Lucas 10.38-42 - O que realmente importa

Prédica

08/01/1979

O QUE REALMENTE IMPORTA
Lucas 10.38-42 (Leitura: Salmo 131) 

Hoje vamos falar de três pessoas. Pessoas que têm uma coisa em comum: Elas receberam Jesus em sua casa. O nome de duas das três, você acaba de ler no trecho bíblico em que se baseia nossa meditação. São duas mulheres, irmãs, provavelmente solteiras, que moravam no povoado de Betânia, nas proximidades de Jerusalém. Seus nomes são Marta e Maria. E a terceira pessoa vive hoje. Seu nome? — Não o conheço. Não sei, se é homem ou mulher, jovem ou idosa. Mas isso não importa. O que importa, caro leitor, caro ouvinte, é que Deus o saiba e que você o descubra: A terceira pessoa é você. Porque, se não descobrir aquilo, receio que esteja perdendo o seu tempo, ao tomar conhecimento destas palavras. Pois saiba que a Escritura Sagrada é um espelho. De início, neste espelho nós só enxergamos as imagens de outras pessoas — Pedro, Tiago, Maria, Marta — e, quem sabe, Carlos, Dorli, Cláudio e Lúcia. E de repente passamos a enxergar nossa própria imagem. Então é que a coisa começa a ficar quente. Então é que a palavra de Deus começa a mexer conosco. Então ela deixa de escorrer que nem água em capa de náilon. Então penetra em nós, que nem pancada de chuva que cai em terra seca e sedenta, E isso é o que a palavra de Deus quer. Só isso. Ela está à procura de de terra sedenta. Porque Deus não costuma chover no molhado.

Falemos, pois, em primeiro lugar, de Marta. À primeira vista, parece uma mulher realizada. É ela que é a dona da casa, já que Lucas diz que hospedou Jesus em sua casa, Parece uma mulher ativa, trabalhadora, ordeira. Ela sabe o que está devendo a um hóspede tão importante. Ela se mexe, agita-se de um lado para outro, ocupada com muitas coisas. Você sabe como é: lavar a louça, preparar a comida, limpar a casa: É um trabalho que não tem fim, que não permite tirar o corpo fora, que não permite entregar-se à preguiça ou ao relaxamento. E Marta não era preguiçosa nem relaxada. Vamos constatar isso como algo de bom e positivo. E tinha mais: Marta queria servir. Queria servir a Jesus. Estava querendo aproveitar a rara oportunidade de poder servir a um homem que ela venerava como sendo o Senhor! Não um senhor qualquer, mas o Senhor, o Cristo de Deus! 

O que há de errado com marta? Haverá alguma coisa de errado com ela? Já que a receita de Jesus não poderá ser: «sombra e água fresca», Marta não será até um exemplo para nós todos? Nós, que tantas vezes procuramos fugir do serviço rotineiro, olhando televisão, escapando para a praia, jogando cartas, ou — fazendo conversa «fiada»? Vejamos. Será preciso ver realmente. Não devemos olhar por cima. Se lermos ou escutarmos nosso trecho bíblico com atenção mesmo, notaremos uma coisa muito importante: Marta serve, serve com muito capricho até. Mas o seu serviço não a deixa feliz. Ela corre para cá e para lá, agitada, com a cabeça cheia de coisas que estão por fazer, mas este seu serviço não parece ter graça para ela. Mais grave ainda: Parece que não se está realizando dentro da graça. Parece que ela está cumprindo um dever imposto a ela -- seja pela vontade de representar uma boa dona de casa, seja pela rotina do trabalho costumeiro, seja pelo Eu ainda não dominado (ou libertado) pelo evangelho. Em todo o caso, o seu serviço não tem nada de convidativo, de descontraído, de gracioso, de alegre e feliz. Ela serve com as mãos e os pés, mas o seu coração está revoltado. Revoltado contra Maria, sua irmã — e revoltado também contra Jesus, que parece estar cego para a realidade: «Senhor, não te importas de que minha irmã me deixe servir sozinha? Ordena-lhe que venha ajudar-me!» 

Ordena-lhe! É isso. Jesus precisa ordenar. Precisa mandar a irmã passiva a pôr mãos à obra! Quem não quer cooperar, quem não quer engajar-se num serviço que nós achamos importante, precisa ser mandado. Precisa aprender a arrancar-se da passividade. Vamos mexer-nos, vamos lutar, vamos mudar as coisas ruins de nosso tempo! Para que serve uma fé passiva? Que importa, é agir! Que importa é mudar as condições em que vivemos! Cada minuto é precioso! Maria precisa ser despertada para a ação! O Senhor a precisa despertar! 

Jesus não condena a atividade de Marta. Sabemos que Jesus mesmo foi ativo que se cansava até o esgotamento, caminhando pelas estradas poeirentas da Palestina, pregando e topando de frente os problemas de seu tempo. No entanto, é a única vez que no Novo Testamento nos vai sendo relatado que Jesus tenha pronunciado duas vezes seguidas o nome de uma pessoa com quem falava: «Marta, Marta»! A sinal de que aquela mulher trabalhadeira e enérgica estava correndo um perigo muito grave. Seu serviço estava sendo envenenado por dentro pela inquietação e pela preocupação. Seu coração ficara duro, enquanto ela servia. Sua atitude já não espelhava o evangelho -- antes refletia a lei, a lei dura do dever, da moralidade, da conveniência: «Ordena-lhe pois que venha ajudar-me». 

Marta, Marta! As palavras de Jesus indicam que ele está preocupado com esta mulher. Mas ele não lhe ordena parar de trabalhar e sentar a seus pés. Não a manda mudar de atitude. Jesus sabe que isso não adiantaria nada. Indica-lhe, porém, o remédio para a sua enfermidade; indica-lhe «uma coisa só» -- indispensável para um serviço iluminado e perpassado pela graça. Mas o que lhe indica, está ligado à atitude de sua irmã, Maria, E essa é a segunda pessoa de que precisamos falar agora. Maria, que sentou aos pés de Jesus para ouvir a sua palavra. 

Não há muito a dizer. Não é correto o que se pode ler aqui ou acolá -- que Maria tenha sido um tipo meditativo, menos enérgico que sua irmã. Isso é pura fantasia. Provavelmente Maria foi uma mulher tão normal e tão trabalhadeira como sua irmã Marta. O que a distingue dela, é que neste preciso momento ela quebra a rotina, fazendo uma coisa inesperada — até um pouco chocante. Querendo falar difícil, nós poderíamos dizer, hoje: Ela coloca prioridades. Uma mulher, naquele tempo, colocar prioridades: isso era ter coragem mesmo! Uma mulher, naquele tempo, era a criatura mais amarrada à rotina que se poderá imaginar. E essa rotina, se chamava serviço caseiro e nada mais. Veja o que Maria faz: Ela, num momento em que todas as tradições de seu tempo exigiam dela que servisse ao seu hóspede, quebra as tradições. Ela distingue entre o mais importante e o menos importante. Entre as coisas primeiras e segundas. E decide-se pela única coisa que importa neste momento. Senta-se aos pés de Jesus, ouvindo os seus ensinamentos. 

Por que será tão importante o que Maria faz? Por que Jesus afirma que ela escolheu a boa parte -- a única que importa? Quer ele menosprezar a ação, dizendo que mais importa ouvir e meditar que servir e agir? Podemos ter certeza que ele não quer dizer isto. O Evangelho de Jesus não divorcia a fé da ação. Pelo contrário. Ela casa a ação com a fé. — O que Maria faz, é importante por uma só razão: Ela sabe que todo o nosso serviço, toda a nossa obediência acaba se esgotando, acaba se ressecando e se envenenando por dentro, se não sentarmos com regularidade aos pés de Jesus para ouvirmos os seus ensinamentos. É o mesmo que parar junto a uma fonte para beber água, numa caminhada através de um campo poeirento, em tempo de seca. É o mesmo que abastecer o carro, parando num posto de gasolina. É o mesmo que recarregar a bateria, quase que esgotada por um curto-circuito. É consertar o próprio curto-circuito, que vai descarregando a bateria sem acender uma pequena luz sequer! Parar aos pés de Jesus, não é nenhum tempo perdido. Martim Lutero chegou a dizer: «Hoje tenho muito a fazer. Preciso dedicar mais tempo à oração, senão não dou conta.» Maria escolheu a boa parte, a esta não lhe será tirada. 

E agora falemos de você, a terceira pessoa de nosso texto — além de Jesus, é claro, que é a pessoa mais importante. Será que ainda é preciso falar de você? Ou será que Deus já iniciou a falar-lhe, à Sua maneira, como Jesus falou a Marta e Maria? Será que Deus já o (ou «a») levou a colocar prioridades, fazendo-o ler este sermão, apesar do trabalho e dos compromissos que, O esperam? Eu só posso dizer, presumindo que você é uma pessoa ativa, como deve ser; Neste momento, torne-se bem passiva, receba, beba da fonte da palavra de Deus. Abasteça o reservatório. Recarregue a bateria. Deixe aprofundar-se na comunhão de vida que Cristo estabeleceu com você. Você, que é uma pessoa ativa na comunidade de Cristo, você mesmo, sente-se aos pés de Jesus e ouça os seus ensinamentos. Quer dizer: Leia, escute, ore. Ê a única coisa que importa — agora. Sua vida vai mudar. Seu serviço vai mudar. O evangelho vai começar a refletir-se em seus atos, suas atitudes, até em seus gestos. Vai ser o fim do nervosismo e da agitação, da irritação, da amargura. O evangelho de Jesus vai penetrar em você — vai criar, raízes, bem no centro de seu EU mesmo.

Maria escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada. Você, que recebeu Jesus em sua casa, lendo este sermão você não quer colocar o seu nome no lugar do de Maria — para receber a mesma promissão que Maria recebeu? Que Deus o permita! 

Oremos: Senhor, o nosso serviço deixa-nos tantas vezes preocupados e irritados. É porque estamos servindo sem amor. Servimos sem viver em verdadeira comunhão contigo. Nós sabemos que precisamos sentar aos teus pés e ouvir os teus ensinamentos. Perdoa-nos, Senhor, o nosso relaxamento em nossa vida de oração e meditação. Perdoa-nos por tantas vezes termos tentado dar conta do recado sozinhos. Tu és a fonte da paz e da alegria. Tu poderás transformar também o nosso serviço. Poderás transformar a nossa vida inteira. Louvado sejas, Senhor e Salvador. Amém.

Veja:
Lindolfo Weingärtner 
Lançarei as redes - Sermonário para o lar cristão
 Editora Sinodal
 São Leopoldo - RS
 


Autor(a): Lindolfo Weingärtner
Âmbito: IECLB
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 10 / Versículo Inicial: 38 / Versículo Final: 42
Título da publicação: Lançarei as redes - Sermonário para o lar cristão / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1979
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 19650
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Quando Deus não está no barco, não se navega bem.
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