Jornal Evangélico Luterano

Ano 2016 | número 793

Terça-feira, 18 de Fevereiro de 2020

Porto Alegre / RS - 10:34

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

   Uma das tarefas da reflexão teológica é a busca por respostas para as perguntas existenciais que as pessoas têm. No tempo da Reforma, Lutero se perguntava: ‘Como posso conseguir a salvação diante de um Deus juiz?’. As respostas que a Igreja da época dava – venda de indulgências, rezar missas e fazer obras meritórias – não eram mais o suficiente para acalmar as consciências das pessoas. Mesmo fazendo todas estas coisas e gastando nisso muito dinheiro, as pessoas não conseguiam paz de consciência. Como poderiam saber que fizeram tudo o que podiam ter feito para a própria salvação?

   A Reforma apresentou outra resposta teológica para a pergunta: ‘Nós não podemos fazer nada pela nossa salvação. A salvação é uma ação de Deus na cruz e ressurreição de Cristo. Deus nos torna herdeiros e herdeiras dessa vitória e nós a recebemos pela fé’. Portanto, em Cristo, Deus faz o que nós não podemos fazer: nos reconcilia com Ele. Reconciliados com Deus, somos livres para agir como pessoas amorosas, misericordiosas, que perdoam... o próximo, a próxima. Pela graça de Deus, livres para cuidar. O que recebi de Deus, isto, passo adiante (Tratado de Martinho Lutero sobre a Liberdade Cristã [1520]).

   O que a Teologia define como conceito precisa ganhar a vida. A pergunta, então, é: Como viver por graça, livre, liberto, em amor para com o próximo, a próxima se, na sociedade, tenho que concorrer com o outro, ser mais forte do que ele, ocupar a vaga dele?

   Conto um exemplo da minha própria casa. O meu pai (já falecido) foi pequeno Agricultor no oeste de Santa Catarina, entre os anos 1970 e 2000. Era integrado de uma agroindústria de aves. A vida transcorreu bem até que, um dia, ele recebeu a visita do técnico da empresa, que disse: ‘A sua granja não acompanha mais as diretrizes da empresa. Está atrasada tecnologicamente e dá prejuízo. O senhor tem que se atualizar e fazer as reformas necessárias ou precisaremos tirar o senhor da lista de produtores’. O meu pai recebeu a cobrança, mas não a oferta de ajuda. Por não ter os recursos necessários para a reforma, os trabalhos na granja foram encerrados. Como entender o que aconteceu? Por que, de repente, não fazemos mais parte dos planos?

   Já na década de 1960, Erich Fromm afirmou que a sociedade é uma grande máquina e cada pessoa é uma pequena engrenagem nessa máquina. O meu pai, com certeza, não cumpria mais de forma adequada o seu papel nesta engrenagem. Foi, por isso, colocado à margem, como muitos outros ainda hoje. São os ‘excluídos’.

   A sociedade precisa de um sistema para gerir-se. Hoje, temos o sistema capitalista. Para estar dentro dele, é preciso ter o que o sistema valoriza:

   - o sistema valoriza a pessoa pela sua capacidade de consumo: se tem dinheiro para comprar, é bem vista. Se não tem, está fora. Cria-se, assim, uma hierarquia entre as pessoas e uma divisão social entre os que têm e os que não têm dinheiro ou bens;

   - o sistema valoriza a pessoa pela sua aptidão: se o currículo é cheio de cursos e aptidões, as chances de emprego aumentam, pois o mercado de trabalho seleciona as pessoas mais aptas;

   - o sistema valoriza as pessoas pela sua produção: se o que você produz agora é útil para o mercado, as coisas vão bem. Quando não for mais útil, ouve-se um ‘sinto muito, mas você não faz mais parte dos nossos planos’;

   - o sistema valoriza a superioridade do ser humano: o ser humano não se entende como criatura de Deus, parte da Criação, mas como um ser soberano e tudo está ao seu dispor. Ao pensar assim, submete aos seus desejos a natureza e o próprio ser humano;

   - o sistema gosta dos valores da sociedade de mercado globalizado: competitividade, utilidade, mérito... são ‘música’ para os ouvidos. O sistema quer que as pessoas abram mão da liberdade, dos feriados, da vida. O trabalho tudo justifica e tudo é justificado pelo trabalho.

   O Prof. P. Dr. Gott fried Brakemeier (O ser humano em busca de identidade: contribuições para uma antropologia teológica) entende que este mecanismo, impulsionado e aliado à ciência moderna, cria uma camisa de força nas pessoas, o que afeta, inclusive, a identidade delas. É como se elas não tivessem alternativa e fossem obrigadas a deixar de ser elas mesmas para cumprir com um papel na grande máquina do sistema.

   Penso que este seja um grande desafio para as Comunidades e pessoas cristãs nos nossos dias: vivenciar os valores do Evangelho na sociedade que idolatra os valores de mercado, ser equipe quando o espírito é o do individualismo, partilhar quando o espírito é acumular, ser solidário quando é necessário competir, ser companheiro quando o espírito é ‘cada um por si e Deus por todos’, dar quando o espírito é receber. Em uma figura de linguagem: ser pessoa cristã é nadar contra a correnteza. É afirmar-se mais do que uma engrenagem de uma máquina.

   Proponho que você e eu assumamos a graça de Deus como um modo de vida. Que vivamos como pessoa liberta por Deus em um sistema que valoriza os valores do mercado. Que a graça molde o nosso jeito de tomar decisões, de falar e de agir. Dou dois exemplos bíblicos que podem nos inspirar para a vida:

   - (Lucas 15.11-32) - Um pai tem dois filhos. O mais moço pede a parte da sua herança e sai de casa. Enquanto tem dinheiro, ‘é alguém’. Depois que o dinheiro termina, resta-lhe a indignidade da margem da sociedade. Decide voltar para a casa do pai. Coloquemo-nos no lugar do pai: se o pai adotar o critério da sociedade de mercado, dirá: ‘meu filho, dei-te tudo o que pediste. Nada mais posso fazer. Você não foi responsável. Agora, vá à luta’. No entanto, o pai não diz isso. Ele adota o critério do Evangelho (e o irmão mais velho não entende isso): apesar do erro cometido, o jovem não perde a condição de filho. Apesar do pecado nosso de cada dia, não perdemos a condição de filhos amados e filhas amadas de Deus. Veja como uma escolha diferente leva a resultados diferentes.

   - (Filemon) - Filemon é dono do escravo Onésimo. Onésimo converte-se ao cristianismo e decide fugir. Paulo recomenda que ele volte à condição de escravo de Filemon, pois o fato de tornar-se cristão não tira dele a condição de escravo, conforme as leis da sociedade da época. Entretanto, se a diferença não está em Onésimo, ela precisa estar em Filemon, o patrão, que também é pessoa cristã. Paulo recomenda que Filemon receba Onésimo não como escravo, um escravo do trabalho, mas como um irmão na fé. Paulo anima Filemon a transformar em vivência a fé que ele tem. Esta é a postura da pessoa cristã: ver no outro um igual, não um serviçal. Perceba novamente: uma escolha diferente leva a resultados diferentes, mesmo na tensão.

   Termino parafraseando Lutero: o pé de laranja produz laranjas. Ele não pode produzir outra fruta. É sua natureza produzir laranjas. Assim a pessoa que é envolta pela graça de Deus produz gestos graciosos. Ela não pode produzir outra coisa. É sua natureza produzir gestos graciosos. Viver pela graça na contramão da cobrança é uma tensão diária. Precisamos ter clareza sobre qual é a motivação das nossas escolhas 

Como viver pela graça

   A graça de Deus cria em nós um modo de vida, um princípio que nos move, uma força em nós capaz de moldar decisões, pensamentos e ações. Arrisco alguns indicativos de como vive a pessoa que é moldada pela graça de Deus:

  •   viver pela graça de Deus é viver pela fé, ou seja, acolher o benefício que Cristo conquistou em nosso favor;

  •   viver pela graça de Deus é multiplicar na vida o benefício recebido de Deus. Lutero diz isso assim: ‘ser como um Cristo para o outro’. Deus agiu na cruz de Cristo em nosso favor. Agora, agimos em favor da outra pessoa do mesmo modo;

  •   a graça de Deus não é passiva. Ela sempre será anúncio de Boa Nova. Sempre dará o que as pessoas precisam: cuidado, misericórdia, amor, perdão... Viver pela graça é transformar a fé em sinais humanizadores;

  •   a graça de Deus envolve a pessoa por inteiro. A oração e a ação amorosa são dois lados de uma mesma moeda;

  •   viver pela graça de Deus é valorizar as pessoas pelo que elas são, não pelo que elas têm ou produzem. É vero outro como pessoa que tem sentimentos e emoções;

  •   a ação graciosa não transforma em dinheiro a necessidade do outro. A graça não dá voz à ganância e à usura. A dúzia de ovos tem o mesmo preço no tempo da bonança e no tempo da tragédia;

  •   viver pela graça é fazer algo pela outra pessoa e não esperar nada em troca. Deus nos ajudou e não exigiu nada em troca. Queremos agir por graça, não por mérito;

  •   viver pela graça é ser grato por toda dádiva recebida;

  •   viver pela graça é dar a todas as pessoas o direito à existência, sem nenhuma distinção. Este direito vem de Deus, não do mercado ou da sociedade;

  •   viver pela graça de Deus é viver a esperança de superar sempre o que está dado: a dor, a ganância, o egoísmo, a morte.

 

   O pé de laranja produz laranjas. Ele não pode produzir outra fruta. É sua natureza produzir laranjas. Assim a pessoa que é envolta pela graça de Deus produz gestos graciosos. Ela não pode produzir outra coisa. É sua natureza produzir gestos graciosos. Viver pela graça na contramão da cobrança é uma tensão diária. Precisamos ter clareza sobre qual é a motivação das nossas escolhas.

 

   P. Me. Marcos Jair Ebeling, graduado em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Bernardo do Campo/SP, exerce o Ministério Pastoral na Comunidade de Campinas/SP, no Sínodo Sudeste

 

 

 

 

 

 

 

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