João 8.1-11

Auxílio homilético

26/06/1983

Prédica: João 8.1-11
Autor: João Artur Müller da Silva
Data Litúrgica: 4º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 26/06/1983
Proclamar Libertação - Volume: VIII


I — Introdução

Do nosso querido e saudoso Ataulfo Alves (1909-1969) herdamos um samba que foi sucesso na década de 40: Atire a primeira pedra — um lindo samba de A. Alves com letra de Mário Lago:

Covarde sei que me podem chamar,
Porque não calo no peito esta dor.
Atire a primeira pedra, ai, ai, ai,
Aquele que não sofreu por amor.

Eu sei, vão censurar meu proceder,
Eu sei, mulher, que você mesma vai dizer
Que eu voltei pra me humilhar.
É, mas não faz mal, você pode até sorrir.
Perdão foi feito pra gente pedir.

A expressão que se tornou popular através deste samba — Atire a primeira pedra — faz parte do texto bíblico de João 8.1-11.

II — Tradução

A tradução apresentada por João Ferreira de Almeida está de acordo com o texto original. No entanto, resolvi reescrever o texto, aproveitando também a Bíblia na Linguagem de Hoje, tornando-o mais fluente e compreensível para os ouvintes no culto:

V.1: Depois que todos foram para casa, Jesus foi para o Monte das Oliveiras.

V.2: Na madrugada do dia seguinte, ele voltou ao templo. Todo o povo se reunia a sua volta e ele, sentado, a todos ensinava.

V.3: Nisto os escribas e fariseus trouxeram à sua presença uma mulher apanhada em flagrante adultério, e a obrigaram a ficar de pé no meio de todos.

V.4: Disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério.

V.5: De acordo com a Lei que Moisés nos deu, tais mulheres de¬vem ser mortas a pedradas; tu, pois, o que dizes sobre isto?

V.6: Eles fizeram esta pergunta para experimentar Jesus, pois queriam acusá-lo. Mas ele se curvou, e começou a escrever com o dedo no chão.

V.7: Como insistissem na pergunta, Jesus se levantou e disse: — Quem estiver sem pecado, que atire a primeira pedra nesta mulher!

V.8: Depois curvou-se outra vez, e continuou a escrever com o dedo no chão.

V.9: Ouvindo isto, todos foram embora, um por um, começando pelos mais velhos. Ficaram Jesus e a mulher no lugar onde estava.

V. 10: Erguendo-se Jesus e não vendo a ninguém mais além da mulher, perguntou-lhe: — Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?

V.11: — Ninguém, Senhor — respondeu ela. Então, Jesus lhe disse: — Eu também não te condeno; vai, e não voltes a pecar!

III — Informações Exegéticas

A perícope João 8.1-11 encontra-se apenas no aparelho critico do texto grego de Nestle-Aland. As variantes não apresentam alterações profundas no texto. No decorrer de Informações Complementares aparecerá apenas uma variante que foi aceita para a complementação do texto.

Esta perícope é bastante peculiar, pois ela se apresenta de uma forma sui generis. Ela tem aparência de uma narração, mas traz alguns traços de uma conversação de briga (Streitgespräch) de Jesus com seus opositores. No entanto, o texto apresenta algumas situações novelisticas: o silêncio de Jesus, o curvar-se e escrever na terra e o diálogo com a mulher ao final do episódio. Por outro lado se poderia pensar em incluir esta perícope nos apotegmas biográficos. Seja como for, João 8.1-11 se apresenta como uma narração acerca de um encontro de Jesus com seus opositores e a mulher adúltera. No que diz respeito ao lugar vivencial, pode-se apontar para a comunidade na catequese dos novos crentes. Compare com mais vagar Mt 18 e João 8. 1-11. Acho que podemos concordar com Rudolf Schnackenburg, que conclui que os esquemas tradicionais de gênero literário e forma são muito rígidos para este tipo de história.

Apenas no séc. Ill esta perícope entrou no cânone dos quatro evangelhos. Muito mais se poderia mencionar a respeito desta perícope atípica dentro do Evangelho segundo João, mas creio que não con¬tribuiria em muito para a pregação dominical.

IV — Informações Complementares

Para uma melhor compreensão do conteúdo da pericope, sugiro uma repassada por todos os versículos.

V. 1: O v.53 do cap. 7 faz parte da perícope. Ele apresenta a fundamentação para 8.1. Jesus se encontrava em Jerusalém, onde ensinava no templo. E, ao final do dia, ele se dirigia ao Monte das Oliveiras, onde passava a noite. O Monte das Oliveiras era um lugar de descanso e de oração para Jesus. Em Lc 21.37 encontramos uma situação semelhante. Para alguns exegetas esta semelhança caracteriza esta perícope como pertencente a tradição de Lucas.

V.2: Já bem cedo, ainda madrugada, Jesus se dirige ao templo para ensinar. Certamente ele ensinava no pátio do templo, pois era um lugar amplo para receber a multidão que se assentava ao seu redor. Assim, todos podiam escutar seus ensinamentos.

V.3: Esta é a segunda vez que aparece, no Evangelho segundo João, a menção aos escribas. Na tradição sinótica, escribas e fariseus eram os tradicionais opositores de Jesus. Era com eles que Jesus mantinha acirradas discussões. (Cf. Mt 15.1; Mc 2.16 e Lc 6.7) A mulher adúltera não se tratava de uma prostituta, mas, sim, de uma mulher casada, pois a acusação que lhe pesa está fundamentada na Lei de Moisés. Colocada no meio do circulo, a mulher fica próxima de Jesus e seu pecado é declarado em público.

V.4: Os próprios escribas e fariseus anunciam o pecado da mulher. E o fazem, dirigindo-se ironicamente a Jesus, chamando-o de Mestre, quando, no fundo, para escribas e fariseus, Jesus não representa um mestre, mas uma ameaça a sua situação de detentores da verdade e da religião oficial. Sua preocupação não é com a mulher adúltera, mas antes com Jesus. Seu interesse se volta ao que Jesus responderá frente a esta situação.

V. 5: Conforme a Lei de Moisés, a mulher adúltera deveria ser apedrejada. (Cf. Lc 20.10 e Dt 22.22-24) Diante desta lei Jesus é colocado. Dele se espera uma resposta. Por trás da pergunta dos escribas e fariseus, encontra-se a intenção de comprovar ou não o fato de Jesus ser amigo de publicanos e pecadores. Isto era um escândalo para eles.

V.6: Não só isso. Também era clara a intenção de encontrar em Jesus uma prova para acusá-lo. Também em outras ocasiões Jesus é colocado à prova, para dele extrair uma palavra que poderia servir de acusação. Jesus se furta de responder diretamente à pergunta. Ele se inclina e. com o dedo, escreve no chão. Sobre este gesto de Jesus surgem muitas indagações: qual o significado desta sua atitude? O que ele escreveu na terra? Para Werner de Boor (p. 254), o verbo escrever também pode ser interpretado como desenhar. Outros exegetas são de opinião de que Jesus escreveu a sentença do v.7, bem como depois, no v.8, ele torna a se inclinar para escrever a sentença do v.11. Creio, no entanto, que a interpretação mais adequada é dada por Johan Könings, quando afirma: Pensamos, antes, que o gesto significaria: Pode esquecer..., e a imperturbabilidade de Jesus, continuando nesta atitude (v.6b e 8), mostra até que ponto ele se dessolidariza dos acusadores (p. 183)

V.7: O silêncio de Jesus é embaraçoso e desconcertante. Tanto escribas, quanto fariseus se surpreendem com o silêncio. Eles esperavam uma resposta imediata. Por isso insistem na pergunta. Jesus está diante de uma situação delicada, pois, se ele inculpar a mulher, estará induzindo-a à morte. E esta resposta o comprometeria, pois, conforme a lei romana, aos judeus era proibido o direito de executar alguém. Se ele a desculpa do seu pecado, estará infringindo a Lei de Moisés. A resposta de Jesus é uma sentença no estilo de Salomão, (cf. 1 Rs 3.16-28) Ele manda cumprir a lei, mas por intermédio daquele que não tem pecado. Na verdade, Jesus não dialoga e nem discute com seus opositores. A sua resposta contém o novo do Evangelho que Jesus veio anunciar. Com sua resposta, fica resguardada a Lei de Moisés e eliminado o legalismo dos escribas e fariseus.

V.8: Sem outra preocupação, Jesus volta a inclinar-se ao chão para escrever. Novamente uma atitude de desdém, de despreocupação com seus opositores. A sua palavra é clara e inequívoca, Por força de seu Espírito, ela age.

V.9: Não há mais motivos para continuar a conversa. A resposta de Jesus desarma a todos. Os primeiros que iriam atirar as pedras são os primeiros a se afastar. Alguns manuscritos incluem ainda: acusados pela própria consciência, João Ferreira de Almeida em sua tradução, considera esta inclusão.

Todos vão embora, ficando apenas Jesus e a mulher, no mesmo lugar onde fora colocada. Escribas e fariseus saem deste encontro com Jesus frustrados e acusados pela sua consciência. A história poderia terminar por aqui. Mas ela continua, pois a mulher está aí a espera de uma palavra.

V.10: Agora a situação è outra. Jesus se levanta e se dirige pela primeira vez à mulher adúltera. O teor da conversa com ela não è o seu pecado, mas é uma indagação pêlos acusadores. Onde estão eles? Ninguém te condenou? Estas perguntas podem soar como irónicas, mas querem abrir o diálogo com a mulher. Jesus lhe facilita a conversa.

V.11: Na sua resposta encontramos uma confissão: Senhor. É uma confissão de fé de quem se sabe agora subordinado a este que tem a última palavra. Aquele que não tem pecado poderá ser o único a condená-la. Ele, Jesus, poderia atirar-lhe a primeira e única pedra. Mas não o faz. E ele mesmo o confessa: Eu também não te condeno. A misericórdia de Deus se faz presente através de Jesus, que não veio para julgar, mas para salvar. E, para deixar clara sua missão, ele termina com uma palavra de libertação: Vai. E assim possibilita à mulher adúltera um novo começo, um novo caminho. E, para a nova vida, Jesus exorta-a dizendo: Não voltes a pecar. Jesus aceita o pecador, como também o ajuda a prosseguir na vida.

V — Meditação

Quem tem telhado de vidro, não atira pedra no vizinho. (Ditado popular)

Uma história, que a principio poderia desembocar num julgamento moral, dá-nos a conhecer o poder libertador e renovador do perdão de Deus. Para aqueles, cujo conceito de religião é a soma de legalismos que possibilita a discriminação entre justos e pecadores, esta perícope vem anunciar a aceitação e nova vida a partir de Cristo. O esquema tradicional da religião que oprime é desmantelado por Jesus, que anuncia a eliminação desta falsa discriminação. Mais tarde, o apóstolo Paulo reafirma esta comunhão de pecadores em Rm 3.23: Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus. Ao que tudo indica, quando nos esquecemos desta situação comum para todos, caímos na intransigência, no legalismo, na rígida ortodoxia e na mútua anatematização. Quer me parecer que esta situação adquire formas muito concretas entre nós e em nossas comunidades. Com muita facilidade são emitidos juízos sobre as pessoas, impedindo-as de participar da comunhão na comunidade.

A mulher adúltera está presente hoje em tantos outros personagens discriminados e eliminados de nossa comunhão. A mulher adúltera é o símbolo da mãe solteira, que não pode participar da Santa Ceia; é o símbolo do índio, que é preguiçoso, vagabundo e descrente; é o símbolo dos sem terra, que não prestam, que não querem trabalhar, que não podem reivindicar; é o símbolo dos pobres, mal vestidos, beberrões; é o símbolo dos jovens drogados, dos negros, dos bêbados, e de todos aqueles que estão sob nosso juízo.

Em algumas comunidades este legalismo está bastante enraizado, a ponto de os ouvidos estarem entupidos e impedidos de ouvir a mensagem libertadora desta perícope. Não podemos esquecer que esta atitude de Jesus está na origem de toda a tradição de perdão, que caracteriza a Igreja e os cristãos. Creio que esta mensagem é bastante incómoda para nossos ouvidos. Mas, mesmo assim, não nos podemos furtar de ouvi-la e dela aprender a ensaiar uma vivência comunitária, na qual o amor e a justiça de Deus adquirem nova forma. Não nos pode-mos furtar, pois, conforme o apóstolo Paulo, Deus mesmo nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito, porque a letra mata, mas o espirito vivifica. (cf. 2 Co 3.6)

A partir do Batismo, estamos compromissados com esta nova aliança, que se traduz em nossa comunhão. E nesta nova comunhão entre irmãos não há lugar para a auto-suficiência dos falsos justos. Esta auto-suficiência não resiste ao confronto com o Cristo, o mediador entre Deus e os homens e entre eu e o meu próximo. Esta auto-suficiência desaparece para dar lugar à aceitação, à misericórdia e à fraternidade.

A misericórdia manifestada em Jesus Cristo cria novos caminhos para as pessoas. E isto precisa ser anunciado não só em palavras, mas em atitudes concretas, a exemplo do próprio Cristo. A exortação de Cristo ao final da perícope: e não voltes a pecar (v.11) pode ser encarada como nossa responsabilidade em nos exortarmos mutuamente a não nos desviarmos do caminho da vida. Sempre foi mais fácil apontar o dedo, criticar e revelar o pecado do outro. Mas, a partir desta exortação, cresce a responsabilidade, tanto da Igreja, quanto nosso, em nos auxiliarmos mutuamente nas situações de queda, tropeço, fracasso, desamparo, marginalização, opressão e sofrimento.

Creio que não será fácil para nós reconhecer nossa própria situação de pecadores. Assim também creio, será bastante difícil exercitar este amor e esta justiça na comunhão da comunidade. Mas este é o desafio para nossas comunidades e para nós, que confessamos nossa fé no Cristo Ressurreto.

VI — Rumo à prédica

Para o pregador do 4° Domingo após Trindade, a prédica deveria retratar o escopo desta perícope: a misericórdia de Deus manifestada em Jesus Cristo faz brotar nova vida, novo caminho para todos. Como cada pregador tem seu estilo próprio, proponho refletir em torno da seguinte sugestão:

a) analisar a letra do samba Atire a primeira pedra;

b) relacionar com a perícope (ler o texto);

c) comentar o assunto central;

d) analisar um ou dois casos concretos e conhecidos na comunidade;

e) desafiar a comunidade a ensaiar nova comunhão.

VII — Subsídios Litúrgicos

1. Confissão de Pecados: Deus, nosso Pai! Eis-nos reunidos como tua comunidade. Não podemos esconder nossa comunhão parcial. Pois sabemos que nós mesmos impedimos que outros dela participem, porque queremos bancar seus juízes. Com muita facilidade julgamos e discriminamos nossos ir¬mãos. Esquecemo-nos de nossa própria condição de pecadores e opressores, de intolerantes e incompreensíveis. Concede-nos o teu perdão criativo e liberta¬dor. Ensina-nos a comunhão, na qual Cristo é o mediador entre todos nós. Tem
de nós, Senhor!

2. Oração de Coleta: Senhor, nosso Deus! Reunidos como irmãos, celebramos teu culto. Ensina-nos mais e mais a viver de acordo com a tua Palavra, que traz a boa nova a todos. Permite-nos refletir a nossa convivência comunitária à luz do teu Evangelho. Por Jesus Cristo. Amém.

3. Assuntos para a oração final: Invocação; referência ao Evangelho libertador, pensamentos centrais extraídos da prédica; estímulos para ensaiar nova comunhão; intercessão pelos doentes, pelos que são tentados na vida pelos mais diversos males (drogas, poder, vingança, luxo, etc.), pelos jovens em geral, pelos casais; glorificação.

VIII — Bibliografia

- DE BOOR, W. Das Evangelium des Johannes. Vol. 1. 2. ed. Wuppertal, 1971.
- KÖNINGS, J. Mesa da palavra, meditação sobre João 8.1-1 1. Revista Eclesiástica Brasileira, Petrópolis, 39(156); 182-184, 1979.
- SCHNACKENBURG, R. Das Johannes Evangelium. In: Herders Theologischer Kommentar zum Neuen Testament. Vol. 4/2, Freiburg-Basel-Wien, 1971 .
- STÄHLIN, W. Meditação sobre João 8.1-1 1 In: Predigthilfen. Vol. 1. Kassel, 1967.


Autor(a): João Artur Müller da Silva
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 5º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 8 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 11
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1982 / Volume: 8
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18088
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