Mateus 23.34-39 - 2º Dia de Natal

Prédica

26/12/1969

Mateus 23.34-39 - 2º. DIA DE NATAL


Caros presentes!

I

O calendário marca dia 28 de dezembro. Primeiro domingo depois do Natal. E no nosso íntimo ainda ressoam aquelas palavras, aqueles sons, aquela atmosfera tão característica desta época. E evidentemente esperamos que a pregação deste dia de hoje leve toda essa sinfonia natalina a um final condizente, a um último acordo sonoro, dentro desta mesma harmoniosa tonalidade. 

E vamos ficar decepcionados! O texto previsto pela Igreja para este domingo tem tudo para desagradar. Longe de ser um último acorde sonoro, parece antes um fortíssimo dissonante, que fere os nossos tímpanos, ainda embalados pela sinfonia natalina. O evangelista Mateus narra, como todos os outros evangelhos, os últimos episódios da vida de Jesus, que começam com sua entrada triunfal em Jerusalém e culminam com sua morte na cruz. Dentro deste contexto, Mateus coloca um longo discurso de Jesus, repleto de violentas advertências contra os judeus e principalmente contra os seus líderes religiosos. É aqui que vamos encontrar o nosso texto: 

Olhem aqui: Deus disse: Eu envio a vocês profetas, sábios e mestres. Alguns destes vocês matarão e pregarão na cruz. Outros vocês espancarão nas suas sinagogas e perseguirão de cidade em cidade. Assim, cairá sobre vocês o castigo pelo assassínio de todos aqueles que foram justos diante de Deus sobre a terra, começando pelo sangue do justo Abel até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que vocês mataram entre a nave do templo e o altar. Eu lhes asseguro: Tudo isso virá sobre este povo! Jerusalém, Jerusalém, você que mata os profetas e apedreja os que lhe foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das asas! Mas vocês não quiseram! Vocês verão: a sua casa ficará deserta. Eu lhes digo: A partir de agora vocês não mais me verão, até (o dia em) que vocês dirão: Louvado seja aquele que vem em nome do Senhor! 

II

Antes de mais nada, esse trecho fala da relação entre o povo de Israel e Deus. E é negra a imagem que se nos apresenta. 

1º.) Um povo cortejado por Deus. Numa abnegação que só tem paralelo no amor que a fêmea dedica aos filhotes. Quantas vezes quis eu reunir os seus filhos, Israel, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das asas! Eu envio a vocês profetas, sábios e mestres. Deus escolheu este povo dentre tantos outros. Garantiu-lhe a sua dedicação. Enviou-lhe homens destemidos, de fala violenta e corajosa, que apontaram os desvios, que mostraram o caminho a seguir, que não cansaram de bradar: É aqui que está tua proteção, a tua salvação! Como dizia Oséias em nome de Deus: A tua ruína, Israel, vem de ti, e só de mim, o teu socorro! É a longa história de alguém que, como uma mãe, ama perdidamente, solicita, corteja este povo. (Desde os tempos da convocação de Abraão até os dias em que veio ele próprio, numa última e desesperada tentativa). 

2º.) Mas vocês não quiseram:— Alguns destes vocês matará° e pregarão na cruz. Outros vocês espancarão nas suas sinagogas e perseguirão de cidade em cidade... Jerusalém, Jerusalém, você que mata os profetas e apedreja os que lhe foram enviados! 

O impossível feito realidade. Israel não quis! Rejeitou quem o amava. Rejeitou o único que seria capaz de levar seu barco a um porto seguro. E esta rejeição é o signo trágico que acompanha desde os primórdios a história deste povo. Israel não quis! E espancou e assassinou os que, em nome de Deus, tentaram chamá-lo à razão. E culminou por pregar na cruz o Messias. A expressão derradeira do amor daquele que não podia ver seu povo andando deliberada e firmemente em direção ao abismo. 

3º.) Mas há uma medida. O cálice transborda. Assim cairá sobre vocês o castigo pelo assassínio de todos aqueles que foram justos diante de Deus sobre a terra. ... Eu lhes asseguro: tudo isso virá sobre este povo! Vocês vero: a casa ficará deserta! 

A rejeição atinge um ponto em que Deus se demite. Seu amor cansou. E agora, o barco fica só, entregue à sua sorte. A casa fica deserta. E este povo, agora a sós, tem que sofrer as consequências. Tem que pagar por cada rejeição, por cada assassínio. Tem que sofrer o castigo que ele próprio chamou sobre si. Prezada comunidade, basta olhar para o destino dos judeus nestes últimos dois milênios, para ver o que isso significa. 

III

Meus amigos, por que tudo isso? Por que ficamos aí, gastando preciosos minutos do breve espaço de uma prédica para falar de um povo que não é o nosso, e que até nos é um tanto estranho? Pelo seguinte: Porque a história de Israel é, toda ela, um tremendo brado de alerta. Eis porque este texto deve ser pregado logo após o Natal! Para deixar bem claro: Agora nós somos os cortejados; e agora nós corremos o risco de por tudo a perder. 

Deus deixou deserta aquela casa de Israel e veio habitar a nossa casa. Rescindiu o contrato com aquele povo e veio fazer o contrato conosco. Retirou a oferta feita àquele povo e veio entregar a oferta a nós. Uma oferta que custou caro, caríssimo. 

Permitam-me usar um exemplo para explicar o que se passa com esta oferta de Deus a nós, que foi a tónica de toda pregação nesta época de Natal. Em determinada região ocorre uma seca terrível. Resta apenas um oásis, onde há água e vegetação em abundância. Todos querem chegar para lá. Mas ninguém sabe onde fica. Ninguém conhece o caminho. E todos se põem na estrada numa corrida desvairada e sem rumo. Cada qual procura calcular, com os meios que tem à disposição, a localização do oásis. E então se lança à jornada. Só pensa em salvar a própria pele. Sai em carreira desabalada, e no seu trajeto não hesita em usar os cotovelos, em pisotear, esmagar, passar sobre o cadáver dos outros, para chegar primeiro. Eu também me ponho na estrada, sem rumo certo, pisoteando e esmagando também. De repente um guri, maltrapilho e sujo como todos os outros, se aproxima de mim, me estende um mapa rabiscado a lápis sobre um pedaço de papel e diz: Moço, o meu pai é o dono do oásis; isso aqui é o roteiro para chegar lá. Não é longe daqui, mas você sé vai encontrar se andar pelo mapa. Mostra o roteiro para todo mundo; meu pai quer que todos cheguem lá. 

Então, o que é que eu faço? Tenho duas alternativas: 1º.) Eu posso pensar: Esse guri está' maluco, jogo fora o mapa e continuo procurando, baseado nos meus cálculos; 2º.) Eu confio no guri, e essa confiança é um salto no escuro, porque ele não me deu garantia nenhuma. Eu confio, jogo fora os meus cálculos e saio guiando-me pelo mapa. Ele é minha ultima carta, minha última esperança. Mas eu confio nele. Por isso, ao longo do caminho, eu vou mostrando meu mapa a todos que eu encontro. A maioria me diz: Mas você ficou doido! Como é que você pode confiar num bilhete desses. Mas eu fico no meu bilhete. E como eu sei, tenho certeza de que vou encontrar o oásis e que o oásis está perto, de repente também me dou conta de que nem preciso andar tão depressa. Pelo contrário, eu ate posso ir devagar, posso dar uma mãozinha aqui, outra ali, posso repartir minha reserva de água entre os que já não aguentam mais; posso oferecer até minha carroça a outro, que não consegue mais levar a sua trouxa, E assim eu vou, confiante, certo, levando alguns comigo, ajudando muitos a suportar a jornada, livre de qualquer preocupação, pois eu sei que vou chegar. Só mais tarde é que descobri o seguinte: Se eu não tivesse mostrado meu mapa aos outros, se com o mapa na mão eu tivesse saído numa corrida louca, pisoteando e esmagando, e se então eu tivesse chegado primeiro á frente do oásis - aquele guri me tiraria o mapa das mãos e me diria: Você não pode entrar; você nem compreendem a importância do roteiro. Fora daqui, volte para a seca, nunca mais poderá entrar neste oásis. 

Meus amigos, nós vivemos numa terra seca, sem água nem oásis á vista. Mas cada qual anseia, consciente ou inconscientemente, por um oásis. E cada qual procura á sua maneira. Cada qual tem uma ideia diferente do que seja o oásis. Mas nós, cristãos, sabemos onde é o oásis, sabemos quem é o dono do oásis e conhecemos o roteiro. O roteiro nos foi dado por um homem sem projeção, sem muita importância, cujo nascimento acabamos de consagrar. 

Mas, prezada comunidade, é extremamente importante confiar no roteiro. É preciso saber que os meios de que nós dispomos não nos levam ao oásis. É preciso saber que o caminho para a salvação só pode passar por aquele guri nascido em Belém. E nem uma obra nossa, nada que nós fizermos por próprias forças nos levara sequer um milímetro mais perto da salvação. Pelo contrario, nos afastara dela, pois será um sinal de desconfiança no roteiro traçado pelo menino de Belém. 

E tem mais: O roteiro não é só para mim. É para todos que procuram o oásis. No posso segura-lo, tenho que divulgá-lo a todo mundo, tenho que bradar aos quatro ventos: pessoal, é por aqui! Tenho que levar outros comigo. E se eu compreendi, então, que confiando nesse roteiro eu vou chegar lá, eu serei um homem livre nesta terra seca, Livre de preocupação egoísta em torno de mim mesmo. Livre da ânsia de aparecer, de criar toda sorte de garantias e seguranças, livre de querer ser alguém. E então eu no preciso mais esmagar, pisotear, sugar meu semelhante. Pelo contrário, posso ajudá-lo, posso agarrá-lo, sustentá-lo, dar-lhe do que eu tiver, para que suporte a vi da nessa terra da seca. 

IV

Caros presentes, creio que o exemplo foi claro. A mensagem de Natal é o roteiro. E agora lembrem-se do brado de alerta da história de Israel. É possível rejeitar o roteiro, rejeitar Jesus Cristo. E rejeitar não significa apenas dizer ao guri: Desaparece! Esse papel é pura besteira! Existe uma outra recusa,- mais sutil. É a de quem aceita o roteiro, mas guarda-o para si e continua fazendo seus calculas, corrigindo o roteiro, confiando mais em si do que na oferta de Cristo.

Tendo isso em mente, meus amigos, acho que é muito fácil cada qual olhar para si e verificar como andam as coisas. Estamos rejeitando ou aceitando? Divulgamos o roteiro entre os que participam do dia-a-dia conosco? Ajudamos esses nossos semelhantes a suportar a seca? Desinteressadamente? Ou procuramos dar um jeito de salvar a nossa vidinha, de quebrar o galho por conta própria? Aceitamos ou rejeitamos? E não esqueçam: Ha uma medida. Não podemos rejeitar indefinidamente, Deus pode demitir-se.

O que estamos fazendo com a mensagem do Natal? 

Com essa oferta não se brinca. Ela custou caro. E quem a rejeitar, de maneira expressa, clara, ou de maneira sutil, pode estar certo de que, mais dia menos dia, terá que ouvir: Você não quis! A sua casa ficara deserta! Que Deus nos guarde desse destino! Amém. 

Oremos: Senhor Deus, nós não merecemos que nos mostres o roteiro, que nos leves ao oásis. Tua bondade é grande demais. Não permitas que brinquemos com ela. Incute em nós todo o significado da tua oferta em Jesus Cristo, para que a aceitemos e para que vivamos esta aceitação no convívio diário com nosso semelhante. Amém.

Veja:
Nelson Kirst
Vai e fala! - Prédicas
Editora Sinodal
São Leopoldo - RS


 


Autor(a): Nelson Kirst
Âmbito: IECLB
Área: Celebração / Nível: Celebração - Ano Eclesiástico / Subnível: Celebração - Ano Eclesiástico - Ciclo do Natal
Natureza do Domingo: Natal

Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 23 / Versículo Inicial: 34 / Versículo Final: 39
Título da publicação: Vai e fala! - Prédicas / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1978
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 19926
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