Deus que em Jesus, o Filho, o Santo, é alimento, caminho, cuidado, luz na escuridão, verdade e vida eterna. Inclui também a visão escatológica, qual seja: a plenitude que ainda virá, conforme a vontade e a ação de Deus, o Pai.

Por fim, aponto ainda para outro lado da mesma questão. A proposta de João e o anúncio que apresenta Jesus como o Santo de Deus, por intermédio do qual se encontra a salvação, em nossa realidade ganha uma característica pre¬ciosa, oferta libertadora. Muitas pessoas já duvidam de sua capacidade de ser sujeitas da própria salvação. Outras milhares sentem-se excluídas desse processo, estão doentes, envelhecidas, preferem a simplicidade, uma dinâmica de vida mais substancial, incorporada à dimensão sagrada que escapa de sua tutela e controle. Portanto o nosso texto tem espaço em meio à pluralidade e à mobilidade social. Podemos desafiar pessoas para optar pelo seguimento a Jesus, que trouxe ao mundo a vida em sua plenitude. Podemos apresentar às pessoas uma opção que inclui a confissão de fé e o seguimento, que passa pela vivência do amor, de unidade, comunhão, doação, partilha, gratidão, compromisso, movimento e envolvimento.

4. Imagens para a prédica

Para o envolvimento da comunidade com o tema da prédica, proponho um diagnóstico sobre dúvidas dos participantes na celebração. Distribuir, no início do culto, um bilhete com o pedido: escreva aqui uma dúvida sobre a ação salvadora de Deus. Logo no primeiro hino, motivar as pessoas para levar ao altar suas respostas. Mesmo que difícil, nos intervalos litúrgicos ou durante os hinos, procurar, entre as manifestações, dúvidas que podem ser cuidadosamente incluídas na contextualização do texto bíblico.

Outra possibilidade para destacar Jesus como alimento, sustentabilidade para a existência, é promover em um momento do culto uma partilha de alimentos: distribuir um tipo de fruta ou grãos, amêndoas, de fácil distribuição e alimentação. Iniciar a prédica associando esse movimento e interação às características do alimento Jesus.

Assegurar que a mensagem seja fiel à proposta de João e do nosso texto, resgatando assim a importância da opção, da confissão de fé. É inquestionável a necessidade de identidade para interagir propositivamente com o outro, com o diferente, e participar da missão de Deus por meio do seguimento e da confissão de fé em Jesus, o Santo de Deus.

5. Subsídios litúrgicos

Sugiro recitar com a comunidade o texto abaixo após a confissão de pecados e antes do anúncio da graça:

Eu quero um caminho para viver.
Preciso definir o que eu espero e em quem confio para esperar.
Deus Santo, eu estou certo de que és o caminho, contigo encontro salvação.

O difícil é melhor do que o nada.
Não quero viver sozinho. Aprendi que é melhor servir e ajudar.
Preciso de paz e comunhão. Quero viver sem medo e livre.
Viver hoje certo de que virá o amanhã.

Elaborar uma confissão de fé:
O foco central do texto de João (o seguimento a Jesus e a confissão de que ele é o Santo de Deus) motiva a elaboração de uma confissão de fé. É possível prepará-la com um grupo da comunidade. Por exemplo, elaborar com os adolescentes do Ensino Confirmatório uma confissão de fé que contemple a sua linguagem e responda às suas dúvidas ou a seus medos.

Oração geral:
Caso a dinâmica dos bilhetes com as dúvidas seja usada na celebração, referir-se a elas na oração geral.

Envio:
Incluir no envio, no final da celebração, uma palavra da prédica.
 


Autor(a): Guilherme Lieven
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 13º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 56 / Versículo Final: 59
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2011 / Volume: 36
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 25565
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