Os inícios de Proclamar Libertação - um depoimento muito pessoal

15/11/1999

A. Meditações para prédicas. Sugerir-se-á a van Kaick tomar a iniciativa de editar um livrinho com meditações para pregação dos textos previstos para as principais datas do ano eclesiástico de 1976. Cada um assumirá um texto, conforme data prevista. Eventualmente poderá a iniciativa ser tomada por outros docentes da Fac.Teol.

Esta nota singela registra o momento da concepção da publicação que, um ano mais tarde, no seu nascimento, receberia o nome de Proclamar Libertação e que agora completa 25 anos de existência. A nota aparece como item A. de uma página impressa em letras ainda azuladas produzidas por um mimeógrafo a álcool. Alegro-me ao constatar que o documento não chegou a ser apagado pelo tempo — decerto por estar há quase duas décadas mergulhado na escuridão de uma pasta do meu arquivo morto. Essa pasta leva o título Grupo. No topo daquela página consta o ano 1975, indicando que as 62 linhas seguintes consignam a memória do encontro do Grupo, naquele ano. A página não registra, mas minha memória recorda que aquele encontro ocorreu em algum ponto de Curitiba, no mês de janeiro, durou três dias e contou com a presença de uns 12 participantes (ou foram mais?).

O Grupo era algo como uma confraria secreta de jovens pastores da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) que existiu durante alguns anos, em meados da década de 70. Seus pontos de referência eram a vontade de ser fiel ao evangelho e o contexto angustiante da ditadura militar. O que o reunia pode ser detectado no tema previsto para o encontro do ano seguinte, 1976, e anotado no último parágrafo da mencionada página: identidade da IECLB, a fé que nos une em nossa igreja, nosso tempo e nossa situação.

Não tendo como camuflar sua existência, o Grupo formulava assim o seu caráter secreto: Existência do grupo conhecida, limites sigilosos (ponto F. da mesma ata). Os tais limites sigilosos referiam-se à quantidade e identidade dos componentes. Nos encontros anuais, o Grupo trabalhava o perfil de sua identidade e delineava estratégias de ação para o ano em curso. Neste sentido, a mencionada ata faz referência a: atuação secreta, mas influente em torno de determinados assuntos, em concílios distritais, regionais e gerais; participação numa coluna dogmática para leigos no Jornal Evangélico; apoio à Caixa Central da IECLB; envio de correspondência ao Conselho Diretor, a respeito de determinados assim tos (obviamente não em nome do Grupo, mas) sob a chancela de distritos e instituições; apoio a determinada linha de orientação no Jornal Evangélico: engajamento na campanha por vocações para a Faculdade de Teologia; respaldo a documento da Comissão de Responsabilidade Pública da IECLB sobre a responsabilidade social da Igreja; apoio a pastores em dificuldades devido a posicionamentos de cunho político e social; apoio ao Sei-Doc (ver abaixo).

É a partir desse contexto que se entende a sugestão contida na nota citada no topo deste texto e que deu origem a Proclamar Libertação. O Grupo encaminhou-a ao então professor de Homilética da Faculdade de Teologia, pastor Ms. Baldur van Kaick, que a abraçou com entusiasmo e lhe deu encaminhamento, sempre em fraterna consulta com docentes da Faculdade que eram membros do Grupo. Estes viriam a formar com Baldur, pouco depois, o Conselho Editorial de Proclamar Libertação. Aparentemente a participação dos componentes do Grupo no primeiro volume não foi tão maciça quanto se esperava, porque a ata da reunião de 1976 registra sob o tópico Meditações para prédicas o seguinte: Sugestão a van Kaick: escrever circular a todos os convidados de 1975. Resposta positiva acarreta compromisso imperativo. Maior participação nossa necessária nesse importante projeto. Baldur conduziu Proclamar Libertação até o quarto volume e, a partir daí, passei a sucedê-lo, do volume V ao X.

Entendo que, em suas origens, Proclamar Libertação foi uma das materializações de duas tendências da época: a) foi expressão de uma Igreja que se tornava autóctone, começava a declarar sua independência da Igreja-mãe, passava da adolescência para a fase de jovem adulta; b) foi expressão de compromisso político, motivado pelo evangelho e articulado num contexto de repressão ditatorial. Dentro de cada uma dessas tendências, Proclamar Libertação foi parte de um conjunto de manifestações.

a) Expressão de uma Igreja que se tornava autóctone:

Naqueles meados da década de setenta encaminhavam-se algumas outras expressões de autoctonia. A Faculdade de Teologia montava um planejamento sistemático de desenvolvimento de um corpo docente nacional que, poucos anos mais tarde, levaria à sua autonomia nessa área. Na mesma época, empreendeu uma reforma de estudos que, baseando-se em Paulo Freire, rompeu radicalmente com modelos herdados da academia alemã. Era a época do projeto PIAI no Oeste Catarinense e das reflexões sobre o Catecumenato Permanente. E Germano Burger logo editaria Quem assume esta tarefa?, reunindo num volume muitos dos documentos que testemunhavam o crescimento da IECLB rumo à madureza eclesial.

Pois Proclamar Libertação foi uma dessas manifestações de afirmação autóctone. Estabeleceu-se, logo de início, a reunião anual dos autores de Proclamar Libertação. Havia entre nós, autores, a consciência de estarmos participando de algo novo e muito significativo, de estarmos efetivamente contribuindo para a produção teológica em nossa terra. E queríamos fazê-lo com nossas próprias forças. Nós, que nos sabíamos tão dependentes da “Igreja-mãe”, queríamos, pelo menos ali na produção de Proclamar Libertação, autoctonia. Por isso, naqueles primeiros anos, financiávamos do próprio bolso todas as despesas dos encontros de autores. Rateávamos os custos de viagem dos mais próximos e dos mais distantes, a partir de uma caixa comum para a qual todos contribuíamos por igual. Abríamos mão dos exemplares do autor, aos quais teríamos direito, que eram vendidos para fortalecer a caixa dos encontros de autores. E cada qual comprava seu próprio exemplar.

Certa feita um ex-colega alemão, que anos antes havia atuado no Brasil e se entusiasmou com o projeto de Proclamar Libertação, reuniu na Alemanha uma quantia significativa de dinheiro para presentear cada autor com uma parcela. Diante da recusa do Conselho Editorial, propôs que pelo menos aceitássemos a verba para comprar comentários exegéticos para os autores. O assunto foi remetido ao encontro de autores seguinte que, altaneiramente, optou por enviar o dinheiro de volta à Alemanha.

Com toda essa confiança, qual não foi nossa decepção quando, logo à saída do primeiro volume, o então secretário-geral da IECLB, com a melhor das intenções, decidiu que a Igreja daria um exemplar a cada pastor, como presente de Natal, porque de outra forma, argumentava ele, o livro não teria saída.

b) Expressão de compromisso político, motivado pelo evangelho e articulado num contexto de repressão ditatorial:

A origem de Proclamar Libertação também tem que ser entendida no contexto de censura, repressão e violação dos direitos humanos, em que vivíamos na época. Era tempo de prisões arbitrárias, tortura, insegurança, muita angústia, muito medo. Pastores e professores sabiam-se vigiados por delatores. Meios de comunicação que atingiam um público maior, como jornais e rádio, eram amplamente censurados. Um dos fenômenos que mais preocupava a muitos de nós era que essa censura, ao retirar das pessoas a possibilidade de se informar, levava a uma crucial supressão da sua individualidade, da sua capacidade de opinar, decidir e posicionar-se. Pensávamos que o evangelho nos obrigava a lutar contra esse cerceamento da informação, contra esse embotamento da individualidade. Por isso, a Comissão de Responsabilidade Pública da IECLB, naqueles mesmos anos, conseguiu recursos, patrocinou e co-orientou o Sei-Doc, um serviço de recortes de jornal administrado pelo Jornal Evangélico e enviado a comunidades e pastores da IECLB, com o objetivo de municiá-los com informação que normalmente só aparecia escondida nas páginas internas de importantes jornais do centro do País. Os autores de Proclamar Libertação sabiam-se agentes desse mesmo empenho, viam como uma de suas principais tarefas passar aos colegas leitores informação e reflexão político-social relevante pouco acessível, para ajudá-los a serem testemunhas proféticas do evangelho, no meio do contexto repressivo e humilhante da época.

É assim que, num breve relance, se me apresentam as origens e os primeiros anos de Proclamar Libertação. Agradeço aos seus atuais coordenadores por esse motivo que me deram de vasculhar meus arquivos e minhas lembranças, e pela oportunidade de compartilhar essas observações. Registro-as não por nostalgia, mas com a esperança de que possam servir, neste jubileu de prata, como modesta referência para os caminhos que Proclamar Libertação pretende trilhar daqui para a frente.


Autor(a): Nelson Kirst
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1999 / Volume: 25
Natureza do Texto: Artigo
ID: 12787
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Portanto, a fé é assim: se não vier acompanhada de ações, é coisa morta.
Tiago 2.17
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