Mateus 14.22-33

Auxílio Homilético

10/08/2014

Prédica: Mateus 14.22-33
Leituras: 1 Reis 19.9-18 e Romanos 10.5-15
Autor: Léo Zeno Konzen
Data Litúrgica: 9º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 10/08/2014
Proclamar Libertação - Volume: XXXVIII

1. Introdução

Elias foi um grande profeta; Jesus, maior ainda. As comunidades cristãs também são chamadas a ser proféticas. Elias, Jesus, os discípulos e discípulas dele tiveram e terão de renovar discernimentos e refazer a própria experiência de Deus para ser capazes de continuar assumindo a missão que Deus lhes confiou e confia.

Elias (1ª leitura) retira-se para o Horebe, o monte do encontro de Deus com Moisés. Ele está em crise, porque sua missão profética lhe parece inútil e difícil demais. Um novo encontro com Deus fá-lo rever sua teologia e encaminha-o para um novo jeito de exercer a profecia. Ele percebe que não está tão só quanto imaginava.

A Carta aos Romanos (2ª leitura) tem diante de si a grande crise vivida pelas comunidades em torno da maneira de ser fiel a Deus: ou com base no cumprimento da Lei, ou na fé, vale dizer no seguimento de Jesus. O texto de hoje proclama solenemente, repetindo a profecia de Joel (3.2), que fala dos dias em que o Espírito de Deus será derramado sobre todos os viventes: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”.

Os discípulos de Jesus também passam por crises. Após a partilha dos pães, Jesus manda-os embarcar para a outra margem. Na difícil travessia, em noite de ventos contrários, Jesus proporciona-lhes uma nova experiência de presença e atuação de Deus. Eles poderão e deverão continuar apostando no seguimento de Jesus, descobrindo novas implicações dessa prática.

No dia dos pais, associamos a fé, as alegrias e as dificuldades dos profetas e discípulos de Jesus com as alegrias, incertezas, dificuldades, busca de luzes e de novos jeitos de ser de nossos pais.

2. Exegese

Mateus é o evangelho da nova justiça do reino de Deus. O texto deste domingo situa-se na segunda parte do evangelho, na qual Jesus, após ter proclamado o reino de Deus por ações e ensinamentos (primeira parte), organiza e lidera o novo povo de Deus (13.53-28.20). Nosso texto faz parte do “livrinho” que apresenta o nascimento de um novo povo a partir da ação de Jesus (13.53-18,34).

O relato apresenta uma cena de teofania, na qual Jesus aparece aos discípulos caminhando sobre as águas do mar e transmitindo-lhes confiança (“Tende confiança, sou eu, não tenhais medo”). O resultado final é o reconhecimento de Jesus como Filho de Deus, manifestado por meio de um gesto (prostram-se diante dele) e de palavras (“verdadeiramente, tu és Filho de Deus”).

O episódio também é narrado por Marcos (6.45-52) e João (6.15-21), mas é omitido por Lucas. Os três evangelhos apresentam concordâncias em pontos importantes. Todos colocam a cena logo após aquela da alimentação de multidões com a partilha de alguns pães e peixes. Os três falam de uma retirada de Jesus após a cena dos pães e antes de sua aparição sobre o mar para ficar a sós – para orar, segundo Mateus e Marcos. Os mesmos dois também dizem que Jesus forçou ou obrigou os discípulos a embarcar e que Jesus mesmo despediu a multidão. Segundo João, ninguém despediu a multidão, e Jesus fugiu do local, refugiando--se sozinho na montanha, porque queriam pegá-lo para fazê-lo rei, e os discípulos por conta própria descem ao mar e embarcam para Cafarnaum. Nos três, os discípulos ficam amedrontados com a aparição de Jesus sobre as águas e (em Mt e Mc) julgam que estão diante de um fantasma. A navegação é difícil, pois o vento lhes era contrário (Mt e Mc), sopra um vento forte e o mar vai se encrespando (Jo), o barco é agitado pelas ondas (Mt). Nos três, o barco já se encontra a uma distância de muitos estádios (vinte e cinco a trinta, segundo Jo). Em todos, Jesus manifesta-se com a mesma expressão: “Sou eu. Não temais”. Mateus e Marcos colocam antes dessa expressão as palavras: “Tende confiança”.

As diferenças entre os três relatos também são facilmente visíveis. A mais evidente é que somente Mateus inclui a cena de Pedro indo ao encontro de Jesus, caminhando sobre as águas e começando a afundar. O fim do relato é próprio em cada um: em Mateus, os que estão no barco prostram-se diante de Jesus e proclamam-no Filho de Deus; em Marcos, eles estão cheios de espanto, e seu coração está endurecido porque não tinham entendido nada a respeito dos pães (cena anterior); em João, os discípulos querem recolher Jesus no barco, mas esse chega imediatamente à terra aonde vão. O final do relato de Mateus relaciona a cena àquela da cruz, na qual o centurião diz a mesma frase que os discípulos aqui: “Verdadeiramente, este era Filho de Deus” (27.54).

Esse olhar sinótico facilita perceber a perspectiva com a qual Mateus apresenta o episódio. Ele o relaciona ao episódio anterior, aquele dos pães. O fato de Jesus forçar (ou obrigar) os discípulos a embarcar e aguardá-lo na outra margem, enquanto ele se retira a sós para orar, mostra que se estabeleceu uma crise. Jesus mesmo despede a multidão, quando antes da cena dos pães ele não permitiu que os discípulos o fizessem, e afasta-se também dos discípulos. A situação parece ser de risco, diante do qual Jesus precisa tomar medidas. Qual será a ameaça? O perigo pode estar na tentação de um messianismo milagreiro e paternalista, já anunciado na tentação de transformar pedras em pães (4.3). Esse perigo atinge a multidão – o que é explicitado melhor no Evangelho de João, pois a multidão quer pegá-lo e fazê-lo rei –, envolve os discípulos – o que parece melhor expresso em Marcos, onde eles ficam com muito medo, pois não entenderam nada a respeito dos pães – e, de certa forma, envolve o próprio Jesus, pois ele se afasta da multidão e dos discípulos para orar. Embora os evangelhos não informem o conteúdo dessa oração, pode-se presumir que ela tenha sido um momento de avaliação e discernimento diante de Deus a respeito dos rumos de seu projeto.

O fato de Jesus obrigar os discípulos a embarcar pode evocar a violenta separação ocasionada pela morte de Jesus na cruz. Daí em diante, eles tiveram de embarcar sozinhos, seguindo o pedido de Jesus de levar adiante o projeto da justiça do Reino do Céu (“Ide por todo o mundo... Estarei convosco todos os dias...” – Mt 28.19-20). O barco evoca as comunidades, a igreja. As dificuldades dessa caminhada, que na época da redação dos evangelhos já somava algumas décadas (o barco já está a muitos estádios), estão representadas pela noite, pela agitação das ondas e pelo vento contrário.

A aparição de Jesus faz lembrar aquelas do Jesus ressuscitado e evoca também características de Deus, segundo relatos do Antigo Testamento (só Deus pode caminhar sobre as águas). Nesse contexto, o relato de Mateus surpreende. Ele é o único que apresenta a proposta ousada de Pedro de querer participar da divindade de Jesus, que se manifesta na cena. E Jesus não o censura por isso; ao contrário, convida-o a vir ao encontro dele, caminhando sobre as águas. E a ousadia resulta em sucesso. Porém, mesmo que o vento não tivesse aumentado – o texto apenas diz “sentindo o vento” –, Pedro vacila e começa a afundar. Grita então por salvação e é atendido por Jesus, que prontamente lhe estende a mão e o repreende pela dúvida, que expressa fraqueza na fé.

A conclusão do texto também surpreende em Mateus: os que estão no barco têm um comportamento exemplar. A comunidade pode sempre inspirar-se neles.

3. Meditação

A crise por causa dos pães é o ponto de partida da narrativa sobre a qual estamos meditando neste domingo. Compreender a cena dos pães e peixes, não só teórica, mas também existencial e concretamente, não é fácil para os discípulos. Por isso é necessário que Jesus provoque uma ruptura, um distanciamento entre ele e os discípulos e despeça também as multidões. Ele mesmo precisa de um tempo para estar a sós, a fim de discernir sobre a continuidade do processo desencadeado por suas práticas e prédicas.

A crise não impede que a missão continue. Jesus “obriga” os discípulos a embarcar para a outra margem, o que tem um duplo significado: eles devem aprofundar a compreensão da missão e precisam também levá-la adiante, fazendo-a chegar a outros lugares. Essa é também a experiência que fazem as comunidades após a morte violenta de Jesus. Elas precisam compreender com nova luz esse acontecimento e levar adiante a proposta de Jesus.

Sem entrar em polêmicas, precisamos olhar também hoje com olhos críticos as propostas que querem limitar Jesus a ser um fazedor de milagres, que resolvam nossos problemas de saúde, emprego, vícios etc., sem compreender as implicações educacionais, sociais e políticas da cena dos pães e de toda a prática de Jesus.

O seguimento de Jesus, concretizando a lição dos pães, traz consigo momentos de dificuldades e até de sensação de abandono. As propostas da sociedade capitalista e consumista conflitam com a proposta da partilha solidária e sóbria dos pães. Os discípulos e as discípulas de Jesus não estão isentos da tentação de resolver tudo dentro dessa lógica, propondo alguns remendos ao sistema excludente e gerador de morte. Quando pensam e agem de forma mais radical, são considerados sonhadores e fora da realidade, antiquados e ultrapassados... ou ainda coisas piores. Essa experiência produz também a sensação de estar “remando contra a correnteza”, de ficar isolado, de ser como aquele passarinho que, de bico em bico, busca um pouco de água para apagar o incêndio da floresta. E surge até a acusação (e mesmo o sentimento) de que esse modo de ser não proporciona experiências “quentes” de Deus... O seguimento de Jesus parece proporcionar abandono de Deus, não sensações de presença. E quando ele aparece, parece um fantasma que causa medo...

Aí entra a contribuição principal de nosso texto. No processo de andar no barco rumo a outras margens, mesmo nas noites de ventos contrários, Jesus não abandona as comunidades. Ele se manifesta em sua dimensão mais profunda. E ressuscita seus discípulos e discípulas, dizendo-lhes palavras de matiz divino: “Tende confiança, sou eu, não tenhais medo”. Eles precisam abrir os olhos para ver na escuridão da noite a presença confortadora e encorajadora de Jesus, ele é a presença de Deus com eles. É o “Emanuel”, o “Deus conosco”, tema tão caro ao Evangelho de Mateus. No final do evangelho, ele promete permanecer sempre com seus discípulos (28.20).

Mateus radicaliza a narração mostrando a ousadia de Pedro, que quer ser associado à divindade de Jesus, manifestada no caminhar sobre as águas. Não será demasiado o que Pedro pretende? Pessoas humanas podem aspirar a participar da condição divina? Não se trata de uma usurpação? Mateus acredita que não. Para ele, Pedro não erra ao pedir para que Jesus o faça caminhar também sobre as águas. O erro dele vem só depois, quando fica com medo por causa do vento que sente (vento que não o intimidara no começo). A lição que fica é que, para participar da divindade de Jesus, é necessário ser forte na fé, não um “homem fraco na fé”. Fé parece significar confiança. Confiança na pessoa e também no projeto de Jesus.

Por fim, merece nossa atenção o discernimento exemplar dos discípulos. Quando Jesus e Pedro sobem no barco, o vento amaina, e todos fazem o discernimento correto e agem de modo coerente: eles se prostram diante dele e manifestam, também por palavras, sua interpretação de Jesus, que é reconhecido como “Filho de Deus”.

Esse discernimento, porém, não está ainda isento de ambiguidades. Pouco depois, de novo os discípulos, por meio de Pedro, reconhecem Jesus como “o Cristo, o filho do Deus vivo” (16.16). Jesus elogia essa acolhida da revelação de Deus. Mas, em seguida, Pedro é alvo de forte repreensão de Jesus: “Afasta-te de mim, Satanás! Tu me serves de pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens” (16.23). O discernimento, portanto, precisa amadurecer constantemente.

4. Imagens para a prédica

O próprio texto do evangelho oferece uma boa imagem para a prédica: somos o barco dos discípulos e discípulas de Jesus, que nos encaminha para outras margens. Precisamos ser igreja missionária. Os ventos contrários tornam difícil a navegação. E a proposta da justiça do reino de Deus pode parecer muito materialista diante de propostas “mais espirituais”. Pode também parecer muito política diante de propostas de curar por meio de milagres os males que não queremos enfrentar com políticas públicas ou organizações comunitárias.

Quanto à ousadia de Pedro de querer participar da divindade de Jesus, pode-se relacioná-la ao Evangelho de João: “Quem crê em mim fará as obras que faço e fará até maiores do que elas...” (14.12); “Se alguém me ama, guardará minha palavra; e o meu Pai o amará, e a ele viremos e nele estabeleceremos morada” (14.23).

A reação final dos discípulos deve ser entendida para além dela mesma. Prostrar-se diante de Jesus e reconhecer sua divindade não é o objetivo maior do relato. Esse visa, com a manifestação da divindade de Jesus, à superação do medo e à acolhida corajosa da proposta de Jesus, sintetizada na cena dos pães.

A missão dos pais também exige constantes deslocamentos para outras margens. Participar da divindade de Jesus, como Pedro se propôs, pode significar assumir de maneira amorosa e irrenunciável a missão da paternidade, apesar dos erros, das fraquezas e dos questionamentos que ocorrem nessa caminhada.

5. Subsídios litúrgicos

Neste domingo, podem ser priorizados hinos que contenham a imagem do barco e que expressem nossa fé na presença de Deus caminhando conosco, encorajando-nos na missão que dele recebemos.

Pode-se enriquecer o ambiente litúrgico com um barco que servirá de código para toda a reflexão e oração do domingo.

Momentos de perdão, de louvor e de intercessão ficarão ricos se relacionarem o dia dos pais ao evangelho do domingo.

Bibliografia

MATEOS, Juan; CAMACHO, Fernando. O Evangelho de Mateus: leitura comentada. São Paulo: Paulinas, 1993.
STORNIOLO, Ivo. Como Ler o Evangelho de Mateus: o caminho da justiça. São Paulo: Paulinas, 1990.


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Autor(a): Léo Zeno Konzen
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 9º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 14 / Versículo Inicial: 22 / Versículo Final: 33
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2013 / Volume: 38
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 28660
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