O Manifesto de Jesus

As bem-aventuranças como indicativos de transformação

01/02/2020

Mateus 5.1-12

Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte e se assentou. Seus discípulos aproximaram-se dele, e ele começou a ensiná-los, dizendo:
Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados.
Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos.
Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus.
Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus.
Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês.
Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a recompensa de vocês nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês.

O manifesto de Jesus

Olhando do ponto de vista litúrgico, tudo hoje aponta para as atitudes de Jesus que visavam provocar uma reação das pessoas na sociedade. Este domingo é lembrado como o da apresentação de Jesus no templo. Lá ele já rasgou o verbo falando dos novos tempos que estavam começando. Tivemos a celebração do batismo do pequeno Henrique Fanton. Seus pais e padrinhos assumiram um corajoso ato de ruptura com o mundo maldito em que vivemos e testemunhando que querem dar frutos no Reino de Deus. Em seguida teremos a celebração da Ceia do Senhor, sinal inigualável do amor de Deus rasgando o véu da hipocrisia humana e chamando você e eu para nos humilharmos diante do seu poder perdoador.

Agora, estamos diante de um texto bíblico emblemático, melodioso, que fala de bem-aventuranças, de felicidade, mas, como disse John Stott, provavelmente o mais incompreendido e desobedecido texto. A começar pelas “bem-aventuranças”, Jesus fala do monte apontando para uma cultura alternativa onde o Espírito de Deus perturba e conforta, conforta e perturba aquela gente com sentimento de vergonha por não estar conseguindo fazer mais daquele bem melhor que gostaria de fazer.

Palavras que inspiram confiança

É necessário reconhecer que vivemos uma tragédia. Não gostaria que apontassem para fora e, sim, para dentro, para nós mesmos. Somos uma Igreja que tem mais mortos que vivos (Ap 3.1) à medida que muitas lideranças se conformam — tomam a forma — mais com o mundo obscuro que com o Reino de Deus. E, ainda, se dão ao direito de ficar questionando sobre a identidade verdadeira da igreja neste mundo caótico. É muita arrogância.

Mas Jesus aponta para um povo santo — não arrogante — e isso devolve a confiança para todas as pessoas que aguardam o irromper definitivo do Reino de amor e justiça. Jesus aponta para a alternativa do ser “santo ou “diferente à medida que se vive a promessa dos primórdios: Eu sou o Senhor vosso Deus. Não fareis segundo as obras da terra do Egito, em que habitastes, nem fareis segundo as obras da terra de Canaã, para a qual eu vos levo, nem andareis nos seus estatutos. Fareis segundo os meus juízos, e os meus estatutos guardareis, para andardes neles: Eu sou o Senhor vosso Deus.” (Lv 18.1-4).

Começando de forma adequada

Como já mencionei — e vocês presenciaram — tivemos ainda há pouco a celebração de um batismo. Quando Jesus foi batizado, e de acordo como o evangelista Mateus estruturou seu escrito, foi logo após este sacramento que o Mestre chamou a multidão para apresentar o Evangelho. Já logo, de começo, a multidão percebe que as palavras deste homem valeriam a pena serem ouvidas.

Jesus entende o que se passa na vida desta gente toda. Jesus percebe que a mudança estrutural começa pelo coração de cada pessoa. Embora a apresentação de Jesus no Templo nos remeta à atividade sinagogal, aqui Jeus se retira e fala às pessoas que nem teriam direito a entrar naqueles lugares suntuosos.

Jesus valoriza as pessoas e as alcança do lado de fora daquele sistema religioso que favorecia os grandes e isolava os pequenos. E, mesmo que todas esta palavras, nesta sequência, não tiverem sido um sermão propriamente dito, elas nos transmitem o meio pelo qual se chega a um fim, a um objetivo concreto de transformação do mundo amado por Jesus (Jo 3.16).

As bem-aventuranças enfatizam oito sinais principais da conduta e do caráter cristãos, especialmente em relação a Deus e aos homens, e as bênçãos divinas que repousam sobre aqueles que externam estes sinais”. Assim Stott em Contra Cultura Cristã, ABU, 1981, que recomendo ler. Portanto, a mudança começa pela transformação do caráter, e não da estrutura social.

Realidade desgraçada e consequência da graça

Diante de cada expressão que descreve uma realidade inconteste da sociedade na qual Jesus vivia, há um resultado esperado a partir do exercício do amor e justiça baseados na graça transformadora de Jesus Cristo.

  • Os que recebem o favor divino

Makarios é o termo grego usado para se dizer “bem aventurados”. As pessoas que se colocam sob o favor de Deus, são felizes. Assim como no Salmo 1.1, esta felicidade se expressa sempre onde uma pessoa afortunada — seja pela fé, seja pelas circunstâncias — se deixa conduzir para colher os melhores dias de sua vida.

  • Dos humildes de espírito é o reino dos céus

As pessoas desasistidas ouviram de Jesus que elas, por serem pobres (termo usado por Lucas) não tinham outro refúgio a não ser Deus e o Seu reino. Por isso eram humildes as pessoas que, no dizer do Primeiro Testamento, estavam aflitas (Is 41.17s), incapazes de salvar-se a si mesmas e dependentes da graça dos céus. De forma amorosa, mas enérgica, Jesus repete o novo sentido das coisas como já anunciamos na pregação do 3º Dom. de Advento sobre Mateus 11.2-11: Advento - um ciclo aberto para a vida. No reino de Deus não entram as pessoas que se consideram ricas em méritos, as auto-satisfeitas, as abastadas, as narcisistas; mas as pobres, as frágeis, não poderosas, mesmo as criancinhas bastante humildes para aceitá-lo.

  • Dos felizes por causa de sua infelicidade

A expressão chama atenção pelo paradoxo que é ser feliz porque se está infeliz. Enquanto Lucas usa o termo gr. klaio, chorar, Mateus usa o gr. pentheo, que expressa a profunda tristeza como de alguém que perde seu ente querido. Afinal, qual é a tristeza que pode gerar felicidade? Justamente porque a vida de uma pessoa cristã não se resume a alegria e exuberância, a felicidade está no consolo recebido por Jesus e pelo Esp. Santo. Da mesma forma acontece com a tristeza pelo pecado cometido; há o consolo do perdão e da reconciliação. Isso gera felicidade.

  • Para os mansos, tudo

Pessoas que têm autocontrole são classificadas como prays (gr.) e significa, além de mansas, gentis, cortezes e atenciosas. Ter uma atitude supostamente justa, correta, amorosa e mansa diante de Deus é até fácil. Difícil é manter estas mesmas atitudes mansas diante das pessoas ao nosso redor. Nós facilmente reagimos com violência - seja ela verbal ou nas vias de fato - quando somos contrariados e ofendidos. Em uma sociedade como a nossa onde 30% faz mais barulho que 70% e consegue as coisas no grito, seria de se esperar que nada pode sobrar para as pessoas mansas. Nos avisa o Salmo 37 que não é assim no reino de Deus, onde a herança de tudo o que nos é necessário já está determinada.

  • Fartura para quem tem fome e sede de justiça

Ao contrário das pessoas famintas por bens e poder, que são despedidas de mãos vazias, aquelas outras que tem por ambição os bens espirituais, estas serão fartos. Esta é uma boa tradução para kortátzo (gr.) que também significa preenchido, satisfeito, bem alimentado. A justiça aqui mencionada pode ser classificada em três aspectos: a legal, a moral e a social. Justiça legal é a justificação pela graça; a moral é a conduta que agrada a Deus diante do próximo; a social busca a libertação do ser humano de todo tipo de opressão.

Nas palavras de Martin Luther: A ordem para você não é rastejar para um canto ou para o deserto mas, sim, sair correndo e oferecer as suas mãos e os seus pés e todo o seu corpo, e empenhar tudo o que você tem e pode fazer.” Prossegue: “ter uma fome e sede de justiça que jamais possam ser reprimidas, ou sustadas, ou saciadas, que não procurem nada e não se importem com nada a não ser com a realização e a manutenção do que é justo, desprezando tudo o que possa impedir a sua consecução. Se você não puder tornar o mundo completamente piedoso, então faça o que você puder.” (citado por Stott.op.cit.)

  • As coisas do coração

Misericórdia gera misericórdia e tem a ver com as coisas do coração. É de coração que pessoas de Cristo agem em favor de desesperados e miseráveis - como consequência de pecado e/ou da situação social - as conduzindo para a graça de Cristo, que livra do pecado e da culpa.

Da mesma forma são coisas do coração apresentá-lo puro e limpo, em inteira devoção a Deus. Luther afirma que “Cristo… quer um coração limpo, embora exteriormente a pessoa possa estar confinada à cozinha encardida e cheia de fuligem, fazendo toda espécie de trabalho sujo. E novamente: Embora um trabalhador comum, um sapateiro ou um ferreiro possa estar sujo e cheio de fuligem ou mesmo cheirar mal porque está coberto de pó e piche, … e embora cheire mal externamente, no interior é puro incenso diante de Deus porque, em seu coração, medita na palavra do Senhor e lhe obedece. (Stott, op.cit.)

Pacificadores são igualmente agentes das coisas do coração. Fazedores de paz são as pessoas que conseguem gerir conflitos de tal forma que possam novamente trazer a ordem e o bem estar ao convívio. No entanto, onde o Evangelho se faz atuante, é inevitável o conflito. Jesus mesmo diz que não veio trazer a paz, mas a espada (Mt 10.34). O Evangelho causa divisões, porém somos convocados a buscarmos a paz, promovermos a paz, defendermos a paz como fruto da ação do Espírito Santo.

  • Perseguidos são contemplados com honra e glória

Como o Evangelho é agente de depuração e transformação, nem todas as iniciativas pela paz terão sucesso. Da mesma forma como o conflito é inevitável, também a perseguição o é. As observações de Jesus vão contra o que o império romano preconizava naquela época; portanto, a perseguição aos cristãos já era esperada. Porém a perseguição é uma bem aventurança no sentido de que provam que a pessoa perseguida, por causa de Cristo, é pura de coração, é misericordiosa, é pacificadora. A perseguição é um sinal do discipulado de Cristo.

Concretizando

Prezada comunidade. As bem-aventuranças nos servem de sabedorias de fé em meio ao mundo confuso em que vivemos. Como palavras de Cristo Jesus, elas nos remetem à uma prática responsável em nossa fé e em nossa vida. Em seu manifesto, Jesus aponta o caminho e a forma de trilhar o caminho do Evangelho neste mundo que Ele ama e no qual nos chama para sermos agentes de transformação, de forma enérgica mas amorosa. Por isso, a termos vivenciado neste Culto o batismo, lembremos de viver o batismo. Podemos usar as nove bem-aventuranças como orientadoras de vida porque, já sabemos, como Jesus diz: “Eu escolhi vocês para que deem fruto”. (João 15.16)

Amém!
 


Autor(a): Pr. Rolf Rieck
Âmbito: IECLB / Sinodo: Sudeste / Paróquia: Rio de Janeiro - Martin Luther (Centro-RJ)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 5 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 12
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 54985
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Salmo 121.5 e 8
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