Lucas 6.27-38

Auxílio Homilético

18/02/2001

Prédica: Lucas 6.27-38
Leituras: Gênesis 45.3-8a, (8b-12) 13-15 e 1 Coríntios 15.45-49b
Autor: Oneide Bobsin
Data Litúrgica: 7º. Domingo após Epifania
Data da Pregação:18/02/2001
Proclamar Libertação – Volume: XXVI

 

1. Introdução

Como a análise exegética do texto de Lucas 6.27-28 foi feita por Uwe Wegner no PL 20, parto dela em busca de outras considerações de cunho teológico e homilético, além de pretender comentar questões abertas por seu trabalho.

Por considerá-la própria de Lucas, o referido trabalho centraliza a sua análise na crítica socioeconômica, já que entre os destinatários de tal evangelho a distribuição dos bens marca posições distintas e assimétricas. Afirma a sua perspectiva ao considerar que em Lucas o amor ao inimigo é enquadrado nas questões de ordem material e econômica, não tanto nas de ordem sentimental ou afetiva (PL 20, p. 74). Com isso, abre outras perspectivas para a interpretação e pregação.

Em minha análise, no entanto, pretendo aprofundar as relações de trocas que permeiam o nosso convívio social e as práticas religiosas.

Coerente com a proposta, Uwe destaca na meditação exemplos do campo econômico e político. O inimigo se encontra nas relações econômicas. Somos lembrados de empresários que chantagearam dizendo que, se o Lula ganhasse a eleição, debandariam do país, em 1989. Logo, Lula seria o maior inimigo do empresariado. O segundo exemplo relaciona-se a bancos do governo, já que Lucas privilegia a questão dos empréstimos. A crítica recai sobre os grandes, que rece-bem anistias e absurdos parcelamentos das dívidas, enquanto aos pequenos se cobra até o último centavo (id., p. 78).

Segue realçando a ideia do inimigo econômico nas comunidades, quando considera que em muitas delas viúvas e desempregados são tratados como se fossem alguém das classes médias e altas. Descuidam-se da contribuição proporcional. Por fim, faz considerações a respeito das implicações de âmbito pessoal, referindo-se aos apelos aos nossos bolsos que vêm de toda parte. Nestes casos, os inimigos são aqueles e aquelas, pessoas pobres ou entidades filan-trópicas, que se utilizam de nossas dádivas para fins estranhos ou para benefícios próprios, respectivamente.

2.Outras perspectivas

Ao tratar da renúncia à violência e do amor ao inimigo ( Mt 5.38-48 e Lucas 6.27-38), Gerd Theissen (p. 100-132) descreve quatro motivações para a prática cristã: imitacionista, distintiva, de reciprocidade, e da recompensa escatológica. Qual ou quais destas ajudam a abrir o texto de Lucas? Vejamos, de forma breve, as características de cada uma, tendo o texto de Lucas no horizonte de análise.

No que se refere à imitatio Dei, o centro da motivação para o amor ao inimigo (p. 101) se fundamenta num comportamento ético, conforme o texto paralelo de Mt. No texto de Lucas, porém, o sede misericordiosos como também é misericordioso vosso Pai (Lc 6.36) relaciona a imitatio Dei à recompensa escatológica (Theissen, p. 102) e à condição de filhos do Altíssimo. Neste sentido, ser misericordioso como o Pai, que é bom para os ingratos e maus, não nos coloca ao lado de Deus, mas numa condição de filhos e filhas, que não se desesperam legalisticamente por não realizar em sua totalidade a difícil exigência da recusa da violência e do amor ao inimigo. Assim, somos libertados/as das vãs tentativas de fazer o céu na terra.

Como o futuro já ilumina o presente, as relações sociais e humanas trazem a marca da distinção. No aqui e agora, os cristãos podem se distinguir pela esperança; e o amor ao inimigo e a recusa à violência se constituem em distintivos que prenunciam a possibilidade de um mundo sem inimigos e violência. Que graça (xáris) alcançais se reproduzis a lógica da retribuição da sociedade? O caráter distintivo da ética que tem o Reino no horizonte separa para dentro do mundo (lógica sem graça) a comunidade cristã. Em ou¬tras palavras, quem não mostra a diferença cai na vala comum das pessoas ingratas (sem graça).

O amor ao inimigo e a renúncia à violência, sob o impacto escatológico, apontam para a reciprocidade, rompendo, desta forma, a lógica de retribuição entre as pessoas que projetam um Deus a partir da imanência ou de atributos humanos. A pergunta de Lucas pela recompensa denuncia a nossa lógica de trocas: dar ou emprestar, esperando o mesmo valor de volta, ou mais, como o sistema bancário. Portanto, no que tange ao relacionamento das pessoas cristãs com os pecadores, há uma estranha reciprocidade, que ainda não aponta para a graça de Deus. Deus não retribui. Logo, se emprestais àqueles de quem podem receber em troca, que graça alcançais? É evidente que o texto está se referindo a uma relação da pessoa cristã com os pecadores - enquanto categoria universal, distinta de pagãos, que é uma expressão pouco democrática e excludente - e não da relação graciosa de Deus. Por quê? A gratuidade da fé rompe com a reciprocidade, pois nada temos a dar, mas tudo a receber. Isto em relação a Deus. Portanto, Lucas é mais terrenal.

Na perspectiva escatológica, é possível imitar a ação futura de Deus. Theissen faz uma paráfrase: Sede misericordiosos como também o vosso Pai é misericordioso no juízo escatológico (Theissen, p. 108). Em outras palavras, ao recusarmos a violência e ao amarmos o inimigo, sinalizamos no presente um reino vindouro, onde não haverá inimigo e violência.

De fato, o inimigo está relacionado ao mundo econômico. Lucas está preocupado com a economia e as relações humanas bem concretas. E seu horizonte escatológico nos favorece uma relativização das trocas. Brincando com palavras modernas digo: Estamos no mercado, mas não somos dele. Isto faz uma grande diferença. Por quê? Porque vivemos no mercado como uma realidade provisória. Ele, na sua forma atual, não é o fim da história.

A perspectiva escatológica de Lucas encontra reforço no texto da epístola - l Co 15.45-49, indicado para o 7° Domingo após Epifania. Rompendo a sutileza do pensamento grego, que dicotomiza corpo e alma, Paulo nos mostra que o primeiro homem, Adão, corpo terrestre e corruptível, será transformado em corpo espiritual incorruptível. É o ser corruptível que se revestirá de incorruptibilidade. Logo, é o corpo que é eterno. Por isso, a economia, sentimentos e afetos, como dimensões de relações sociais e humanas, permanecem no horizonte do Reino de Deus.

3. Tentativa de atualização e exemplos

Ale aqui reproduzi ideias e as comentei. Agora, arrisco um passo mais pessoal, que tem como objetivo relacionar entre si a economia, as relações humanas e os sentimentos, já que o ouvido das destinatárias da comunidade parte do imediato e daquilo que é sentimental.

O dinheiro, como paixão ou como representação de valores, é o 1aço que nos une, possibilitando a sociedade. Ele é o sangue social, derramado por muitos em favor de poucos, no altar de uma economia concentradora de riqueza e socializadora de miséria. O dinheiro/sangue promove a comunhão de todos, na realização/frustração dos que por meio dele adquirem para viver e das maiorias que se frustram e se matam entre si na busca de conquistá-lo. É a lógica, portanto, do sacrifício; baseada na violência. E, como tal, é uma lógica de reciprocidade. Pobres e ricos oferecem dinheiro/sangue como vítima aos deuses desta sociedade, na ardente expectativa da prosperidade pela magia. Como vimos acima, Lucas quebra a lógica de reciprocidade nas relações humanas e económicas.

Como segundo ponto, destaco que não é mais possível desvincular o econômico do simbólico ou outras dimensões da realidade. As pessoas não compram mais meros objetos. A cada objeto é agregado um valor simbólico ou sentimental. Além disso, os sentimentos humanos também estão marcados pela lógica da troca, já que o dinheiro, enquanto paixão e representação de valores, perpassa o tecido social e as relações mais íntimas, na maioria das vezes. Dar e emprestar no campo dos sentimentos podem estar comprometidos pela lógica mercantilista. Mesmo em casamentos marcados pela violência, as relações de troca impedem rupturas que fariam ambos crescerem como indivíduos separadamente.

Em contrapartida, a descoberta da falsa impotência cria mecanismos e disposições para a busca de uma nova situação, onde a negociação se pauta pela igualdade de direitos, negando, assim, uma permuta pela violência. Reconhece-se o inimigo no machão violento, na elite concentradora de terra e de capital e suas forças arma-das, na política econômica do FMI e em outras formas de dominação, mas se rompe com a falsa impotência. Nesta perspectiva, amai o inimigo e recusar a violência significam reconhecer que existe inimigo, em primeiro lugar. Em segundo, ao não se igualar a ele e usar as suas armas, rompe-se com a sua lógica, estabelecendo um princípio segundo o qual o poder também está do lado de quem está vitimado.

Em outras palavras, ao recusar o uso da violência apelando para o poder judiciário, conselhos de defesa da mulher e do adolescente ou movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), inviabilizam a continuidade da violência. Tanto a mulher que busca os seus direitos quanto o MST, ao agirem de forma não violenta, dão demonstração de amor ao inimigo. Estão seguindo a lógica da reciprocidade desigual de Lucas: reconhece-se o inimigo e se lhe subtrai a sua lógica, tanto onde predomina a violência do pai-macho quanto a de elites autoritárias e concentradoras de riqueza. Portanto, reconhecer o inimigo e subtrair-lhe o poder a partir da descoberta da falsa impotência significa amá-lo.

Parafraseando e atualizando Lucas, digo: Se bateis em quem vos bate, que graça alcançais? Pois até mesmo os pecadores (ou pagãos) fazem isto. E se fazeis o mal ao que vos faz mal, que graça alcançais? Até os pecadores agem assim. E se devolveis na mesma altura, com certeza vos igualais aos inimigos que tanto criticais. Muito pelo contrário, amai vossos inimigos, fazei o bem para vós e para ele ao denunciá-lo à justiça e ao engajar-vos em movimentos que visem apropriar-se legalmente de bens que vos asseguram o poder da violência.

No campo afetivo e dos sentimentos também valem os mesmos conselhos. Se amais os vossos filhos e vossas filhas na esperança de que eles vos retribuirão em público, compensando as vossas frustrações profissionais, o que fazeis além de uma mera troca pagã? Se ajudais assistencialmente pessoas pobres para resolver as vossas angústias pessoais e vossa consciência pesada, incapaz de pedir perdão a Deus, em que sois diferentes das vacas de basã das colunas sociais que gastam mais em seus vestidos do que no objeto dado a uma creche? Se dais vossas roupas usadas para os pobres, buscando reconhecimento em vosso meio, no que sois diferentes de uma pessoa religiosa que faz caridade, pensando em voltar melhor na próxima reencarnação? Logo, amai os/as inimigos/as, integrando vossas instituições caritativas em projetos que vos colocam diante de contradições. Por que não reunir as meninas e os meninos de rua com as filhas e os filhos do pessoal do Lions e Rotary? Numa cidade do Vale dos Sinos, o pastor e a professora catequista acompanharam os odiados meninos de rua na limpeza e no ajardinamento das praças, coroando o projeto com um jantar entre os/as estigmatizados pela pobreza e a gurizada de classe média do Lions e do Rotary. Os inimigos se encontraram para um jantar, e os filhos de papai descobriram que menino/a de rua é gente.

Num lar violento, por exemplo, onde, por uma série de razões, os vínculos não se desfazem, mulheres deixam de ser violentadas, mesmo dormindo com o inimigo, quando este e sua violência estão sob o foco da justiça, de um movimento de mulheres ou de uma delegacia da mulher. Quando dona Noemi anunciou na OASE que seu esposo era violento, espalhando a notícia por toda a comunidade, o marido/inimigo/violento começou a se conter. Logo, ao tornar público o fato e ao sofrer pressão da comunidade, o marido foi introjetando normas que o faziam, pelo menos, não repetir a violência.

Por fim, um terceiro exemplo: numa escola pública de periferia, havia uma gangue, que era temida por causa de seus furtos e violência. Era, de fato, a grande inimiga no bairro. A diretora, porém, não se intimidou. Manteve um diálogo com o grupo. Cabe ressaltar que dois jovens da gangue queriam abandonar aquela vida, mas não tinham forças para tal. Um chegou a dizer que ele não tinha mais salvação! Mas o que a diretora fez de especial? Num gesto ousado, colocou-os como guardas da escola no recreio e nos intervalos. Sob os olhares de todos e fazendo o oposto do que faziam, modificaram os seus comportamentos no âmbito da escola. Desta forma, confirmaram a teoria de que, quando não é possível erradicar a violência, canalizá-la é o melhor caminho. Assim, diminuiu-se a violência ao demonstrar amor ao inimigo. A polícia, que se pautava pela reciprocidade da violência, fazendo da gangue a inimiga, gerava mais violência. Desta forma, a polícia, ao odiar o inimigo, reforça a espiral da violência.

4. Atualização narrativa

O/a pregador/a poderá tomar a história de José como exemplo para falar da mensagem de Lucas, já que o texto do AT indicado e Gn 45.3-8a,15. Além disso, a história de José, que se encontra em Gn 37-50, presta-se muito para uma narrativa. Pode-se narrar a história de José a partir da ótica de Lucas. Tal narrativa apresenta vários elementos de um drama: conflito entre irmãos, sonho, ódio, escravidão, sedução, poder, política econômica, fome e, acima de tudo, no horizonte das promessas de Deus, um fim que rompe com a lógica repetitiva da violência, resgatando, dessa forma, os laços de família. Enfim, um final feliz.

Como vêem, a história de José tem todos os elementos necessários para uma atualização da mensagem de Lucas. É a Bíblia interpretando a Bíblia, com a vantagem de uma narrativa que prende numa história dramática os/as ouvintes por sua plasticidade e dramaticidade. A vida é assim. Segue uma proposta de narrativa.

5.História de José é a nossa história

José tinha 17 anos. Passava parte do tempo apascentando os rebanhos de Jacó junto com seus irmãos. Sendo o filho de sua velhice, o pai o amava mais que os seus irmãos. A preferência paterna por José era visível. O pai lhe dera uma túnica adornada, que o destacava dos demais. O gesto do pai provocou o ódio dos irmãos.

Certo dia, José resolveu contar um sonho para os seus irmãos. E o ódio aumentou mais ainda. No sonho, todos estavam atando feixes no campo. De repente, o meu feixe, disse José, se levantou e ficou em pé, e os feixes de vocês rodearam-me e se prostraram di-ante de mim. Indignados com a pretensão de José, perguntaram-lhe: - Tu queres nos dominar?

Noutro dia, José teve um outro sonho. Sonhou que o sol, a lua e as estrelas se prostravam diante dele. Ao compartilhar o sonho com os irmãos e o pai, o velho o repreendeu: - Que sonho é este que tiveste? Iríamos nós então, eu, tua mãe e os teus irmãos, prostrar-nos por terra diante de ti?

Dias depois, lá estavam os irmãos apascentando o rebanho em Siquém. Mas, por ordem do pai, José ficara em casa. Certo dia, o pai pediu a José que fosse ver os irmãos e os rebanhos, pois queria saber notícias. Obediente ao pai, foi ao encontro dos irmãos, mas não os encontrou. E, após andar errante em busca deles, foi ajudado por um homem que indicou o lugar para onde os rebanhos foram deslocados.

Ao ser visto pelos irmãos, estes murmuraram dizendo: - Lá vem o sonhador! Ainda de longe tramaram a sua morte. - Vamos inalá-lo, jogá-lo numa cisterna e depois diremos ao pai que um animal o devorou. Mas Rubem não concordou com o plano. - Não va-mos derramar sangue, disse o irmão aos outros. Desistindo do assassinato, jogaram-no na cisterna sem a sua túnica. Depois sentaram para comer.

Enquanto comiam, viram se aproximar uma caravana de ismaelitas. Seus camelos estavam carregados de alcatira, bálsamos e ládano, que levavam para o Egito. Então disse Judá: - Por que vamos sujar nossas mãos de sangue? Vendemo-lo aos ismaelitas, mas não coloquemos a mão sobre ele, porque é nosso irmão e da mesma carne que nós. E assim procederam.

Ao voltar à cisterna, Rubem não encontrou mais seu irmão. Então tramaram a mentira da morte do irmão. Tomaram a túnica, mancharam-na de sangue de um bode degolado e enviaram-na para o pai, dizendo que um animal matara seu filho e o despedaçara. Ao receber a notícia, Jacó rasgou suas vestes, cingiu seus rins com um pano de saco e fez luto pelo seu filho por muito tempo. Como os filhos vieram consolá-lo, ele recusou toda consolação. Disse-lhes que levaria a sua dor para a sepultura, quando se juntaria ao filho morto.

No Egito, José fora vendido como escravo a Potifar, comandante da guarda de Faraó. Como o estrangeiro via que Deus fazia José prosperar em tudo em que colocava as mãos, foi- lhe confiado o posto de mordomo na casa do comandante. Agora, José, que era belo e forte, estava na casa do comandante de Faraó. Acontece que a mu¬lher de seu senhor se interessou por José e pediu para dormir com ele. Mas José se recusou, porque não queria perder a confiança do patrão, bem como não pecar contra Deus.

Como a mulher sempre voltava a insistir sem sucesso, tramou uma cilada contra José. Após assediá-lo, agarrou-o pela túnica, que ficou em suas mãos ao fugir. Então, pôs-se a gritar como se tivesse sido forçada a dormir com José. Pela segunda vez arrancaram a túnica de José. Ela é a prova de crime que não cometera. E José foi para a cadeia.

Na prisão, Deus estava com José. Também lá encontrou graças diante do carcereiro-chefe, o que lhe rendeu um posto mais tarde por ter interpretado sonhos de outros presos.

Como Faraó havia sonhado muito ultimamente, lembraram-se de José. Faraó sonhava com sete vacas gordas e sete vacas magras, que subiam do Nilo. E as vacas magras e feias devoraram as bem cevadas. Mais tarde, sonhou com sete espigas granadas e sete espigas mirradas. Preocupado com seus sonhos e um tanto conturbado, chamou os magos e sábios para decifrarem os sonhos. Foi então que o copeiro-mor se lembrou de um jovem hebreu, escravo do comandante da guarda de Faraó. Ao saber das interpretações dos sonhos, Faraó pediu que José se apresentasse diante dele. José se barbeou, vestiu uma boa roupa e se apresentou ao rei. Faraó, então, contou-lhe seu sonhos. Após ouvi-lo, José disse que fora só um sonho: Deus revelou ao Faraó o que vai realizar. As setes vacas gordas e as sete espigas granadas representam sete anos de fartura. As setes vacas magras e as sete espigas tenras representam sete anos de fome.

A repetição dos sonhos comprovou que Deus tinha pressa em realizar o seu plano. Logo, Faraó tomou decisões para encher de mantimentos os depósitos durante os sete anos gordos, como garantia para os tempos de penúria.

Grato pela interpretação dos sonhos, Faraó colocou José como ministro da economia, com plenos poderes sobre todo o Egito. E José percorreu todo o Egito em busca de alimentos para os celeiros do governo. Como ministro, José encheu de trigo todos os celeiros. Era tanto trigo como a areia do mar.

Também lhe foi dado uma esposa, com quem teve dois filhos. Pôs no primeiro o nome de Manassés, que significa: Deus me fez esquecer meus trabalhos e toda a minha família. O segundo foi chamado de Efraim, que significa: Deus me tornou fecundo na terra de minha infelicidade.

A vida de José ia muito bem. Sua qualidade de intérprete de sonhos o transformou em ministro de uma economia solidária, pois a fome chegou ao fim dos sete anos gordos. Por toda a terra do Egito havia fome. E o povo começou a gritar pedindo ajuda a Faraó. Este, por sua vez, pedia que o povo se dirigisse a José. Então José abriu os armazéns de trigo, vendendo-o para o povo faminto. Era um programa de combate à fome que contemplava todo o povo.

Como a fome se alastrou, Jacó aconselhou seu filhos a irem ao Egito comprar mantimentos. A notícia de que havia uma economia solidária havia se espraiado pelo mundo. E os irmãos desceram ao Egito para comprar alimentos; por ordem do pai, Benjamim, por precaução, ficou em casa. Misturando-se aos forasteiros, foram ao Egito e se prostraram diante de José. E José reconheceu seus irmãos, mas estes não aquele. Diante dos irmãos José simulou um golpe. Acusou-os de espiões e os prendeu. É evidente que José usava de um recurso para saber do irmão caçula. Para isso, deixou um preso enquanto os outros voltaram carregados de mantimentos.

Explicaram tudo para o pai Jacó. Foi difícil convencê-lo de que o senhor do Egito queria ver Benjamim. Depois de muita insistência, o pai cedeu. Como os mantimentos terminaram, voltaram ao Egito para buscar mais. Desta vez, porém, com Benjamim. Dias mais tarde estavam no Egito, desfazendo as confusões de José , as quais nada mais eram do que pretextos para se encontrar com os irmãos. E assim aconteceu. Diante de José, os irmãos deixam os presentes enviados por Jacó, como reconhecimento de sua bondade.

Então José perguntou pelo pai deles: - Ele ainda vive? - Sim, responderam eles. - E este é o irmão mais novo? - Sim. Então dirigiu-se a ele, rogando a graça de Deus. E José se apressou a sair do recinto porque sua vontade de chorar era grande.

Antes da volta, novamente José arma um esquema para ficar com o caçula. Pede ao atendente que coloque uma taça no meio das sacas de trigo de Benjamim. E isto aconteceu sem que tivessem percebido. E, estando longe do palácio, os guardas vêm ao encontro deles para revistar as sacas, encontrando numa delas a taça. Então, José manda prender Benjamim. Seus irmãos apelam para José em nome do pai Jacó. - Se voltarmos sem o caçula, nosso pai morrerá, pois o mais velho morreu. Este é o único filho de sua mãe com o nosso pai. Enquanto Judá insistia em levar de volta Benjamim, deixando em seu lugar outra pessoa como escravo, José não se conteve e começou a chorar. Pediu que os estranhos saíssem de sua presença para ficar a sós com os irmãos. Deu-se então a conhecer: - Eu sou José, a quem vocês venderam. Mas não fiquem tristes e aflitos por ter procedido assim, pois foi Deus quem fez eu vir antes para preservar a vida de vocês. Deus me enviou antes para preservar a nossa família e salvar as vidas para uma grande libertação. Assim, não foram vocês que me enviaram para cá, mas Deus...

Abraçaram-se em prantos; e José cobriu de beijos todos os seus irmãos. Depois disso ficaram juntos se entretendo.

Ao finalizar a narração da história de José, o/a pregador/a pode retomar a mensagem de Lucas, de acordo com a qual não há espaço para a violência e para a lógica da retribuição. José poderia ter feito cumprir a regra dominante, igualando-se aos pagãos: o ódio seria pago com ódio; a sua escravidão e venda fariam dele um inimigo dos irmãos. Ao contrário, como ministro de uma economia solidária, tornou presente a misericórdia de Deus, realizada em sua plenitude em Jesus posteriormente. Fez o bem aos que no passado o odiaram. Orou e torceu por quem o vendera como escravo. Não retribuiu a violência com violência. Perdeu por duas vezes a túnica sem pedi-la de volta. Enfim, amou quem o odiou. Assim, por meio de uma política econômica solidária antecipou, parcialmente, a misericórdia de Deus, na esperança da formação de um povo na terra prometida.

Com os olhos esperançosos no juízo vindouro, quando Deus manifestará a sua misericórdia como fez em Jesus, já podemos experimentar o amor ao indivíduo e a recusa à violência.

Bibliografia

MOSCOVICI, Serge. A máquina de fazer deuses. Rio de Janeiro : Imago, 1990.
SEGUNDO, Juan L. Massas e minorias. São Paulo : Loyola, 1975.
STÖGER, Alois. El Evangelio según Lucas. Barcelona : Herder, 1975.
THEISSEN, Gerd. Sociologia da comunidade primitiva. São Leopoldo : Sinodal, 1987.
WEGNER, Uwe. Lucas 6. 27-38. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo : Sinodal, 1994. v. 20, p. 73-81.


Autor(a): Oneide Bobsin
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: 7º Domingo após Epifania
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 27 / Versículo Final: 38
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2000 / Volume: 26
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17631
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