Lucas 24.13-35

Auxílio Homilético

04/05/2014

Prédica: Lucas 24.13-35
Leituras: Salmo 116.1-4, 12-19 e 1 Pedro 1.17-23
Autor: Renato Küntzer
Data Litúrgica: 3º. Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 04/05/2014
Proclamar Libertação - Volume: XXXVIII

1. Introdução

O texto de Lucas 24.13-35 foi utilizado, em outros momentos, para o 3º Domingo da Páscoa, denominado em outro calendário litúrgico de Misericordias Domini. A misericórdia de Deus está presente na vida dos discípulos e da comunidade de seus seguidores. O Salmo 116.1-4 destaca essa misericórdia de Deus, que se manifesta quando Ele ouve o ser humano aflito e apavorado, clamando por socorro. A misericórdia de Deus está tão próxima, que é possível chamá-lo de Pai. Assim inicia o texto da leitura de 1 Pedro 1.17-23, que aponta a razão dessa proximidade: por meio de Cristo vocês creem em Deus, que o ressuscitou. Assim, a fé e a esperança estão firmadas na misericórdia de Deus. Os textos deste domingo chamam ao discipulado, orientando-nos a partir da misericórdia de Deus a reconhecer o crucificado como o ressuscitado e como Senhor e Messias.

2. Exegese

O texto do evangelho apresenta-se como um relato imediato à ressurreição de Jesus (“nesse mesmo dia”). Faz parte do contexto maior das aparições de Jesus no terceiro evangelho (Lc 24.12-53), que contém material especial e exclusivo de Lucas. Quando se comparam as aparições pascais de Jesus, percebe-se que elas possuem traços em comum: Jesus aparece a pessoas ou grupos de pessoas; os textos localizam as aparições; as aparições têm função apologética.

Após a notícia dada por Maria Madalena, desencadeia-se uma série de acontecimentos e sentimentos. “As mulheres nos espantaram”, dizem os discípulos de Emaús (Lc 24.22). Os acontecimentos prévios que desencadeiam os fatos destacam também uma narrativa breve e sóbria que envolve Pedro: ele corre até o túmulo e, vendo apenas os lençóis, volta para casa, não sabendo como explicar tudo aquilo (Lc 24.12). A isso se segue o nosso texto.

O texto de Lucas 24.13-35 pode ser estruturado assim:

A1 Os dois partem de Jerusalém a caminho de Emaús (v. 13-14)
    B1 Jesus aproxima-se e caminha com eles (v. 15)
       C1 Eles não reconhecem Jesus (v. 16)
       C2 Eles reconhecem Jesus (v. 31a)
    B2 Jesus desaparece (v. 31b)
A2 Os dois retornam de Emaús a Jerusalém

No centro do texto estão a conversa entre Jesus e os discípulos (v. 17-27) e a comunhão de mesa entre eles (v. 28-30).

Faz parte da tradição das aparições que elas ocorram ora a um, ora a dois ou a um grupo de discípulos e seguidores. Os dois a quem Jesus aparece em nosso texto fazem parte de um grupo maior de discípulos ou seguidores, visto que, ao retornar a Jerusalém, eles vão encontrar-se com os onze discípulos. Que a aparição de Jesus se dê a caminho de Emaús e que ele seja reconhecido numa casa fora de Jerusalém, isso também faz parte da tradição. No mesmo dia da
ressurreição, enquanto o grupo dos discípulos permanece em Jerusalém, os dois a caminho de Emaús recebem a companhia de Jesus. Por que o ressuscitado aparece no caminho de Emaús e não em Jerusalém e a dois de seus seguidores e não ao grupo dos onze? Desconfio que uma boa-nova necessita novamente vir de fora de Jerusalém, a partir de uma casa numa aldeia insignificante, que até hoje não se sabe onde exatamente se localizava.

Os dois discípulos (talvez um discípulo e uma discípula: Cléopas e sua esposa, Maria, conforme João 19.25), conversavam (homilein) e discutiam (syzetein) no caminho para Emaús a respeito de tudo o que havia acontecido, quando o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles (syneporeueto). Jesus juntou-se aos dois e os acompanhou. Os dois estavam como que cegos e não reconheceram Jesus (v. 16). O que os impediu de reconhecer Jesus? Há uma indicação na sequência do texto, quando os discípulos afirmam que esperavam que “fosse ele o libertador de Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que tudo isso aconteceu” (v. 21). Isso talvez indique que eles discutiam no caminho sobre o modelo messiânico de Jesus, que frustrou as expectativas do povo e suas próprias expectativas. A falta de sintonia entre as expectativas do povo/dos discípulos/da comunidade lucana e o modelo messiânico de Jesus ainda continua provocando cegueira. Eles até conhecem a trajetória de Jesus. Mas estão presos a uma imagem de Cristo que não está de acordo com Jesus. Falsas expectativas em relação ao Cristo não permitem reconhecê-lo.

O texto segue descrevendo uma situação um tanto irônica. Os dois repreendem Jesus por ele não saber (ginosko) o que ocorrera naqueles últimos dias. Ao relatar a Jesus o que conversavam pelo caminho, a intenção é fazer também a comunidade rememorar os acontecimentos (v.18-24). Esses acontecimentos são o assunto da conversa. E se aqui se retorna à falta de visão ou ao fato de não terem reconhecido (epiginosko, v.16) o Jesus ressuscitado, isso envolve também a compreensão dos fatos passados (v. 19b-34). Eles até compreendem que “Jesus de Nazaré foi profeta poderoso em ação e palavras diante de Deus e de todo o povo” (v. 19) e por isso estava sujeito a passar por rejeição, perseguição e morte, assim como ocorreu com Jesus. Mas a sequência mostra que haviam perdido toda a esperança. O uso do imperfeito (esperávamos/elpizomen) indica que a esperança era coisa do passado. O clima é de tristeza e frustração. O fato de as mulheres terem ido ao túmulo e não terem encontrado o corpo é interpretado como “susto” (v. 22). Elas disseram que Jesus estava vivo, “mas ninguém viu Jesus” (v. 24).

Jesus ouve a conversa enquanto caminha com os dois discípulos. Concluídos os relatos, Jesus repreende-os por sua cegueira e sua demora em compreender os fatos. Em seguida, começa a interpretar as Escrituras (v. 27). Mais tarde, os discípulos vão reconhecer que isso até fez o coração arder (v. 32), mas naquele momento do ensino não provocou a mudança necessária. A esperança já tinha ido, apesar do anúncio de que Jesus havia ressuscitado e que estava vivo. O Jesus ali presente, que caminha a seu lado e ensina-lhes as Escrituras, não restaura a esperança, pois eles não sabem quem ele é. Não o reconhecem também agora, porque não o entenderam em vida.

Por ocasião da refeição na casa dos discípulos, que o haviam convidado a se hospedar com eles, finalmente os olhos se abrem (v. 31), possibilitando que eles consigam reconhecer (epiginosko) o Jesus ressuscitado. Jesus, o hóspede, tornou-se protagonista da mesma ação que havia realizado duas vezes antes no Evangelho de Lucas (9.16 e 22.19). O gesto de sentar à mesa, tomar o pão, abençoá-lo e depois parti-lo para dar a eles revelou a presença do Jesus ressuscitado. Os olhos dos discípulos abriram-se, ou seja, eles reconheceram Jesus. Ele, porém, desapareceu diante deles. Aquele momento do partir do pão, gesto próprio de partilha, de comunhão, abriu os olhos dos discípulos, de modo que reconheceram o ressuscitado. Jesus estava vivo. A novidade fê-los retornar a Jerusalém para contar aos outros como eles tinham reconhecido Jesus quando ele partira o pão.

3. Meditação

Temos em Lucas 24.13-35 um texto especial, que faz parte do material exclusivo de Lucas. Mesmo que não se encontre em nenhum outro evangelho, o texto é muito conhecido e utilizado nas reflexões sobre a presença de Jesus como ressurreto. Ao relatar uma das aparições de Jesus, Lucas fá-lo de maneira que possa relacioná-lo com a vida e os desafios experimentados por sua própria comunidade. Por quê? Porque o relaciona ao seguimento e ao discipulado de Jesus. O texto relata a experiência de um casal de discípulos que atende ao chamado radical e integral de seguimento (cf. Lc 9.23-27). Mais do que fiéis de uma determinada igreja ou movimento religioso cristão, é preciso que haja discípulos, seguidores de Jesus Cristo e testemunhas de sua boa-nova.

O texto diz que Jesus participa da caminhada. Ele vê a situação das comunidades, assim como viu a situação dos dois discípulos. Ele também ouve a sua forma de ver as coisas que aconteceram. O texto ressalta tanto o cotidiano da comunidade (caminhada, ensino das Escrituras, o partir do pão), que a aparição acaba tendo um aspecto secundário. Importante é considerar que, mesmo em tempo de cegueira, quando a comunidade não é capaz de associar a causa de Jesus com a realidade de vida, Ele caminha junto. Jesus vê. Jesus vê bem a tristeza, a decepção e o desânimo de suas comunidades. Jesus ouve os seus lamentos, as suas falsas esperanças e a sua total perda de esperança em relação ao futuro. E infelizmente já não caminhamos. A maioria está numa correria louca. Uns para sobreviver institucionalmente e manter a sua boa tradição e costumes como prestadores de serviços religiosos. Outros para poder continuar competindo num mercado religioso cada vez mais aguçado e sedutor, vendendo o produto da salvação individual sem qualquer compromisso comunitário e coletivo. Nisso está visível a cegueira.

O texto assegura que Jesus está presente no ensino das Escrituras e do evangelho da vida. Jesus conhece a lentidão para entender e a demora para acreditar em tudo o que as Escrituras falaram. Por isso intervém para ensinar as Escrituras. Está presente nos gestos que recuperam a memória nele e ajudam a dar um novo sentido à vida da comunidade a partir da leitura e do ensino das Escrituras. E quanta diversidade de leituras existe! Diferentes chaves de interpretação afastam e separam pessoas, fazem diferentes grupos e movimentos cristãos se odiarem. Provocam a formação de grupos fechados e chegam ao cúmulo da segregação do diferente. Quanto coração há que se esquenta por pouco ou por nada! Há corações superaquecidos por interesses pessoais. A cegueira em relação à causa de Jesus está cada vez mais evidente.

Lá como aqui, há muito pesar com tudo o que aconteceu a Jesus. Mas há um problema: lá como aqui, as comunidades estão ligadas em sua mentalidade, as mesmas situações que não permitiram que os discípulos e a comunidade reconhecessem o Jesus ressuscitado. “Nós esperávamos que fosse ele...” Desse ponto de vista, não é possível perceber Jesus caminhando junto. Desse ponto de vista, não é possível crer no testemunho das Escrituras e tampouco no testemunho de irmãos e irmãs. Hoje também lemos os fatos de maneira que parece não haver mais jeito: tudo parece terminado e definido. Nessas circunstâncias, Jesus dispõe-se a caminhar junto conosco, ouvir, ler e ensinar as Escrituras para olhar a vida com outra perspectiva que não a do poder. Ele nos ajuda a reler as Escrituras, reinterpretar os fatos com outro olhar, ajuda a entender o nosso caminho, assim como o caminho de Jesus, o Cristo, sua vida, morte e ressurreição. Se no ambiente da comunidade a Escritura tem importância no ensino, na liturgia e nas celebrações, o que um texto como esses está querendo dizer a ela?

Finalmente, o texto lembra-nos que Jesus partilha o pão. Não só palavras. Não só reflexões. É necessário algo mais. Mais palpável. O importante é partir o pão. A partilha é decisiva e essencial. Esse gesto de Jesus a comunidade é desafiada a repetir sempre. As outras coisas (caminhada, ensino) fazem no máximo o coração arder, mas a partilha faz ver. A partilha como gesto cheio de sentido e de exigências. Sem dúvida, a comunidade necessita da leitura das Escrituras, de sua interpretação e mensagem atual (evangelização). Com certeza, a comunidade, a partir dessa evangelização, experimenta a comunhão. E é a partir dessas duas experiências em Cristo que a comunidade vai abrir seus olhos à experiência da partilha. Vai conseguir olhar para além de si própria, de suas preocupações, para dentro do mundo e da sociedade. Ela se torna diaconal. Ela vai ao encontro de seu serviço. Se antes caminhava lentamente e sem perspectiva de futuro, agora ela volta com vigor e animada para a sua tarefa (Lc 9.23-27).

4. Imagem para a prédica

A presença do Jesus ressuscitado ao redor daquela mesa com Cléopas e sua esposa Maria foi uma experiência tão forte e marcante, que não era mais possível negá-la, voltar atrás. Cabia a eles continuarem o que Jesus havia iniciado. O caminho que havia sido animado pela palavra concretizara-se pela experiência da partilha do pão. Essa experiência do partir do pão exercitamos em comunidade na Santa Ceia. Mas que não seja uma vivência restrita a um momento litúrgico e celebrativo do culto cristão, mas sim uma conduta da comunidade para dentro da realidade que a cerca.

Agora, concretamente em termos de caminhada comunitária ou pessoal, nossas agendas estão cheias de atividades. Há uma diversidade de atividades que tomam o nosso tempo. Já não caminhamos mais. Antes corremos para dar conta daquilo que estabelecemos como prioridade.

A ciência explica que o nosso campo de visão, a visão periférica, é de 165 graus. Quando uma pessoa se movimenta a uma velocidade de 40 quilômetros horários, essa visão é reduzida para 90 graus. Numa velocidade maior, entre 80 e 100 quilômetros por hora, a visão é de 40 graus. Próximo aos 200 quilômetros horários, a visão é tão somente de 7 graus. Ou seja, quanto mais se corre, menor é o alcance da visão humana.

Nossa presença não depende da velocidade com que fazemos as coisas, mas da frequência com que experimentamos o partir do pão. Comunidade evangelizada convive em comunhão e exercita a partilha para dentro do mundo.

De forma breve, mas clara, deixemo-nos animar por um pequeno poema:

Se não houver caminho que nos leve,
Nossas mãos o abrirão.
E haverá lugar para as crianças,
Para a vida e para a verdade.
E esse lugar será de todos
Na justiça e na liberdade.
Se alguém se anima, avise-me:
Seremos dois a começar...
(Dom Pedro Casaldáliga.)

5. Subsídios litúrgicos

Oração:

Cristo Jesus, tu estás vivo.
A morte não te manteve sob o seu poder.
O anúncio desta notícia surpreendente nos emociona.
Abre-se uma brecha onde tudo parecia fechado.
Em teu Espírito sopras sobre nossa resignação e nossas amarguras.
Tu derrubas a separação entre os seres humanos.
Aos mais pobres devolves a dignidade.
Tu nos envias ao mundo como portadores de uma nova vida.
Amém.
(Oração do Irmão Alois, da Comunidade de Taizé)

Intercessão:

Por todos nós aqui reunidos, para que permaneçamos atentos àqueles que nos são confiados, oremos ao Senhor.
Para que sejamos livres de toda angústia, oremos ao Senhor.
Para que aprendamos a partilhar melhor os bens da terra entre todos, oremos ao Senhor.
Pelos que estão longe de suas casas, pelos emigrantes, pelos exilados, pelas vítimas da opressão, oremos ao Senhor.
Pelos que passam por provações, que precisam de ajuda e de misericórdia, oremos ao Senhor.
Senhor, pedimos-te que se renove em nós o espanto perante a tua criação.
Para que encontremos luz e coragem no mistério de comunhão que é a igreja, oremos ao Senhor. Amém.

Bibliografia

JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Ed. Paulinas, 1977.
VASCONCELLOS, Pedro Lima. A boa notícia segundo a comunidade de Lucas. São Leopoldo: CEBI, 1998.


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Autor(a): Renato Küntzer
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 3º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 24 / Versículo Inicial: 13 / Versículo Final: 35
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2013 / Volume: 38
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 29734
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