Miquéias 6.1-8

31/01/1999

Prédica: Miquéias 6.1-8
Leituras: I Coríntios 1.26-31 e Mateus 5.1-12
Autor: Carlos A. Dreher
Data Litúrgica: 4º Domingo após Epifania
Data da Pregação: 31/01/1999
Proclamar Libertação - Volume: XXIV
Tema:

1. O texto

São muitas as discussões, entre os pesquisadores, sobre o Livro de Miquéias. Isso diz respeito, principalmente, à estrutura do livro e à autenticidade da maior parte dos ditos. Um dos poucos consensos é o de que nos caps. 1-3 se encontram palavras autênticas de Miquéias de Moresete-Gate, um camponês judaíta que atuou aproximadamente entre 740 e 700 a.C.

Sobre os demais capítulos do livro há diferentes opiniões, que vão desde a possibilidade de serem, ao menos parcialmente, palavras de outro profeta contemporâneo de Miquéias, e que teria atuado no Reino do Norte, Israel, até a localização de diferentes textos na época pós-exílica. Para o texto em apreço, 6.1-8, as opiniões também se dividem. Para uns, é autenticamente de Miquéias, para outros, pós-exílico e, para outros ainda, de autoria do profeta nortista mencionado.

Com relação à estrutura do livro, alguns o dividem em quatro partes (1-3; 4-5; 6.1-7.7; 7.8-20), outros em três, e aí ainda ocorrem duas versões (1-3; 4-5; 6-7 / 1-2; 3-5; 6-7); finalmente, outros o dividem em duas partes (1-5; 6-7). Em qualquer um dos casos, nossa perícope faz a abertura de uma seção.

Em meio a essa discussão, é extremamente difícil tomar uma decisão definitiva, que corresponda em termos absolutos à verdade sobre a história do texto. Em vista disso, proponho que deixemos a perícope falar por si mesma, independentemente de seu contexto literário, de sua localização em um ou outro período e de sua autoria. O próprio texto nos dirá algo sobre a situação a que se dirige. Não deixará de ser palavra de Deus, por isto, nem de transmitir uma mensagem para nós.
Em termos de tradução, o texto não apresenta maiores problemas. Para o que segue, tomo por base a versão de Almeida.

Miquéias 6.1-8 apresenta a seguinte estrutura:

a) vv. 1-2 — A fala do profeta: convocação de testemunhas

b) vv. 3-5 - A fala de Javé

c) vv. 6-7 — A fala do povo

d) v. 8 — A fala do profeta: a exigência de Javé.

O texto compõe-se de distintas formas literárias, reunidas numa discussão entre Javé e seu povo. A primeira parte, vv. 1-5, tem características mais acentuadas de disputa jurídica; enquanto que a segunda se apresenta mais como uma reflexão sobre a forma mais correta de expiar a culpa. A pergunta que fica é como relacionar corretamente essas duas partes.

2. Detalhes

A perícope inicia com uma conclamação, feita pelo profeta, a ouvir o que Javé tem a dizer (v. 1). Esta conclamação se repete no v. 2. O conteúdo dos dois versículos é quase o mesmo, uma vez que em ambos, montes e outeiros, respectivamente, montes e fundamentos da terra, são convidados a participar como testemunhas para uma disputa jurídica. As diferenças entre os dois versículos se dão em dois momentos: no v. l, Javé mesmo fala, instando alguém a levantar-se e defender sua causa diante das testemunhas; no v. 2, o profeta conclama as testemunhas a ouvir a controvérsia, melhor seria dizer a disputa jurídica que Javé tem com o seu povo, Israel.

É bem provável, como apontam alguns comentaristas, que o v. l seja uma palavra de abertura a toda a seção final do Livro de Miquéias, referindo-se, então, não apenas à nossa perícope, mas também aos discursos que se seguem. Neste caso, não faria exatamente parte do texto proposto para a pregação, que iniciaria de fato no v. 2. Não obstante, como cabeçalho da seção em que Mq 6.2-8 se encontra, não vejo por que não considerá-lo. O restante do texto está sob esta convocação.

Assim considerados, os dois versículos fazem a apresentação das duas partes em litígio no processo: o v. l propõe que alguém — pelo que segue, certamente é o povo — se levante e apresente seus argumentos; o v. 2 indica que Javé apresentará os seus.

A convocação de elementos da natureza como testemunhas de uma disputa jurídica entre Javé e seu povo é frequente na literatura profética (cf. p. ex. Is l .2; Mq l .2). São os elementos estáveis e duradouros, confiáveis para apreciar a disputa.

Digno de nota é que, apesar de o povo ser convocado a defender sua causa, o texto silencia a respeito. Não ficamos sabendo que é que o povo tem objetivamente contra seu Deus.

Não me parece possível especular sobre a causa do povo, a partir do conteúdo do v. 3. A pergunta de Javé: que te fiz, e com que te enfadei? não dá nenhuma real indicação de que o povo, ou ao menos parte dele, tenha alguma queixa concreta a apresentar. É bem mais possível que seja uma pergunta retórica, como em Is 3.15a: Que há com vocês?. Onde está a razão para determinadas atitudes desse povo? E, a partir do conteúdo do v. 8, seria possível perguntar: por que esse povo não faz o que é bom? Por que não pratica a justiça? Por que não cima a misericórdia? Por que não anda humildemente com o seu Deus? Não é de uma acusação que Javé se defende, nos vv. 3-5. É contra uma prática por parte do povo, que não corresponde aos atos salvíficos de Deus ao longo de sua história, que a fala de Javé se volta. Na verdade, não há acusação a fazer contra Deus.

Entretanto — e aí está a questão! —, o povo age como se tivesse alguma razão de queixa contra Javé. Não faz o que é bom, não pratica a justiça, não ama a misericórdia, não anda humildemente com seu Deus.

É em vista disso que Javé apresenta seus atos de justiça, seus feitos em favor de seu povo no passado (cf. Jz 5.11; l Sm 12.7; Is 45.24; Sl 103.6). Certamente haveria muitos mais a citar. Aqui são lembradas: a) a saída do cativeiro no Egito; b) a passagem pelo deserto, sob a liderança de Moisés, Arão e Miriã; c) a passagem pelo território de Moabe, quando o rei Balaque pretendia que Balaão amaldiçoasse o povo, e este apenas conseguia abençoá-lo (Nm 22-24); d) a dádiva da terra, compreendida na marcha de Sitim até Gilgal (Js 3.1 -4.19). A enumeração desses atos de justiça tem a função de relembrar ao povo que Javé lhe fez o que é bom, que praticou com ele a sua justiça, que foi misericordioso para com um bando de escravos enfraquecidos. E, se Javé lhe fez tudo isso, por que esse povo não apresenta uma prática correspondente?

Na continuidade da perícope, nos w. 6-7, agora é o povo quem fala. Pelo conteúdo dos dois versículos, esse povo sente-se culpado. As dádivas que pretende oferecer buscam alcançar, diante de Deus, a expiação de sua transgressão, do pecado de sua alma (v. 7b).

O texto não nos diz explicitamente qual é a culpa do povo. A julgar pelos versículos precedentes, porém, deve tratar-se do fato de esse povo não corresponder, em sua prática, aos feitos de Deus, aos atos de justiça praticados por Ele em favor de seu povo no passado.

Contudo, apesar de reconhecer-se culpado, esse povo ainda não compreendeu corretamente a razão da repreensão de Javé. Quer expiar a sua culpa, sim. E percebe que tal culpa é grande, tão grande que não sabe qual a melhor maneira de apresentar-se diante de Deus, para mostrar seu arrependimento.

Nessa busca por encontrar a maneira certa para expiar sua culpa, esse povo coloca-se dentro de sua melhor tradição cúltica: há que apresentar-se diante de Deus com uma oferta. Isso se faz tanto quando a culpa é claramente reconhecida pelo ofertante quanto quando se conta com a possibilidade de pecados ocultos ou cometidos por ignorância (cf. as leis de sacrifício em Lv 1-7, especialmente caps. 4-7). Também é certo que ninguém aparecerá de mãos vazias diante de Javé (Êx 34.29b). Está, pois, dentro do esperado pensar em levar uma oferta para apresentar-se, certamente no Templo, diante do Senhor.

Entretanto, em nenhum lugar a tradição cúltica prevê o crescente exagero de presentes expresso nos vv. 6-7: holocaustos (no plural), bezerros de um ano (no plural), milhares de carneiros, 10 mil ribeiros de azeite e, assustadoramente, o sacrifício humano do primogênito, tido como abolido há muitíssimo tempo pelo Deus de Israel (compare Gn 22)! Vasculhando a lei dos sacrifícios em Lv 1-7, nada se encontra dessa enormidade de ofertas. Em qualquer caso, o sacrifício sempre se compõe de uma unidade, e sempre de acordo com as posses de cada pessoa, de modo que aos pobres se pediam duas rolas ou dois pombinhos, ou aos mais pobres, a décima parte de um efa de farinha, o equivalente a 4,5 litros (cf. Lv 5, especialmente vv. 7-13). Acrescente-se que, em caso de pecado por ignorância de toda a congregação de Israel, oferecia-se um único novilho por toda a coletividade (Lv 4.13ss.).

O exagero cheira a tentativa de corrupção! Quanto mais presentes se trouxer a Javé, tanto mais rapidamente a culpa será expiada.

Além do mais, o exagero aponta para a origem desse povo. Ao que tudo indica, não se trata de toda a coletividade de Israel ou de Judá. Trata-se, no mínimo, de pessoas de posses. O plural holocaustos ainda poderia referir-se a gente de poucas posses. O holocausto de aves está previsto na lei (Lv 1.14ss.). Já os bezerros de um ano começam a distanciar-nos da pobreza. Quem, porém, teria milhares de carneiros para ofertar? O rico Nabal (l Sm 25.2) tinha 3 mil ovelhas e mil cabras, riqueza considerável para a época do início da monarquia.

Do rei Salomão nos é contado que ofereceu mil holocaustos em Gibeom (l Rs 3.5) e que, por ocasião da dedicação do Templo, teria apresentado ao Senhor, em sacrifício, 22 mil bois e 120 mil ovelhas (l Rs 8.63)! Conforme o relato de 2 Cr 35.7-9, por ocasião da celebração da Páscoa, o rei Josias teria oferecido a todo o povo, para o sacrifício pascal, 30 mil cordeiros e cabritos, além de 3 mil bois, tudo proveniente da fazenda do rei! Apesar do provável exagero também nestes relatos, não ouvimos sobre mais ninguém em Israel ou em Judá que tenha feito tamanha oferta como aquela apresentada em nosso texto.

A pomposidade das ofertas não pára por aí. Fala-se agora em 10 mil ribeiros de azeite, o que é totalmente impossível, a não ser que se trate de linguagem figurada para expressar uma quantia enorme do produto mais precioso da agricultura palestinense. Mas também aí nosso olhar se volta para o tempo de Salomão, que teria repassado a Hirão de Tiro, em troca da madeira para a construção do Templo e de seu palácio, a quantia de 20 coros de azeite batido — o equivalente a 8 mil litros de azeite de primeira qualidade — ao lado de 20 mil coros de trigo (8 milhões de litros?), a cada ano (l Rs 5.13). Se a cada ano corresponde ao tempo que se levou para edificar o Templo, isto significaria sete anos (l Rs 6.36); se o prazo se refere ao tempo de construção dos palácios, seriam 13 anos (l Rs 7.1). Em qualquer um dos casos, Salomão teria transferido verdadeiros ribeiros de azeite não a Javé, mas a Hirão.

Por último, em nosso texto chega-se a propor o sacrifício extremo: a oferta do primogênito. Como já referido acima, tal prática é considerada abolida há muito tempo no Antigo Testamento. Não obstante, há notícias de que reis teriam sacrificado seus filhos. De Acaz (2 Rs 16.3) e de Manassés (2 Rs 21.6) isto é dito expressamente (2 Rs 16.3). Outras referências, relacionando essa prática à casa real, se encontram em 2 Rs 23.10; Jr 7.31; Ez 20.26,31; compare 2 Rs 17.17.

Apesar de não haver qualquer menção explícita da origem dos ofertantes preocupados em expiar seu pecado, as referências contidas em Mq 6.6-7 não nos permitem indicar aqui a totalidade do povo. Sem dúvida, são pessoas de posses. E, com grande probabilidade, a julgar pelas referências comparativas colhidas de outros textos do Antigo Testamento, trata-se aqui das pessoas que compõem a administração estatal: o rei e seus funcionários, a corte e a elite dominante. Essa conclusão situaria nosso texto claramente na época de Miquéias, e essas palavras estariam em consonância com a sua proclamação (cf. Mq 3!).

No versículo final, o profeta volta a falar, anunciando claramente três coisas: a) Javé não quer nada daquela parafernália sacrifical; b) esse povo ainda não entendeu nada do que Deus espera; c) esse povo já deveria saber qual é realmente a vontade do Senhor.

Ao iniciar seu anúncio com as palavras: Ele (já) te declarou o que é bom, o profeta indica que não está propondo nenhuma novidade. Há muito tempo Israel já deveria saber o que é bom. E essa pergunta inquieta pelo sacrifício melhor qualificado para aplacar a Javé é totalmente inútil. Está totalmente fora de contexto. Não se trata de sacrifícios grandiosos.

De fato, nosso texto não se volta de maneira absoluta contra o sacrifício, enquanto rito religioso. Aí Am 5.21-24 ou Os 6.6 são bem mais contundentes. Entretanto, Mq 6.8 deixa claro que nem sacrifícios grandiosos, próprios de quem tem muitas posses, nem os pequenos são o que Javé quer. Não são presentes e ofertas, bezerros, carneiros e azeite, nem mesmo essa loucura de sacrificar o primogênito, o que Ele espera de seu povo.

Quem ainda pensa assim não compreendeu nada do que Deus quer. Quem pensa assim não olhou para a história de Deus com seu povo, não se lembra do Deus que libertou escravos, que acompanhou no deserto, que protegeu contra os inimigos, que levou seu povo à terra da promessa, a fim de que vivesse em paz, em amor e solidariedade.

Ele já te declarou o que é bom! Contudo, se ainda não basta, se ainda não sabes, se por acaso esqueceste, relembra! O que Ele pede de ti são apenas três coisas: que pratiques a justiça, que ames a misericórdia, que andes humildemente com teu Deus. Nestas três coisas se resume o que é bom. Além delas, nada mais é necessário.

Continuar aqui a esclarecer longamente essas três coisas seria repetir o diálogo de Jesus com aquele intérprete da lei que lhe perguntou: Quem é o meu próximo? (Lc 10.25-37). Por isso, em rápidos traços, relembremos:

Praticar a justiça é cumprir o projeto libertador de Deus, que demonstra a sua preferência pelas vítimas da injustiça humana. É exatamente o contrário do que Miquéias denuncia nos caps. 2-3:

É não acumular terras, não explorar as famílias, não distorcer a teologia, usando-a como legitimação ideológica, é não corromper os julgamentos, não falsificar a palavra de Javé, não construir Jerusalém com o sangue do povo (...) Em termos positivos, fazer justiça é organizar a vida da sociedade em torno dos valores da solidariedade, liberdade e igualdade. (Zabatiero, p. 118.)

Amar a misericórdia (hesed) é ir além da prática da justiça. É ter um coração para o pobre (miseri - córdia). É amar a solidariedade. É sentir-se irmanado com aquelas pessoas que necessitam de ajuda. Enquanto a justiça cria uma sociedade equilibrada, a hesed estabelece a comunidade! (Id., ibid.)

Andar humildemente com nosso Deus é, em última análise, manter constantemente viva a lembrança de que somos criaturas, não deuses diante d'Ele e de nossos semelhantes! É não se deixar levar pela ânsia de poder, que se sobrepõe aos outros seres humanos. É, finalmente, amar a Deus e as outras pessoas, assim como Ele nos amou primeiro.

Não deixa de ser interessante a observação de que em todo o Antigo Oriente cabe ao rei estabelecer a justiça e defender os que sofrem (cf. SI 72; 101). Em decorrência disto, bem como das propostas de sacrifício analisadas acima, alguns exegetas sugerem que o homem mencionado no v. 8 seja o rei. Se isso fosse certo, teríamos mais um argumento para atribuir a perícope efetivamente a Miquéias. Contudo, essa hipótese é muito difícil de demonstrar em definitivo.

Tomemos, então, o ser humano em geral como o homem, como o destinatário de nosso texto. Com certeza, porém, não será qualquer pé-rapado. Terá que ter bezerros, carneiros e azeite em profusão. Terá também que ser tão inescrupuloso, a ponto de pensar em imolar seu filho mais velho, a fim de se livrar da própria culpa. Terá de ser também alguém que se esqueceu dos atos de justiça de Javé, passível, em decorrência, de ser denunciado por não praticar a justiça nem amar a misericórdia. E, finalmente, terá de ser alguém cujo poder não o deixa mais andar humildemente com o seu Deus.

3. Pensando na prédica

As bem-aventuranças (Mt 5.1-12) e a lembrança de que Deus escolheu as coisas loucas, fracas, humildes e desprezadas do mundo, a fim de que, quem se gloria, se glorie no Senhor (l Co 1.26-31), são os textos de leitura que acompanham o texto de pregação, Mq 6.1-8. Dessa conjunção deve sair o próprio do 4º. Domingo após Epifania.

Os dois textos de leitura têm em comum a menção às pessoas fracas. Diferente em ambos é que as bem-aventuranças se referem também aos que praticam a vontade de Deus, como a justiça e a misericórdia, ao passo que l Co l .26-31 nos lembra de nossa vocação e alerta contra a vanglória. Semelhanças e diferenças de ambos ecoam em Mq 6.1-8.

É preciso lembrar constantemente de nossa história com Deus, desde a saída do Egito e da morte e ressurreição de Jesus Cristo por nós. É preciso lembrar constantemente que Deus não nos escolheu por sermos fortes, mas exatamente por sermos fracos e estarmos necessitados de ajuda, socorro e salvação. Sua justiça e sua misericórdia para conosco nos devem motivar constantemente para a justiça e a misericórdia em relação a nossos irmãos e nossas irmãs necessitados de ajuda, socorro e salvação.

Acima de tudo, é importante que caminhemos humildemente com nosso Deus, sem vanglórias, sem ostentação material, sem exageros de demonstração de fé ou religiosidade e, principalmente, sem abusos de poder sobre outras pessoas.

Sim, isso vale para a vida em família, no trabalho, na comunidade de fé, na relação com a vizinhança, não há dúvida. Em todos os setores de minha vida devo lembrar de minha vocação e de que Deus já me declarou o que é bom.

Contudo, isso também tem a ver com a minha posição diante da sociedade em que vivo. Tem, pois, a ver com política. E aí não é suficiente que eu me lembre do que é bom, que eu pessoalmente pratique a justiça e a misericórdia. É preciso mais. É preciso compreender que, além da minha vontade e da minha capacidade individuais, muitas pessoas sofrem injustiça e não experimentam solidariedade, em virtude do poder econômico nacional e internacional e dos interesses que este poder defende. Mais e mais pessoas são excluídas do processo econômico. Não têm emprego, não têm comida, não têm casa, não têm nada! Sofrem a injustiça e a ausência de misericórdia e de solidariedade, num mundo comandado pelos donos do capital, que não têm mais, se é que algum dia tiveram, qualquer interesse em ajudar pessoas a viverem uma vida digna. E esses donos do poder econômico são também os donos do poder político.

Como diz Júlio Zabatiero, em seu comentário a Miquéias,

(...) especialmente as pessoas que possuem poder são as que precisam se comportar , como seres humanos, e não como deuses, que dispõem da vida e morte dos seus semelhantes. (...) Enquanto a religiosidade do Estado opressor propõe e pratica uma mentalidade sacrifical, a vontade de Javé propõe e exige uma mentalidade fraternal, solidária. Conhecer a Deus não é apresentar sacrifícios, mas criar justiça, solidariedade, fraternidade. A espiritualidade que Deus requer não é ritualista ou formalista, é espiritualidade concreta, que se manifesta no temor a ele e no amor ao próximo, no amor aos que ele ama com ternura.

Nesta direção, Mq 6.1-8 propõe uma crítica aos fundamentos que legitimam a atuação estatal, o uso do poder. O poder não existe para que os seus detentores defendam seus próprios interesses, ou os interesses abstratos da nação. O poder deve ser usado para garantir a vida e a dignidade de todos os membros da sociedade, especialmente dos que são marginalizados e injustiçados. Só assim a teologia não será ideologia, só assim a religião não será hipocrisia. Só assim se cumprirá o projeto de Jesus (cf. Mc 10,35-45). (Ibid., p. 119.)

Em tempos de globalização e de internacionalização do capital, este último cada vez mais desligado da produção e do mundo do trabalho, o desinteresse pelas pessoas é cada vez maior. As bolsas de valores, a estabilidade monetária, os bancos são mais importantes do que os dois terços da humanidade que podem ser descartados, por não serem mais interessantes para a produção e para o mercado. E aí, em lugar do sacrifício do primogênito, aparece o sacrifício dos excluídos. Em lugar da prática da justiça e da misericórdia em relação aos fracos, aparece a sua imolação. Importante é salvar-se quem puder, garantindo seu próprio espaço entre os sobreviventes, através de investimentos polpudos e de lugar aberto a cotoveladas no mercado.
Tudo isso passa pelo individual, sem dúvida. A ânsia de preservar a própria vida se sobrepõe aos interesses coletivos. Contudo, ainda existem estruturas de poder, eleitas pelos cidadãos incluídos ou excluídos. Ainda não foram totalmente eliminadas pelo mercado, apesar de o mundo caminhar nessa direção. Sim, o Estado ainda existe. E sua função é zelar pelo bem-estar de todas as pessoas em seu território. E nossa função, a partir da história de Deus conosco, é zelar para que esse Estado cumpra seu dever. E aí, salvar a floresta amazônica é mais importante do que salvar bancos. Criar condições de vida para as vítimas da seca do Nordeste, perfurando poços para utilização coletiva, é mais importante do que a estabilização da moeda e das bolsas de valores. Cuidar da saúde, da educação, da aposentadoria justa, de emprego, enfim, de vida digna para todas as pessoas, é mais importante do que, com a suposta intenção de modernizar o país para a competitividade internacional, sacrificar essas mesmas pessoas para aplacar a ira desse novo deus global.

Com que me apresentarei diante de Javé? Com computador de última geração e carro do ano? Com cadernetas de poupança recheadas e polpudos investimentos na bolsa? Com a vitória na competição global?

Ele te declarou, ó homem, o que é bom! Lembra-te de tua história com teu Deus! Esquece essa loucura que te apresentam como único caminho para a tua salvação! Olha para os pequeninos e para as pequeninas! Pratica a justiça e a misericórdia! Aí, sim, estarás fazendo o que é bom e andando humildemente com teu Deus.

Penso que a prédica terá de passar pelo caminho da crítica à preocupação individual exagerada com a própria salvação no mundo global. Se é que a fé no Deus bíblico ainda tem valor e influência sobre as pessoas, se é que ainda não foi substituída pelo novo deus do sucesso, que salva alguns e exclui outros, tal crítica deverá brotar da lembrança da graça de Deus, expressa no Antigo e no Novo Testamento. Essa graça se manifestou sempre entre os fracos do mundo. Sim, o seu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Ele libertou escravos, ressuscitou mortos. Deu vida a quem já não a tinha. Salvou de culpa e de pecado.

Essa lembrança nos deve animar insistentemente a fazer valer essa graça em meio ao mundo. É a resposta que Deus espera de nós ao que Ele já fez. Não espera nenhuma outra resposta, tal como presentes e sacrifícios. Quer unicamente justiça e misericórdia, praticadas por pessoas que querem e sabem andar humildemente com seu Deus.

Contudo, o caminho dessa resposta passa também por nossa responsabilidade política. Por ocasião do 4° Domingo após Epifania, novos governadores e o presidente da República, reeleitos ou não, já terão sido empossados. Nem por isso nossa responsabilidade política terá terminado. Ela não se limita ao voto de quatro em quatro anos. Precisa ser vigilante e, em nome de Deus, exigir constantemente a prática da justiça e da misericórdia, em suma, da solidariedade honesta e verdadeira, para com os fracos de Deus. É função do Estado — enquanto ele ainda tiver alguma função — zelar pela justiça e pela solidariedade. É função de cada cidadão zelar para que isso aconteça, sem esquecer de fazer a sua parte.

Esse é o único serviço sagrado — sacrifício — que Deus espera de nós.

Bibliografia

SICRE, José Luís. A justiça social nos profetas. São Paulo : Paulinas, 1990.

ZABATIERO, Júlio Paulo Tavares. Miquéias — voz dos sem-terra. Petrópolis : Vozes; São Leopoldo : Sinodal, 1996. (Comentário Bíblico — AT).

Proclamar Libertação 24
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Carlos A. Dreher
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: 4º Domingo após Epifania
Testamento: Antigo / Livro: Miqueias / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 8
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1998 / Volume: 24
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 6996
REDE DE RECURSOS
+
A Deus, aos pais e aos mestres, nunca se poderá agradecer e recompensar de modo suficiente.
Martim Lutero
© Copyright 2019 - Todos os Direitos Reservados - IECLB - Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - Portal Luteranos - www.luteranos.com.br