Tiago 4.13-17

Auxílio Homilético

01/01/1984

Tema: A indústria da ilusão: como encarar o Feliz e Próspero Ano Novo?

No início de um novo ano, de forma mais destacada que em outra época, as pessoas são disputadas e manipuladas. Os meios de comunicação social, os tantos videntes e profetas que andam por aí — o próprio discurso religioso corre este risco — procuram criar necessidades nas pessoas, isolar o indivíduo em seus anseios e alimentar ilusões na vida de todos que estão ao seu alcance.

Não basta entrar numa discussão estéril com tal indústria da ilusão. É necessário, em meio a um mato de ilusões criadas, tentar enxergar uma saída e fazer um caminho. Torna-se importante despertar a autêntica esperança cristã que luta pelo Reino de Deus, cujos sinais devem tornar-se concretos e vividos em comunidades.

Texto bíblico: Tiago 4.13-17

Autor: Edson Saes Ferreira

I — Explicação do tema

Passou a festa do Natal. Já lemos e ouvimos que o menino Jesus foi deitado numa manjedoura (cocho), porque não havia lugar na hospedaria. Durante este período de Natal, ficamos como que obrigados a nos indignar por causa daquela gente que teve a ousadia de bater a porta na cara de Maria e José. Corremos o perigo de pensar que teríamos feito diferente. No entanto, teríamos feito igual, porque hoje, em muitas situações, fazemos isso.

Estamos, por assim dizer, ainda ouvindo o Feliz Natal e.já nos aprontamos para o tão conhecido, o tão batido Feliz e Próspero Ano Novo. Vamos ouvir e vamos dizer essas famosas palavras, não é mesmo?

Pode ser que vamos nos lembrar e ser lembrados por pessoas que durante todo o ano que passou não fizeram parte de uma preocupação sincera, honesta.

Início de ano é época de novas esperanças, novos projetos, novos sonhos. As propagandas, a televisão, entram ousadamente nos lares criando e tentando alimentar novas ilusões, novos sonhos.

Tenhamos cuidado, pois sonhos sem base serão, aos poucos ou violentamente, encurtados. Exemplificando: enormes bandeiras acabam ficando do tamanho de um lenço.

Não basta entrar numa discussão estéril com tal indústria da ilusão. É necessário, em meio a um mato de ilusões criadas, tentar enxergar uma saída e fazer um caminho. Torna-se importante despertar a autêntica esperança cristã que luta pelo Reino de Deus. Os sinais, pequenos ou grandes, quase sempre pequenos, devem tornar-se concretos, atuantes e praticáveis nas pequenas comunidades em que vivemos.

Feliz e Próspero Ano Novo. Estamos dispostos a assumir essa frase em relação ao outro, ao próximo? Eis uma agradável e, ao mesmo tempo, difícil tarefa para este ano que estamos iniciando.

II — Considerações exegéticas

V.13: Atendei agora, vós que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos e teremos lucros.

Atendei agora. No grego diz literalmente vinde agora, com a força de vede agora; um chamado forte para que se dê o máximo de atenção.

Vós que dizeis: Hoje ou amanhã. Deus está sendo colocado de lado. O tempo está em nossas mãos. O que fazer hoje ou amanhã, o que fazer hoje ou amanhã, o que fazer neste ano depende unicamente de nós, depende de nossos próprios desejos e esforços. Não depende de Deus. Isso está em contradição com o que ensinam as Escrituras.

Negociaremos e teremos lucros. Não é possível negociar e obter lucros? É isso pecado? O autor do texto não está condenando o fato de alguém ocupar-se e preocupar-se com atividades comerciais. O que está sendo condenado é a atitude egoísta. São os planos feitos co-mo se o homem fosse deus. É, por assim dizer, andar ansioso por determinadas coisas da vida. É, justamente, o contrário daquilo que Jesus disse em Mt 6.33: ...buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas cousas vos serão acrescentadas.

V.14: Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois apenas como neblina que aparece por instante e logo se dissipa.

... o que sucederá amanhã. Uso uma pequena história contada por rabinos para ilustrar o nosso texto. Aconteceu nos dias do rabino Simeão, filho de Quelpata. Ele estava presente à circuncisão de uma criança, e ficou com o pai dessa criança, na festa que se seguiu. O pai da criança trouxe vinho muito bom e serviu para seus convidados, dizendo: Com este vinho continuarei a celebrar por longo tempo o nascimento de meu filho recém-nascido. Eles prosseguiram corn a ceia até á meia-noite. Então o rabino Simeão se despediu para retornar à cidade onde morava. No caminho de volta, viu o anjo da morte, que estava andando de um lado para o outro, e lhe perguntou: Quem és tu? Ele respondeu: Tiro a vida daqueles que dizem: faremos isto ou aquilo, e não pensam de quão breve a morte se apossa deles. Aquele homem com quem tomaste a ceia, e que disse a seus convidados: Com este vinho continuarei celebrando por muito tempo o nascimento de meu filho recém-nascido, eis que o fim de sua vida se aproxima, pois dentro de trinta dias ele morrerá.

Fico impressionado com essa história, com o seu conteúdo. Que a incerteza da vida nos mostre quão pequenos somos e quanto necessitamos e dependemos de Deus!

Que é a vossa vida? O que é a minha vida? O que é a sua vi¬da?

Alguns pensamentos sobre essa pergunta. Platão dizia: Viva para o mundo eterno, para que passes para as dimensões do espírito puro, quando fores liberto do corpo. Os epicureus diziam: Viva para os prazeres. Os estóicos diziam. Viva com apatia, indiferente a qualquer emoção. Aristóteles recomendava: Viva para alguma função virtuosa. Muitos preferem adotar como filosofia de vida as palavras de Jó 14.1 que diz: O homem nascido de mulher, vive breve tempo, cheio de inquietação. Outros se livram da pergunta, respondendo com a filo¬sofia de muitos: Comamos e bebamos, que amanhã morreremos. Outros respondem com a parábola de Lc 12.16-21: a vida do homem é tanto mais abundante quanto mais cheios estiverem os cofres. Quanto mais rico, mais feliz. A parábola termina dizendo: Louco, esta noite te pedirão a alma, e o que tens preparado, para quem será?. Como é que nós, pregadores, anunciadores do Evangelho de Jesus Cristo, respondemos a essa pergunta? Quais são as alternativas que vamos colocar diante da comunidade neste inicio de ano?

Sois apenas como neblina. No grego temos o vocábulo ATMIS que significa vapor ou fumo. É uma palavra usada para mostrar a natureza ténue da nossa vida. O termo grego indicava o vapor que escapa da água quando está fervendo. Indica também a fumaça produzida por algo em combustão. A segurança e p planejamento da vida esbarram diante da mortalidade do homem. É possível que pouco tempo depois de Tiago ter escrito essas palavras, o desastre e a morte caíram sobre Jerusalém, sob o domínio de Roma.

V.15: Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como faremos isto ou aquilo. Pois o segredo do ser do homem não consiste apenas em viver, mas em ter algo pelo que viver. Sem um conceito estável do objetivo da vida, o homem não deveria consentir em continuar vivendo, preferindo destruir-se do que permanecer na face da terra, embora tenha pão em abundância. (Dostoievski, em Os Irmãos Karamazov, ao comentar sobre a afirmativa do Senhor Jesus, de que o homem não vive de pão apenas.) A pessoa que está decidida a fazer o que é da vontade de Deus, tentando levar uma vida dentro deste principio, já descobriu que para muitos a ciência se tem tornado como que um novo deus. E isso por quê? Porque serve tão bem ao egoísmo e à prosperidade material do homem.

Se o Senhor quiser... O uso desta expressão não era muito comum entre os judeus. Por interessante que pareça, era uma expressão comum na cultura pagã, inclusive muito usada nos escritos de Platão. Esse costume, que podemos chamar de sadio, era comum também nos escritos árabes. Estes o copiaram dos gregos. Assim sendo, Tiago está recomendando aos judeus, novos cristãos, uma prática helenista, que ele achou bom adotar. Se o Senhor quiser, ou seja, se for da vontade de Deus. Expressão que nos diz que a vontade de Deus tem muito a ver com o todo da nossa vida, tem muito a ver com a vida diária. Dessa maneira, cabe a nós estarmos cheios do conhecimento de sua vontade (Cl 1.9). -É da vontade de Deus que todos os homens cheguem ao pleno conhecimento da verdade e da salvação (1 Tm 2.4).

V.16: Agora, entretanto, vos jactais das vossas arrogantes pretensões. Toda jactância semelhante a essa é maligna. No v.13 deparamos com uma condenação à certeza na confiança própria. Agora, no v. 16, nos deparamos com algo pior ainda: vangloriar-se, gabar-se de arrogantes planos, de uma vaidade exagerada.

... arrogantes pretensões... As palavras de arrogância nascem do espírito orgulhoso, e aparecem em ações orgulhosas. Pv 27.1 diz: Não te glories do dia de amanhã, porque não sabes o que trará à luz.

... maligna... O vocábulo grego é PONEROS que tem o significado de maligno, errado, prejudicial. O referido versículo fala de maneira clara sobre o orgulho da vida (cf. 1 Jo 2.16). Fala da confiança errada dos ímpios, em sua maneira um tanto habilidosa de levarem urna vida alicerçada na arrogância. Trata-se da pessoa que pensa não preci¬sar de Deus em sua vida. Tal pessoa é o seu próprio deus.

V.17: Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz, nisso está pecando. Aqui, de maneira muito clara, é falado sobre o pecado da omissão. Este versículo, a princípio, parece se destacar como uma secção separada. Alguns pensam que ele resume a ideia da brevidade da vida: sabendo quão breve é a vida, precisamos esforçar-nos para fazer todo o bem que for possível. Caso não tenhamos feito o bem, teremos falhado em nossa tarefa e, dessa maneira, teremos pecado. A princípio, como já mencionei, este versículo parece ser uma secção separada. No entanto, o contrário de uma vida de vanglória, do viver para si mesmo, é, justamente, o fazer o bem aos outros. Dessa maneira, o versículo parece fechar muito bem essa perícope.

As oportunidades para fazermos o bem aos outros aparecem com muita frequência. Basta aproveitá-las. Na história que leva o título Bela Lenda, um crente encontra-se ocupado em contemplar Jesus Cristo. De repente, surge a oportunidade de distribuir pão aos que estão com fome. No entanto, essa oportunidade iria interromper o seu êxtase. O crente deixa de lado a visão mística e vai dar comida aos que estavam com fome. Voltando, encontra Jesus Cristo no mesmo lugar. Este, aprovando sua atitude, lhe diz: Se tivesses ficado, eu teria ido embora.

Nossa fé religiosa não pode ficar sempre guardada dentro de nós. Somos chamados a ter contato com Jesus Cristo e tal contato deve se manifestar no dia-a-dia em algo prático, generoso. Em outras palavras, a vida do crente deve ser uma expressão de amor, tal como Deus é amor e deu seu Filho ao mundo necessitado. O trecho de Mt 25.35ss mostra quão importante é ajudar outras pessoas. E-isso deve ser feito como uma expressão do agradável amor de Deus presente na vida dos que nele crêem. Amamos a Deus e demonstramos isso, amando os outros. Lembro uma palavra de Jesus, na parábola do servo vigilante (Lc 12.47), que diz: Aquele servo, porém, que conheceu a vontade de seu senhor e não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade, será punido com muitos açoites.

Quanto mais instruídos ficamos, tanto maior será nossa responsabilidade. Que Deus nos dê muito discernimento, nos capacite e nos ajude.


III — Meditação

Passou a festa do Natal. Passou a festa do fim do ano. As pessoas estão cansadas. Muitos estão em férias. Quem não está, gostaria de estar. Para dentro dessa situação somos chamados a pregar. Para dentro de uma situação onde pessoas estão ansiosas pelo que vai acontecer no novo ano, quando muitos já consultaram horóscopos e viram previsões pela T. A ilusão, a mentira, o sonho falso foram amplamente semeados (cf. Dt 18.9-14).

Existem algumas perguntas que incomodam. O que é a vida?

Como vivemos a nossa vida?

A época em que vivemos facilita ao homem o não pensar. Tudo vem pronto, enlatado. Muitos não pensam mais, apenas absorvem. As propagandas bem boladas forçam as pessoas a comprarem mais, a trabalharem mais para ganhar mais... A época proporciona o não pensar. Muitos funcionam como uma máquina.

O que é a vida? Como vivemos nossa vida? O homem cria desde o menor brinquedo para urna criança, até o mais complicado aparelho que vence o espaço. Por incrível que pareça, ao mesmo tempo acredita em previsões, em magias, em búzios, cartas, etc.

O homem gosta de planejar tanto, mas não sabe nem o que vai acontecer amanhã. Não gostamos de ouvir tal afirmação, gostamos de pensar que somos pequenos deuses.

O pregador deve lembrar que o homem é como o vapor (neblina). Vem e vai. Alguns vão depressa. No entanto, entre tantas filosofias de vida, o pregador é chamado a proclamar: o homem foi criado por Deus para o bem; para viver o bem e para fazer o bem. No entanto, tais sinais somente estarão presentes ali onde o homem deixar de lado o orgulho e a vaidade, e contar com Deus para o todo da vida. Por isso, que a recomendação de Tiago parta do nosso coração e seja lema de vida: Se o Senhor quiser...

Quer me parecer que pregar sobre este texto é pregar também sobre o Evangelho que muitos santos evangélicos não gostam de ouvir. Algumas afirmações do texto ferem alguns ouvidos suscetíveis. O pregador, no entanto, deve estar lembrado de que o próprio Jesus Cristo disse que nem sempre acharemos portas abertas em todo lugar. Falar contra as ilusões dos nossos dias, falar contra a vontade e as ideias dos que controlam a opinião, falar contra os princípios que regem o nosso século, mostrar pela Bíblia a vontade de Deus, pode provocar o não de muitos que teimam em se chamar de evangélicos.

IV — Subsídios litúrgicos

1. Confissão de pecados: Senhor Deus, querido Pai de amor, louvamos-te pelo grande privilégio de chegarmos, de maneira bem especial, diante do Se¬nhor para pedir perdão, É tão difícil, Senhor Deus, reconhecer nossos pecados. É tão difícil dizer que pecamos, é difícil reconhecer que falhamos, porque isso quebra o nosso egoísmo. Quando confessamos nossos pecados, sentimos que não somos tão grandes como muitas vezes pensamos. Perdoa o que de errado fizemos. Perdoa quando deixamos de ajudar ali onde podíamos ter ajudado. Perdoa, Senhor, quando nosso egoísmo sobressaiu. Perdoa, Senhor, nosso orgulho e nossa vaidade. Perdoa, Senhor, quando deixamos de testemunhar a bondade de Cristo, quando poderíamos ter feito isso. Perdoa, Senhor, o nosso pecado. Em nome de Jesus Cristo, tem piedade de nós, Senhor!

2. Oração de coleta: Querido Deus, louvamos-te pelo ano que passou. Obrigado, Senhor Deus, por tudo que tivemos. Obrigado porque nos deste o necessário para a vida. Algumas vezes tivemos muito mais do que o necessário. Obrigado pela família. Oh! Deus, como o Senhor tem sido bondoso para conosco. Obrigado pela Igreja, pela comunidade. Obrigado petos amigos. Obrigado pelo novo ano que estamos iniciando. Senhor Deus, ajuda-nos para que neste novo ano te sirvamos com mais vontade, com mais amor, com mais dedicação. Dá-nos capacidade para uma vida voltada para ti, que tenha reflexos no nosso dia-a-dia. Louvamos-te, ó querido Deus. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

3. Sugestão de textos para leitura bíblica: Jo 2.9-13; Lc 12.13-21.

4. Assuntos para intercessão: o novo ano que está iniciando, as famílias, a Igreja, os presbitérios (discernimento), a situação do nosso pais, homens e mulheres que estejam dispostos a pagarem o preço por viverem um Evangelho puro, o Evangelho de Jesus Cristo.

V — Bibliografia

- CHAMPLIN, R.N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 6. São Paulo, 1980.

- JEREMIAS, J. Teologia do Novo Testamento. São Paulo, 1977.

- PRONZATO, A. Evangelhos que incomodam. São Paulo, 1980.


Autor(a): Edson Saes Ferreira
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Ano Novo

Testamento: Novo / Livro: Tiago / Capitulo: 4 / Versículo Inicial: 13 / Versículo Final: 17
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1983 / Volume: 9
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18823
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