Lucas 11.14-23

Auxílio Homilético

08/11/1981

Prédica: Lucas 11.14-23
Autor: Edson Streck
Data Litúrgica: Antepenúltimo Domingo do Ano Eclesiástico
Data da Pregação: 08/11/1981
Proclamar Libertação - Volume VI


l - Preliminares

São três, em uma, as lutas que Jesus trava neste texto:

- Jesus luta contra um demônio mudo, expulsando-o (v. 14);

- Jesus luta contra adversários que o acusam de expulsar demônios pelo poder do maioral dos demônios, Belzebu, tentando convencê-los da falta de lógica de sua acusação (vv.15,17-22);

- Jesus luta contra adversários que duvidam dele e exigem dele um sinal (w. 16,29-32).

A palavra chave deste texto encontramos no v.23, onde Jesus deixa claro que nas lutas que ele trava não há lugar para assistentes, para indecisos: quem não está do seu lado, engajado, encontra-se do lado do inimigo.

II — Jesus luta

Luta: é a palavra que melhor descreve a realidade esta perícope, e de certa forma também a tarefa de Jesus como o Cristo. A tarefa de Jesus é lutar. A presa pela qual ele luta é o homem. Jesus luta pela humanidade, pela dignidade, pela liberdade do homem.

Ao lado de outros, eis aqui alguns textos do Novo Testamento que nos falam dessa luta e apontam claramente para seu adversário:

- l Jo 3.8b: Para isso se manifestou o Filho de Deus, para destruir as obras do diabo.

- Lc 10.17ss: Eu via a Satanás caindo do céu como um relâmpago.

- Cl 1.13s: Ele (= Deus) nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual obtemos a redenção, a remissão dos pecados.

Desta forma todas as passagens que nos falam de Jesus expulsando demônios, poderes escravizadores do homem, são testemunhas dessa luta incansável de Jesus. Ele próprio usa palavras que falam a linguagem da luta nos vv. 21s: valente, bem armado, mais valente, vencer, tirar a armadura, dividir despojos; e em Mt 12.29, palavras ditas no mesmo contexto: roubar, amarrar, saquear.

Lucas descreve aqui muito mais do que apenas a cura de um doente ou a luta contra um mal individual. Jesus (o mais valente do que o valente demônio) luta pelo homem e pelo mundo contra a realidade do mal em si. Jesus choca-se e joga-se contra o poder do mal que separa o homem de Deus e que transforma o homem em um animal possuído e fora de si.

Não há dúvida: ambos são fortes, valentes, poderosos. Jesus reconhece o poder do demônio, derrotando-o. Também o demônio reconhece o poder de Jesus e sua autoridade, como em Lc 8.28. Seus adversários da mesma forma reconhecem o poder de Jesus, apenas pecam ao identificá-lo erroneamente. Pois acusam-no de agir em nome de Belzebu. Não se sabe ao certo a origem e o significado do nome Belzebu; talvez seja o Baal das Moscas = deus do estrume. Ele é, disso não há dúvida, um demônio poderoso.

Na sua luta contra os adversários que o acusam de expulsar demônios pelo poder e em nome de outro demônio, Jesus procura mostrar-lhes a total falta de lógica em seu pensamento. Se Jesus estivesse causando uma revolução interna entre os demônios, levando com isso o reino deles à destruição, isso não deveria ser motivo de tristeza para seus adversários! Por outro lado, qual o demônio interessado em libertar o homem do sofrimento? Qual o demônio interessado em destruir outro demônio?

Jesus liberta o homem de laços demoníacos que o prendem. Jesus realmente é o mais valente! Ao arrancar o homem do mundo e do poder de Satanás, Jesus revela o outro lado da moeda em sua tarefa: trazer aos homens o reino de Deus. Os homens são colocados em liberdade quando Deus torna-se o seu Senhor. A fé no Deus e Pai de Jesus Cristo é uma fé que liberta; que ao mesmo tempo convida para aluarmos ao lado de Cristo na sua tarefa, na sua luta: para estarmos do seu lado ( e não contra ele), pura ajuntarmos (e não para espalharmos). Não é possível procurarmos em nossa vida por uma zona neutra ou optarmos por uma coluna do meio! Ser por Cristo, estar do seu lado, tem como sinónimo o verbo ajuntar com Cristo. Trata-se de uma palavra que nos coloca em movimento, que riflo permite uma fé apenas contemplativa e estática. Exige ação!

III - O silêncio, o demônio mudo

Os evangelistas nos mostram Jesus várias vezes lutando contra demônios que tomam conta de pessoas. As reações, os comportamentos desses demônios são diversos: Lc 8.26ss fala de um espírito imundo que leva à loucura, que é tão forte ao ponto de romper correntes; Lc 9.38ss aponta pura um epiléptico que é possuído por um demônio que o joga por terra, provoca convulsões e grita; Mt 12.22 apresenta um endemoninhado cego e mudo. Todos eles respectivamente fáceis de serem identificados. O mesmo não acontece aqui em Lc 11.14-23: esse demônio é mudo! Interessante: segundo Lucas, o demônio é mudo (e não a pessoa). Jesus, então, expulsa o demônio e o mudo fala!

O demônio mudo também se manifesta hoje nas mais diversas situações através do nosso silêncio, da nossa mudez. Aponto algumas ocasiões e situações que se repetem:

- Em tantas oportunidades, situações injustas e desumanas têm sido construídas graças ao nosso silêncio, em virtude de nossa língua que tranca! Muitos têm engolido o seu grito, por exemplo, em anos anteriores em nossa realidade brasileira, e outros tantos continuam fazendo-o. Como se um demônio mudo se apoderasse de nós, um demônio que repete Cale-se! Cale-se! É o que transparece na música Cálice de Chico Buarque e Gilberto Gil: Como beber essa bebida amarga / Tragar a dor, engolir a labuta / Mesmo calada a boca resta o peito ... / Tanta mentira, tanta força bruta ... / Como é difícil acordar calado ... / Quero lançar um grito desumano ... / Esse silêncio todo me atordoa ... / Pai, afasta de mim esse cálice ... / Como é difícil, pai, abrir a porta / Essa palavra presa na garganta... / Mesmo calado o peito resta a cuca ...

É... Pai, afasta de nós esse Cale-se!. Não nos deixes cair em tentação, oramos no Pai Nosso. Não nos deixes cair na tentação de calar nossa crítica, em troca de um favor; engolir nossa revolta, em troca de palmadinhas nas costas; abafar nosso grito por justiça, em troca de falsa segurança. Mas livra-nos do mal.

- Outra maneira de o demônio mudo manifestar-se e possuir-nos totalmente vemos na nossa teimosia em conservar rompidos os relacionamentos rompidos. Tantos exemplos: entre o casal, no relacionamento entre pais e filhos, entre irmãos, entre vizinhos, entre amigos, na comunidade e sempre onde houver desentendimentos entre pessoas. O demônio mudo toma, e quantas vezes, conta da gente e não permite que se diga a palavra que perdoa, não consente que se fale a palavra que reconhece um erro e que pede por perdão, tranca a língua que quer pronunciar a palavra que restabelece vidas rompidas.

- O demônio mudo também nos silencia quando deveríamos falar claramente a nossa fé. São muitas as situações que exigem de nós uma confissão clara contra ou a favor de Cristo, que nos chamam para fora da indiferença, mas o demônio mudo nos cala. Suas armas, como o medo, a vergonha e outras, nos convencem a calarmos a nossa voz.

Aqui se torna desafiadora a palavra de Jesus Cristo no v.23: Quem não é por mim, é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha. Repito: é necessário tomarmos um partido. A indecisão e indiferença que nos ameaçam não são de hoje, como se vê em Ap 3.15s, na carta dirigida à igreja de Laodicéia: Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio, ou quente! Assim, porque és morno, e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca.

Uma palavra de Lutero, que se adapta a esse texto, a essa luta incansável pelo homem, de Jesus contra o demônio: A vontade da pessoa está entre Deus e Satanás, como um animal de montaria: se Deus a monta, ela quer e vai como Deus o deseja; se Satanás a monta, ela quer e vai como Satanás o deseja. E não está nas mãos da pessoa fazer a escolha, correndo para esse ou aquele cavaleiro; os próprios cavaleiros (Deus e o diabo) lutam entre si para ganhar e possuir a pessoa. (tradução de uma citação de Lu¬tero, apud Voigt, p.181)

IV - Sugestões para uma prédica

1. definição de Lutero sobre a vontade humana;

2. texto;

3. apontar para as três lutas de Jesus neste texto (demônio, adversários, dúvida);

4. apontar para situações bem nítidas em que nós calamos, situações em que o demônio mudo nos possui, violentando-nos;

5. chamar a atenção para a necessidade de uma definição clara: com ou contra Cristo.

Trata-se, é evidente, apenas de uma sugestão. O texto oferece muitas e boas possibilidades para a pregação. Afinal, o demônio mudo é expulso; mudos, somos desafiados a 'ajuntar com Cristo, a falar.

V - Bibliografia

- VON ALLMEN, J. J. Vocabulário Bíblico. 2.ed. São Paulo, 1972.
- RENGSTORF, K. H. Das Evangelium nach Lukas. In: Das Neue Testament Deutsch. Vol.3. 14.ed. Göttingen, 1969.
- VOIGT, G. Meditação sobre Lucas 11.14-23 (24-28). In: Der schmale Weg. Göttingen, 1978.
- WEINGÄÀRTNER, L. Lançarei as redes. São Leopoldo. 1979.


Autor(a): Edson Edilio Streck
Âmbito: IECLB
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 11 / Versículo Inicial: 14 / Versículo Final: 23
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1980 / Volume: 6
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18263
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