Lucas 2. (1-14) 15-20

Auxílio Homilético

25/12/1998

Prédica: Lucas 2.(1-14) 15-20
Autor: Günter K.F. Wehrmann
Data Litúrgica: Natal
Data da Pregação: 25/12/1998
Proclamar Libertação - Volume: XXIV
Tema: Natal

1. Considerações sobre o evento, à luz dos textos

Enquanto que na Véspera do Natal o templo encheu, no Dia do Natal, por via de regra, virão ao culto os frequentadores mais assíduos. À luz do dia, mesmo o brilho das velas parece menor. Assim também os textos do dia parecem um tanto despidos de brilho: os anjos se foram; o céu se fechou; novamente estamos cá entre nós.

Mas algo mudou. As palavras do anjo ficaram; colocaram em movimento. A Epístola (Tt 3.4-7) mostra como o nascimento de Jesus conduz ao renascimento espiritual. O lema de Jo l .14a expressa que as pessoas podem ver em Jesus a glória oculta de Deus. No canto litúrgico do Glória a comunidade se une ao canto dos anjos, antecipando e prefigurando assim a unificação do culto celeste com o culto terreno.
Criar um espaço para a experiência de tal louvor seria o objetivo último do culto do Natal e também da pregação sobre a nossa perícope. E esse louvor certamente pode ter formas distintas, seja o guardar as palavras, meditando-as no coração (a exemplo de Maria), seja o voltaram glorificando e louvando a Deus (a exemplo dos pastores). Tudo tem sua hora!

2. Considerações sobre o texto

O texto anterior deve ser pressuposto para se entender a perícope. Por isso talvez seja bom usá-lo como segunda leitura.

Vamos, vejamos, apressadamente, acharam, vendo, divulgaram, ouviram, se admiraram, voltaram, louvando — eis o movimento que as palavras expressam! E ao lado dessas ações há outro movimento que não é menos ativo: todos ouviram, se admiraram, e Maria guardava (...) meditando-as no coração. E com o como lhes fora anunciado o movimento volta ao início da mensagem do anjo.

V. 15: Vejamos os acontecimentos — Lutero traduz por história; em grego consta ta rema = fala, coisa, acontecimento. Em analogia ao termo hebraico dabar, deve-se ligar a palavra/fala ao acontecer.

V. 16: Os pastores não fazem uma reunião de análise dos fatos para depois decidirem o que e como fazer. Mas apressadamente vão (...) para ver. Trata-se de uma atitude espontânea de quem está contagiado ou possesso, qual namorado apaixonado que ouviu e corre para ver. E acharam (...) — para achar é preciso colocar-se a caminho. (...) Maria e José — colocar em primeiro lugar o nome da mulher é uma provocação, especialmente numa sociedade machista. Mas Lucas valoriza aquela marginalizada que não era casada. (...) criança deitada na manjedoura — o romantismo europeu encobriu o lugar escandaloso do nascimento do Filho de Deus: um coxo num estábulo fedorento. Deus se humilhou a esse ponto para tornar-se próximo do mais marginalizado dentre os miseráveis.

V. 17: E vendo divulgaram (...) — são testemunhas oculares (a exemplo da ressurreição) do mistério da encarnação do próprio Deus; pois foi isso que o anjo lhes havia falado a respeito do Salvador. É mistério que contradiz tudo o que a razão humana é capaz de captar pelo próprio esforço.

V. 18: Todos (...) se admiraram (...) — não se trata apenas de admiração, mas também de espanto e estranheza; pois o fato de que Deus escolhe tal mulher e tal lugar desprezível e uma criança para salvar o mundo não é nada bonito e romântico, mas escandaloso.

V. 19: Maria, porém, guardava todas essas palavras, meditando-as no coração — guardar = segurar junto; meditando = jogar junto, relacionar e ligar em vez de separar; é esse o jeito do Espírito Santo. O diabo separa, não junta, não liga, cria confusão (diabolein). Ele separa céu e terra, Deus e mundo, Criador e criatura. O Espírito de Deus, porém, liga as coisas, faz Maria ligar as palavras do anjo (Lc 1.31-33) com a notícia dos pastores: Jesus — Filho do Altíssimo — trono de Davi — reinará sem fim. Como ela poderia captar coisa tão grande com a sua cabecinha pequenina? Daí o meditando-as no coração — quer dizer, mesmo não entendendo, ruminava essas palavras em seu coração, não apenas no estômago, nem nas entranhas, mas no coração = central de comando. Diz St. Exupéry: O ser humano só enxerga bem com o coração. A mesma Maria que depois, quando queria falar com o filho, se flagrou do pouco que entendia sobre ele: quando ficou no templo; quando estava cercado de gente e disse: Esses são meus país e meus irmãos; ou mesmo embaixo da cruz; ou mesmo na Páscoa; essa Maria ficou ruminando, provavelmente, até o fim da vida. É, somente então reconhecemos e enxergamos face a face (l Co 13). Trata-se de coisa maior do que poderia ser captada pela razão humana (nem por razão de teólogo!). É mistério! Ò único jeito de aproximar-se dele é calar-se, dispor-se e abrir-se com todo o seu ser, para que o mistério mesmo possa dispor de nós e nos cativar. Eis a lição que Maria nos dá!

V. 20: Voltaram (...) a vida continua depois do Natal. Mas para quem ouviu o anjo de Deus e viu algo do mistério da encarnação de Deus, a vida não c mais a mesma: glorificando e louvando a Deus (...) — eis o sentido último tia vida de quem foi recriado, renascido, de quem ouviu e viu. Essa pessoa não vive mais para si, mas para o outro sobre o qual ouviu e o qual viu. É assim com gente que foi cativada.

3. Pensando na prédica

Penso que há muitas maneiras de pregar sobre esse texto. A mais adequada talvez seja a da homilia, narrando, interpretando e atualizando, chegando ao desafio de nós nos tornarmos testemunhas natalinas, como os pastores. Em relação a eles somos privilegiados; pois nós não apenas podemos ouvir e ver; além disso, podemos saborear e degustar a presença de Cristo nas dádivas da Santa Ceia. Aqui defrontamo-nos com o mesmo mistério, que é maior do que aquilo que a nossa pequena razão poderia captar. Mas ouvindo o convite e vindo à sua mesa, confiando em suas palavras: Vinde a mim todos (...) e Isso é o meu corpo (...) o meu sangue (...) e achegando-nos com fé e grande expectativa, pode acontecer o milagre de ficarmos certificados de que é Ele mesmo de quem ouvimos falar e Ele mesmo quem toma morada em nós e nos transforma cm seu berço.

Essa experiência nos fará voltar glorificando e louvando a Deus, nos liberta para o repartir, palpavelmente, alegria natalina com quem não tem. Exemplos de pessoas afastadas da alegria natalina cada um/a deverá encontrar, facilmente, em seu âmbito (p. ex., pessoas doentes, enlutadas, portadoras de deficiência, órfãs, idosas, solitárias, etc.). Importa colocar um sinal do repartir e doar, um sinal tão concreto e palpável que possa transcender e apontar para a vinda de Deus a nós.

Outro jeito de pregar seria o que Johannes Viebig (p. 41-43) propõe:

1) Ouvir e ver;
2) Nascimento e salvação (liga à mensagem do anjo);
3) Falar e louvar.

Bibliografia

A bibliografia sobre a perícope é ilimitada. Por isso dispenso uma listagem de títulos, destacando apenas a mencionada acima, que muito me inspirou:

VIEBIG, Johannes. Auxílio litúrgico-homilético para “Christfest I”. In: Meditative Zugänge zu Gottesdienst und Predigt: Predigtext-Reihe I,I. Göttingen : Vandenhoeck & Ruprecht.

Proclamar Libertação 24
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Günter Wehrmann
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Natal
Perfil do Domingo: Dia de Natal
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 2 / Versículo Inicial: 15 / Versículo Final: 20
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1998 / Volume: 24
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7127
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