Lucas 5.1-11

Auxílio homilético

15/07/1979

Prédica: Lucas 5.1-11
Autor: Heinz Ehlert
Data Litúrgica: 5º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 15/07/1979
Proclamar Libertação - Volume: IV

 

VOCAÇÃO DE PE(S)CADORES PARA A OBRA DE JESUS

I — Considerações exegéticas

1. Anotações preliminares

A tradução de Almeida do texto original grego, conforme o NT editado por E. Nestle, não me parece exigir correção. As variantes apontadas no aparelho crítico do original grego também não são relevantes a ponto de modificarem o sentido da versão apresentada. Apenas uma poderia ser digna de nota, a qual no final (vv. 10 e 11) insere o seguinte: Eram, porém, os companheiros dele Tiago e João, os filhos de Zebedeu. Ele, pois, lhes falou Vamos, então, não sejais (mais) pescadores de peixes, pois eu vos farei pescadores de homens. Ao ouvirem isto. deixaram tudo sobre a terra (praia?) e lhe seguiram. Mas provavelmente se trata de uma inserção oriunda das passagens, paralelas (Mt 4.18-20 e Mc 1.16-20).

O trecho de nossa perícope esta no contexto da atuação de Jesus na Galileia. Depois de se referir a atuação de Jesus na sinagoga de Nazaré, onde foi rejeitado. Lucas conta duas curas, que destaca de outras gerais, e a retirada de Jesus a um lugar deserto, bem de acordo com Marcos Interessante, porém, é que a partir daqui Lucas insere a vocação dos primeiros discípulos. Assim estabelece uma sequência diferente dos outros dois evangelistas sinóticos, como nos mostra uma comparação dos trechos aludidos A sequência em Mt e Mc nos parece mais lógica: Primeiro temos a introdução dos primeiros discípulos (entre eles Simão e André e os filhos de Zebedeu) e depois, a cura da sogra de Simão (cf. Mc 1.16-20 e 21 ss). Quais teriam sido os motivos para Lucas estabelecer essa sequência? Difícil dizer. Uma cura da sogra de Simão antes da pesca maravilhosa talvez explicaria porque Jesus pediu justamente o barco deste pescador. O acúmulo de experiências (e não só uma) do poder de Jesus teriam então levado Simão à atitude e reconhecimento narrados no v.8.

Ao nosso trecho seguem narrativas de outras curas, acompanhando agora a sequência de Marcos Tudo dá conta da autoridade de Jesus e sua missão na terra.

2. Análise do trecho

Já nos vv. anteriores o evangelista menciona a massa do povo que está atrás de Jesus. Foi procurá-lo até no deserto. Por que? Não seria para ver outros milagres? Curas maravilhosas, expulsão de demônios? Isso se vê confirmado em 4.43 onde Jesus precisa destacar que foi enviado para que anuncie o evangelho do reino de Deus.... No início deste cap. 5 a multidão está aí mais ume vez junto ao mar da Galileia. Devem ter achado Jesus por lá. O desejo comum desta multidão é ouvir a palavra de Deus, justamente o evangelho que Jesus anuncia. Será que as praias do lago de Genezaré eram pontos de encontro para tal atividade? Depois da rejeição na Sinagoga, está aqui ao ar livre, e em torno dele a multidão. Ela o aperta: os mais atrás apertam os da frente, porque também querem chegar para ouvir melhor. Esta introdução talvez já indica que o milagre da pesca abundante não é o principal objetivo da narração.

Vv. 2 e 3: Não admira que haja barcos por lá. Um lago de muitos peixes atraía pescadores com seus barcos. Como que por acaso Jesus, apertado pela multidão, entra num dos barcos que era de Simão. Nada indica nesta altura que já se conheciam (cf., porém. 4,38ss) Para este dia os pescadores terminaram a sua tarefa: lavavam as redes. De maneira concisa o narrador consegue colocar uma porção de pormenores. Simão não recusou o pedido com a alegação, p, ex.. de que precisava terminar o serviço. Tudo indica que, segurando o barco em que Jesus se assentara. Simão acompanhava o ensino.

Nada ficamos sabendo sobre o conteúdo do ensinamento. Mas sem dúvida a boa nova (= evangelho) anunciada não era estranha a tradição da palavra de Deus (Antigo Testamento) que o povo conhecia.

Vv. 4 e 5: A duração do ensino é Jesus quem determina, como aliás tudo que vai acontecendo aqui Da multidão, volta-se para o indivíduo. Não agradece mas da uma estranha ordem a Simão: Faze-te ao largo (vai ao alto mar) e lançai as vossas redes para pescar. Simão é desafiado, mas logo são envolvidos os companheiros, no mínimo o irmão: lançai!

Antes Jesus pediu, agora ordena. Nada explica, nada promete (p.ex., que Simão e seus companheiros não hão de se arrepender, que irá valer a pena gastar o tempo e sujar as redes). É um desafio à confiança e obediência de Simão, E Simão aceita o desafio, demonstra a confiança e obediência que em nada se fia, senão na palavra de autoridade daquele que ele chama de mestre (vê nele só um desses que ensinam, p.ex., na sinagoga, ou reconhece algo mais?) E Simão assume a responsabilidade sozinho: lançarei. A palavra de Jesus lhe vale mais que a experiência (que nesta hora do dia não se pegam peixes) própria, os paradigmas conhecidos.

V. 7: Mas os outros o acompanham (na mesma confiança e obediência?). Lançadas as redes, não podem recolher num só barco a abundância de peixes. Precisam de ajuda. Os sócios vêm e participam do acontecimento. (Alguns comentaristas acham que a presente narração da pesca abundante teria uma paralela em João 21. Há, sem dúvida, uma semelhança. Mas as diferenças são tão sensíveis que não se precisa admitir a mesma fonte.) O mestre não é um estranho sonhador, mas sabe o que faz. A narração chega ao seu ponto culminante.

Vv. 8 e 9: Gesto (prostrou-se) e palavra (Senhor!) expressam o reconhecimento: Eu, pecador, estou diante do santo de Deus. O que sobreveio a Simão e aos seus companheiros é mais do que admiração; é terror. Aquele grande medo que se apodera da criatura, quando se vê frente a frente com o Senhor da criação. Lucas acrescenta aqui ao nome Simão o de Pedro, possivelmente para significar que ele se torna apóstolo através daquilo que aqui acontece (Schlatter, p.208).

O pedido, a ordem - nada disso foi problema para Simão Pedro, mas o seu próprio pecado. Ele se reconhece como transgressor da lei e da vontade de Deus. É um filho da desobediência (Ef 2.2). O contrário do justo que devia ser. Diante da bondade de Jesus capitula, a sua auto-confiança se foi. Está arrasado. Não pode haver comunhão entre o santo e justo, e o pecador. Por isso: Retira-te de mim. O puro deve ficar longe do impuro.

V. 10: Assim como Deus não abandonou Caim à sua própria sorte (Gn 4.14,15), assim Jesus revela toda a sua graça a Simão Pedro. Não temas! Quantas vezes a palavra de Deus não repete isso! (p.ex.: Mt 1.20; 14.27; 28.5; Lc 1.13; 2.10). Cristo não rejeita, não expulsa o pecador; ele o acolhe. Tira o medo. Recebe-o, dando-lhe o perdão. Porque de fato não pode haver comunhão, sem que o pecador seja justificado, perdoado. A nova comunhão baseia-se no perdão de Deus em Cristo.

Há pouco Pedro tinha que esquecer que era pescador (que, melhor do que um mestre, conhece as regras da pesca) e obedecer à palavra. Agora tem que esquecer que é um pecador (que na própria opinião não presta para nada) e obedecer à palavra de ser pescador de homens (Iwand, p. 232). Convocando-o para o seu serviço, Jesus supera o medo de Simão Pedro. Conquistar homens será doravante o seu trabalho, a sua profissão. Assim como há pouco, quando devia lançar as redes ao mar, Simão não recebe qualquer promessa quanto ao êxito de sua tarefa. O resultado daquela obediência, porém, lhe pode ser indicação de que no enviado de Deus não se confia em vão. Deve participar da obra de Cristo.

V. 11: Mais urna vez a reação de Simão Pedro (e, com ele, a de seus companheiros) é pronta obediência: Deixam tudo e o seguem. Não há ponderações e cálculos realistas. Não se pergunta como vai continuar, isto fica por conta do Senhor que os chamou. Ao discípulo cabe uma só atitude: Seguir, aprender agindo.

II — Meditação

1. Reflexão meditativa sobre o texto

As várias cenas do drama aqui narrado têm Jesus no papei central.

A sua mensagem é para a massa do povo. Isso marca antes de tudo a universalidade de sua missão. Por outro lado, trata-se de uma comunicação imediata. Não há necessidade de outros mediadores. Na história de Israel a época do êxodo deixou transparecer algo semelhante. A revelação no Sinai seria o momento da comunicação e direção direta de Deus a seu povo. Mas o povo preferiu um mediador. No seu ministério terreno Jesus está em contato direto com o povo simples, sem observação de ritos definidos, regras sagradas. Ele chama de bem-aventurados os humildes de espirito (Mt 5.3). Isto é, os que esperam tudo de Deus. que se sabem inteiramente dependentes de Deus. Não há necessidade de um preparo prévio para que o povo possa entender Jesus.

Em nosso trecho e no imediatamente anterior, a multidão do povo (simples) procura Jesus. Sem dúvida não foi apenas a sua pregação que os atraiu, mas também as curas milagrosas que fez. Foi necessário Jesus abafar um pouco o seu entusiasmo, destacando que foi enviado para anunciar o evangelho do reino de Deus (cf. 4.43). A multidão quer ouvir mais. Esta boa nova aparentemente interessa a eles. Estão ansiando por algo melhor. Não estão satisfeitos e saciados. Existe fome e sede de justiça. Esta fome e sede Jesus veio saciar. Será que entre nós existe hoje esta fome e sede? Certo é que existem insatisfeitos. Pessoas que buscam algo melhor. Há os que têm fome, os subnutridos, doentes, subempregados, analfabetos. Será que estão abertos ao evangelho? O que podemos observar e que, principalmente nas cidades, o povo pobre e atingido pelos cultos afrobrasileiros (umbanda, candomblé) e neo-orientais (igreja messiânica, seicho-no-ie). Estes cultos neo-pagãos oferecem soluções imediatas para os problemas da vido doenças, problemas de amor, de negócios, brigas familiares, separação dos falecidos. Os pentecostais, por outro lado, através de regras e leis e práticas entusiásticas também oferecem soluções para os problemas da vida. Não é hoje também assim que os homens buscam sinais concretos, coisas palpáveis para crer? (Mt 12.38.39: 16.1; Mc 8,12; Lc 11.16; Jo 4.48). Isso é próprio do ser humano. Ele quer ver para crer e aceitar. Mas por isso também é facilmente enganado pelos falsos profetas (tanto os que pregam novas religiões quanto os que apregoam ideologias e sistemas políticos). A história recente nos fornece exemplos suficientes disso.

Qual é o evangelho que Jesus anunciou? Que ele veio, enviado pelo Pai celestial, para buscar e salvar o que se havia perdido. Que na sua pessoa está o sinal do amor de Deus, o qual ama tanto o mundo que enviou seu Filho para que todo que nele crer não pereça mas tenha a vida eterna. Com outras palavras: O evangelho que Jesus comunica é que Deus quer reconduzir desde já os homens à comunhão consigo. Libertá-los dos condicionamentos que os separam dele. Anunciar isto, era parte de sua obra. Desta obra devem participar homens. Pessoas que, atingidas pessoalmente, se deixam conduzir ao discipulado. A presente narrativa da pesca abundante é um exemplo disso. Dissemos que Jesus tem o papel central neste drama: Ele provocou a concentração da multidão na praia que quer ouvir a palavra de Deus. Ele entra no barco de Simão. Ele pede que o afaste da praia. Ele ensina. Ele termina, quando acha oportuno. Ele dá ordens a Simão (e seus companheiros).

Ao se ausentar dos discípulos depois de sua ressurreição dentre os mortos, Jesus prometeu e- ,ar com eles todos os dias até o fim dos tempos (Mt 28,20). Jesus continua no papel central do drama da igreja, do nosso drama. Ele dirige. Então ninguém de nós é o diretor. Convém lembrar isso.

Somos confrontados com a palavra de Jesus. A palavra que exige antes de mais nada obediência. Obediência como expressão da confiança. Desafia-nos a nos arriscarmos. Sem outras garantias do que o testemunho de sua palavra. Assim, justamente, como aconteceu para Simão Pedro.

Ao obedecermos somos confrontados com a própria pessoa de Cristo Cada um passa pessoalmente pelo que Simão Pedro passou. Isto é: Eu sou um homem pecador! Comigo não vale a pena continuar. Não existem qualidades que me recomendem para a obra de Cristo Se ele apesar disso quer se utilizar de mim - ele é que o sabe. Mas como é que eu vou saber disso? Pedro recebeu a mensagem: Não temas, doravante serás pescador de homens. Foi direto. Estava claro: Jesus o queria utilizar em seu serviço. Eu, de minha parte, só posso deduzi-lo da ordem dada à igreja: Ide fazei discípulos de todas as nações. Ao consolar Pedro: Não temas, Jesus deu logo a tarefa Serás pescador de homens. O perdão que o evangelho oferece compromete. Dá oportunidade para demonstrar a gratidão. A nova comunhão é uma comunhão de serviço. Ser discípulo nunca significa apenas aprender as verdades eternas sobre Deus, sobre os homens. E aprender, agindo. O Evangelho compromete a cada um pessoalmente. Mas este compromisso o dirige aos outros. Desafia-o a pôr mãos à obra. E o que ele precisa para servir é a disposição tão somente. Disposição de servir. Disposição de deixar para trás o que não combina com o serviço de Cristo O tipo de serviço também é indicado por Cristo. Pode ser que ele se utilize de meus companheiros, também convocados, para me indicar o serviço. Talvez ele só mostre o campo, e eu preciso descobrir por mim o que fazer. E não há um campo vasto, uma multidão à qual precisamos comunicar o evangelho?

2. Escopo homilético

Ao anunciar o evangelho, Jesus chama pecadores ao arrependimento e, perdoados, convoca-os para a sua obra.

III — Indicações para a prédica

Podemos começar perguntando onde hoje se concentram multidões (nos estádios de futebol, mas também em torno de curandeiros ou pregadores como Rex Humbard). Multidões também se reuniram para ouvir Jesus. O importante não é que uma multidão se reúna (que alguém ou alguma coisa soube despertá-las) Importante é o que se oferece. Para satisfazer as necessidades mais elementares da vida, Jesus oferece o evangelho. O que significa isso, aprendemos na história de Lc 5.

Seguindo, pode-se acompanhar o drama que Lucas conta, até a reação de Pedro. Deve merecer destaque o papel de Jesus na condução da ação. Também o estranho comportamento de Pedro ao constatar a pesca abundante contra toda expectativa. Mas seria tão estranha mesmo a atitude de Pedro depois da descoberta que fez? Analisar qual foi a descoberta. Como o homem chega a ver a si mesmo à luz da Palavra de Deus, do poder de Deus.
Numa terceira parte viria a descrição da vocação do pecador perdoado, ao serviço de Cristo. Deter-se um pouco no medo. Em que reside o medo que os homens têm? Não é a incerteza quanto ao destino, medo da desgraça? Mostrando então como Jesus tira o medo de Simão Pedro.

Junto com o perdão vem a vocação. Vocação para o serviço. Pode ser geral e específica. Indispensável é a consciência de que a obra é de Cristo. Mostrar como é importante conviver na comunidade (igreja) para dentro dela descobrir e assumir a tarefa de evangelizar (pescar homens).

IV — Bibliografia

- SCHLATTER. A. Die Evangelien nach Markus und Lukas. Stuttgart, 1954.
- RENGSTORF, K.H. Das Evangelium nach Lukas. In: Das Neue Testament Deutsch. Vol. 3. Göttingen. 1949.
- IWAND, H.J. Meditação sobre Lucas 5,1-11, In: Herr tue meine Lippen auf. Vol. 1. 4a ed.. Wuppertal-Barmen, 1959.
- SCHIEDER, J. Meditação sobre Lucas 5, 1-11. In: Gepredigt den Voelkern. Vol. 1. Breklum, 1960.


Autor(a): Heinz Ehlert
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 6º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 5 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 11
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1979 / Volume: 4
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14587
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