O Desafio de Ser Autor de Proclamar Libertação

Artigo

02/12/1989

A Teoria da Comunicação recomenda que, para organizar-se uma fala/conferência, se parta da pergunta: o que une os que nos ouvem. Eu pergunto: o que os une? São autores de Proclamar Libertação. Autores, portanto, não de um texto qualquer, mas de um texto (subsídio) que faz a leitura de outro texto (Bíblia) e do seu contexto (momento histórico) para outro autor (pastor da comunidade) preparar sua fala (prédica).

Aqui temos formulado um problema para a Teoria da Comunicação. Nosso objeto de estudo gira em torno da prédica. A prédica como processo de comunicação. E comunicação entendida como fenômeno essencialmente societário, que se processa através das linguagens, e que, assim como a comunicação, é uma ação de tornar comum.

A prédica, portanto, é um processo de tomar comum a palavra de Deus através da linguagem verbal falada. Qual é o desafio, pois, do autor de Proclamar Libertação?

Primeiro, um desafio comum a todos que escrevem. Escrever é um ato solitário e doloroso, que nos desnuda. Além do mais, o uso de nossa escrita nem sempre tem o destino e a interpretação que lhe desejamos. O texto permanece para além de seu autor e dá testemunho dele.

O segundo desafio é específico dos autores de auxílios homiléticos, e se refere ao lugar que ocupam. Se, por um lado, são sujeitos do seu texto, são simultaneamente reinterpretadores do texto bíblico e codificadores da direção da IECLB, que é a fonte deste processo. A relação entre fonte e codificador tem na sua origem uma tensão. Há um desejo de harmonia, constantemente ameaçada pela tensão da relação entre diferentes poderes. A direção da IECLB detém o poder de direção e os autores de auxílios homiléticos um poder de saber. Por sua vez, com o pastor da comunidade que recebe e lê o Proclamar Libertação também há uma relação de tensão. Os pastores que lêem PL não o fazem de forma neutra, ninguém o faz. A leitura de mundo precede a leitura de um texto, faz identificar o autor, suscita no que 16 antigas lembranças, emoções e rancores. Este fenômeno faz com que aquele que escreve, escreva para re-identificar-se, confirmar sua imagem e com que os que lêem, só leiam o que querem ler.

A Teoria da Comunicação identifica neste processo uma redundância que não dá margem a surpresas, cortes, rupturas de preconceitos. E identifica a situação propiciadora do discurso vazio, da fala redun-dante e de sujeitos paralisados no seu saber, pois não querem deixar-se penetrar por outros saberes.
Esta é uma situação comum no interior de nossas instituições culturais, educacionais, religiosas, etc. Na defesa da sua posição vestem uma armadura impenetrável para novas ideias.

Há, ainda, uma outra delimitação entre os pastores de comunidade e os autores de auxílios homiléticos. Todos podem elaborar uma prédica. Ela implica leitura, reflexão e o domínio da comunicação oral para a qual todo ser humano nasce apto. (Os homens nascem aptos a falar, assim como os pássaros nascem aptos a voar). Nem todos, no entanto, podem escrever um texto. Escrever implica em leitura, reflexão e produção de um novo saber, que, teoricamente, deve ter sabor para transformar-se em sabedoria, que é a essência de uma escritura.

O autor de um auxílio homilético lida, portanto, com desafios de diferentes ordens: o de conhecer-se, de estar consciente de si, para não temer desnudar-se, nem sentir-se ameaçado pelas ideias dos outros; a de saber para quem escreve e ter respostas sobre os usos de seus escritos. E, por último, o de dominar o código da linguagem escrita.

Há uma outra questão que deve ser acrescida a esta reflexão. Cada momento histórico tem uma forma de comunicação dominante. Não que não existam outras. As demais ficam referendadas na principal. O meio de comunicação hegemónico na sociedade contemporânea é a televisão, que é o meio massivo mais sofisticado na união da comunicação verbal com a não-verbal. Ou seja, existe um meio massivo que é capaz de trazer a imagem e o som para dentro das nossas casas. E isto modificou nossa forma de ser e de ver o mundo. A linguagem da televisão é uma linguagem fragmentária, rápida, incapaz de profundidade. A televisão é o meio que se adequa ao modo capitalista de pensar. Ela transforma a dor, a alegria, a morte e o nascimento em um show. Esta lógica fragmentada, brilhante, emocionante é a que se instala em nossa mente e em nosso coração. E com ela vemos o mundo e os outros meios.

O escritor de um texto, nesta lógica, está usando o meio secundário da sociedade atual. O escritor de um texto bíblico está usando o meio secundário para um tema obsoleto. Ele está, portanto, fora de moda. Por aí, chegamos a uma questão ainda mais ampla acerca do nosso problema. Qual é o lugar na sociedade atual do autor de um texto bíblico? Arriscamos uma resposta. É um lugar de crise. A crise pelo conteúdo/mensagem. A crise pelo código/canal.

Mas se adotarmos a visão dos chineses para quem a palavra crise é composta dos caracteres perigo e oportunidade, poderemos enfrentá-la com esperança.


Autor(a): Christa Berger
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1989 / Volume: 15
Natureza do Texto: Artigo
ID: 13511
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