Marcos 5.21-24a,35-43

20/07/2003

Prédica: Marcos 5.21-24a,35-43
Leituras: Lamentações 3.22-33 e II Coríntios 8.1-9,13-14
Autor: Günter Karl Fritz Wehrmann
Data Litúrgica: 6º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 20/07/2003
Proclamar Libertação - Volume: XXVIII
Tema:

1. Primeiras impressões sobre a perícope

Chama atenção que a história da ressurreição da filha de Jairo é interrompida pela história da cura de uma mulher enferma (v. 24b-34). Visto que isso também acontece nos paralelos sinóticos, o fato deve ser intencional. Jesus é a esperança diante da efemeridade e mesmo diante da morte. Este tema também está contido na palavra de intróito 2 Tm 2.10.

Lm 3.22-33 é, por assim dizer, um prelúdio ao mesmo tema, ao afirmar que as misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos (v. 22), razão pela qual talvez ainda haja esperança (v. 29). Esta esperança caracteriza também o SI 30, que também serve de intróito.

Em 2 Co 8.1-9,13-14, o apóstolo Paulo elogia a fé das igrejas da Macedônia que, apesar de muita tribulação, estão livres para ofertar generosa, voluntária e proporcionalmente em favor da comunidade necessitada de Jerusalém. Ele convida os coríntios a seguirem o bom exemplo dos macedônios. Esta é a fé que responde às manifestações de misericórdia de Deus (cf. Rm 12.1), a fé que atua pelo amor (Gl 5.6). Este texto, que, à primeira vista, não parece ter ligação com o tema dos outros, representa a concretização do imperativo que decorre do indicativo representado pelos demais textos previstos para este domingo.

Em termos de delimitação da perícope, é possível pregar sobre o texto com inclusão, ou seja, Mc 5. 21-43, ou, como é a proposta para o PL 28, somente sobre a história da ressurreição da filha de Jairo que emoldura a história da cura da mulher enferma. Sem dúvida, esta última delimitação tem sua vantagem, visto que permite explorar melhor os detalhes poimênicos e pedagógicos no procedimento de Jesus e, sobretudo, a questão da ressurreição.

2. Meditando sobre o texto à luz da realidade

V. 21-24a: grande multidão afluiu até Jesus junto ao mar. Que pregador não gostaria de ser tão procurado e solicitado! O que o pessoal procura e espera? Conforme a estrutura de Mc, este momento foi precedido pela cura de um endemoninhado que escandalizou os moradores daquele lugar, a ponto de pedirem que Jesus se retirasse da terra deles (v. 17). Mas o curado testemunhou o que Jesus fizera com ele, ao que todos se admiraram (v. 20).

Segundo nossa perícope, Jairo, um dos líderes da sinagoga, lugar de ensino e culto, aflito por causa da enfermidade fatal de sua filha, prostra-se diante de Jesus. É um gesto de reverência e submissão. Assim o escravo se porta diante de seu senhor, sinalizando: disponha de mim!. Quando diz: Minha filhinha está à morte!, expressa a gravidade da doença da filha querida. Ao pedir vem, impõe as mãos sobre ela, ele pensa em oração com imposição de mãos. Ele sabe do podei da oração com imposição das mãos. Provavelmente nós, luteranos, que tendemos a intelectualizar demasiadamente as coisas espirituais, precisemos reaprender a dimensão concreta e corporal das palavras e dos gestos espirituais. Penso, por exemplo, na oração junto a pessoas enfermas ou moribundas, na bênção batismal e matrimonial e em outros momentos, como a ordenação, em que o contato com as mãos é extremamente importante para que a pessoa sinta o calor, o tremor, a esperança e a força que se transmitem pelo toque físico.

Jairo, o líder religioso, espera que assim a filha seja salva, liberta do mal, curada em corpo, espírito e alma. Curada integralmente, ela viverá. Cura integral é o desafio atual contra toda uma medicina especializada que seciona e esfacela o ser humano em partes e, frequentemente, não mais vê e muito menos trata a pessoa como um todo.

V. 35: Tarde demais! Demorou demais! Parece que é por isso que os sinóticos interromperam a história com outra cura que aconteceu durante o caminho, para que Jesus chegasse tarde demais à casa de Jairo, onde agonizava a filhinha amada. Amigos, familiares ou parentes vão ao encontro de Jairo para trazer-lhe a notícia de morte. São lhes ditas palavras aparentemente duras e sem jeito poimênico. Fazem de conta como se estivessem preocupados em não atrapalhar o Mês tre. É isso que ele lhes parece, nada mais! Penso nos discípulos que queriam afastar as mães que, com seus nenês no colo, aproximavam se de Jesus para que os abençoasse (Mc 10.13-16). Esse tarde de mais é a triste experiência de médicos quando seus esforços de reanimação se evidenciam inúteis ou quando a cirurgia é cancelada por causa das metástases espalhadas por todo o corpo. Eles precisariam de ajuda para a hora em que é preciso informar os familiares. Que desafio para instalar capelanias hospitalares!

V. 36: Jesus é poimênico. Ignora a notícia da morte e se dirige ao pai aflito e desconcertado: Não temas, crê somente! Quando nós tentamos dizer, em tal situação, não tenha medo, sentimo-nos desconfortáveis, porque nós mesmos estamos amedrontados e aflitos por estar sujeitos ao mesmo poder da efemeridade e da morte. Falta-nos, afinal, a autoridade. Por isso, é melhor silenciar e colocar o braço no ombro da pessoa desesperada. Quando, porém, Jesus fala não temas, é diferente, pois fala aquele a quem foi dada toda autoridade e que assentou-se à destra de Deus (Mc 16.19).

Crê somente é o convite para confiar naquele que é Senhor sobre doença e morte. Confiar - não apenas contra as aparências como se a morte não fosse a dura e cruel realidade - mas confiar contra toda a realidade nua e crua de morte. Apostar nas possibilidades de Deus que cria a partir do nada, como o fez na criação do mundo. Isto significa desprender os olhos da realidade que nos cerca, prende e abala e erguer a cabeça para enxergar a luz que vem lá da frente e do alto. Deus ainda pode começar onde nossas possibilidades já acabaram.

V. 37-40a: Jesus se faz acompanhar pelos três discípulos mais achegados. Não vai sozinho. Talvez para ter reforço e apoio, ou para lhes ensinar algo importante e muito precioso, ou para haver testemunhas.

Chegando à casa enlutada, o cerimonial de lamentação, choro e pranto - parte do rito de velório - está em pleno andamento. Ele não o proíbe, como fazem determinados convertidos que acham que cristão não chora. Mas Jesus pergunta pelo motivo do choro, visto que a criança não está morta, mas dorme.

O que ele quer dizer? Ele acha mesmo que o pessoal se enganou no diagnóstico e que se trata apenas de uma morte aparente, que explicaríamos como desmaio ou semicoma? Isto seria ridículo. Por isso, riram-se dele. Há outras tentativas de explicação a partir da gramática grega (Grundmann, p. 153) que revelam aspectos interessantes, mas não satisfazem plenamente. O texto não responde a pergunta, mas reluta o que Jesus faz e diz. Portanto, resistamos à tentação de inventar Uma resposta. Contudo, aquilo que Jesus faz e diz manifesta o seu senhorio sobre doença e morte. É isso que importa considerar.

V 40c-42: Jesus manda que todo o pessoal sala da casa do velório e, com os três discípulos, o pai e a mãe da menina, entra no quarto em que está sendo velada a criança falecida que dorme. Tomando-a pela mão (observe-se novamente a importância do contato físico, do toque!), ordena em aramaico, a língua do povo: Menina, eu te mando, levanta-te. Ele tem autoridade para mandar. Já em Mc 4.41, após Jesus ter acalmado uma tempestade, admirados e espantados perguntaram: Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem? Será que ele mesmo o Senhor, ó kyrios, para quem já apontávamos ao citar Mc 16.19?

Sua ordem - levanta-te - é obedecida imediatamente. O que ele diz acontece. Sua palavra tem poder, é autêntica. É a palavra criadora (dabar). E a menina se levanta e se põe a andar. Ela vive, foi vivificada, recriada. Como alguém que volta do desmaio ou do coma, é recriada com o mesmo corpo, a mesma alma e o mesmo espírito, pessoa integral, mas passageira e sujeita ao tempo e ao espaço, como antes.

V. 42b: A reação é de admiração, espanto e êxtase que ultrapassam e transcendem o entendimento humano.

V. 43: A ordem de Jesus - que ninguém o saiba - alude ao segredo messiânico (4.10), testemunhado por Pedro em Mc 8.29, pelas palavras tu és o Cristo. Reconhecer, aceitar e glorificar seu senhorio e o objetivo último de todos os sinais e milagres, também do testemunha do em nossa perícope.

A ordem de dar comida para a menina expressa, além da preocupação com as necessidades básicas humanas, um cuidado pedagógico a menina realmente está viva em espírito, alma e corpo. Justamente esta dimensão corporal é destacada contra uma compreensão mera mente espiritualista. Isso é digno de nota também hoje, num contexto fortemente marcado pelo espiritismo. Nos testemunhos sobre a ressurreição de Jesus, esta dimensão corporal também é destacada, especialmente em Lc 24.43, onde ele comeu na presença dos discípulos. Drs sã maneira, Jesus queria superar as dúvidas sobre sua ressurreição.

3. Reflexão teológico-sistemática sobre a ressurreição

Há cristãos achando que seria mais fácil crer na ressurreição dos mortos se Jesus também hoje desse uma prova de seu poder vivificador e fizesse ressurgir alguém dentre os mortos, a exemplo da filha de Jairo ou do filho da viúva de Naim (Lc 7.11-17). Esquecem, porém, o fato de que ambos os casos não tratam daquela ressurreição dos mortos para a vida eterna, de que Paulo fala em l Co 15. Aquela será com novo corpo Embora possa ser identificado com o nosso atual, será bem diferente Não mais estará sujeito ao espaço nem ao tempo, será ilimitado. Será corporal, sim, porque o jeito de Deus é o de tornar-se concreto, palpável, encarnado. Deus preza o corporal, fato que os coríntios e muitos cristãos depois deles até aos nossos dias esquecem.

A ressurreição da filha de Jairo, porém, ainda não é para a vida eterna, mas apenas para esta vida passageira. A menina foi vivificada, devendo também morrer como todos nós morreremos.

Este fato poderia evocar grande desilusão e desapontamento, se nele quiséssemos ver uma prova da ressurreição para a vida eterna. Contudo, uma vez afastado esse mal-entendido, percebemos nele uma manifestação do senhorio libertador e vivificador de Cristo, que preza e valoriza esta vida integral, inclusive com dimensão corporal! Ela já serve, sim, como antegozo e antecipação daquela vida eterna que ele criará tio nada, no final dos tempos, quando ele voltar em majestade e glória.

É por causa desta esperança que não nos precisamos acomodar diante das manifestações da não-vida e da morte, nem resignar diante lidas. Muito antes, com todos os meios que Deus põe à nossa disposição, lutamos para resgatar, preservar e promover a vida ameaçada. Quando acontece cura, ou mesmo uma volta do estado de desmaio ou semicoma, podemos ver nisso um sinal do poder vivificador de Deus, que se utiliza dos meios da medicina e da ciência. Quando todos os esforços humanos para resgatar a vida ameaçada não levam à cura ou volta, podemos confiar na mesma misericórdia de Deus. Ela há de nos alcançar também no vale da sombra da morte e do luto (cf. Sl 23.4; Jo 10.10).

Esta misericórdia de Cristo, pois, é a razão pela qual apostamos na vida aqui e agora. Empenhamo-nos em recebê-la com gratidão. E por gratidão a repartimos com os que dela carecem, a exemplo dos macedônios que socorreram a comunidade necessitada em Jerusalém.

4. Dicas para a prédica

a) Em nosso contexto, marcado por filosofias e conceituações que se referem à imortalidade da alma, ao espiritismo ou mesmo ao existencialismo, importa decodificar e articular a pergunta pela razão e pelo sentido de viver. Isso precisa acontecer do modo mais contextual possível para despertar o interesse dos ouvintes.

b) Diante de tal perguntar, o texto pode ser narrado de maneira atualizada e interpretado a exemplo de nosso item 3, tendo presente a reflexão teológico-sistemática.

c) A concretização do imperativo dar-se-ia como decorrência da misericórdia de Deus que preza e valoriza a vida integral, inclusive o corporal. Já que a leitura da epístola foi de 2 Co 8, seria prudente aproveitar a questão da contribuição proporcional e espontânea, com vistas à viabilização da missão que Deus quer realizar através da comunidade e da igreja.

Num procedimento inusitado, o texto-base pode ser lido, no final, como conclusão da prédica. Provavelmente, os ouvintes o perceberão de um jeito novo.

5. Subsídios litúrgicos

Intróito: Salmo 30.1-5 ou 2 Tm 2.10

Confissão de pecados: Bondoso Deus, tu manifestaste teu poder libertador e vivificador em tantas situações de nossa vida, como, por exemplo, em perigo ou em doença. Mesmo em caso de morte e luto nos tens assistido, através de pessoas queridas e sensíveis. Nós, porém, muitas vezes nos esquecemos disso, principalmente quando entramos em crise. Então, entramos em desespero ou nos tornamos insensíveis para com a dor alheia e não percebemos o braço que tu nos estendes, através de uma pessoa-irmã. Perdoa e renova-nos, por causa de Jesus Cristo e ouve a nossa prece quando cantamos: Senhor, tem piedade!

Absolvição: O salmista lembra da misericórdia de Deus para com os que nele confiam (ler Sl 30.5).

Oração do dia: Louvado sejas, bondoso e misericordioso Deus, porque tu fazes que o choro não seja a realidade última. Muito antes, possibilitas que seja vencido pela alegria. Manifesta o teu poder neste sentido, também agora, quando ouvirmos tua palavra e depois nos aproximarmos da tua mesa. Faz-nos perceber e experimentar algo do teu poder vivificador que cria do nada, por causa de Jesus Cristo, que contigo e com o Espírito Santo vive e reina para sempre. Amém.

Leituras: Lm 3.22-33; l Co 8.1-9,13-14

Aspectos para intercessão: agradecimento pela esperança da ressurreição dos mortos para a vida eterna; agradecimento pelas manifestações de misericórdia em termos de cura; agradecimento pelas manifestações de solidariedade e apoio em sofrimentos de morte e luto, pedir que nos conceda o poder do Espírito Santo para nos tornar sensíveis ao sofrimento alheio; que emprestemos nosso tempo, ouvido e ombro para pessoas enlutadas; que lutemos em favor do resgate e da preservação de vida digna para todas as pessoas que sofrem, especial mente as que não têm acesso aos meios de saúde; que Deus nos torne comunidade de cura; que o Espírito Santo venha ao nosso encontro, por meio da ceia do Senhor e nos fortaleça, assim que surjam sinais concretos de antecipação da vida eterna, até que Cristo mesmo estabeleça, em definitivo, seu reino de justiça e paz.

Hinos: Vem, Espírito de Deus (HPD [= Hinos do Povo de Deu.s| 2,318); Cristo venceu a morte (HPD 1,67); Dá-nos olhos claros (HPD 1,166)

Bibliografia

BARTHOLOMAE, Gesa. 13. Sonntag im Jahreskreis (B), Markus 5,21-'M 35b-43. In: MELLINGHOFF, Gerhard (Schriftleitung).Meditative Zugänge zu Gottesdienst und Predigt. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1997. p. 236-240.
GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Markus. In: BAUMBACH, Günter et alii. Theologischer Kommentar zum Neuen Testament. 8. Aufl. Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1980. p. 149-154.

Proclamar Libertação 28
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Günter Karl Fritz Wehrmann
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 6º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Marcos / Capitulo: 5 / Versículo Inicial: 21 / Versículo Final: 24
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2002 / Volume: 28
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7071
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Não há pecado maior do que não crermos no perdão dos pecados. Este é o pecado contra o Espírito Santo.
Martim Lutero
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