Mateus 22.15-22

Auxílio Homilético

16/10/2011

Prédica: Mateus 22.15-22
Leituras: Isaías 45.1-7 e 1 Tessalonicenses 1.1-10
Autora: Silvia Beatrice Genz
Data Litúrgica: 18º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 16/10/2011
Proclamar Libertação - Volume: XXXV 

1. Introdução

O texto de 1 Tessalonicenses 1.1-10 expressa parte do louvor e da gratidão que o apóstolo Paulo faz em toda a carta a Deus por essa igreja. “Damos sempre graças a Deus por todos vós.” O apóstolo fala em outros encontros, grupos e comunidades, da abnegação, do amor e da firmeza de esperança que os tessalonicensses têm no Senhor Jesus Cristo. Temos nós exemplos de comunidades para lembrar e mencionar nas orações? Vejo que isso acontece pouco.

O apóstolo também lembra seu procedimento entre eles e que eles se tornaram imitadores “nossos” e do Senhor, pois receberam a Palavra em meio a muitas tribulações. Uma delas citada no v. 9: “deixando os ídolos ... para servir o Deus vivo e verdadeiro”. Tornaram-se exemplo, testemunho da forte e firme fé na Palavra do Senhor não só na Macedônia e na Acaia, mas em toda a parte. No v. 10, Paulo convida para que aguardem o retorno de Jesus para livrá-los da ira vindoura.

Sugestão: conhecer e manter amizade com comunidades-irmãs não só da IECLB. Aprender com elas e principalmente saber que somos exemplo a partir de nossa vivência de fé na sociedade como um todo. Cada membro da comunidade deixa seu servir de acordo com sua convicção e vivência de fé. Nessa carta, somos incentivados a viver nossa fé em testemunho diário, pois não somos cristãos só quando estamos na igreja. Somos chamados a viver a fé na vida. Fé e vida são inseparáveis.

2. Texto

No texto de Mateus 22.15-22, os fariseus tramam como poderiam surpreender Jesus, enviando discípulos junto com os herodianos. Não que sejam unidos com eles, mas conchavam para atacar Jesus. Os herodianos não constituem um partido próprio; também não são uma seita religiosa, são simplesmente adeptos favoráveis à dinastia dos Herodes, completamente submissos à dominação romana. A discussão é travada sobre o pagamento de tributo. Querem arranjar um pretexto para que Jesus seja condenado pelas autoridades romanas ou que declare sua rebeldia contra Deus.

No v. 16, podemos verificar “um aparente” reconhecimento da sabedoria de Jesus por parte dos interrogadores. Ou é apenas um elogio falso para introduzir o tema com mais facilidade, para apresentar uma pergunta que parece uma cilada.

“É lícito pagar tributo a César ou não?” Jesus percebe logo a malícia e chama-os de hipócritas, que armam cilada contra ele. Parecia um golpe de mestre. Por que cilada? Pois se Jesus respondesse: SIM, seria uma resposta traidora à resistência popular, que era contra a cobrança de impostos pelos romanos. Se respondesse: NÃO, seria preso, conforme Lucas 20.20. Em Lucas 23.2, temos uma acusação clara, que os membros do sinédrio levam a Pilatos: “Pegamos este homem tentando fazer o nosso povo se revoltar, dizendo a eles que não pagassem impostos ao imperador e afirmando que ele é o Messias, um rei”.

No texto em análise, a pergunta foi formulada de tal forma que Jesus, respondendo sim ou não, se desse mal. Queriam acusá-lo. Jesus reage à pergunta cheia de malícia com sabedoria. Lembramos suas palavras em Mateus 10.16: “Sede simples como as pombas, mas prudentes como as serpentes”.

Jesus chama-os de hipócritas, deixando claro que entendeu que estão pro- curando uma prova contra ele. Jesus pede que tragam a moeda com que se paga o imposto ao imperador e pergunta: “De quem são o nome e a cara gravados nesta moeda?”. Os acusadores respondem que são do imperador. Será que Jesus devolveu a pergunta? Ou sua resposta tem mais de uma interpretação? Wegner diz: “A nosso ver, ambos os recursos foram empregados por Jesus na ocasião do texto. Sobretudo a estratégia de não dar resposta pronta a seus interlocutores, mas de fazer eles próprios pensarem melhor as coisas; é uma característica de Jesus, aplicada também em diversas outras ocasiões: cf. Marcos 2.9,19,25-26; 3.4 etc.”

A moeda prescrita para pagar o imposto tinha grande circulação. Essa moeda apresentava na efígie a face do imperador e, ao redor da mesma, a inscrição que concedia atributos divinos a um simples mortal, o que representava sacrilégio e desacato à lei do Antigo Testamento.

No v. 21, Jesus manda devolver a César a sua moeda que mandou cunhar e a Deus o que é de Deus.

2.1– O sentido da resposta de Jesus

Aqui incluo a reflexão de Wegner, PL XVIII, p. 262-264: “A primeira par- te da resposta de Jesus consiste no dito: ‘Devolvei a César as coisas de César’” (v. 21b). Segundo nosso entendimento, o que pertence a César Jesus deu a entender nos v. 19-21a: são as moedas que ele cunhou e que, por isso, levavam sua imagem e inscrição. Essas devem ser devolvidas a ele. O que implica uma tal proposta? Mìguez (p. 90), Stenger (p. 134s), Stauffer (p. 114) e vários outros destacam unanimemente o grande valor simbólico do denário imperial, ou seja, moeda obrigatória para pagamento de impostos. As moedas representavam, acima de tudo, um símbolo do poder hegemônico que os romanos detinham. A circulação de suas moedas por todos os lugares era a expressão monetária de que esses lugares todos estavam debaixo de seu poder, o que as inscrições e imagens dos imperadores só reforçavam ainda mais.

A resposta de Jesus não deixa de ser bastante esperta. Por um lado, não nega a César o que lhe pertence: suas moedas; por outro lado, deixa de afirmar que lhe pertencem também os impostos exigidos pelos romanos. Em termos políticos, a resposta de Jesus implica perda para os romanos, perda do símbolo de seu poder, que representa os denários. Mas se trata de uma perda que, por outro lado, é digerível, pois representa simultaneamente um ganho, a saber, o ganho das moedas... Jesus realmente parece ter se safado da cilada.

A segunda parte da resposta de Jesus é o v. 21c: “... e (devolvei) as coisas de Deus a Deus”. Para a interpretação da frase, é decisivo determinar o que vem a ser “as coisas de Deus”, que na ótica de Jesus lhe devem ser restituídas. As interpretações divergem bastante, mas, no fundo, são três as principais sugestões dadas:

1 – As coisas de Deus seriam as pessoas, que foram criadas à sua imagem e lhe devem obediência...

2 – As coisas de Deus seriam as coisas ligadas ao templo de Jerusalém. Jesus interpreta o que acontece com o templo em 21.13: “Vós transformais (a minha casa) em covil de salteadores”. A casa que deveria ser a casa de oração a Deus foi transformada em casa de negócios e ladroagem para certas pessoas.

3 – As coisas de Deus que necessitam ser devolvidas a ele são o seu povo e sua terra sob um regime de liberdade. Essa interpretação parte da pergunta: O que faz referência a Deus num contexto de pergunta sobre legitimidade de pagamento do imposto a César? Ora, os estudos da época mostram que a contestação do pagamento dos impostos a César era fundamentada exatamente com a referência a Deus.

O Antigo Testamento pode fundamentar com várias passagens que... a terra pertence a Javé (Dt 12.10; 19.5; 26.8-9; Lv 25.23 etc.), bem como o povo judeu, do qual Javé era o verdadeiro rei (Dt 33.5; Is 41.21; Jr 8.19 etc).

A evocação de Deus no contexto da pergunta pelo pagamento dos impostos a César tem assim uma finalidade nitidamente crítica na intenção de Jesus: “Devolver a Deus as coisas de Deus” dificilmente significará algo diferente do que devolver a ele a sua terra e o seu povo, dos quais os imperadores romanos se apossaram desde 63 a.C. com a entrada/ invasão de Pompeu na Palestina.

O recado que Jesus dirige diretamente a fariseus e herodianos não pode restringir-se unicamente aos mesmos, mas implica também as pessoas e os grupos para cujo interesse trabalhavam, ou seja, os romanos.

Como já vimos, o povo da Palestina pagava uma grande variedade de impostos. Pelos cálculos feitos por estudiosos, somavam 50% do orçamento familiar. Carlos Mesters e Mercedes Lopes descrevem, de um modo geral, as listas de impostos obrigatórios.

Imposto direto sobre as propriedades e sobre as pessoas:
Impostos sobre as propriedades (tributum soli), aos que tinham terra, e sobre as pessoas (tributum capitis), para os sem-terra, tanto para homens como
para mulheres entre 12 e 65 anos. Tudo fiscalizado no local.

Imposto indireto sobre transações variadas:

Coroa de ouro: Originalmente, era um presente ao imperador, mas se tornou um imposto obrigatório. Era cobrado em ocasiões especiais como festas e visitas do imperador.

Imposto sobre o sal.

Imposto na compra e venda.

Imposto para exercer a profissão. Para tudo se precisava de licença. Por exemplo, um sapateiro na cidade de Palmira pagava um denário por mês. Um denário era o equivalente ao salário de um dia. Até as prostitutas tinham que pagar.

Imposto sobre o uso de coisas de utilidade pública.

Outras taxas e obrigações:

Pedágio ou alfândega: Era um imposto sobre circulação de mercadorias, cobrado pelos publicanos. Havia pedágio nas estradas. Nos postos fiscais, havia
soldados para obrigar os que não queriam pagar .

Trabalho forçado: Toda pessoa podia ser obrigada a prestar algum serviço ao Estado durante cinco dias, sem remuneração. Assim, Simão foi obrigado a
carregar a cruz de Jesus.

Despesa especial para o exército: O povo era obrigado a dar hospedagem aos soldados. Os camponeses deviam pagar certa quantia em comida para o sustento das tropas.

Imposto para o Templo e o Culto:

Imposto para a manutenção do prédio do Templo.

Dízimo: Era o imposto para a manutenção dos sacerdotes. “Dízimo” significa a décima parte.

Primícias: Era o imposto para a manutenção do culto. Primícias são os primeiros frutos de todos os produtos do campo.

3. Meditação

Nos dias em que escrevemos esta meditação, acontecem os jogos da Copa na África do Sul, e muito se fala em Mandela, em dominação, em apartheid. É quase inacreditável perceber que isso foi ontem. O colonialismo resistiu até onde a corda conseguiu se esticar. Conversando com um grupo de jovens, para eles é inacreditável que algo assim aconteceu.

É preciso olhar como hoje acontece a dominação.

Será que tem o que devolver a Deus? No texto em estudo, vimos que é devolver a Deus a vida das pessoas, o seu povo, a terra, dos quais os imperadores
romanos se apossaram. Para Jesus, a Torá estava clara, e ali se afirma: a lei de Deus está antes e acima de qualquer Estado. A lei foi dada antes da existência do Estado.

Qual é a tarefa do Estado? Não podemos esquecer que ele é hoje, em sua maioria, formado por lideranças eleitas por nós. Elas cumprem o que é seu dever? O dinheiro dos impostos serve hoje a quem? Qual é nossa participação no destino da Amazônia e de nossos bens?

Vemos hoje não só o Estado descumprindo a lei de Deus, mas igrejas que “exigem” de Deus perdão, cura e salvação, como donos da verdade, e isso ligado aos valores ofertados. Lutero diz: “Ora, a instituição humana não pode estender- se ao céu e sobre a alma, mas somente sobre a terra, o convívio externo dos seres humanos, onde pessoas podem ver, reconhecer, julgar, opinar, castigar e salvar”. Deus acima de tudo.

Qual é nossa tarefa como cristãos e cristãs?

Não separar fé e vida. Ser cristão é ter responsabilidade social. É participar e viver eticamente na família, na sociedade e na comunidade.

Na Confissão de Augsburgo, lemos no Artigo 16: “As ordenações civis legítimas são boas obras de Deus, e é lícito ao cristão exercer ofícios civis... não
destrói a ordem estatal ou familiar, mas exige muitíssimo que sejam preservadas como ordenações de Deus, e que exerça, em tais ordenações, o amor”.

Somos preparados de fato para exercer funções públicas, segundo a justiça de Deus? Sentimo-nos pequenos diante de desafios que vão além de nossa localidade e país. Por isso é necessário unir forças. Somos poucos, mas unidos somos muitos.

Na análise do texto de leitura de 1 Tessalonicenses ficou uma sugestão. Nessa carta, somos incentivados a viver nossa fé em testemunho diário, pois não
somos cristãos só quando estamos na igreja. Somos chamados a viver a fé na vida. Fé e vida são inseparáveis.

4. Imagens para a prédica

– Recontar o texto de Mateus.

– Cilada armada para condenar Jesus.

– Dominação do Império e suas consequências.

– Desafiar para o intercâmbio entre comunidades, a exemplo de 1 Tessalonicenses.

– Aprender de Jesus: amar a Deus acima de tudo, ao próximo como a si mesmo.

– Ofertar para a missão de Deus. Tudo vem de ti, Senhor. E do que é teu te damos.
(exemplificar projetos para ofertas)

– Como perceber as ciladas e conchavos que são armados ao nosso redor.

O selecionador de válvulas

Num grupo de estudo bíblico num bairro, conversamos sobre esse texto. Um jovem lembra sua mãe de que necessita uma válvula para o coração
e que está na fila de espera. “Por que essas válvulas são tão caras?”, pergunta o jovem. Outro jovem diz: “Sabe que eu faço a seleção das válvulas dos porcos na firma” (agroindústria onde trabalha). “Elas vão para o estrangeiro”, comenta ele, “por isso são tão caras”.

O que se faz com os nossos bens? Por que custa tão caro se nós os produzimos?
Recebi essa história que ilustra como a gente não se dá conta, muitas vezes, do que acontece ao nosso redor.

A rã que não sabia que tinha sido cozida

Imagine uma panela cheia de água fria, na qual nada tranquilamente uma pequena rã. Um pequeno fogo debaixo da panela e a água aquecendo muito lentamente. Pouco a pouco, a água fica morna, e a rã, achando isso bastante agradável, continua a nadar.

A temperatura da água continua a subir...

Agora a água está mais quente do que a rã gostaria.

Sente-se um pouco cansada, mas, não obstante, isso não a amedronta.

Agora a água está realmente quente, e a rã começa a achar desagradável, mas está muito debilitada.

Então aguenta e não faz nada...

A temperatura continua a subir, até que a rã acaba simplesmente morta e cozida.

5. Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados:

Deus, doador da vida, de tudo o que temos e necessitamos. Tudo pertence
a ti, mas vivemos como donos do mundo. Perdoa-nos, pois desconfiamos da promessa do pão de cada dia que não nos faltará. Por isso acumulamos com medo.
Como pessoas cristãs, silenciamos diante de desmandos políticos. Reconhecemos que deixamos de praticar o amor. Pecamos com palavras, ações, pensamentos e omissões. Por isso pedimos com humildade:

Comunidade: Perdoa-nos, Senhor, e concede-nos a graça de um novo começo. Amém.

Sugestão de cantos:

Hinos do Povo de Deus n° 206; n° 264; n° 263 – V. 1.
Hinos do Povo de Deus n° 408 – V. 2.

Bibliografia

WEGNER, Uwe. O que fazem os denários de César na Palestina? In: Estudos Teológicos nº 1, Ano 29, p. 87-105, 1989.
WEGNER, Uwe. Mt 22.15-22. In: Proclamar Libertação, v. XVIII. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1992. p. 259-266.
MESTERS, Carlos. A Palavra na Vida.184/185. CEBI, 2003.
 





 

 





 



 


Autor(a): Silvia Beatrice Genz
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 18º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 22 / Versículo Inicial: 15 / Versículo Final: 22
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2010 / Volume: 35
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 25066
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