Lucas 16.1-13

Auxílio homilético

08/10/1995

Prédica: Lucas 16.1-13
Leituras: Amós 8.4-7 e 1 Timóteo 2.1-8
Autor: Christoph Schneider-Harpprecht
Data Litúrgica: 18º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 8/10/1995
Proclamar Libertação - Volume: XX
Tema:

1. Introdução

As leituras do AT e do Evangelho no 18e Domingo após Pentecostes enfocam o tema da relação dos cristãos com o dinheiro. Os paralelos entre a mensagem de Amos e Lucas e a situação atual do povo brasileiro são óbvias. A dinâmica da exploração que o profeta detecta e critica na sociedade de Israel 2.800 anos atrás não é muito diferente dos mecanismos que obrigam trabalhadores rurais no Brasil hoje a trabalharem em condições de escravos ou semi-escravos: a venda de sementes estéreis é apenas um dos truques que faz com que eles se endividem cada vez mais e permaneçam dependentes de seus patrões, de negociantes e bancos. Prestando serviço, eles pagam a dívida durante anos e anos com poucas perspectivas de melhorar e sendo não raras vezes forçados a ficar.

Também aquele administrador corrupto usa práticas que hoje em dia são bastante comuns. Ambos os textos servem à primeira vista como um espelho que reflete as injustiças econômicas gritantes de nossa sociedade. Eles desafiam a fazer uma análise crítica da relação entre a fé cristã e os bens materiais, desembocando não na visão horrível de Amós, que anuncia o juízo cruel de Deus para o seu povo, mas na admoestação séria de que ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro ao mesmo tempo. A atualidade dos textos obriga o pregador a assumir uma postura profética frente à comunidade. Porém com que objetivo? Existe o perigo de afogar o evangelho num mar de queixas e acusações, provocando a resistência dos ouvintes e, no final das contas, não mudando nada. Seria pura ingenuidade identificar os membros da comunidade simplesmente com negociantes exploradores ou administradores fraudulentos. Também seria ingenuidade oferecer à comunidade o comportamento do administrador desonesto como alternativa subversiva para acabar com o abuso do dinheiro que divide o povo em pobres e ricos. O escopo da parábola quer dizer algo diferente: a situação do homem perante Deus é parecida com aquela do administrador que, sendo culpado, não tem mais nada a perder e, sem vergonha, escolhe a vida tirando o melhor partido da sua situação. A parábola diz o que significa viver da graça.

2. Anotações exegéticas

1. O texto aparece exclusivamente em Lc (cf. o paralelo do v. 13 com Mt 6.24. Lc apenas acrescenta a palavra escravo, destacando o caráter submisso da relação da pessoa com o dinheiro). Jesus dirige-se aos discípulos, sinal de que o texto é um ensaio para a comunidade. Na estrutura pode-se diferenciar entre a parábola (vv. 1-8a), explicação e resumo do sentido moral (vv. 8b,9), e regras para a maneira de lidar com o dinheiro (vv. 10-12,13). Essa aplicação ética da parábola para a vida de cada dia enfoca a fidelidade em coisas pequenas (provavelmente a economia) (cf. Lc 19.17). Ela parece contradizer o sentido da parábola, que elogia o comportamento fraudulento do administrador (cf. Lc 12.42s.). Parece que a redação de Lc aplica a parábola de Jesus à questão da ética econômica.

2. Observando a relação entre texto e contexto, descobre-se o significado do lugar de Lc 16.1-13 na estrutura do Evangelho. Na parábola continua o tema do filho pródigo. O administrador faz o que ele fez: gastar dinheiro. O texto retoma Lc 14.33 aplicando o perdão à questão do dinheiro em geral. Nos textos em que Lc fala do tema riqueza e dinheiro, Lc 13.1ss. situa-se entre a parábola do homem rico (Lc 12.16ss.) e a do rico e Lázaro (Lc 16.19ss.) e o jovem rico (Lc 18.18ss.). Observa-se uma sequência: Lc 12.16ss. mostra que não tem sentido recolher riquezas porque elas não dão sossego e não ajudam na hora da morte. Lc 16.1ss. serve de contra-exemplo positivo: como o administrador gasta dinheiro para ganhar amigos, assim também os discípulos devem fazer amizade com o dinheiro que os ajuda a entrar no céu. No destino horrível do rico no inferno Lc mostra drasticamente o que acontece com aqueles ricos que não usam o seu dinheiro para fazer amizade com os pobres.

3. Esses textos aprofundam de maneira narrativa os princípios teológicos de Lc sobre o tema dinheiro, riqueza e pobreza:

— A verdadeira vida (= vida eterna) não depende do dinheiro e das coisas materiais (Lc 14.15), pois o dinheiro perece e estraga (Lc 12.33) e não ajuda na hora da morte a receber a vida.

— O dinheiro é um dono que escraviza a pessoa (Lc 16.13). Ele exige e faz com que a pessoa o sirva totalmente. A relação com as riquezas é uma relação de coração e de amor (Lc 12.34; 16.13).

— Para o cristão, servir ao dinheiro é idolatria. Ser discípulo de Jesus e buscar riquezas são opostos que se excluem. O dinheiro é um dom estranho e a verdadeira riqueza é a vida eterna que Deus dá após a morte àqueles que seguem Jesus (Lc 12.32ss.; 18.18,22).

— Para mostrar a sua fieldade a Jesus os discípulos são obrigados a dar todos os seus bens aos pobres (18.18,22; 14.33; cf., porém, Lc 19.8s.).

— O ato de dar o dinheiro aos .pobres serve para ganhar amigos para a eternidade (16.9), pois os amigos ou os anjos (Lc 16.22) receberão aqueles que, dando dinheiro, mostraram a sua fieldade a Jesus.

4. Em si a parábola (Lc 16. l-8a) não está ligada ao tema do dinheiro. Ela descreve o administrador como um negociante que faz os seus cálculos sem emoções. Ele não respeita o seu dono, não é submisso. Buscando sempre a sua vantagem e sabendo que o jogo acabou, que não pode permanecer no seu trabalho, ele calcula também como pode sobreviver de maneira agradável depois de sua despedida. Não hesita em motivar os devedores do seu senhor a falsificar os certificados de dívida. Sobre esses valores corrigidos ele vai prestar contas sem culpa. Os outros cometem a fraude e ele tem a vantagem. Agora eles têm uma dívida com ele. Existe a interpretação de que ele tinha o direito de emprestar os bens do seu senhor. No presente caso, apenas desconta os juros elevados e exige a devolução do valor emprestado.

O senhor o demite por causa dos juros elevados e não por causa dos recibos falsificados. Essa interpretação contradiz o interesse do texto, que enfoca a alteração dos recibos. O elogio do senhor para o administrador rompe a lógica da história. O leitor espera desprezo e punição do administrador. Aqui transparece que a parábola fala de um outro Senhor, Deus. Como o filho pródigo, o administrador é o ser humano cujo jogo acabou, porém que não se preocupa com a culpa. Fazendo o bem aos outros no seu próprio interesse ele assume a culpa e arrisca-se a viver. Elogiando aquele homem, a parábola rompe a moral do sentimento de culpa. O arrependimento frente à vinda do reino de Deus mostra-se através de um comportamento diferente e não através de uma vivência dramá¬tica de culpa e perdão. O senhor chama de sábio aquele que entendeu os sinais dos tempos e começa a agir conforme a vontade de Deus.

5. No contexto da redação de Lc o administrador torna-se um exemplo para a fieldade do discípulo que gasta as riquezas injustas adquiridas por juros eleva¬dos. Dar o dinheiro, para Lc, não é uma obra salvífica, é uma consequência da salvação. Trata-se apenas de uma coisa pequena. Entretanto, ela mostra onde bate o coração da pessoa.

3. Contexto

A mensagem radical da justificação pela graça serve de base do discurso sobre a ética econômica: Você não precisa mais se culpar, nem por sua maneira de lidar com o dinheiro. Deus alegra-se quando você aceita a si mesmo e assume a coragem de viver. A relação com ele dá a você liberdade em questões financeiras. O dinheiro não vem em primeiro lugar na vida. Serve para viver com a família, com amigos, a comunidade, pessoas carentes. A liberdade de compartilhar os bens lhe traz a riqueza de outras qualidades de vida que não se conseguem pagar com dinheiro.

Essa mensagem concretiza-se em diferentes contextos, na vida particular, na Igreja, na atuação dentro da sociedade e nas relações políticas nacionais e internacionais. Quanto menos dinheiro uma pessoa tem, tanto mais importante torna-se a preocupação financeira. O perigo da dependência do dinheiro existe para ricos e pobres. Por exemplo: João é um homem de 50 anos. Chamam-no de picareta. Ele faz qualquer negócio em sua região: vende, troca, empresta. No negócio tenho que ser mais esperto do que os outros para sobreviver, pois eles querem enganar a gente. Esse é o princípio de sua vida. Nascido numa família pobre, começou com 7 anos a fazer negócios na rua. Em casa passava fome. Vive numa grande insegurança, nunca sabe se vai ter dinheiro no mês que vem e várias vezes já esteve falido. Não sonho mais em ficar rico. Quero segurança econômica, uma aposentadoria que chegue, comida, casa, um carro, uns dias de férias.

A maioria dos brasileiros concorda com ele. Não tem riquezas injustas para dividir. Luta para sobreviver, passa fome ou fica nervosa lembrando-se da pobre¬za pela qual passou na infância. Para João será difícil entender por que Lc insiste tanto em dar o dinheiro. O evangelho o questiona numa postura básica de sua vida: confiar em Deus, livrar-se do medo permanente de passar fome, de ser enganado e precisar lutar contra todo o mundo. Ele pode convencer-se de que sobreviverá mais facilmente quando abrir mão dessa preocupação com o dinheiro.

Existem exemplos bonitos e efetivos de cooperativas de pequenos agricultores e outros produtores: juntando o dinheiro e compartilhando o lucro, conseguem manter-se mais facilmente. Pedro e Maria, donos de uma empresa, bem de vida e engajados na comunidade, sentem o mesmo incômodo causado pela desconfiança e pela luta permanente no mercado. Pedro deseja que a economia fosse mais estável e que os parceiros no negócio fossem mais confiáveis. Amigos temos bastante, diz ele, só que não sabemos se ficarão com a gente na hora do sofrimento. Colaboramos com a Igreja, mas, pressionados pelo mercado, temos que pagar salários baixos. Pedro e Maria podem aprender de Lc que a propriedade, a riqueza inclui uma obrigação social do empresário. Sendo cristão, ele mantém a empresa e faz lucros para melhorar a vida dos empregados. Essa ideia ainda não é muito familiar a empresários cristãos. E, aprofundando a ideia, Pedro não concorda com a necessidade de uma reforma salarial e agrária para achar uma solução para os pobres? Lc não permite dispensar-se dessas implicações políticas do evangelho de Cristo. Essa mensagem vale também para os países ricos no mundo. Seria um grande gesto se eles diminuíssem a dívida externa dos países pobres. Ou o Brasil deveria seguir o exemplo do administrador e simplesmente diminuir o pagamento da dívida externa? A questão está sendo discutida no país.

Na Igreja a questão financeira é delicada. O que significa o fato de 40% dos membros de uma comunidade não contribuírem financeiramente? Segundo o texto, isso é algo impossível. O realzinho da viúva vale mais do que muitas doações grandes. Problemas financeiros bloqueiam muitos trabalhos e dominam a pauta dos conselhos, dando um grande poder a negociantes que trazem uma mentalidade capitalista para dentro das comunidades. Um lar para mães solteiras, o trabalho com meninos e meninas de rua não trazem lucro. O argumento de que falta dinheiro torna-se facilmente um instrumento político para reprimir trabalhos não-desejados. Quem, se não a comunidade cristã, vai gastar dinheiro para aqueles que não trazem lucro?

4. Pistas para a prédica

É necessário trabalhar a resistência dos ouvintes contra o texto. Pode-se, por exemplo, contar o que ele significa para ouvintes em diferentes situações sociais. É possível fazer uma pregação narrativa, contando a história do administrador como se ela acontecesse hoje no Brasil. Colocando essa narração antes da leitura do texto, o pregador pode discutir com os membros sobre como eles avaliam o comportamento daquele homem e confrontá-los com a reação surpreendente do senhor. Existe a possibilidade de falar uma vez sobre a contribuição financeira para a comunidade. Neste caso sugere-se uma reunião depois do culto para que os membros possam colocar a sua visão. Para não se perder na variedade dos contextos, é preferível escolher um problema de comportamento cristão para aplicar a ética do texto.

5. Bibliografia

DREHER, Martin N. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo, Sinodal, 1983. v. IV, p. 147-52. JEREMIAS, Joachim. Gleichnisse. Göttingen, 1956.
SCHMITHALS, Walter. Das Evangelium nach Lukas. Zürich, TVZ, 1980. p. 166-8. (Zürcher Bibelkomrnentare, 3.1).
SCHWEIZER, Eduard. Das Evangelium nach Lukas. 19. Aufl. Göttingen, Vandenhoeck und Ruprecht, 1986. p. 167-70. (Das Neue Testament Deutsch, 3).

Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia
 


Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 18º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 16 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 13
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1994 / Volume: 20
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 11386
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