Mateus 17.1-9

Auxílio homilético

27/01/1985

Prédica: Mateus 17.1-9
Autor: Norman K. Bakken
Data Litúrgica: Último Domingo após Epifania
Data da Pregação: 27/01/1985
Proclamar Libertação – Volume X
 

Jesus transformado

I - Introdução

Para Paul Ricoeur, eminente professor de Filosofia e Teologia na Universidade de Chicago, o Evangelho não é simplesmente um relato da vida, do ensino, do trabalho, da morte e da ressurreição de Jesus, mas a comunicação de uma ação confessante, a comunicação através da qual é conferida ao leitor competência para entender o que ocorre dentro do texto.(1) Ricoeur também diz que os textos bíblicos têm níveis diversos de sentido: desde sentidos simples, óbvios, univalentes, literais e descritivos até sentidos múltiplos, intencionalmente ambíguos, paradigmáticos, parabólicos, simbólicos e multivalentes, como a linguagem de fé. Através de imagens bem conhecidas, nosso texto busca representar experiências fantásticas, olhando, analogicamente, cara a cara, os efeitos da presença de Deus e as implicações da revelação de Deus em Jesus Cristo.

II — O texto: narrativa com sentidos múltiplos

Nosso texto encontra paralelos em Mc 9.2-10 e Lc 9.28-36. Há imagens afins em Êx 34.29s; Sl 2.7; 2 Sm 7.14; Dt 18.15; Is 42.1; Mt 5.17s; 7.12; 11.13; Lc 16.16; Rm 5.14; 10.4.

As observações de Paul Ricoeur talvez sirvam como catalisadores para nossa compreensão deste texto fascinante, Mt 17.1-9. Pode-se dizer que essa história tem um sentido literal e que não há razão para desafiá-lo ou rejeitá-lo. Sua linguagem comum teria um sentido óbvio. O sentido estaria claro. Teríamos a descrição de ações, aparições e pensamentos. Mas uma criança, cuja capacidade de imaginação é virtualmente ilimitada, pode penetrar de outra maneira nessa história fabulosa. Pode sentir o misterioso, enriquecer os detalhes e aumentar os efeitos, simplesmente através de sua maneira de ser criança: aberta, excitada, impaciente, curiosa, à procura da novidade e do inesperado. E aí está o outro lado da história. Há mais a relatar do que é perceptível. A história, por isso, é comparável a uma parábola, um poema, uma metáfora, uma pintura, não a uma foto. Uma palavra procura expressão. O texto é uma tentativa de comunicar essa expressão. O texto é uma tentativa de comunicar o evento por meio duma narrativa que é parte de uma estória muito maior, que até inclui o Antigo Testamento. Este evento aconteceu quando a primeira geração dos cristãos chegou à fé em Cristo, de forma lenta e incerta, no início. Mais outra dimensão está incluída nesta estória simbólica.(2) A narrativa apresenta um mundo povoado por Israel, Moisés, Elias e os profetas, e, através dos patriarcas apostólicos, Pedro, João e Tiago, mostra a comunidade que reconhece Jesus como Senhor.

III - A narrativa como transformação duma forma de proclamação cristã mais direta

À base da estória está uma afirmação cristológica. Paulo disse: Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê (Rm 10.4, cf. 5.14). Lucas vislumbrou em Jesus o início duma era nova: A lei e os profetas vigoraram até João; desde esse tempo vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus (Lc 16.16, cf. Mt 5.17). Dentro da estrutura de quiasma do Evangelho de Mateus, a mesma nota aparece numa forma diferente: Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir. Quem tem ouvidos, ouça (11.2-15, cf. 17.1-13). Agora essa maneira de falar, é transformada em forma narrativa. Ê semelhante aos relatos sobre Moisés. Quando Moisés desceu de sua experiência em cima da montanha para levar a lei a Israel, a pele do seu rosto resplandecia. O povo teve medo de chegar à sua presença. Moisés pôs um véu sobre o rosto até voltar à montanha para encontrar-se mais uma vez com Deus. Moisés, o santificado por Deus para Israel, em conjunto com os profetas, representados por Elias, chamados para anunciar a palavra de Deus, está, agora, na presença de Jesus, conversando com ele. As implicações são claramente apresentadas: existem diálogo e continuidade entre a mensagem e a obra de Jesus, de um lado, e as tradições básicas e os maiores símbolos da fé em Israel, de outro lado.

Aí temos o que Ricoeur chama de intertextualidade, a conexão e ligação entre todas as partes da história bíblica. Moisés e Elias são símbolos da revelação e da fala de Deus. Agora é introduzido um símbolo novo, destruindo, ou, talvez melhor, completando o símbolo anterior através duma ampliação de sentido. Chocando nossa imaginação, o evangelista é capaz de transmitir sua compreensão da posição de Jesus de Nazaré.(3)

IV — Intertextualidade: ligações bíblicas

A proclamação comunicada através de uma declaração, direta e axiomática, dá os conteúdos cristãos. Aqui aparece a forma narrativa. Esta narração está ligada intimamente com o contexto maior da trajetória do povo de Deus e dos servos que ele chamou. Aí reconhecemos aquilo que Ricoeur chamava: a forma bíblica da imaginação. A narrativa fala em parábolas. O uso da linguagem parabólica é comum a todas as formas narrativas.(4)

V - Alguma coisa mais, a revelação continua

Alguma coisa radicalmente nova é acrescentada. A visão cristã afirma que, na magnificência da presença de Jesus, a intenção de ambos, da lei e dos profetas, está revelada, clarificada e completada. A história maravilhosa, ligada à história bíblica como um todo e à perspectiva do evangelho, tem uma dimensão parabólica — paradoxal, hiperbólica — que se dirige aos ouvintes. Sua afirmação é absurda, inconcebível, estranha à nossa experiência. Esta afirmação debilita o óbvio, a primeira referência da linguagem comum que é literal e descritiva. Dá um significado ao que está além de nossa audição e visão. A história contém um ingrediente de verdade metafórica. Jesus introduziu suas parábolas com as palavras O reino de Deus é semelhante a. Os cristãos introduziram Jesus como a parábola de Deus.(5)

Os discípulos ficaram confusos, emudeceram, apavoraram-se e foram levados a se ajoelhar. Na versão de Marcos, Pedro não sabe o que dizer nem como responder. Como alguns pregadores, quis construir tabernáculos, para comemorar o evento. Mas a visão acabou e a audição começou: ouça. . . ouvi a ele. . . meu filho amado. James Muilenberg, professor de Antigo Testamento do Union Theological Seminary, Nova Yorque, gostava de dizer, que na Bíblia a visão é sistematicamente transformada em audição: O Senhor mostrou-se.. . e disse. . .

A estória insinua alguma coisa a mais: Sentidos que só são discerníveis por aqueles que têm o senso de fé. São absurdo para o mundo acostumado ao seu próprio juízo sobre o que é concebível, verdadeiro, correto e justo. A voz realmente alude ao passado, a coisas que foram vistas. Falar não é mais ver. Fé vem pelo ouvido, está ao alcance da voz.(6)

VI - As implicações: dedicação total

Paul Ricoeur, cujo trabalho se tem dedicado mais e mais a habilitar para a tarefa pastoral e teológica, diz que a linguagem das Escrituras cria um discernimento singularmente excêntrico, porque seu conteúdo é total, inteiro.(7) E total num senso duplo: 1) o discernimento religioso engaja completamente a minha vida; 2) a linguagem religiosa incorpora um discernimento singular e pessoal, um comprometimento total e uma dedicação de significado universal.

VII – Decontextualização

Nosso texto nos libera de nossa existência, diária e normal, dando-nos tempo suficiente para que nos engajemos numa contemplação de dedicação total. Uma olhada no contexto literário da história reforça essa conclusão: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa, achá-la-á (Mt 16.24 ss cf. Rm 5.14). Todos os evangelistas introduzem a história da mesma maneira. A vida da palavra ocorre através da morte do corpo.(8) Morrer é dar lugar a Deus (Teilhard). Discipulado nega o ego, crucificando a auto-adoração. Quando o ego vai, não há nada que nos separe de Deus.(9)

A história está ligada à história bíblica como um todo, mas, como em cada história bíblica, alguma coisa nova é introduzida. O que significa isto? O nosso texto sugere que, ao lado de Moisés e Elias (os profetas), Jesus apresenta o que é novo e absolutamente esclarecedor, iluminador. O que é isto? O que é mais do que a lei que deve ser cumprida? Ou o que é mais do que os profetas, dos quais João Batista era o maior (Mt 11.11)? Mais uma vez o contexto esclarece: os pequeninos (18.14), as crianças (18.3) e o menor no reino dos céus, os que estão na base, também aqueles que se sentem perdoados e os que sabem como perdoar aos outros (cf. 6.12 e 5.43-48), são os que respeitam e honram a lei, são os que estão atentos à voz dos profetas. O mesmo Senhor que foi transformado na frente deles, tocou-os, dizendo: levantem-se e não tenham medo (17.7).

VIII — Recontextualização

Hoje, certamente, precisamos respeitar a lei, esperar e trabalhar por justiça e organizar uma sociedade e economia que vão produzir uma vida mais ampla, saudável e fortemente alicerçada, em benefício de cada ser humano, jovem ou velho, pobre ou rico, mulher ou homem, trabalhador ou empresário. Hoje, a voz profética, que chama para a defesa dos pobres, para advogar em favor dos famintos e para dar oportunidades aos que têm necessidades básicas, certamente não pode ser interrompida. Mas precisamos de mais. Um mundo composto só de leis, motivado só por críticas proféticas, que trabalha por uma vida mais ampla e melhor, em si mesmo não tem alicerce adequado para completar seus planos. Ao lado de e no centro de Moisés e Elias, a lei e os profetas, o mundo precisa visualizar o Cristo, Jesus de Nazaré. Ao lado da lei, ao lado do profeta, no centro da vida, existe graça — fé, esperança, amor — que quer entrar das vidas frustradas, ampliar as visões limitadas e fortalecer os braços debilitados.(10) Ele que dá sua própria vida tem o poder e a vontade para -sustentar e abastecer a nossa vida. Ele permanece. Ele fica quando lei e profeta faltam. Graça, perdão e transformação acontecem na sua presença.

 

(1) The Bible and the Imagination p. 33; palestra dada à conferência William Ramey Harper Universidade de Chicago, em 4 de outubro de 1979. Os trabalhos de Ricoeur são especialmente úteis para ajudar-nos na interpretação deste texto específico. Por isso, vou apresentar, no decorrer deste estudo, alguns aspectos do seu pensamento.
(2) Cf. RICOEUR, Paul. Hermenêutica y Estruturalismo. Buenos Aires 1973. Diz ele: Chamo 'símbolo' a toda estrutura de significação em que um sentido direto, primário, literal designa por excesso um outro sentido indireto, secundário, figurado, que não pode ser apreendido senão através do primeiro (p. 17).
(3) Veja The Hermeneutics of Symbols The Philosphy o f Paul Ricoeur, An Anthology of His Work. Boston, 1978. p. 40.
(4) The Bible and the Imagination. op. cit., p. 9: a parábola-narrativa é em si mesma 'um itinerário de sentido', um 'dinamismo que tem e cria significados', que transforma uma estrutura narrativa num processo metafórico, na direção duma expressão enigmática. . . o reino de Deus.
(5) Cf. RICOEUR, Paul. Essays on Biblical Interpretation. Philadelphia, 1980, p. 104, e CROSSAN, John Dominic. In Parables: The Challenge of the Historical Jesus. New York, 1973, p. xiv.
(6) Cf. RICOEUR, Paul. The Nermeneutics of Testimony. In: Anglican Theological Review v. 61, 1979, p. 448.
(7) RICOEUR, Paul. Biblical Interpretation. In: Semeia: An Experimental Journal for Biblical Criticism. v. 4. Chicago, 1975, p. 124.
(8) RICOEUR, Paul. The Bible and the Imagination, op. cit. p. 35.
(9) KAZANTZAKIS, Nikos. Report to Greco. Nova Yorque, 1965, o. 144,
(10) Cf. PREGEANT, Russel. Christology Beyond Dogma, Matthews Christ in Process Hermeneutic, Philadelphia, 1978: p. 158. O que emerge é uma cristologia fora da dogmática, uma que podemos chamar apropriadamente de uma cristologia 'paradigmática' ou 'catalítica'. O Novo Testamento está centrado na imagem do Jesus como o Cristo, não para criar uma afirmação doutrinária sobre Jesus como a irrupção exclusiva da graça na história humana, mas, preferencialmente, para seduzir os leitores a um encontro real com ele. A imagem do Cristo aparece como um paradigma, como um sinal do modo de Deus se relacionar com seu mundo.

Proclamar Libertação 10
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Norman K. Bakken
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: Último Domingo após Epifania
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 17 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 9
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1984 / Volume: 10
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7036
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