Mateus 7.24-27

Auxílio Homilético

16/08/1981

Prédica: Mateus 7.24-27
Autor: Otto Porzel Filho
Data Litúrgica: 9º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 16/08/1981
Proclamar Libertação - Volume VI


I - Introdução — O Sermão do Monte

Lendo todo o Sermão do Monte, somos levados a concordar com o que Mateus coloca nos últimos versículos do mesmo: ... as multidões se assustaram da sua doutrina ... (Almeida = estavam as multidões maravilhadas). E ainda mais, pois aquilo que aqui é dito por Jesus não é algo que apenas deve ser ouvido para logo ser esquecido, mas quer ser colocado em prática, Jesus aqui requer o homem como um todo. Jesus requer toda a sua confiança, toda a sua obediência, todo o seu amor. Deus só aceitará aquele que verdadeiramente for discípulo de Jesus.

Todas estas exigências feitas por Jesus, contudo, sempre querem e devem ser vistas a partir do seu fim (morte e ressurreição). Aí temos a sua doação em favor do homem pecador. E por isso o ser discípulo nada mais é do que em primeiro lugar deixar presentear-se, e nesta relação com Jesus o discípulo já recebe tudo de que necessita para corretamente agir no mundo — lá é que se deve tornar patente o amor recebido. Discípulos são aqueles que foram presenteados e cabe-lhes dar adiante o que já receberam.

Assim sendo, em nós (ouvintes) o seu amor deve transformar-se numa tarefa constante, e a sua palavra deve levar-nos a uma resposta que se mostra no agir obediente em concordância com a mesma.

II - O texto - os dois fundamentos

Em Mateus a presente parábola está colocada no final do Sermão do Monte. No Evangelho de Lucas está igualmente colocada no final da sua versão do mesmo sermão. Isto leva a concluir que já a fonte Q tinha esta parábola como encerramento do Sermão do Monte.

Lucas fala, contudo, apenas de uma enchente, de uma inundação; Mateus, por seu turno, fala também em tempestade e chuvas. Mais: Lucas fala da qualidade da construção, enquanto que para Mateus importante mes¬mo é o fundamento. Como conclusão, porém, os dois evangelistas concordam que uma casa mal fundamentada, mal construída, não resiste às intempéries e desaba; o mesmo nâ~o acontece com uma casa bem fundamentada. Assim, ainda que apresentando a mesma parábola de formas um pouco diferentes, o escopo, em ambos os casos, é idêntico; tanto em Mateus quanto em Lucas o peso está no fundamento.

Mateus estrutura esta parábola de uma forma rigorosamente paralela, de maneira que os vv. 24 e 25 correspondam aos vv. 26 e 27 até nas formulações do texto. Vemos com isso que as condições externas das duas casas construídas também são as mesmas. A chuva, as inundações e os ventos deram contra a casa de ambos, e o que decidiu quanto à estabilidade ou quanto à ruína das casas foi o seu fundamento.

Algo parecido também já encontramos no AT em Dt 28; 30.15-20. Ali a proclamação da lei é feita de maneira tal que os que observam e guardam a lei recebem a promessa da bênção e os que transgridem a lei,a ameaça da maldição. Com isso podemos concluir que a proclamação da lei também é uma oferta de vida ou de morte. A escolha cabe ao homem. A aceitação e o seu cumprimento têm como consequência a vida, enquanto que a sua rejeição e desobediência, a morte. De maneira semelhante também devemos entender esta parábola que encerra o Sermão do Monte. Em outras palavras: quem ouve as palavras de Jesus e as pratica tem um fundamento sólido que não se abala ante as forças da natureza. Por isso também sua vida será aprovada, e em contrapartida o que não as pratica, será reprovado.

Esta última constatação fica bem evidente no v.24: Todo aquele que ouve estas minhas palavras e as pratica — portanto, não basta tomar apenas conhecimento das palavras de Jesus. Importa, isto sim, praticá-las em base de toda a existência do homem. Mateus dá grande importância a uma obediência ativa e ao agir do homem como decorrência da pregação.

O v. 25 quando fala de chuvas, inundações e temporais refere-se àquelas forças, às quais todos os homens estão expostos e isto sem que possam fazer grande coisa contra elas. Há, contudo, exegetas que vêem por detrás destas figuras a ideia bastante difundida no judaísmo, de que o juízo final será uma repetição do dilúvio. Isto, porém, parece ser pouco provável, pois tanto a casa bem fundamentada quanto a mal fundamentada podem ser atingidas por estas catástrofes. Temos aqui simplesmente um falar parabólico sobre coisas que todas as pessoas conhecem a partir das suas experiências no dia a dia (cf. Sl 32.6; Is 28.17).

A areia de que fala o v. 26 é aquela encontrada nos vales dos rios, portanto, um local inseguro. Ressalte-se, porém, que também o terreno ro¬choso não é inacessível para as águas do rio, pois também contra a casa do homem sensato lançam-se as águas da enchente. A parábola deixa bem claro que ambos os construtores estão sujeitos aos mesmos perigos e às mesmas provações.

Como conteúdo da parábola temos então: as palavras de Jesus, como expostas no Sermão do Monte, são um fundamento sólido para que nelas baseiemos a nossa existência. Aquele que realmente fizer isto permanecerá em eternidade. Por isso, também podemos afirmar que chuvas, tempestades e inundações são metáforas para o juízo final. Todo aquele que escolher um outro fundamento não poderá persistir — esta é a ameaça que permanece. As palavras de Jesus são palavras de Deus, e são também as normas aplicadas no juízo final. Por isso, não basta apenas o ouvir, mas é necessário realmente construir sobre este fundamento sólido, ou seja, viver as palavras de Jesus.

Acrescente-se ainda: chuvas, tempestades e inundações não são somente figuras escatológicas, pois assim como a vida eterna já está de certa forma presente, assim também o juízo. Já agora decide-se também a sorte escatológica do homem, e isto significa que já agora estão presentes a salvação e também o juízo. Por isso, pode-se afirmar que estes fenômenos ilustram também as ameaças a que o homem está exposto durante a vida. Quem nelas for aprovado também o será no juízo escatológico.

Usando-se as palavras do texto, pode ser dito o seguinte: a pergunta fundamental não está em construir ou não construir, mas em que se fundamentar. Todos os homens tem que se fundamentar em algo. E a promessa é essa: que aquele que se fundamentar nas palavras de Jesus será abençoado e persistirá eternamente.

III - Meditação

A vida de uma pessoa pode ser caracterizada como sendo um constante construir. Não só ela própria toma parte neste processo, mas também tudo e todos que nos rodeiam estão envolvidos ativamente no mesmo. A vida não consiste unicamente na concepção e no consequente nascimento. Nesta construção é importante o ponto de partida — o alicerce. Nesta parábola Jesus ressalta isso claramente — importante mesmo é sobre o que lançamos este alicerce. Exteriormente a vida pode parecer muitas vezes normal e plenamente realizada, e isto graças a muito suor e esforço despendido. Outras vezes brota nela também o sentimento de inveja, pois há aqueles que parecem não necessitar de mais nada para a completa realização, já que bens mate¬riais não lhes faltam. Tudo isso pode enganar-nos por completo. Pode aqui também acontecer como é descrito na primeira parte da parábola: que este fundamento na realidade não possui consistência nenhuma.

Em todas as situações da vida podem sobrevir ventos, tempestades c enchentes, envolvendo-nos por completo. Estes nos causam medo e pavor. Coitados seremos se não tivermos um fundamento sólido. Aí poderemos estar diante da nossa própria ruína. Se estivermos tão seguros que tal coisa não nos poderá acontecer, então nos igualamos ao construtor insensato que edificou a sua casa sobre a areia. E em nossa sociedade de consumo este fundamento parece prevalecer sobre qualquer outro. A confiança na própria capacidade, a produção, a riqueza, a saúde e o bem-estar são os fundamentos, se assim os podemos chamar, mais difundidos. A estes acrescente-se ainda: o considerar-se cristão, mas livre de todo e qualquer compromisso, como se tudo estivesse em ordem. Estes-seriam alguns fundamentos sem con-sistência e resistência diante do juízo iminente. Aí importará somente a qualidade do fundamento, ou seja: o agir consoante a palavra de Jesus.

A parábola, por isso, quer livrar-nos de um auto-engano e de uma segurança falsa antes que seja dito: tarde demais. Ela lança o alerta de que em toda a vida importa estar baseado na palavra de Jesus e agir em concordância com a mesma. Nela Jesus mesmo estará presente, sendo nossa força e segurança.

IV - A prédica

O presente texto é bastante conhecido. Talvez bem por isso apresentará maiores dificuldades para a pregação. É um dos tantos chinelos velhos (como um colega costuma defini-los), com os quais nos acostumamos. O mesmo vale também para os nossos ouvintes. Aqui o bom é contraposto ao mau. Já ao ouvir a passagem, talvez muitos de nossos ouvintes desligam, pois acostumaram-se com tais textos.

Enquadram-se automaticamente na figura do construtor inteligente. Ninguém de nós quer e gosta de ser chamado de insensato. Ao meu ver, aqui está o grande desafio ao pregador, ou seja, fazer deste chinelo velho algo novo para os ouvintes.

Cabe ao pregador mostrar na sua situação concreta os perigos de uma falsa segurança, que pode estar baseada nos próprios sucessos apenas. Como segundo passo caberia a ele mostrar concretamente o que significa ouvir e praticar. E, como conclusão, traçar então as consequências daí advindas.

V - Bibliografia

- GRUNDAMANN,W.Das Evangelium nach Matthäus.S.ed.Berlin, 1972.
- JEREMIAS, J.Die Gleichnisse Jesu. 3.ed. München, 1972.
- SCHNIEWIND, J. Das Evangelium nach MatthÄus. In: Das Neue Testament Deutsch. Vol. 2. 12.ed. Göttingen, 1968.


Autor(a): Otto Porzel Filho
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 10º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 7 / Versículo Inicial: 24 / Versículo Final: 27
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1980 / Volume: 6
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18254
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