Lucas 2.1-20

Auxílio Homilético

25/12/2003

Prédica: Lucas 2.1-20
Leituras: Salmo 98 e Tito 3.4-7
Autor: Rodolfo Gaede Neto
Data Litúrgica: Natal de Nosso Senhor
Data da Pregação: 25/12/2003
Proclamar Libertação - Volume: XXIX
Tema: Natal

1. Informações de apoio

1 – Lucas, ao situar o nascimento de Jesus no contexto do recenseamento, promovido pelo imperador César Augusto, está emitindo a mensagem de que o Natal é uma ação de Deus para dentro da história do mundo. A preocupação do evangelista com a datação dos fatos aponta para o aspecto teológico da historicidade da salvação.

2 – O termo “boa nova” ou euangélion (como está no texto grego) não tem a sua origem na língua dos anjos, que anunciaram o nascimento de Jesus aos pastores. Era expressão típica usada para anunciar as ordens e as notícias do palácio do Império Romano. Por exemplo, os aniversários de nascimento e de ascensão ao trono de César Augusto eram evangelho. Este evangelho deveria ser de grande alegria para todo o povo do império. Evangelizar significava fazer o povo conhecer os principais acontecimentos da vida do imperador.

3 – Os termos “salvador” e “senhor” (soter e kyrios) igualmente eram de uso comum no Império Romano. Eram aplicados aos deuses, mas também à pessoa de César Augusto. Uma inscrição grega da época exalta esse imperador, porque com o seu nascimento começou uma nova era e porque ele foi capaz de dar um novo sentido ao mundo: o recém-nascido era portador de dons de salvação da humanidade; o destino o enviou para se tornar o redentor do povo, inclusive de todas as gerações futuras; Augusto é o salvador. Por isso, o evangelho da sua proclamação como rei é motivo de alegria para todo o império (cf. Inscrição de Priene, Ásia Menor, in: O Evangelho da Libertação segundo Lucas).

4 – Lucas estava muito bem informado sobre os detalhes da vida política do Império Romano de sua época. Isto fica evidente quando ele, na narrativa de Natal, lança mão de expressões típicas do dia-a-dia do palácio, de conceitos carregados de sentido ideológico.

5 – O redator Lucas, ao construir a narrativa de Natal, faz consciente e cuidadosamente uma montagem de expressões e sentidos, de modo a contrapor a ação de Deus no Natal à ação do imperador romano. Se o nascimento de Augusto era considerado evangelho, Lucas diz que o verdadeiro evangelho é aquele proclamado pelo mensageiro dos céus, pelo anjo do Senhor, acerca do nascimento de Jesus (v. 10). Se Augusto era considerado o iniciador de uma nova era, Lucas proclama que os novos tempos iniciaram quando, com o nascimento de Jesus, o céu se abriu para a terra (v. 9). Se Augusto é proclamado senhor do mundo (o seu império abrangia todo o mundo conhecido da época; Jesus nasceu quando o poder de Augusto alcançava toda a terra habitada), Lucas testemunha que o senhorio sobre o mundo pertence unicamente a Deus; sinal disso é que mesmo César, com todo o seu poder, através de seu decreto que obriga José e Maria a irem para Belém, sem o saber e sem querer, está a serviço das ações de Deus. Se Augusto é proclamado salvador da humanidade, Lucas anuncia que só Deus, através de Cristo, pode dar a verdadeira salvação (o evangelista conta a história do Natal desde a ótica de quem conhece a história da cruz e da ressurreição). Se, conforme César, todo o povo do império deve ser evangelizado com os acontecimentos do palácio de Roma, de acordo com Lucas a evangelização realizada pelo anjo do Senhor desconhece qualquer restrição: destina-se não a um grupo específico ou a um povo selecionado, mas a toda a oikumene (v. 10), tendo, portanto, um caráter universal.

Portanto, com a construção do texto de Natal, Lucas tem em vista o desmascaramento das pretensões de César de ser senhor e salvador do mundo. O evangelista desnuda a ideologia que se esconde atrás do conceito palaciano “evangelho”. Da mesma forma, ao reivindicar o título “Salvador” para o Messias, Lucas purifica este termo da ideologia de dominação. A história de Natal, segundo a teologia de Lucas, relativiza o poder de César.

6 – O recenseamento decretado por César Augusto representava um claro sinal de dominação do império sobre a população. A Bíblia conhece, desde os tempos de Davi, as implicações perigosas que pode ter uma contagem do povo (cf. 2 Sm 24; 1 Cr 21; Nm 1 e 26). O povo pertence a Deus e não ao rei. O censo era um meio pelo qual o imperador podia exercer o controle sobre todos os indivíduos e deles dispor para fins militares e tributários. Na época de Augusto, a carga de impostos alcançara níveis nunca vistos: o correspondente a 180 dias anuais de trabalho, ou seja, a metade da renda dos trabalhadores. Esta realidade levara muita gente a fugir das áreas de controle do império. Nas montanhas, grupos de rebelados se organizavam contra Roma, a exemplo dos zelotes (cujo movimento pode ter tido o seu início por ocasião de um censo). De lá desciam em bandos para praticar assaltos (provavelmente é a este tipo de assaltantes que Jesus se refere na parábola do Bom Samaritano). São considerados ladrões (Barrabás e os dois homens crucificados com Jesus faziam parte desses grupos de ladrões, salteadores e rebeldes). A notícia do recenseamento havia reacendido a chama da revolta. Como forma de resistência contra a opressão, muitos se negavam a se alistar.

Diante desse quadro, cai em vista que Lucas apresenta José e Maria como casal obediente às ordens do alistamento. Isto parece um dado constrangedor. Pode sugerir que os pais do Messias estão alheios, indiferentes a todo sentido político e ideológico desse censo. O que Lucas quer sinalizar? Possivelmente quer esclarecer à sua comunidade duas coisas ao mesmo tempo:

a – Constatar que José e Maria não provêm dentre os rebeldes equivale a dizer que o projeto do Messias não se confunde com o movimento de um determinado grupo (tenha ele motivações políticas, ideológicas ou religiosas). Em outras palavras: o projeto do Messias não se esgota no projeto de uma facção, por mais justas que sejam suas reivindicações. Está acima de movimentos ocasionais e circunstanciais. Estar acima não significa anular. Significa que nesse projeto inclusive pode haver espaço para as justas reivindicações de movimentos ocasionais e circunstanciais. Sinal disso é que do círculo de discípulos do Messias veio a fazer parte um zelote e que uma das acusações feitas a Jesus no seu julgamento perante Pilatos foi exatamente estar “vedando pagar tributo a César” (Lc 23.2). A malícia do jogo das autoridades constituídas era enquadrá-lo numa facção como forma de redução de seu projeto messiânico.

b – Sabiamente Lucas quer dizer também que o projeto do Messias não se coloca no nível da concorrência com o projeto de dominação de César, como se, através da rebelião, pudesse vir a tomar o trono do palácio de Roma. As ações de Deus através do Messias estão acima de tudo isso. Mais do que estar acima dos movimentos rebeldes no interior do império, o Messias está acima do próprio império, com César e com toda a sua política de dominação. O Messias veio para ser Senhor e Salvador, inclusive de César. Com isto, Lucas esclarece que a obediência de José e Maria às ordens do imperador nada tem a ver com alienação em relação à opressão, mas tem a ver com a profunda consciência do casal de que se encontra a serviço daquele diante do qual todo joelho se dobrará, nos céus, na terra e debaixo da terra, e que por toda língua será confessado como Senhor (cf. Fp 2.9s).
7 – Sobre a inclusão da lenda dos pastores na história de Natal, é oportuno lembrar que na literatura rabínica os pastores aparecem como categoria constante e severamente criticada. Fariseus e sacerdotes olham para esse grupo com desprezo. Os pastores fazem parte do “povo da terra” (am ha’ arez). Por causa de sua simplicidade e ignorância, são tidos como pessoas sem condições de cumprir satisfatoriamente a lei. Estão excluídos do mundo vindouro. Considerados ladrões e enganadores, são identificados com os cobradores de impostos e pecadores. Uma expressão rabínica diz: “Nenhuma profissão no mundo é tão desprezível quanto a dos pastores”. Nos tribunais não são aceitos como testemunhas.

Diante desse conceito carregado tão negativamente, surpreende que Lucas privilegia os pastores como primeiro grupo a tomar conhecimento do grande feito de Deus no Natal. A Boa Nova de grande alegria chega primeiro a eles, e dela eles se tornam os primeiros portadores. Como pessoas excluídas da religião, tornam-se os primeiros missionários do Evangelho de Cristo. Como pessoas excluídas do direito de testemunhar a verdade nos tribunais, tornam-se testemunhas da maior verdade de Deus. Como pessoas ignorantes, tornam-se portadores do maior conhecimento existente no céu e na terra. Com isto, Lucas certamente quer apontar para o caráter do governo messiânico, que não se pautará pela escolha dos “sábios segundo a carne, nem dos poderosos, nem dos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as cousas loucas do mundo..., as fracas..., as humildes..., as desprezadas, e aquelas que não são” (1 Co 1.26-29).

8 – Segundo a tradição, a aparição do Messias deveria acontecer de forma claramente visível. Sinais inconfundíveis indicariam a sua chegada: demonstração de poder e glória, coroação e entrada triunfal no palácio. Com a autoridade de quem lê o Natal a partir da cruz, Lucas desmistifica esse tipo de expectativa. Em sua narrativa, os anjos apresentam os sinais que verdadeiramente identificam o Messias: os panos que envolvem a criança recém-nascida e o cocho dos animais que a abriga. É incrível que estes sejam os sinais indicadores do grande mistério de Deus. O que podem indicar as fraldas e o cocho? Podem, de acordo com a teologia de Lucas, apontar para o mesmo mistério que se oculta na cruz: a revelação de Deus sub contrario.

9 – Nazaré e Belém também fazem parte da cuidadosa elaboração teológica de Lucas. Nazaré fica a 525m e Belém a 777m de altitude em relação ao nível do mar. A distância entre as duas cidades é de 170 km; para percorrer esta distância, na época, gastavam-se em torno de cinco dias. Acontece que, em termos de investigação histórica da narrativa de Natal, os dados a respeito da cidade de Nazaré, como local de residência de José e Maria, podem ser considerados consistentes; enquanto isso, a referência a Belém não se pauta pela preocupação histórica, mas pela tradição de ser ela a cidade em que deveria ocorrer o aparecimento do Messias (cf. Mq 5.2). Por isso se faz a seguinte comparação: Nazaré está para a cruz (dado histórico), assim como Belém está para a ressurreição (dado teológico). Portanto, ao narrar que o decreto de César Augusto levou José e Maria a Belém, Lucas está dizendo que a criança que ali nasceu – nas condições em que nasceu – não é outro senão o Messias prometido e que esta constatação dispensa comprovação histórica, assim como a ressurreição.

10 – A primeira prédica de Natal é a dos anjos. Eles evangelizam os pastores. Os evangelizados divulgam a Boa Nova, que se destina ao mundo todo. Quanto a isto, Lutero diz: “Os anjos não precisam de um Salvador; os demônios não o querem. Por isso, ele veio por nossa causa; nós é que precisamos dele” (Rienecker). O nascimento de nosso Salvador é motivo de festa no céu. O céu está em festa por causa de nossa salvação. Os pastores têm o privilégio de testemunhar essa festa e ver um pedaço da glória de Deus. A glória de Deus é mostrada em função da salvação do mundo. O mundo salvo participa dessa glória. Entretanto, dada a realidade atual do mundo (o estábulo, os panos, o cocho, a miséria de José e Maria, o desprezo dos pastores, a dominação e a exploração do povo através dos impostos, a luta dos zelotes), há um enorme contraste entre o céu e a terra. Este contraste quer ser expresso também através da contraposição do brilho dos céus à escuridão daquela noite de Natal. A narrativa de Lucas nos apresenta a realidade do contraste e, ao mesmo tempo, apresenta o milagre do encontro desses extremos. No Natal, Deus promove o encontro entre o céu e a terra, entre a glória e a cruz. E anuncia que, através de Jesus, a contradição entre essas duas realidades será superada. A paz que há nos céus (cantada pelos anjos) será agora também a paz na terra (paz para os pastores desprezados, para os explorados através dos impostos, para os salteadores...). A glória que há nos céus será agora também a glória dada aos seres humanos. Se na vida terrena Jesus viveu a crua realidade dos desprezados (a cruz que o mundo dá), na ressurreição o Cristo viveu a glória que Deus dá. Justamente na condição de ressurreto, Cristo deixa para o mundo a paz que Deus dá (Lc 24.36). A paz e a glória de Deus na terra são, agora, perspectivas reais. No entanto, enquanto há cruz, não há espaço para uma “teologia da glória” barata. Decisivo é sermos evangelizados com a notícia de que no Natal tem início o processo pelo qual Deus constrói para nós, apesar de nós e conosco a glória e a paz também na terra. A partir do Natal, a glória e a paz na terra são o horizonte em direção ao qual podemos caminhar, assim como Jesus de Nazaré caminhou, deixando pelo caminho as marcas daquilo que esperava.

2. Meditação

Assim como Lucas, não podemos construir nenhuma reflexão teológica sobre o Natal se não tomarmos como ponto de partida a cruz e a ressurreição. Este é o porto seguro a partir do qual miramos para o momento do advento do Messias. Tanto a cruz quanto a ressurreição estão prefiguradas na narrativa de Natal. Mesmo que no Natal não mencionemos esses eventos, que têm o seu lugar próprio no calendário litúrgico, é necessário ter consciência de que eles constituem o alicerce teológico da narrativa do Natal. No Natal, a cruz tem outro nome: estábulo, cocho, panos, miséria, exploração através dos impostos; dominação política, econômica, ideológica; desprezo, discriminação, escuridão. A ressurreição também tem outro nome: brilho, glória, louvor, paz, alegria. Assim como a Sexta-feira Santa contrasta com a Páscoa, também o sofrimento do povo dominado por Augusto contrasta com a festa nos céus por causa do nascimento de Jesus.

Mas não basta colocar essas realidades contraditórias uma ao lado da outra, como se fossem dados estanques. Isto seria água no moinho do dualismo platônico. É necessário dizer que, no Natal, a alegria “invade” o campo de domínio da tristeza. A luz brilhante “se impõe” à escuridão da noite. A humildade “mina” o feudo da arrogância. A paz “se infiltra” no império da violência. O senhorio de Deus “solapa” o senhorio de César.

Naturalmente, todo esse movimento de “projeção para frente” da alegria, da luz, da humildade, da paz e do senhorio de Deus não pode ser anunciado de modo barato, transformando o Evangelho do Natal num oba-oba, próprio de uma teologia da glória, que passa por cima da cruz e subestima o poder da tristeza, da escuridão, da arrogância, da violência e da prepotência imperial, poder este terrivelmente presente na vida das pessoas que hoje ouvem a Boa Nova.

Temos que atentar para o fato de que, na teologia de Lucas, a mensagem de Natal tem um forte cunho escatológico: ela aponta o horizonte para quem está sem rumo; ela abre uma perspectiva concreta para quem está sem perspectiva. Por isso, a comunidade pode fazer, pela fé, o movimento de projeção para frente, em direção ao horizonte onde estão a luz, a alegria, a paz, o senhorio de Deus...

Essa compreensão teológica nunca significa o deslocamento do horizonte sempre para um futuro que nunca chega. Pelo contrário, significa que também o futuro faz um movimento de “projeção”, só que “para trás”, criando sempre a iminência do encontro entre céu e terra. Este movimento “para trás” é o que Deus realiza através da encarnação de Jesus. Ele permite que a luz do céu deixe de existir apenas para o céu e volte-se também para a terra, mergulhada na escuridão.

Assim, podemos dizer que a transcendência vem ao encontro da história. O futuro ilumina o presente. O objeto da esperança “assalta” aquele e aquela que esperam. A festa no céu contagia a terra, de modo que interfere no humor dos que olham para o céu. O convite para o banquete do Reino faz as pessoas convidadas viverem já no clima da festa. Quem faz a experiência dos pastores, de contemplar a glória divina, não se recolhe, mas se enche de vitalidade e sai para testemunhá-la. Quem ouve o coral dos anjos começa, aos poucos, a cantarolar o mesmo canto e, quem sabe, até ensaiá-lo junto com outras pessoas. Quem vê a paz no céu se acalma e experimenta que ela já pode ser a paz na terra, embora de forma esmaecida. Enfim, no Natal, a Boa Nova soa para dentro da história da humanidade e experimenta um tipo de “somatização” (ganha corpo). A historicidade da salvação é o que Lucas quer anunciar no Natal.

E a historicidade da salvação significa, de fato, a luz presente na noite da história. A noite da história é a realidade terrivelmente concreta para tantas pessoas presentes no culto de Natal. Vivem a realidade do “estábulo”, do “cocho”, dos “panos”, da discriminação, do desprezo, da exploração tributária, da dominação imperialista, enfim, da cruz dos tempos neoliberais. Se os panos e o cocho no estábulo são os sinais que apontam para o mistério que Deus se põe a revelar no Natal, então é necessário ficar atento aos sinais sub contrário pelos quais Deus se revela hoje. De acordo com a lógica dessa teologia de Natal, Deus pode ser encontrado justamente ali onde ele parece não estar: em meio à fraqueza. Esta é a notícia “bombástica” a ser proclamada no Natal. A presença de Deus na escuridão significará sempre o iminente fim da noite. Sua presença junto às vítimas do imperialismo significará sempre a iminente “implosão” do império (não de cima para baixo, mas de dentro para fora). Sua presença junto às pessoas enlutadas significará sempre a iminente superação da dor da perda. Evangelizemos a comunidade com esta Boa Nova.

3. Pregação

Orientações pedagógicas

O texto de Natal, além de seu conteúdo teológico, traz também algumas orientações de ordem pedagógica. Penso que duas dessas orientações podem nos ajudar.

a – Se a salvação se dá para dentro da história humana, é necessário conhecer bem, a exemplo de Lucas, os detalhes da situação histórica em que estão inseridos os ouvintes da pregação de Natal: qual é o projeto ideológico-político que quer determinar os rumos da atual sociedade humana? Assim como na época do primeiro Natal, hoje há novamente a pretensão de dominação de “toda a terra habitada” através do mercado globalizado, projeto este que vitima uma grande parte da humanidade. Penso que a prédica de Natal não pode ter o tom de um discurso político ou de análise da conjuntura socioeconômica (a de Lucas não tem este tom). O mais importante é conhecer como o projeto do César de hoje estoura nas costas dos membros da comunidade. Só assim a Boa Nova poderá cair no chão do cotidiano da vida.

A evangelização do Natal quer alcançar as pessoas na escuridão da noite em que estão vivendo. E isto significa, inclusive, mais que o sofrimento no âmbito social. É necessário conhecer bem também a atual situação histórica das famílias, das pessoas no nível individual, e evangelizá-las em suas longas noites de sofrimento (situação de luto, por exemplo).

Conhecer bem as ansiedades, angústias, dores e perguntas da comunidade no atual momento histórico, este é o primeiro mandamento dos pregadores e pregadoras.

b – Se o objetivo da pregação de Natal é evangelizar a comunidade, importa “montar” cuidadosa e conscientemente (a exemplo de Lucas) o jogo de expressões e sentidos no texto de nossa prédica, para que ele esteja inteira, inteligente e criativamente a serviço da Boa Nova.

Sugestões de conteúdo

Praticamente, cada um dos dez pontos acima arrolados poderia ser assunto ou ponto de partida para uma prédica. Caberá a cada pregador e pregadora fazer a sua opção por aquele aspecto que mais tem a ver com o contexto específico de seus e suas ouvintes. A minha sugestão é que entremos no jogo de Lucas e façamos a construção da prédica a partir da idéia do contraste: céu-terra, luz-escuridão, glória-sofrimento, cruz-ressurreição, humildade-prepotência, poder-fraqueza, paz-violência, alegria-tristeza etc. Importante é que não passemos a idéia de dualismo, como se o mundo fosse predestinado a conviver com essas realidades contraditórias. Aí vale a mensagem de que, a partir dos feitos de Deus no Natal, tem início uma nova era em que a realidade vigente é “invadida” pelo germe do novo mundo, criando a iminência da “implosão” do velho mundo (seja no nível pessoal, comunitário ou social).

Sugestão de estrutura

a – Proponho mencionar, inicialmente, a ou uma situação concreta que expresse a realidade de “noite” do momento atual da comunidade (ou a realidade de “estábulo, cocho e panos”).

b – Num segundo passo, a situação apresentada poderá ser confrontada com a narrativa de Natal, no sentido de que os feitos de Deus em Belém iluminam a escuridão da noite, abrindo a perspectiva real do nascimento de um novo dia (“cocho” e “panos” são os sinais indicadores de onde Deus pode ser encontrado: eis a notícia de alegria, com a qual somos evangelizados no Natal).

c – Como último ponto, sugiro apontar para algumas atitudes possíveis e viáveis através das quais se dá hoje o encontro entre céu e terra, ou seja, como se pode já “cantarolar” o hino dos anjos, como se pode mudar já o “humor” quando se contempla a festa nos céus, como se pode viver já no “clima” do banquete etc.

Para desdobrar o segundo e o terceiro pontos, faria uso de idéias arroladas na meditação acima.

4. Liturgia

A narrativa de Lucas pede atenção especial para dois momentos da liturgia: o Kyrie e o Glória. Eles sintetizam toda a mensagem natalina de Lucas. Sugestivamente estão nessa ordem. Através do Kyrie a comunidade expressa o grito a Deus pelas dores do mundo (lembremos a “noite”, o “cocho”, os “panos”, o desprezo dos “pastores”, a exploração do “povo recenseado” etc.). Este é o momento da solidariedade da comunidade com todas as pessoas que sofrem. Imediatamente após o clamor, a comunidade “explode” num louvor vivo a Deus, através do Glória, cujo conteúdo é exatamente o hino dos anjos na noite de Belém. A glória “se impõe” ao lamento das dores, bem assim como o brilho dos céus invade a noite dos pastores. O Kyrie é a realidade, a cruz, a morte. O Glória é a perspectiva, o horizonte, a ressurreição.

Também o Credo Apostólico merece ênfase neste culto, pelo fato de expressar a confissão de fé da comunidade naquele que “padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu ao mundo dos mortos”. Para este é que indicavam os sinais do cocho e dos panos. Neste, Deus pode ser encontrado, embora sub contrario. Só quando a comunidade segue esses sinais, poderá confessar que esse dono das fraldas e da cruz é o Senhor que, “no terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu ao céu e está sentado à direita de Deus Pai, todo-poderoso”.

Bibliografia

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GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Lukas. 7. ed. Berlim: Evangelische Verlagsanstalt, 1974, p. 75-86.
SCHLATTER, Adolf. Das Evangelium des Lukas. 2. ed. Stuttgart: Calwer Verlag, 1960, p. 184-194.
LANCELLOTTI, Angelo; BOCCALI, Giovanni (orgs.). O Evangelho da Libertação segundo Lucas. Petrópolis: Vozes, 1979, p. 34-40.
RIENECKER, Fritz. Das Evangelium des Lukas. Wuppertal: R. Brockhaus, 1969, p. 42-62.
GOLLWITZER, Helmut. Die Freude Gottes. 2. ed. Berlim: Burckhardthaus-Verlag, 1952, p. 24-30.

 

Proclamar Libertação 29
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Rodolfo Gaede Neto
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Natal
Perfil do Domingo: Dia de Natal
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 2 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 20
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2003 / Volume: 29
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7101
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Salmo 86.5
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