O Marketing a serviço da Igreja

01/12/1997

O Marketing a serviço da Igreja

Luciano Sathler R. Guimarães

A Igreja, corpo de Cristo, encontra-se diante de enormes desafios nos dias de hoje. Especialmente no que se refere à juventude, a maior parte dos líderes evangélicos estão meio atarantados, como a se perguntar: E agora? Como conquistar e manter o interesse das pessoas para o trabalho e as doutrinas cristãs, em meio a um mundo radicalmente contrário a qualquer tipo de voz dissonante? Ou mesmo, como se fazer ouvir e conhecer em meio à cacofonia que transformou o dia-a-dia num constante bombardeamento de mensagens as mais diversas possíveis? Um mundo onde crianças são educadas a maior parte do tempo pela televisão, diante da ausência dos pais, que trabalham o dia inteiro para sobreviver. Televisão onde predominam pessoas com profundos comprometimentos ideológicos e espirituais, que não tem nada a ver com os ideais cristãos? O Marketing pode ser uma ferramenta para a Igreja enfrentar essa realidade. Logo entenderemos melhor essa palavra marketing — pois para muitos adquiriu um sentido negativo, que não tem nada a ver com sua concepção original.

A data oficial levada em consideração como início da Reforma Protestante é o dia 31 de outubro de 1517. Naquela manhã, em meio a um mundo corrupto, Martim Lutero tomou uma atitude de marketing inédita até então. Caminhou até a porta da Catedral de Wittenberg, e pregou na porta, DO LADO DE FORA, suas noventa e cinco teses ou declarações contestando a venda de indulgências e indo contra as autoridades perversas da época. Ao tornar pública sua posição, atraiu a atenção popular para temas que provavelmente seriam apenas objeto de discussões estéreis, caso continuassem restritos aos meios teológicos e filosóficos da época. O folheto usado estava escrito em alemão, a língua do povo que morava naquele país, e não em latim. Ou seja, Lutero ampliou o número possível de receptores, e codificou sua mensagem (para usar conceitos de Comunicação Social) da forma mais clara possível, fugindo da tentação de ¨intelectualizar¨ o debate. Nesse caso, como em qualquer outro exemplo bem sucedido de comunicação cristã, vemos uma mensagem que incomoda e provoca mudança. Uma mensagem emocionante, que não se prende unicamente ao racional, apesar de ser totalmente embasada nas Escrituras. Uma mensagem que motiva. Enfim, é a palavra que não volta vazia, mas faz o que apraz a Deus e prospera naquilo para que ele mesmo a designou. (Isaías 55.11)

Conjunto de ações

A definição mais simples para o marketing, a nosso ver, é: CONJUNTO DE AÇÕES PLANEJADAS ATRAVÉS DAS QUAIS SÃO SATISFEITOS NECESSIDADES E DESEJOS DO INDIVÍDUO. COMO você pode ver, trata-se de espectro muito amplo, onde podem-se encaixar uma infinidade de casos e temas. Não é vendas, não é propaganda enganosa, não é aquele chato que fica querendo te empurrar um produto ruim; e muito menos o líder que se diz espiritual, mas na verdade está interessado apenas no dinheiro dos incautos. Ao fazer um cartaz à mão, ou um convite para o chá de panela, você está desenvolvendo uma ação de marketing. Isso já nos leva a quebrar o paradigma de que é necessário muito dinheiro local para fazer marketing. Com os recursos de informática disponíveis hoje em dia, cada igreja local pode e deve executar ações planejadas, visando ampliar o alcance do Reino de Deus. O que gostaríamos de chamar a atenção do leito é sobre a palavra PLANEJAMENTO. Com certeza, está aí o maior problema das igrejas quanto ao uso de ferramentas de marketing.

Estudo e compromisso

O Marketing é uma ciência que deve ser manipulada por gente que entende do assunto, que se preparou para tanto. Devemos insistir em que há uma necessidade urgente de as igrejas incentivarem alguns membros com perfil e, por que não dizer, chamados, para estudarem e trabalharem a serviço de Deus, utilizando o que aprenderam em escolas de Comunicação e Marketing. O planejamento de ações de marketing requer conhecimento de ferramentas e conceitos que, apesar de muitas vezes parecerem óbvios, são complexos e colaboram para mudar atitudes e pensamentos. Por isso vale lembrar que é primordial ao profissional de marketing a serviço da Igreja ter profundo compromisso com o Evangelho, conhecer e crer na Bíblia, além de manter a ética cristã como norteadora de todas as suas ações. Experimente investir em algum membro da comunidade local ou, se for o caso, junte-se a outras comunidades e escolham alguém para estudar, de preferência numa boa escola, o que é e como usar o marketing. Comece a usar essa pessoa na criação e administração de bancos de dados, pesquisa, planejamento de campanhas de divulgação, estudo de posicionamento e reforço da identidade cristã na juventude. Acompanhe tudo de perto, mas não interfira ao ponto de tolher a criatividade dela. Principalmente, não queira fazer de um folder um tratado de teologia. Busque usar a linguagem mais acessível possível, sem perder a integridade da informação. Certamente os resultados surpreenderão positivamente.

Trabalho com oração

Vamos contar um caso real, tentando ilustrar melhor o que já foi dito. E mostraremos como fatos que parecem loucura no mundo moderno, se trabalhados com oração e planejamento,. podem gerar resultados visíveis. A Igreja Metodista Central em Belo Horizonte estava recebendo uma boa quantidade de novos membros a cada mês. Isso era e é ótimo, mas havia carência de líderes com boa base bíblica e experiência espiritual, o que dificultava bastante o trabalho de atender às crescentes necessidades. Foi criado um programa de estudos, jejum e oração — O Projeto Jordão. Inspirado na passagem situada em Josué 3.1-17, quando o povo precisou pisar nas bordas do rio Jordão antes que Deus parasse as águas, permitindo a travessia para a Terra Santa. Um ato de fé, uma atitude de santificação e coragem. Palavras que motivam as pessoas. Criamos o slogan — PROJETO JORDÃO: UM PROJETO DE VIDA, O Projeto teve duração de duas semanas, sempre das terças aos sábados, das 05:30 às 07:00 horas. Isso mesmo, cinco e meia da manhã. Não é uma loucura? Estabelecemos uma tabela progressiva de jejum e todas as manhãs um novo estudo bíblico era ministrado. A cada dia um versículo deveria ser decorado por todos.

A partir daí, em computador e impressora domésticos, além de fotocópias, criamos cartazes e folders para a divulgação em massa na Igreja, em todos os cultos e reuniões realizados. Preparamos pastas com a mesma identidade visual, e reproduzimos os estudos. Um certificado de conclusão seria entregue a todos os participantes que não faltassem mais do que 3 dias. O encerramento aconteceu no chamado Culto do Poder, num sábado à noite, quando os jordanistas estariam orando e se consagrando a Deus, perante seus convidados.

O resultado é que no primeiro ano 35 novos líderes foram formados, e no ano seguinte 75 pessoas participaram. A cada edição, quem já participou retorna para um novo módulo. A demanda foi maior do que o esperado. E a Igreja se beneficiou profundamente com o reforço de colaboradores, todos leigos. Uma maravilha, para a glória de Deus. Destacamos alguns elementos do composto de marketing desenvolvido: Linguagem simples e instigante, peças promocionais com visual atraente, formação e administração do banco de dados e definição do público-alvo.

Enfim, poderíamos narrar outras ações, levadas a cabo desde que a Assessoria Episcopal da Igreja Metodista foi acionada, em 1995. Mas o espaço é pouco, e consideramos mais importante deixar claro que seja qual for o porte da comunidade, é possível trabalhar o marketing a serviço do Reino de Deus. O desafio é acordar para a realidade de que Cristo idealizou uma Igreja comunicadora e capaz de mobilizar pessoas na busca da vontade de Deus. E sua lição, ao andar no meio do povo, usar linguagem simples e se diferenciar dos sábios da época através do profundo conhecimento das necessidades das pessoas, demonstra que precisamos mudar... e rápido. Ainda há muito o que fazer. Que o Senhor complete a sua obra. Amém.


O autor é assessor de comunicação e marketing do Banco do Brasil e da Igreja Metodista, e reside em Belo Horizonte, MG


Ver ìndice do Anuário Evangélico - 1998
 


Autor(a): Luciano Sathler R. Guimarães
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Anuário Evangélico - 1998 / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1997
Natureza do Texto: Artigo
ID: 33103
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