Tiago 4.13-17

Auxílio homilético

01/01/2004

Prédica: Tiago 4.13-17
Leituras: Salmo 8 e Romanos 1.1-7
Autor: Osmar Luiz Witt
Data Litúrgica: Ano Novo
Data da Pregação: 01/01/2004
Proclamar Libertação - Volume: XXIX
Tema: Ano Novo

1. Introdução

Há um ditado popular que diz: “O futuro a Deus pertence”. Sempre que esta expressão é empregada, é como se alguém quisesse dizer: Calma! Mantenha seus pés no chão. Não se considere tão seguro de si, pois o dia de amanhã não está em suas mãos.

O ditado traduz a experiência da finitude e da limitação humanas. Experiência esta, aliás, da qual não gostamos muito de ouvir falar. É de qualquer modo preferível exaltar a potencialidade do ser humano. Somos apenas um pouco menos do que Deus, informa o Salmo 8. Sim, é verdade! É incrível do que somos capazes, mas isso tanto em sentido construtivo como destrutivo. O mesmo ser humano que se lançou ao espaço e que pesquisa as curas para as mais temíveis doenças é também aquele que promove guerras e destruição. O mesmo que se comove com as maravilhas da natureza é o que assiste insensível seu semelhante morrer de fome. Sim, tem razão o salmista também ao inquirir Deus: “Quem é o ser humano para que dele te lembres?” Conhecemos o que serve ao bem da humanidade, mas invariavelmente escolhemos o que serve aos nossos interesses imediatos.

Essa temática perpassa a perícope de Tiago, sobre a qual vamos pregar. O ser humano não pode assegurar-se de que viverá amanhã, e ainda assim não há razão para desespero, pois é animado a viver da fé em Deus. Confiar que a vontade dele se cumprirá liberta o ser humano da busca desenfreada por construir para si garantias que lhe assegurem a vida e, mais do que isso, um sentido para ela.

Às portas de mais um ano novo, pregadores e pregadoras são incumbidos de anunciar que “o futuro a Deus pertence”. Em geral, este é um tempo no qual se projetam novos sonhos e renovam-se as esperanças de venturosas realizações: “Ano novo, vida nova”. O texto de Tiago, nesse contexto, recomenda sobriedade: a concretização daquilo que esperamos não está em nossas mãos somente. Todos os nossos projetos correm risco de acabar como uma névoa se Deus não confirmar as obras de nossas mãos. E, sendo assim, cristãos e cristãs recebem o novo ano com humildade, gratidão e santo temor: nossa vida está nas mãos de quem a criou e a preserva. O contexto festivo para dentro do qual vamos pregar está bem descrito no início da meditação de Edson Saes Ferreira, publicada no PL IX, p. 34-40, 1983.

Os três textos propostos para este dia têm, cada qual, suas ênfases próprias, mas também permitem vislumbrar pontos em comum: o Salmo 8 nos lembra a glória de Deus e a insignificância do ser humano e, ainda assim, sua dignidade recebida do próprio criador. O texto de Romanos enfatiza que em Jesus Cristo se cumpriu a promessa feita por meio dos profetas, por isso a comunidade é chamada para ser dele e para ser santa, i.e., viver na obediência da fé nele. O texto de Tiago destaca a necessidade de perguntar pela vontade de Deus para as nossas vidas e combate a autoglorificação. Percebe-se, pois, que o ponto de contato da perícope de Tiago com os dois outros textos se dá em cada uma dessas duas ênfases. O Salmo acentua que a glória do ser humano é sua condição de criatura. Na medida em que se descobrir como tal, o ser humano estará aberto para uma teia de relações criativas com seus semelhantes e toda a natureza. No Salmo 8, também não há lugar para a jactância. A perícope de Romanos, ao acentuar a obediência da fé, também deixa subentendido que precisamos buscar a vontade de Deus para as nossas vidas.

2. A perícope

2.1 – O contexto

2.1.1 – O contexto geral

Do primeiro capítulo da carta de Tiago recebemos valiosas informações, que nos ajudam a situá-la em seu contexto. Ela foi endereçada aos cristãos de origem judaica dispersos no mundo greco-romano (v. 1). Segundo os v. 2-4, ela tinha como objetivo animar para a fé numa situação adversa, marcada por tentações. Nessa situação, a dubiedade e a inconstância são criticadas (v. 7s). O autor orienta seus leitores para que busquem a sabedoria que vem de Deus (v. 5). Esta sabedoria consiste, entre outras coisas, em tomar consciência da brevidade da existência (v. 9 e 10). Sobretudo as pessoas que constroem sua autoconfiança sobre suas riquezas devem se dar conta de que também perecerão. Os v. 9-11 nos remetem à palavra do salmista: “Com efeito passa o homem como uma sombra; em vão se inquieta; amontoa tesouros e não sabe quem os levará” (Sl 39.6). O princípio da sabedoria, porém, é o reconhecimento de que toda dádiva provém de Deus (v. 16s).

Tiago também lembra seu leitores e leitoras de que a fé não admite acepção de pessoas (2.1ss.). Especialmente as comunidades não se devem deixar levar pela atração da riqueza, pois os ricos oprimem e blasfemam contra o Senhor (2.7). No texto 4.13-17, também são os ricos comerciantes, que almejam grandes lucros em seus negócios, os criticados por sua postura auto-suficiente.

Em terceiro lugar, e este é o tema mais caro à carta de Tiago, a fé precisa ser vivida, praticada ou, para usar sua linguagem, manifestar-se em obras (2.14s). E prática da fé não combina com inveja e egoísmo (3.16), nem com auto-suficiência e jactância (tema da perícope sobre a qual vamos pregar). Pelo contrário, a sabedoria que vem de Deus manifesta-se em obras de misericórdia, justiça e paz (3.17). Em vista disso, no quarto capítulo (v. 7-11), encontramos uma série de imperativos que visam dar recomendações concretas sobre como portar-se: sujeitai-vos, resisti/oponha-se, chegai-vos, purificai, santificai, lamentai, cobri-vos de luto, chorai, transforme-se, humilhai-vos, não faleis mal.

2.1.2 – O contexto específico

O trecho 4.13-17 integra um bloco temático que inicia em 4.13 e termina em 5.6, no qual o autor denuncia a auto-suficiência dos ricos e a prática de injustiças, que alcançou também os tribunais que deveriam fazer prevalecer o direito dos pobres e assalariados. Este bloco, “redigido no estilo profético de discurso sobre o juízo, dirige-se contra dois casos típicos referentes à atitude e à conduta vituperadas no trecho anterior (cf. 3.15; 4.1-4), ou seja, a temerária confiança em si mesmos praticada por comerciantes (4.13-17), unicamente interessados nas coisas terrenas, e a auto-suficiente e egoísta dureza de coração de certos juízes (5.1-6)” (Knoch, p. 93).

2.2 – A estrutura

A estrutura desse bloco temático obedece a essa linha de crítica dirigida pelo autor contra duas categorias de pessoas, que são advertidas de modo particular: “os que fazem projetos como se fossem senhores do futuro: isto é ‘jactância’, e ela é má (4.13-17); os ricos, especialmente aqueles cuja riqueza se funda na injustiça e na exploração (5.1-6)” (Carrez et al., p. 297). Cada uma dessas críticas é desenvolvida com base em duas linhas de argumentação, que completam a estrutura interna do texto. Knoch (p. 94-7) oferece o seguinte esquema:

1 – Ai dos auto-suficientes (4.13-17).

a) Deus somente é o senhor do futuro (4.13-14).
b) Temerária auto-suficiência é pecado (4.15-17).

2 – Ai dos ricos desumanos (5.1-6).

a) O juízo já está às portas (5.1-3).
b) Toda injustiça clama a Deus por vingança (5.4-6).

3. Reflexão com vistas à pregação

Quando pedimos com as palavras da oração do Senhor, “seja feita a tua vontade”, pedimos que se concretize o Reino de Deus entre nós. Ali onde a vontade de Deus é acolhida em obediência, temos um espelho do céu. Acolher sua vontade significa tomar consciência da nossa condição de criaturas, sim, da nossa dependência em relação ao criador, e começar a planejar a nossa vida levando em conta a sua vontade expressa em sua palavra. Tiago nos ensina a dizer: “Se Deus quiser, viveremos e faremos isso ou aquilo”. Não como um slogan ou para conseguirmos que Deus abençoe nossos negócios. Mas para que nós mesmos consideremos se aquilo que planejamos ou esperamos realmente corresponde à vontade de Deus (cf. Tamez, p. 46). Ou como afirma Taylor: “Não é que a repetição vã das palavras valha alguma coisa. É a disposição que procura, primeiramente, o Reino de Deus e considera tudo o mais secundário” (p. 122).

O texto rompe com nossas pretensões de auto-suficiência, mas também nos anima a colocar nossa confiança naquele que tem em suas mãos a conta de nossos dias e sabe o que nos reserva o dia de amanhã – ele conhece também nossas necessidades e já não é preciso andar ansioso quanto ao futuro como se tudo dependesse apenas daquilo que nós mesmos construímos. Aqui é importante resgatar a lembrança da promessa de Cristo, proferida no sermão do monte: “Não vos inquieteis... buscai em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça, e todas as coisas de que tendes necessidade vos serão acrescentadas” (Mt 6.30-34).

Podemos colocar o novo ano que inicia também nas mãos de Deus. Deixemos que ele tome conta das nossas ansiedades e das preocupações, que insistem em nos tirar o sono. Lembremos que somos suas criaturas e que sua vontade em relação a nós é amor. Justamente seu amor por nós nos assegura nossa dignidade e nos permite fazer planos e projetar o futuro. Acolher a dádiva da vida com gratidão nos abre portas para vislumbrar saídas também quando nos encontramos em momentos e situações em que é difícil discernir qual seja a vontade de Deus para nós.

Tiago ajuda-nos a ter uma dimensão realista sobre quem somos e o que podemos. Lembra-nos, especialmente, de que não temos ciência sobre os dias de nossas vidas. Tal como Jesus, na parábola sobre o avarento (Lc 12.16-21), ele traduz: “... a experiência mais corriqueira da vida terrena: a impotência do homem [ser humano] à face do futuro. Pois o homem [ser humano] não apenas é incapaz de dispor do futuro, mas nem sequer sabe o que este traz no seu bojo” (Knoch, p. 94). O ser humano é como fumaça: “este fato meridianamente claro servirá de padrão para medir tudo o que há no mundo em títulos e nomes, em poder e riqueza, influência e importância. Esse padrão liberta de inveja, cobiça, contrariedade e falta de fé e possibilita a única aferição possível. (...) Só Deus é capaz de dar segurança” (id., p. 95).

A segurança que o ser humano busca vai além daquilo que pode construir de forma egoísta. Primeiro, porque ninguém vive sozinho. O caminho da felicidade se anda em conjunto ou se é irremediavelmente infeliz. Depois, “só Deus é capaz de dar, em toda a sua plenitude, a vida que o homem [ser humano] espera e pretende para o futuro” (id., p. 96). Muita gente fez e faz essa experiência. Há algum tempo, as rádios tocavam uma canção que dizia: “Você tem fome de quê? Você tem sede de quê? A gente não quer só comida...” Santo Agostinho traduziu esse sentimento em sua Confissões afirmando: “meu coração estava inquieto até encontrar descanso em ti, meu Deus”.

Onde, pois, haverá lugar para auto-suficiência e vanglória? Quem haverá de poder garantir o sucesso de seus empreendimentos, seus negócios, seus estudos, sua saúde, sua vida... no ano novo que está à frente? Por isso, é bom que possamos iniciar o novo ano colocando-nos sob a bênção de Deus. Tiago nos anima a deixar que ele seja o senhor de nossas vidas todos os dias. Expressões como “tua graça”, “tua vontade”, “tua glória” podem substituir outras como “meu mérito”, “minha vontade”, “minha honra”.

4. Subsídios litúrgicos para o culto

a) Versículo de entrada – “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas cousas vos serão acrescentadas” (Mt 6. 33).

b) Hinos – Hinos do Povo de Deus, vol. 1, 35, 37, 197, 219, 221.

c) Confissão de pecados – Misericordioso Deus! Nós te confessamos que em muitos momentos do ano que findou não confiamos na tua providência. A tua palavra nos orienta a buscar, em primeiro lugar, o teu reino e a tua justiça e nos faz a promessa de que teremos tudo o que é preciso para preservar a vida. Nós, porém, duvidamos e agimos como se pudéssemos construir sozinhos nossa segurança em relação ao futuro. Agindo assim, nos estressamos, nos isolamos e nos entristecemos. Perdoa-nos, Pai! Suplicamos, humildemente, concede-nos perdão e fortalece a nossa fé para que nos animemos a agir de modo diferente. Escuta-nos, Senhor, quando te pedimos: Tem piedade.

d) Anúncio da graça – “Confie no Senhor de todo o coração e não se apóie na sua própria inteligência. Lembre-se de Deus em tudo o que fizer, e ele lhe mostrará o caminho certo” (Pv 3.5s).

e) Oração de coleta – Querido Deus! Nós te somos gratos porque nos reúnes aqui, como tua comunidade, para anunciar-nos a tua palavra. Obrigado por mais esse ano que acrescentaste às nossas vidas, por tristezas que ajudaste a carregar e por alegrias que conosco partilhaste. Em tuas mãos bondosas estão nossos dias e confiamos que tu não nos abandonarás neste novo ano. Vem andar conosco, Senhor, a estrada da vida, para que te sirvamos com fé, esperança e amor. Por Jesus Cristo, que contigo e o Espírito Santo vive e será Senhor de nossas vidas no ano novo. Amém.
f) Intercessão – Pela paz de Cristo no novo ano; pela superação da violência como meio de resolver conflitos; pelas relações entre os povos e as nações, para que se fundem no respeito à autonomia e na justiça; pelo respeito à pluralidade cultural e étnica de nosso país; pelo emprego; pelas autoridades, para que governem com sabedoria e almejem o melhoramento das condições de vida do povo; pela saúde das pessoas doentes; pelas pessoas aflitas quanto ao futuro e aquelas que estão tristes e sós; pela Igreja em todo o mundo, para que não esmoreça no anúncio do Evangelho (por motivos locais).

Bibliografia

CARREZ, Maurice, et al. As cartas de Paulo, Tiago, Pedro e Judas. São Paulo: Paulinas, 1987.
FERREIRA, Edson Saes. Tiago 4.13-17, in: Proclamar Libertação IX. São Leopoldo: Faculdade de Teologia, Sinodal, 1983, p. 34-40.
KNOCH, Otto. A carta do apóstolo Tiago. Petrópolis: Vozes, 1970. (Coleção NT – comentário e mensagem, no 19)
TAMEZ, Elsa. Santiago – lectura latinoamericana de la espístola. San José: DEI, 1985. (Colección Aportes)
TAYLOR, William Carey. A epístola de Tiago – tradução e comentário. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1965.

Proclamar Libertação 29
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Osmar Luiz Witt
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Ano Novo

Testamento: Novo / Livro: Tiago / Capitulo: 4 / Versículo Inicial: 13 / Versículo Final: 17
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2003 / Volume: 29
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7254
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