Lucas 12.41-48

Auxílio homilético

22/11/1981

Prédica: Lucas 12.41-48
Autor: Nelson Kilpp
Data Litúrgica: Último Domingo do Ano Eclesiástico
Data da Pregação: 22/11/1981
Proclamar Libertação - Volume: VI
 

I – Texto

1. Sugestão de tradução

V.41: Então Pedro perguntou: Senhor, é para nós que contas esta parábola ou também para todos?

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V.42: E disse o Senhor:
Quem, pois, é o fiel e sábio administrador que o Senhor colocará sobre a sua criadagem para dar (a cada um) a (sua) porção de alimento, no tempo certo?

V.43: Feliz é aquele servo que o seu senhor, ao voltar, encontrar fazendo assim!

V.44: Em verdade vos digo que sobre todos os seus bens o colocará.

V.45: Se, no entanto, aquele servo disser em seu coração: Meu senhor demora para voltar e começar a espancar os criados e as criadas, a comer, a beber e a embriagar-se,

V.46: virá o senhor daquele servo num dia em que não (o) espera e «m hora que não conhece, e o esquartejará; e sua sorte será igual a dos infiéis.

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V.47: Aquele servo que conheceu a vontade do seu senhor, mas não M preparou nem agiu de acordo com a sua vontade, será surrado com muitas chicotadas;

V.48: o que, no entanto, não conheceu (a vontade do senhor) e fez algo que mereça castigo, será surrado com poucas chicotadas.

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A quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e ao que muito foi confiado, muito mais lhe pedirão.


2. Estrutura: Procurei dispor o texto acima de tal forma que se pudesse ver a estrutura do mesmo:

V.4 1: pergunta de Pedro (redacional de Lucas);
Vv.42 e 46: a parábola do servo administrador que pode administrar fielmente (vv.42 a 44) ou não (vv.45s);
Vv.47, 48a e v.48b: dois ditos mais gerais, originalmente não vincula¬dos à parábola.

3. Contexto: No cap. 12 encontramos uma série de orientações, en¬dereçadas principalmente aos discípulos (vv.1,22). O bloco 12.35-48(59) é uma coleção de parábolas e ditos escatológicos (par. Mt 24.32-25.46). O tema é o fim dos tempos e o juízo por ocasião da volta do Senhor. Destacam-se, neste bloco, três parábolas: a) 12.35-38: os servos vigilantes que atendem prontamente ao senhor que retoma (exclusivo de Lc); b) 12.39s: o ladrão que vem em hora desconhecida (par. Mt 24.43s); e c) 12.42-46: o servo colocado na administração da casa (par. Mt 24.45-5 1). A esta última Lc (ou sua fonte) acrescentou, ao final (vv.47s), dois ditos gerais (provérbios?), sem paralelo em Mt. Antepôs à mesma parábola uma pergunta de Pedro para deixar clara a intenção de 12.42-46.

A partir do contexto podemos antecipar o seguinte: enquanto que nas duas primeiras parábolas de parusia o peso está no pronto atendimento dos servos (12.35-38) e na vigilância constante (12.39s), no texto a ser pregado o peso está no que é feito durante a ausência do senhor.

4. A história do texto: Comparando Lc 12.41-48 com seu paralelo cm Mt 24.45-51, descobrimos coisas importantes. A matéria provém, confor¬me a totalidade dos comentários consultados, da fonte Q, que contém principalmente coleções de ditos e parábolas de Jesus. Lc introduz a parábola por uma pergunta do representante dos discípulos: proferes esta(s) parábola(s) para nós (apóstolos) ou para todos? A intenção de Lc é de colocar claramente que a parábola a seguir é endereçada especialmente àqueles que têm alguma função de liderança na comunidade cristã.

Esta mesma intenção detectamos na mudança do termo servo (Mt 24.45) para OIKONOMOS (administrador, mordomo, despenseiro, ecôno¬mo Lc 12.42). O administrador pode ser mais facilmente identificado com os dirigentes da comunidade. De maneira consequente, os conserves (Mt 24.29) são transformados em criados e criadas (Lc 12.45).

Os vv.47s são exclusivos de Lc. Os dois ditos existiam, no princípio, isoladamente. Por terem alguma semelhança de conteúdo foram acrescentados à parábola.

Na boca de Jesus a parábola Lc 12.42ss provavelmente fazia parte da pregação sobre a proximidade de reino de Deus. Neste contexto, importante era o fato de o servo ter que prestar, subitamente, contas de sua administração. O peso não estava na demora da volta do senhor.

Já na fonte Q inicia uma interpretação (alegorização) da parábola, por causa da situação em que vivia a comunidade cristã: o senhor ausente é Cristo; o administrador representa os líderes da comunidade; a volta do senhor tomou-se a segunda vinda de Cristo; a demora em voltar é equivalente à demora da parusia; o macarismo (v.43) é identificado com a recompensa eterna e o destino dos infiéis com o castigo escatológico; o encontrar do servo passou a ser uma alegoria do juízo final. Neste contexto, coloca-se a ênfase na exortação aos que ocupam cargos na comunidade, para que não caiam em tentação por causa da demora do Senhor. O evangelista Lc assumiu e continuou esta tendência de interpretação.

II — Conteúdo teológico

1. A parábola fala de senhor e servos. Ê um tema do ambiente da grande família: o chefe de família e seus escravos. No Oriente, não era anormal colocar um escravo em altos postos dentro da administração familiar (cf. a história de José).

O termo usado por Lc é OIKONOMOS, o mesmo que na parábola do administrador infiel (Lc 16.1,3,8). Paulo usa o termo, neste mesmo sentido, em l Co 4.1s: despenseiros dos mistérios de Deus; Tt 1.7: o bispo seja irrepreensível como despenseiro de Deus (cf. também l Pé 4.10: bons des¬penseiros da multiforme graça de Deus). Parece que o vocábulo nunca pre¬tende caracterizar a superioridade inerente a um cargo de liderança, mas apontar para o fato de que cada cargo destacado na comunidade deve ter o objetivo único de servir. Os presbíteros devem seguir o exemplo de Paulo, servindo ao Senhor com toda a humildade ... (At 20.19).

A parábola Lc 12.42ss menciona que ó servo escolhido pelo seu senhor para administrar a casa deve responsabilizar-se por toda a criadagem. Uma das suas funções é a de dar a cada empregadoa sua parte de alimentação, para que não haja quem passe fome e necessidade.

2. Tanto Lc quanto Mt qualificam o servo que cumpre as ordens de seu senhor de fiel e sábio (Almeida: prudente). Ambos os termos são empregados pelos dois evangelistas também em outros textos escatológicos.
Sábio é aquele que consegue captar toda a amplitude da situação escatológica (Preisker, apud Jeremias, p.43): sábio é o que constrói sua casa sobre a rocha (Mt 7.24); sábias são as moças que se previnem com azeite (Mt 25.2,4); o administrador infiel que astutamente consegue garantir seu futuro, age com sabedoria (Lc 16.8; Almeida: porque se houvera atiladamente). Todo aquele que sabe o que o futuro lhe pode trazer e tira as consequências para sua própria vida é sábio, prudente.

O termo fiel é bastante mais amplo. Tanto os que crêem quanto os que agem com fidelidade são fiéis. Neste último significado encontramos o termo fiel na parábola dos talentos (Mt 25.14ss), respectivamente das minas (Lc 19.1 Iss; cf. também I Co 4.2: despenseiro fiel). Fiéis são os servos que negociaram com o que lhes foi confiado, multiplicando o dinheiro (Mt 25.21; Lc 19.17). Estes são recompensados. A fidelidade mostra-se no que se faz enquanto se espera pela volta do senhor.

3. Na parábola em estudo aparece a ideia da demora do senhor (v.45), o que não ocorreu nas duas parábolas escatológicas anteriores. O servo que não é sábio e fiel fica desnorteado por esta demora. Mesmo sabendo que o senhor voltará, mais cedo ou mais tarde ele corre o risco de desobedecer, abusando de sua autoridade e, por assim dizer, usurpando o senhorio.

Muitas parábolas rabínicas citam orgias e maus tratos dados à criadagem para caracterizar a infidelidade ou maldade (Weiser, p.194).

A ilusão do administrador arbitrário é destruída com a volta do senhor, e ele cai novamente na realidade. Assim como o servo fiel é recompensado, o servo mau (somente Mt 24.48) é castigado por seu senhor. E o castigo é duro: ele será esquartejado, cortado em pedaços (o termo é usado somente nesta parábola). Talvez Jesus tenha terminado sua parábola neste ponto, já que o castigo adicional (ter o mesmo destino dos infiéis, pagãos; v.46) parece até amenizar o caráter drástico de esquartejar. Em todo caso, o evangelista entende o castigo, assim como a recompensa (v.44), como casti¬go, respectivamente recompensa eterna conferida pelo próprio Filho do Homem.

4. Ambos os ditos vv.27s são endereçados aos dirigentes, mestres e educadores da comunidade, dos quais se pressupõe que conheçam a vontade d» Senhor e aos quais foi confiado muito.
A diferenciação do castigo conforme o grau de conhecimento parece si-r uma ideia rabínica (distinção entre escribas e a plebe que nada sabe?, cf. Jo 7.49; Schmid, p.224). É evangélico falar em graus de culpa (cf. Rm 2.12-16)?

O v.28b fala dos dons que são confiados por Deus (passivo divino) para serem administrados corretamente e de cuja administração deveremos prestar contas.

III - Meditando o texto

1. No último domingo do ano eclesiástico costumamos pregar sobre as últimas coisas: o fim dos tempos, a volta de Jesus, o juízo final. A parábola Lc 12.42ss é uma parábola escatológica. Creio que devemos deixar claro que não somente as Testemunhas de Jeová crêem no fim do tempo presente. Faz parte de nossa confissão que, no futuro, Jesus virá para julgar os vivos e os mortos. Isto é realidade e não ilusão.

A mensagem da segunda vinda de Cristo parece ser um absurdo para as comunidades. Talvez fosse mais fácil falar, neste domingo, sobre a morte do que sobre a parusia. O tema morte provavelmente teria mais aceitação. A pregação deve, no entanto, deixar claro que o absurdo seria crer que o existente é eterno e definitivo. O galo na torre da igreja quis lembrar nossos pais que não deviam deixar de ser vigilantes.

2. Relacionado com a vinda do Filho do Homem está o juízo final. A maioria dos textos bíblicos entende o juízo final como um juízo pelas obras: cada qual recebe recompensa ou castigo conforme o bem ou o mal que fez (cf. 2Co 5.10; Ap 20.12; Tg 2.13; Rm 2.5ss;Mt 25.31ss). Há também algumas alusões a uma reconciliação de todos (cf.Rm 11.32). A fé irá mostrar-se nas obras quando não for uma fé que somente diz: Senhor, Senhor.

A comunidade cristã deve estar consciente de que haverá um juízo. Lutero insistia em ressaltar o pavor que naturalmente deveríamos sentir ante o Filho-do-Homem-juiz. Se um simples ladrão já tem tanto medo de um juiz terreno, quanto maior será o nosso pavor perante o juiz da humanidade. Mas em todos os tempos a comunidade cristã também sabia que o juiz do mundo é o mesmo que deu sua vida por todos nós. Por isto a figura do juízo final serviu, na Idade Média, para humanizar a jurisprudência da época. A figura lembrava Cristo, o juiz misericordioso.

3. A comunidade consciente da mensagem escatológica sabe que as estruturas de vida existentes não são eternas e definitivas. Parece que é a visão escatológica cristã que nos proporciona ver a realidade atual de maneira diferente, mais clara. Nada do que existe é absoluto. As relações sociais e econômicas em nosso país não são definitivas. Não podemos, por exemplo, afirmar: sempre existiram pobres e sempre existirão. Haverá um fim e, principalmente, um juízo das relações de vida existentes.

Aqueles que vivem como se tudo que existe fosse eterno, definitivo e absoluto, vivem numa ilusão. Os que vivem pensando que as reservas energéticas são inesgotáveis, estão enganados. A perspectiva escatológica nos dá a liberdade de relativizar os valores tidos por eternos em nossa sociedade. Lutero afirma, em sua prédica sobre Mt 25.31ss, que devemos pregar o juízo finai principalmente aos que pensam que tudo é eterno.

Talvez esta perspectiva também nos liberte das amarras que nos prendem aos bens terrenos. A série de parábolas escatológicas, Lc 12.35ss, segue imediatamente ao trecho que trata da liberdade da preocupação por bens terrenos (Lc 12.22-34). Somos uma comunidade de migrantes (retirantes) que não permite ser amarrada a coisas passageiras e que, por isto, também tem a liberdade de acusar relações de poder injustas tidas por naturais pelos que têm interesse em eternizá-las.

4. A parábola deixa claro que na comunidade cristã não pode haver aquele que usa seu poder e sua autoridade para benefício próprio, à custa de seus subordinados. Aquele que ocupa uma posição de poder ainda é dependente do que lhe confiou esta posição, seu Senhor. O administrador, apesar de seu alto posto, continua escravo. Portar-se como dono significa usurpação. Onde em nossas comunidades ocorre que pessoas investidas de altos cargos aproveitam-se de seus subordinados em vez de servir-lhes?

Creio que é legítimo a comunidade cristã encarar o mundo com suas relações de poder distorcidas e partir desta visão. Também no mundo não-cristão a comunidade cristã quer descobrir onde o poderoso é o tirano. Não somente o poder eclesiástico, também o poder público, originalmente, está aí para servir. Onde isto não ocorre há distorção da realidade.

5. Na pregação não me estenderia na ideia dos dons confiados por Deus a todos e na reta administração dos mesmos (cf. Lc 12.48b) nem nos graus de culpa dependendo do conhecimento ou não da vontade de Deus (cf. Lc 12.47s).

A figura da parábola é clara e compreensível a todos: o senhor que sai e deixa um servo como administrador. Não há necessidade de uma ilustração melhor. Parece-me legítimo recontar a parábola para os nossos dias. A sua cadência dá amplas chances de atualização:

O Senhor vai: abandono? relações eternas?
mas voltará: absurdo? Credo. Juízo. Liberdade. O que é realidade e o que é ilusão?

Duas possibilidades de administrar: aproveitar-se - servir; relações de poder distorcidas — comunidade livre de amarras aponta para mundo livre de tirania.

IV – Bibliografia

- JEREMIAS, J. Die Gleichnisse Jesu, 7.ed. Göttingen, 1965.
- WEISER, A. Die Knechtsgleichnisse der synoptischen Evangelien. In: Studien zum Alten und Neuen Testament. Vol.21. München, 1971.
- SCHMID, J. Das Evangelium nach Lukas. In: Regensburger Neues Testament. 4.ed. Regensburg, 1960.
- LUTERO, M. Prédica sobre Mt 25.31-46. In:Predigten über den Weg der Kirche. München, 1967.

Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


 


Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Último Domingo do Ano Eclesiástico - Cristo Rei

Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 12 / Versículo Inicial: 41 / Versículo Final: 48
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1980 / Volume: 6
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 11388
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