Lucas 2.1-14

Prédica

08/03/1987

Lucas 2.1-14

Martim Lutero

Naqueles dias foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se. Este, o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. José também subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, para a Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser ele da casa e família de Davi, a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Estando eles ali, aconteceu completarem-se-lhes os dias, e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura porque não havia lugar para eles na hospedaria.

Havia naquela mesma região pastores que viviam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite. E um anjo do Senhor desceu aonde eles estavam e a glória do Senhor brilhou ao redor deles; e ficaram tomados de grande temor. O anjo, porém, lhes disse: Não temais: eis que vos trago boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura. E subitamente apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens a quem ele quer bem.

Essa é a narração da festa que hoje celebramos, o relato do nascimento de nosso amado Senhor Jesus Cristo, sobre o qual se pregará hoje. E chega a ser um costume muito salutar celebrar-se este relato de tal forma na igreja cristã, principalmente por depender tanto dele e por representar a base de nossa fé cristã.

Este evangelho se compõe de duas partes: a primeira é a história que descreve como sucedeu, no Natal, que nosso amado Senhor Jesus nasceu em Belém. A outra parte é o sermão dos anjos, que trata do proveito e do poder da história, explicando-nos como haveremos de beneficiar-nos do nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo.

Lucas descreve esta história anunciando o tempo, o ano, o lugar e as circunstâncias do nascimento de Cristo. Conta que nasceu em Belém, na terra da Judéia, na época em que o Império Romano florescia como nunca, governado pelo imperador mais capaz, no tempo em que era feito o primeiro recenseamento que abrangia o país inteiro. O imperador faz publicar um decreto mandando recensear todo o mundo, impondo um tributo a cada pessoa. Convocados por tal decreto, também José e Maria se põem a caminho obedecendo ao imperador, a fim de se alistarem: assim, partindo da Galileia, chegam a Belém, na terra da Judéia. Aí se completa o tempo em que Maria haveria de dar à luz: e ela dá à luz seu filho, o Salvador do mundo, enquanto se encontram num país estranho e numa cidade estranha, onde não possuem nem casa nem outra propriedade, numa época em que a cidade está tão cheia que eles não encontram nenhum lugar na estalagem.

Esta é a sucessão dos fatos, descritos com brevidade, pelos quais deveremos ver e aprender que o Senhor, imediatamente após o seu nascimento na terra, por sua ação, começa a distinguir seu reino do reino do mundo. Ele se apresenta de uma forma como se não conhecesse o mundo e seu reino; e, por outro lado, o mundo também se apresenta como se não conhecesse este rei nem o seu reino. E contudo Cristo nasce em Belém, tem mãe terrena, tem manjedoura e panos, faz uso do mundo, já que nasce sob o imperador Augusto e já que o imperador Augusto está exercendo governo e poder em Belém. Assim não há cristão algum na terra que não faça uso deste mundo. Por essa razão, o reino de Cristo e o reino do imperador devem ser distinguidos. O reino de Cristo será um reino espiritual, e contudo este reino espiritual se estende em meio ao reino do mundo, e tanto Cristo como os seus cristãos fazem uso do mundo, como Paulo ensina em 1 Timóteo no sexto capítulo. O reino do imperador é um reino do mundo, ele julga e acerta assuntos mundanos, faz discursos, guerreia, faz uso da espada, etc. Cristo nada tem a ver com tais assuntos mundanos. Seu reino e seu ofício têm por fim redimir as almas de pecado e morte e ajudar onde o mundo não é capaz de ajudar.

É verdade, os cristãos comem e bebem, como o faz o mundo, eles fazem uso desta vida na terra, bem como o seu rei Cristo também comeu e bebeu no mundo e fez uso desta vida. Mas tudo isso os cristãos fazem como peregrinos e estrangeiros, como hóspedes no albergue, bem como Cristo fez. No albergue, as coisas sucedem da seguinte forma O dono do albergue se preocupa com o provimento de comida e bebida, pão carne, vinho e cerveja. O hóspede não se preocupa com isso, nem ensina o hospedeiro como deverá administrar a casa. Ele não diz: Prezado hospedeiro, se você comprar mantimentos, faça desta ou daquela forma, mas diz: Prezado hospedeiro, você não tem pão e carne? Traga para cá, deixe-me comer, estou pronto para seguir viagem. Da mesma forma também Cristo não veio ao mundo para se imiscuir no governo do imperador Augusto e para ensiná-lo como reinar. Contudo ele fez uso do governo mundano e da manjedoura, até que tivesse cumprido o ofício do qual fora incumbido. Assim Paulo ensina em 1 Coríntios 7.29-31: ¨Não só os casados sejam como se não o fossem, mas também os que choram, como se não chorassem; e os que se alegram, como se não se alegrassem; e os que compram, como se nada possuíssem; e os que se utilizam do mundo, como se dele não usassem; porque a aparência deste mundo passa¨. Isto equivale a dizer. O alvo da aspiração dos cristãos é não estar na terra, não casar ou pedir em casamento, não comer, beber, vestir-se, alegrar-se, comprar e vender (se bem que as necessidades do corpo por uma hora ou duas, assim como no caso do hóspede, o exijam); o alvo da esperança do cristão é outro. Ele permanece, quando todas estas coisas deixarem de existir.

Desta diferença convém tomar conhecimento: o alvo final do reino deste mundo é a paz temporal. O alvo final da igreja cristã não são paz nem vida cômoda na terra, não são casas, riqueza, poder e glória, mas sim, paz eterna. O governo não cuida de como eu possa morrer salvo e viver eternamente, tampouco é capaz de prestar-me ajuda na luta contra a morte, sendo que para os próprios governantes chegará a hora; e quando eu, afinal, morrer, eles me seguirão. A morte lhes sobrevém bem assim como ao mendigo mais miserável. O reino do estado serve a esta vida temporal e passageira, mas quando esta vida temporal termina, aí começa em verdade o reino da igreja cristã: que ela faça anunciar às consciências aflitas e angustiadas o tesouro adquirido e por ele confiado à igreja: a saber, o perdão dos pecados e a paz eterna isso sejam alvo e fim a serem visados e procurados pelo reino cristão.

A outra parte deste evangelho é a pregação dos anjos, que vem a ser a mensagem central deste trecho bíblico e que indica claramente ser o reino de Cristo um reino totalmente diferente do reino do mundo. Pois se nosso amado Senhor Cristo desejara ser um rei mundano, os sumos sacerdotes de Jerusalém, Anás e Caifás, ou, senão, outras pessoas influentes de Belém se teriam chegado, pregando e cantando acerca de seu nascimento: Glória a Deus nas alturas. Mas acontece que se chegaram ao evento de seu nascimento os espíritos celestiais e os santos anjos de Deus, a saber, os príncipes aos quais tal reino é adequado. E estes príncipes celestiais não volvem o seu olhar para o mundo, mas olham para este Rei, que nasceu numa estrebaria e que está deitado numa manjedoura. Com isto anunciam que este rei possui um reino no qual nem o imperador Augusto nem o rei Herodes têm direito de governar, mas sobre o qual o próprio Deus é Rei e Senhor e no qual só existem anjos e pessoas santas.

Igualmente vai sendo anunciado quem são os que foram destinados ao reino daquele Rei. São os que têm o coração aflito e a mente angustiada. Os que têm a ambição de possuírem o reino do mundo, lutando por poder e altivez, não têm parte neste reino. É verdade: um cristão bem poderá ser governante mundano, e dirigir terras e pessoas. Mas ele o faz por ser obediente a Deus e por amor cristão, seguindo a sua vocação e servindo ao mundo através de sua ação de governar. Mas ele se comporta como servo na casa, e como hóspede no albergue, como diz Davi no salmo 39.21: ¨Sou forasteiro à tua presença, peregrino como todos meus pais o foram.¨ Aqueles, porém, que lutam ambicionando o poder e o governo deste mundo, não têm lugar no reino deste Rei. Apenas pessoas pobres e indigentes tem lugar nele. Por causa delas é que este Rei veio à terra, por tal motivo o seu reino é um reino destinado às pessoas abaladas, aflitas, miseráveis.

Por tal razão vêm os anjos, com grande brilho e com gloriosa claridade que chegam a apavorar os pastores, para que se torne manifesto ser verdade que somente pessoas míseras e aflitas, que não aspiram a grandes riquezas nem a poder e glória, vêm ao reino deste Rei. Bem que façam uso da riqueza deste mundo, do poder e do governo, quando lhes vão sendo confiados, assim como o seu Rei Jesus faz uso das fraldas, do leite, da manjedoura: mas eles não aspiram por tais coisas nem lutam por elas; fitam unicamente aquele reino, eterno, no qual vão sendo distribuídas paz e vida eterna. E isto o que o texto tem em mente: os pastores ficaram tomados de grande temor. Pois os anjos chegaram a eles com brilho claro e com luz ofuscante, assim que a luz brilhava na noite escura, como se o céu fosse puro fogo, de forma que os pastores achavam que era luz de raio. Com isto se revela que este rei nasceu para aqueles que vivem em medo e temor, e só estes têm lugar em seu reino. A eles igualmente se deverá pregar, assim como o anjo pregou aos pobres pastores apavorados: Eis que vos anuncio grande alegria.

Que alegria é essa? Ouça o que diz o anjo: ¨Eis que vos anuncio grande alegria que o será para todo o povo.¨ Isso é como se quisesse dizer. Essa alegria vai sendo oferecida a todo o povo, mas só são capazes de a experimentar aqueles que têm a consciência temerosa e o coração aflito. O lugar deles é junto a mim e minha pregação, a eles quero levar boa mensagem. Não é este um milagre grandioso que tal alegria esteja mais próxima ali onde houver maior inquietude de consciência? Onde o homem é presa de medo e pavor deverá nascer alegria tão gloriosa, formosa e doce que um coração humano dificilmente a poderá conceber e aceitar. Aos pastores se revela luz de um resplendor tão belo que espanta todas as trevas do mundo. E apesar disto eles ficam atemorizados diante da luz, vão sendo tomados de grande pavor. Será que deveremos atemorizar-nos por alegria e ficar apavorados diante de uma luz tão bela? Pois é isso mesmo; aí vem escrito que os pastores ficaram tomados de grande temor diante do esplendor do Senhor que brilhava ao redor deles. Vamos deixar como está, não vamos mudar nada.

Mas tome nota disto com cuidado, captando-o com firmeza e com certeza que o anjo diz: Cristo, nascido em Belém, não é terrível tristeza, mas sim, grande e confortante alegria, alegria que um coração apavorado desejará e aspirará. O mundo está alegre e contente se tem dinheiro, bens, poder e glória. Mas um coração mísero e aflito a nada mais aspira senão paz e conforto. O que quer é saber se Deus lhe é gracioso. E essa alegria, através da qual um coração aflito é possuído de descanso e paz, é tão grande que, em comparação com ela, toda a alegria do mundo perde o sentido. Por isso deveremos pregar às pobres consciências assim como o anjo vai pregando aqui: Ouçam o que eu lhes digo, vocês que têm o coração mísero e aflito: eu lhes trago mensagem alegre. Não deverão pensar que Cristo esteja irado contra vocês. Pois ele não veio ao mundo, como homem, para empurrar vocês ao inferno, muito menos foi crucificado e morreu por vocês para tal fim. Ele veio para que vocês tivessem nele grande alegria.

Esta é a definição, e a descrição correta. Se você quiser definir e descrever concisamente a Cristo — quem ou o que ele seja — fique atento àquilo que o anjo diz, definindo-o e descrevendo-o, a saber, que ele é e se chama ¨Grande Alegria¨. Quem pudera aprender e captar firmemente aquela definição. Pois isso é que importa. Um coração humano, por si mesmo, não poderá estabelecer que o nome de Cristo seja ¨Grande Alegria¨. Portanto aqueles que conseguem defini-lo de tal forma que em seu coração retratem Cristo como sendo pura alegria, estes são seus verdadeiros e fiéis discípulos. Estes, ao escutarem que o primeiro mundo foi destruído pelo dilúvio, que Sodoma e Gomorra foram exterminadas com fogo e enxofre - e há outros tais exemplos da ira horrível e do juízo de Deus — vão dizendo: Que tudo isso siga seu caminho. Eu olho para Cristo, verificando quem ele é, e crendo que seu verdadeiro nome é ¨Grande Alegria¨.

O anjo gostaria de ensinar-nos estas coisas neste sermão, para que as consciências aflitas e amedrontadas possam compreender e captar a Cristo em sua verdadeira imagem. Onde Cristo olha o mundo com ira, aí ele afoga o mundo com o dilúvio e aniquila reis e tiranos. Mas aqui ele não olha irado; olha benigno e amoroso, e se chama ¨Grande Alegria¨. A bem de quem? A bem de todos os corações aflitos. Este é o texto áureo, que faríamos bem em gravar na mente, para que saibamos consolar-nos por intermédio dele em tristeza e tentação. Os que não conhecem temor nem tentação, não necessitam deste Salvador. Os pobres pecadores, porém, os que jazem em medo e pavor, necessitam dele. A estes ninguém mais poderá socorrer, a não ser este Salvador, Cristo, o Senhor, nascido hoje em Belém.

Portanto que deixem o anjo e sua pregação ficar com a razão, e não o façam parecer mentiroso. Pois ele chama Cristo com os nomes corretos, que só a ele pertencem. Ele é o único Salvador, e assim vai sendo chamado. Pois também no dia derradeiro, quando ele vier para julgar os vivos e os mortos, ele passará a ser o nosso Auxiliador verdadeiro, em toda a plenitude. Prestar-nos-á a ajuda verdadeira redimindo-nos do diabo, da morte e desta vida miserável. Se ele não viesse no dia derradeiro, não seria verdadeiro Salvador. Mas ele virá no derradeiro dia, a fim de revelar-se como verdadeiro Salvador. Não para julgar os que se alegram nele, mas para julgar e punir os que o amaldiçoam e perseguem. Ele virá para contestar aqueles que lhe desmancharam a herança, a saber, em primeiro lugar, o diabo, depois, os tiranos deste mundo, camponeses, burgueses e príncipes malvados que nos vão atormentando.

Portanto, esteja Cristo onde estiver na manjedoura ou à direita de Deus, chama-se Senhor ou Juiz, como o testemunhamos no Credo Apostólico— a qualquer tempo ele será Salvador. Pois tudo o que fez e tudo que ainda fizer toca a nós e tem por objetivo salvar-nos. Deus nos dê a sua graça para que possamos compreender e guardar aquilo.

Amém.


10 Sermões sobre o Credo - Martim Lutero

Prefácio de Lindolfo Weingärtner

O Primeiro Artigo do Credo Apostólico

Mateus 6.24-30

O Segundo Artigo do Credo Apostólico

Lucas 2.1-14
Lucas 22.7-20
João 19.13-30
Marcos 16.1-8
Lucas 24.13-35
Marcos 16.14-20
Mateus 25.1-13

O Terceiro Artigo do Credo Apostólico

Atos 2.1-13
João 10.12-16
  


Autor(a): Martim Lutero
Âmbito: IECLB
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 2 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 14
Título da publicação: 10 Sermões sobre o Credo / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1987
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 28379
REDE DE RECURSOS
+
A Palavra bem pode existir sem a Igreja, mas a Igreja não existe sem a Palavra.
Martim Lutero
© Copyright 2019 - Todos os Direitos Reservados - IECLB - Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - Portal Luteranos - www.luteranos.com.br